TESTE
João Zeferino
Audionote SORO Line / CD 1.1x
Nothing but the music!
A análise ao conjunto da Audionote levou-me a fazer uma viagem ao passado, a um tempo
menos conturbado e onde tudo parecia ter mais lógica e um propósito mais definido. Não
porque os produtos em análise sejam tecnologicamente datados, mas antes porque, desde a
concepção até aos resultados auditivos, tudo parece evocar um tempo em que a música era o
propósito primeiro do desenvolvimento de quaisquer equipamentos de reprodução sonora,
sobrepondo-se esta premissa a quaisquer outras de carácter estético ou funcional.
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Muitos audiófilos portugueses deverão lembrar-se de uma demonstração memorável
dos míticos Audionote Ongaku, nos primórdios do Audioshow, audição essa que
ficou gravada na minha memória e que incluiu a Audionote em geral e os Ongaku em
particular no restrito número de modelos
esotéricos capazes de prestações sonoras
superlativas.
Descrição
Os modelos Audionote que tive o prazer de
escutar enquadram-se numa gama muito
mais terrena e abordável, no entanto a expectativa que conseguiram criar foi enorme
apenas devido ao nome que ostentam na
lapela. Foram eles o leitor de CD 1.1x e o
amplificador integrado SORO Line. Ambos
podem ser situados a meio da escala
hierárquica da gama da marca britânica,
com preços a rondarem os 3000 .
O leitor de CD’s faz uso de um mecanismo
de transporte Philips L1210. O conversor é
uma solução simples baseada no conversor
multibit Philips TDA-1543 de 16 bit, sem
qualquer espécie de oversamplig ou upsampling e sem filtragem digital ou analógica. A
saída analógica conta com uma válvula
miniatura duplo-tríodo 6111WA, sendo que
cada metade do duplo-tríodo alimenta cada
um dos canais. O circuito conta ainda com
componentes de elevada qualidade, como
resistências Beyschlag, condensadores electrolíticos e condensadores «tin foil»,
conforme é especificação do status «Level
One» dos produtos Audionote.
O painel frontal é dominado à esquerda
pela gaveta de carregamento do disco e à
direita por um mostrador de generosas
dimensões, facilmente visível à distância,
com os controlos básicos de operação em
linha por debaixo deste. Na traseira o CD
1.1x dispõe da entrada de corrente e
respectivo interruptor, saída coaxial digital
e saída analógica estéreo via fichas RCA.
O amplificador integrado possui um circuito
a válvulas de funcionamento push-pull em
modo pêntodo e operação em pura classe
A. Um estágio de alto ganho, consistindo
num duplo-tríodo ECC82, actua como seguidor de ânodo para o primeiro estágio de
amplificação, cuja saída é aplicada a um
segundo seguidor de ânodo, uma válvula
6SL7, a qual alimenta um conjunto de
válvulas de saída 6L6G em paralelo. Os
transformadores de potência são de concepção e fabrico próprio da Audionote no Reino
Unido. Este circuito é capaz de debitar uma
potência de 10 Watt por canal a 4 ou 8 Ohm.
No painel frontal do SORO encontram-se cinco
comutadores dourados, selecção de fonte, de
entre quatro entradas de linha, controlo de
volume, balance, tape in/out e on/off. Existe
uma versão do SORO com entrada para giradiscos, apropriadamente designada por SORO
Phono PP. Na traseira encontra-se a ficha de
corrente, os diversos pares RCA para entrada
de sinal, dois pontos de terra e os terminais
de coluna, independentes para colunas de 8
Ohm ou 4 Ohm.
Audições
As audições decorreram na sala de testes da
Audio & Cinema em Casa, tendo os
Audionote sido ligados a umas colunas KEF
XQ30. A cablagem constou de van den Hull
The Revelation nas colunas e The First na interligação.
Ficou claro logo aos primeiros acordes das
Jazz Suites de Chostakovich que os Audionote
têm uma sonoridade extremamente fluida,
cristalina, relaxante e agradavelmente
musical. Ainda que os contrastes dinâmicos
mais marcados não surjam de um modo tão
vincado como os ouço no meu sistema,
também não apresentam sinais evidentes de
esforço, mesmo a níveis de audição
razoavelmente elevados, denotando sempre
um cativante equilíbrio entre dinâmica e
fluência do discurso, o que contribui para a
fruição plena da obra musical.
Ao contrário do que a simples leitura das
especificações poderia sugerir, o amplificador nunca revelou quaisquer sinais de
esforço para alimentar as colunas KEF que,
não sendo propriamente difíceis com os
seus 88 dB de sensibilidade, também não
possuem uma sensibilidade tão elevada
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TESTE Audionote SORO Line / CD 1.1x
como as colunas da própria Audionote, que
exibem valores na ordem dos 94 dB ou
mais, sendo perfeitamente adequadas para
funcionarem com amplificadores a válvulas
de baixa potência. Com as KEF, uma coluna
generalista mais habitualmente utilizada
com amplificadores de estado sólido de
muito maior potência, o SORO foi capaz de
produzir volumes sonoros perfeitamente
apropriados à audição de música sinfónica
ou pop/rock, como os Supertramp, numa
sala que andará perto dos 30 m2 de área.
Agora, se a ideia é ouvir techno aos gritos
durante um período prolongado, o melhor
é procurar noutro lado.
O conjunto Audionote produz um som que é
centrado essencialmente na grande gama
média, a qual soa clara e cristalina, de
notável riqueza harmónica e com uma
fluidez cativante. Proporciona ainda o
desenvolvimento de um palco sonoro
espaçoso, bem delineado nas três
dimensões e com uma resolução em
profundidade que favorece a reprodução de
obras acústicas. Os metais nas Jazz Suites de
Chostakovich surgiram nitidamente atrás e
acima dos naipes de cordas, o mesmo
acontecendo com o correcto posicionamento do coro em A Criação de Haydn, que
beneficiou da excelente habilidade dos
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Audionote para reprodução de vozes, quer
solistas quer em coro, o que permitiu
apreciar a obra musical sem preocupações
de ordem audiófila, antes suscitando a
concentração do ouvinte no acto de apreciar
a música, o que é sempre um bom sinal.
Os agudos são límpidos, apresentando uma
excelente extensão e uma tonalidade clara
e límpida, mas sempre correctamente
enformados na calorosa gama média, de
modo que não se nota qualquer efeito
enfático. Instrumentos como a flauta, os
violinos, ou a escova dos pratos soam muito
naturais e harmonicamente completos, já
que o perfeito entrosamento com a gama
média lhes confere a necessária textura.
O registo grave é talvez aquele que é mais
difícil de explicar. Em todas as situações,
desde Haydn até Supertramp, passando pelo
jazz da Patricia Barber, revelaram-se surpreendentemente extensos, bem amor-
tecidos e muito bem definidos. Se nos
sentirmos tentados a puxar pelo volume, e é
fácil isso acontecer dada a grandiosidade do
palco sonoro e o carácter sedoso da gama
média, pode fazer-se sentir alguma
limitação no que se refere à capacidade para
mover ar, para projectar para fora da caixa
aquilo que tão bem se ouve a volumes
menos exuberantes. Possivelmente estará
aqui a maior limitação do SORO e daí a
lógica de utilizar colunas de alta
sensibilidade como as próprias Audionote, as
quais são capazes de atingir volumes bem
elevados a partir de 1 ou 2 Watt.
Esquecendo por momentos o pedal da
bateria ou os grandes timbalões, onde os
mais baixo-dependentes irão sentir falta de
uma energia crua, há que reconhecer que
os contrabaixos e violoncelos são reproduzidos de uma forma genial, com uma
riqueza harmónica invulgar, denunciando o
som da caixa de ressonância e sendo
capazes de levar as KEF a reproduzir
frequências invulgarmente graves. Para
além da correcção e beleza do timbre, o
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Audionote transmite-nos a emoção e a
volumetria do contrabaixo por inteiro,
tornando evidente o dedilhar ou o roçar do
arco na corda e o resultado dessa vibração
ampliada pela caixa do instrumento.
Peças de menor exigência dinâmica, como
alguns dos andamentos mais calmos de A
Criação de Haydn, foram reproduzidas com
grande competência e um som sempre belo
e cativante, as vozes solistas muito bem integradas com o coro e com uma separação
e apresentação das características dos
diversos intervenientes, vozes e instrumentos, numa apresentação sonora que
beneficia a resolução tímbrica e a fluidez do
discurso em detrimento de uma
apresentação possante e dinâmica.
Conclusão
No final das audições ao conjunto Audionote
posso afirmar que fiquei verdadeiramente
encantado. É uma proposta diferente do
habitual, que encontrará acolhimento no
mercado precisamente pela diferença que
marca face às soluções mais convencionais.
É um conjunto que não procura impressionar
pela espectacularidade, por uma apresentação plena de dinamismo ou pela solidez
do grave. Contudo, faz música como poucos.
É capaz de uma resolução tímbrica notável
e proporciona uma fluidez no discurso
musical que é extremamente atraente e nos
convida a passar horas a ouvir música. E não
é esse o propósito primordial de um sistema
de som?
Especificações técnicas:
Leitor de CD’s CD 1.1x
Bloco óptico: Laser de feixe triplo
Laser semiconductor: 780 nm
Impedância de saída: < 2 kOhm
Nível de saída: 3,0 V RMS (aprox.)
Equilíbrio entre canais: < 0,25 dB
Dimensões:
446 (L) x 96 (A) x 270 (C) mm
Peso: 5 kg
Consumo (máx.): 48 W
Amplificador SORO Line
Impedância de entrada:
100 kOhm, nível de linha
Sensibilidade de entrada:
300 mV para saída máxima
Potência máxima:
10 W RMS por canal a 4 ou 8 Ohm
Equilíbrio entre canais: +/- 0,3 dB
Válvulas: 2 x ECC82 - 2 x 6SL7 - 4 x 6L6G
Peso: 16 kg
Dimensões:
220(A) x 550(L) x 520 (C) mm
Preço: CD 1.1x 2191 E
Preço: SORO Line 3068 E
Representante: Exaudio
Telefone: 21 464 91 10
COMPOSITOR / OBRA
INTÉRPRETES
EDITORA
J. Haydn
A Criação
Sally Mattews, Ian Bostridge,
Dietrich Henschel
Coro e Orquestra Sinfónica
de Londres
Sir Colin Davis
LSO LIVE
E. Elgar
Abertura em Ré Maior sobre o
«Chandos Anthem» n.º 2 de G. F.
Handel
Orquestra Nacional Escocesa
Sir Alexander Gibson
CHANDOS
L. v. Beethoven
Fantasia Coral para Piano, Coro e
Orquestra em Dó Maior, Op. 80
Coro do Festival de Tanglewood
Orquestra Sinfónica de Boston
Seiji Ozawa
TELARC
D. Chostakovich
Jazz Suites n.os 1 e 2
Orquestra Sinfónica do Estado Russo
Dmitry Yablonsky
NAXOS
Supertramp
– School
– The Logical Song
– Breakfast in America
– Cannonball
Supertramp
A&M RECORDS
Patricia Barber – Café Blue
– What a Shame
– The Thrill is Gone
– A Taste of Honey
– Nardis
Patricia Barber
PREMONITION RECORDS
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