“Peter” – Café Sport, nos Açores: Bar de navegadores, de

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O que mais há por esse mundo fora são bares e cafés ‘de porto’, que o são
pela localização, pela clientela ou pela decoração, mas poucos existirão que se
mostram mais conhecidos que a própria infraestrutura portuária onde se situam, que a terra que os albergam ou que a cidade onde mantêm portas abertas.
Numa das ilhas dos Açores (Portugal), o Faial, há um espaço comercial que
assume estas características: o “Peter” – Café Sport, espaço comercial existente
há já 94 anos, mas que tem a sua origem com outro nome (“Casa Açoreana”),
com outro ramo de negócio (a venda de bebidas e de… artesanato) e com outra
antiguidade: a sua abertura ao público remonta a 1901, pela mão do bisavô (Ernesto Ávila Azevedo) do actual proprietário, José Henrique Azevedo.
“Peter” – Café
Sport, nos Açores:
Bar de navegadores,
de marinheiros
e de... muitas
histórias!
“Peter” – Café Sport,
the Azores:
Bar for Seafarers,
Sailors and…
steeped in History!
Luís Prieto Ferreira
A chancela “Peter” suplanta a notoriedade do Faial, da cidade da Horta e do
seu porto e, em boa verdade, se calhar, mesmo o ‘nome’ do arquipélago açoriano. O espaço do café é exíguo, mas o negócio do Café Sport já está presente
em outras duas ilhas dos Açores (Terceira e São Miguel) e no sul de Portugal
continental (Marina de Vilamoura, no Algarve), com lojas de merchandising e
também em Lisboa (Marinas do Parque das Nações e de Oeiras) e no Porto,
com réplicas do espaço original do bar…
Na génese desta lenda em que se transformou o “Peter” – Café Sport está a
importância crescente que o porto da Horta foi assumindo ao longo de todo
o século XIX, no âmbito da sucessão da navegação à vela para a navegação a
vapor no Atlântico Norte e que impunha a existência de um ponto intermédio
de abastecimento de carvão…
Por essa altura já a Horta era “invadida” por dezenas de embarcações que da
costa leste dos Estados Unidos da América se deslocavam a meio percurso em
direcção à Europa para promover a caça à baleia (ao cachalote, em rigor) e o Faial
era procurado como ponto de amarração dos cabos submarinos das emergentes companhias internacionais de comunicações intercontinentais por telégrafo.
Naquela cidadezinha de pouco mais de 5000 habitantes abriam-se, assim, por
via do porto, oportunidades de satisfazer as necessidades de embarcações e
Fig. 1
Fig. 2
Fig. 1. O porto do Horta, base do hidroavioes
em 1939. (©J. A.)
The port of Horta, the seaplane base in 1939.
(©J. A.)
Fig. 2. Retratos das tres generaçaos do proprietarios do Café Sport. (©J. A.)
Portraits of the three generations of Café
Sport owners. (©J. A.)
There is nothing in the world that is better
than port or harbour bars or cafés, whether
this is because of their location, because of the
people who frequent them or because of their
decor. But there are some such establishments
that happen to be better known than the port
infrastructure that surrounds them, than the
region that they are located in or the cities that
they serve.
There is one such establishment with such
characteristics on one of the isles forming part
of the Azores (Portugal), Fayal Island: “Peter” –
Café Sport, which has now been in business for
94 years, although when it was first established
it was known as Casa Açoreana, and was devoted to other activities (selling drinks and articles
of craftsmanship): it first opened its doors to
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marinheiros forasteiros e foi desta forma que o Café Sport se fundou e cresceu.
E mais se alargou durante as duas Guerras Mundiais, altura em que a ilha do
Faial se transformou em autêntica base naval das forças aliadas (mesmo considerando que Portugal no conflito de 1939-1945 se manteve nação neutral face
aos estados beligerantes).
Há cerca de meio século outro tipo de visitantes começou a procurar a Horta e
a eles o Café Sport veio prestar particular apoio: os velejadores envolvidos em
grandes travessias oceânicas, que no “Peter” procuravam uma bebida, umas
horas de repouso e boa conversa, mas também as notícias da família (o “Peter” era posto de correios), as novidades da meteorologia e o (re)encontro de
amigos.
Curiosamente, o Café Sport só por altura da Segunda Grande Guerra Mundial
começou a ser conhecido por “Peter”, quando um oficial do navio “H.M.S. Lusitânia II”, da Royal Navy, começou a tratar José Azevedo, filho do proprietário
à altura, Henrique Ávila Azevedo, por aquele nome inglês, por achar o jovem
faialense parecido com o seu filho Peter, que deixara na Grã-Bretanha…
Hoje o “Peter” é conhecidíssimo entre os iatistas de todo o mundo, é um verdadeiro símbolo de amizade para os navegadores, embora continue a ser “bar,
restaurante, local de informações, posta-restante, casa de câmbios, delegação
meteorológica e algumas vezes casa de misericórdia”, como se diz numa publicação do próprio café editada no corrente ano de 2012.
O espaço, entretanto, evoluiu e alberga desde 1986, no seu piso superior, um
museu de Scrimshaw, a arte de gravar os dentes de cachalote, no qual se pode
encontrar uma das maiores e mais belas colecções do género a nível mundial e
que merece visita demorada. A empresa também alargou o seu leque de acção,
em 1996, para as actividades marítimo-turísticas, particularmente no segmento
da observação de baleias e golfinhos (nas águas do arquipélago dos Açores há
6 espécies de golfinhos e 17 de baleias!), podendo o visitante ou turista efec-
Fig. 3. Porto do Horta atual, escala para os
veleiros do Atlantico. (©J. A.)
Port of Horta today, scale for sailing the
Atlantic. (©J. A.)
the general public in 1901, when it was run by
the great-grandfather (Ernesto Ávila Azevedo)
of the current owner, José Henrique Azevedo.
The trademark “Peter” – Café Sport eclipsed the
island of Fayal, the City of Horta and its port and
harbour and, if the truth were known, it came to
be synonymous with the Azores archipelago.
The surface area of the café is limited, but the
Café Sport and its business have now spread and
other establishments are now to be found on two
other islands on the Azores (Terceira and São
Miguel) as well as in the south of mainland Portugal (at Marina de Vilamoura, in the Algarve), with
shops that sell souvenirs and merchandising and
also in Lisbon (Marinas do Parque das Nações and
Oeiras) and in Porto, where they take the form of
replicas of the original bar area.
At that time Horta had already turned into a port
of call for a large number of vessels that had
embarked from the East Coast of the United States
Fig. 2
At the very beginning of this legend that “Peter” –
Café Sport became, is the increasingly important
role that the port of Horta began to play throughout
the 19th Century, as sailing ships were gradually
replaced by steamships in the Northern Atlantic and
it firmly established itself as a place that served as
an intermediate supply point for coal.
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Fig. 4. Café Sport o Café do Peter. (©J. A.)
Café Sport or Café Peter. (©J. A.)
Fig. 4
heading for Europe, which stopped halfway to
indulge in whale hunting (the sperm whale, to
be specific) and Fayal was also being used as a
berthing place for ships laying the transatlantic
cables owned by the incipient international
companies that specialised in intercontinental
communication by telegraph. As a result, and
thanks to the port, that small town of just over
5,000 inhabitants, seized on the opportunity to
cater for the requirements of foreign vessels and
sailors, which accounts for why the Café Sport was
originally established and flourished. Furthermore,
it expanded during the First and Second World
Wars, when the island of Fayal became a genuine
naval base for the Allied Forces (in spite of the fact
that Portugal remained neutral during the conflict
between 1939 and 1945).
Approximately half a century ago the Horta began
to play host to other types of visitors who had
started arriving, and the Café Sport started to cater
for them with open arms: yachtsmen taking part
in major ocean crossings. They found that “Peter”
could provide them not only with drinks, a few
hours’ rest and good conversation, but also news
about their families (because “Peter” also served
as a post house), changing weather conditions
and they could also use it as a meeting point.
Funnily enough, at around the time of the outbreak of the 2nd World War, the Café Sport came
to be known as “Peter”, when a Royal Navy officer
from the ship H.M.S. Lusitânia II, started calling
José Azevedo, the son of the owner at that time,
Henrique Ávila Azevedo, by that English name,
because he thought that the young man from
Fayal looked like his own son Peter, who lived in
Great Britain.
“Peter” is now a household name to yachtsmen from all over the world, having come to
epitomise friendship. It is still a bar, restaurant
and a place for obtaining information, while
also functioning as a poste restante, a bureau de
change, a meteorological station, and at times it
even serves a refuge with charitable functions”,
as was stated in a publication issued by the café
itself this year.
Meanwhile, the premises have moved with the
times, and since 1986 the top floor has housed a
Scrimshaw Museum, i.e. a museum that exhibits
engravings and carvings done in the bones or
teeth of sperm whales. It contains some of the
most beautiful collections of this kind anywhere
in the world and is well worth a visit. In 1996, the
company also broadened its sphere of activities to
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tuar, ainda, natação com golfinhos, mergulho com tubarões e com jamantas,
passeios marítimos e à vela, pesca turística, passeios pedestres e de bicicleta e
recorrer a aluguer de caiaques.
Imagem de marca do “Peter” – Café Sport permanece, apesar de toda esta diversidade de serviços, o gin tónico, com que se brinda ao sucesso e sorte nas
viagens marítimas, com que se saúda um amigo que se revê ou com que se
comemora a vitória perante a mais recente tempestade enfrentada pelos mares
dos quatro cantos do planeta. Daí não ser de estranhar que o “Peter” tenha sido
eleito em 2009 o melhor bar do mundo para navegadores, suplantando o Royal
Hong Kong Yacht Club e o IYAC, em Newport, Estados Unidos da América. Já
em 1985 e 1990 o Café Sport havia sido considerado pela revista «NewsWeek»
um dos 10 melhores bares do mundo e em 2004 a famosa publicação francesa
«Voile e Voiliers» o considerava “o mais mítico bar do mundo”.
Fig. 5 , 6
Quem vai aos Açores e passa na ilha do Faial não deixa nunca de entrar no “Peter”! Ao fazê-lo compreende, em toda a sua extensão, o sentido da letra de uma
canção que lhe foi dedicada por uma dos grupos de música popular portuguesa
de maior sucesso há cerca de 20 anos, os Trovante: “Há quem espere por nós
assim, mesmo no meio da rota do fim, há quem tenha os braços abertos, para
nos aquecer e acenar no fim”…
include maritime recreation and tourism, especially
where observing whales and dolphins was concerned (there are no less than 6 species of dolphins
and 17 species of whale to be found in the waters of
the Azores archipelago!), and visitors or tourists can
even indulge in such activities as swimming with
dolphins, diving with sharks and with giant manta
rays (Manta birostris), other options including strolling along the promenade, sailing, fishing trips for
tourists, walking and cycling as well as hiring kayaks. In spite of the wide range of services on offer,
the brand image of “Peter” – Café Sport is still gin &
tonic, which is used to toast the success and luck of
ocean voyagers, in very much the same way as one
would drink to the health of a returning friend or to
celebrate the fact that you managed to come safely
through the most recent storms to affect the four
corners of the planet.
Therefore, it is hardly surprising that in 2009 the
“Peter” was honoured with the award best bar
in the world for seafarers, replacing the Royal
Hong Kong Yacht Club and the IYAC, in Newport,
United States of America. Before that, in 1985
and 1990, the Café Sport had been considered by
the magazine «News Week» to be one of the top
10 bars in the world, and in 2004, the renowned
French publication «Voile e Voiliers» considered it
to be “the most legendary bar in the world.
If you ever go to the Azores and sail past the
island of Fayal, don’t miss out on the opportunity
to pop into the “Peter”! Only then will you be able
to fully appreciate the meaning of the lyrics to a
song that was dedicated to it by one of the most
popular Portuguese groups in the past 20 years,
os Trovante: “Há quem espere por nós assim,
mesmo no meio da rota do fim, há quem tenha
os braços abertos, para nos aquecer e acenar no
fim…” (There are those who are awaiting us there
at the end of our route, arms outstretched, to give
us a warm welcome).
Fig. 5. Interior do Café Sport. (©J. A.)
Interior of Café Sport. (©J. A.)
Fig. 6. Rampa para subir os cachalotes a la factoria baleeira do Porto Pim. (©J. A.)
Slope to the whaling factory of Porto Pim. (©J. A.)
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