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B R A S Í L I A

2 0 0 2

Asher Kiperstok

Arlinda Coelho

Ednildo Andrade Torres

Clarissa Campos Meira

Sean Patrick Bradley

Marc Rosen

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 1 5/2/2003, 15:12:59

Confederação Nacional da Indústria • CNI e

Conselho Nacional do SENAI

Armando de Queiroz Monteiro Neto

Presidente

Comissão de Apoio Técnico e Administrativo ao Presidente do Conselho Nacional do SENAI

Fernando Cirino Gurgel

Vice-Presidente da CNI

Dagoberto Lima Godoy

Diretor da CNI

Max Schrappe

Vice-Presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo

SENAI • Departamento Nacional

José Manuel de Aguiar Martins

Diretor-Geral

Mário Zanoni Adolfo Cintra

Diretor de Desenvolvimento

Eduardo de Oliveira Santos

Diretor de Operações

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 2 5/2/2003, 15:13:09

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 3 16/7/2003, 11:47:51

©2002. SENAI • Departamento Nacional

Qualquer parte desta obra poderá ser reproduzida, desde que citada a fonte.

SENAI/DN

COTED • Unidade de Conhecimento Tecnologia da Educação

Projeto Estratégico Nacional "Desenvolvimento Integrado de

Cursos para Educação a Distância com Recursos Multimídia via Internet"

MÓDULOS DO PROGRAMA TGA

MÓDULO INTRODUTÓRIO

SISTEMAS DE GESTÃO AMBIENTAL

PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO

EFLUENTES LÍQUIDOS

EMISSÕES ATMOSFÉRICAS

RESÍDUOS SÓLIDOS

CONTAMINAÇÃO DOS SOLOS E RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS

FUNDAMENTOS LEGAIS E ECONÔMICOS

VISÃO INTEGRADA EM MEIO AMBIENTE

Cada módulo do Programa TGA inclui ambiente web e livro impresso, que são recursos didáticos complementares.

FICHA CATALOGRÁFICA

KIPERSTOK, Asher et al. Prevenção da poluição.

Brasília: SENAI/DN, 2002. 290 p.

ISBN 85-7519-071-7

MEIO AMBIENTE

CDU: 504.03

SENAI

Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial

Departamento Nacional

SEDE • BRASÍLIA

Setor Bancário Norte

Quadra 1 - Bloco C

Edifício Roberto Simonsen

70040-903 • Brasília • DF

Tel (0xx 61) 317-9001

Fax (0xx 61) 317-9190

Homepage: www.dn.senai.br

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SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS, TABELAS E QUADROS

APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO 17

CAPÍTULO 1 MOTIVAÇÃO: DAS PRÁTICAS DE FIM-DE-TUBO PARA A 21

PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO

1.1 ESTAMOS CONSTRUINDO UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL? 22

1.2 A NECESSIDADE DE MUDAR DE PARADIGMA: 31

DO FIM-DE-TUBO PARA A PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO

1.3 BARREIRAS A SUPERAR 35

CAPÍTULO 2 PREOCUPAÇÕES AMBIENTAIS 45

2.1 IMPACTOS AMBIENTAIS: QUAIS SÃO? 46

Deposições Ácidas 47

Mudança Climática e Efeito Estufa 48

Degradação da Qualidade das Águas Subterrâneas 50

Degradação de Águas Superficiais 52

Degradação do Solo 53

Redução de Hábitat e Biodiversidade 55

Buraco da Camada de Ozônio 55

Névoas Fotoquímicas (Smog) 58

Degradação das Condições de Habitabilidade Urbana 59

Inserção de Substâncias Tóxicas Persistentes na Cadeia Alimentar 60

Outros Problemas Ambientais 62

2.2 CLASSIFICAÇÃO DOS IMPACTOS AMBIENTAIS 64

Classificação Espacial dos Impactos 65

Classificação Temporal dos Impactos 66

Classificação dos Impactos Ambientais pelo Tipo de Risco 67

CAPÍTULO 3 MINIMIZAÇÃO DE RESÍDUOS 71

3.1 OS PROCESSOS INDUSTRIAIS E SEUS RESÍDUOS 73

Resíduos Gasosos 75

Efluentes Líquidos 77

Resíduos Sólidos 82

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3.2 COMO ABORDAR O PROBLEMA DOS RESÍDUOS, EMISSÕES E EFLUENTES NA INDÚSTRIA 84

Redução na Fonte, Pensando a Mudança do Produto 88

Mudança de Insumos 90

Mudanças na Tecnologia 91

Mudanças no Processo 92

Boas Práticas Operacionais (Good Housekeeping Practices) 100

Reciclagem Interna e Externa 105

Embalagens e Transporte 110

CAPÍTULO 4 METODOLOGIAS DE GESTÃO AMBIENTAL COM ENFOQUE EM 113

PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO E MINIMIZAÇÃO DE RESÍDUOS

4.1 PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO/PRODUÇÃO MAIS LIMPA – O QUE É? COMO SURGIU? 115

4.2 HISTÓRICO DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA NO BRASIL 118

4.3 PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO/PRODUÇÃO MAIS LIMPA X TECNOLOGIAS FIM-DE-TUBO 120

4.4 METODOLOGIA DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA DESENVOLVIDA PELA UNIDO/UNEP 124

4.5 OUTRAS METODOLOGIAS 136

4.6 PRODUÇÃO MAIS LIMPA COMO INSTRUMENTO DE MARKETING 138

4.7 O SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL (SGA) BASEADO NA NORMA INTERNACIONAL ISO 14001 141

E A PRODUÇÃO MAIS LIMPA (P+L)

4.8 A ÉTICA NAS ORGANIZAÇÕES 148

ANEXOS

ANEXO 1 Folha de Trabalho Nº 1 – Principais produtos e/ou serviços 153

ANEXO 2 Folha de Trabalho Nº 2 – Principais resíduos gerados e/ou emissões 154

ANEXO 3 Folha de Trabalho Nº 3 – As principais matérias-primas e auxiliares 155

ANEXO 4 Folha de Trabalho Nº 4 – Prevenção e minimização de resíduos e emissões 156

ANEXO 5 Folha de Trabalho Nº 5 – Categoria de resíduos gerados e emissões 157

ANEXO 6 Tabela 4.3 – Categorias de resíduos 158

CAPÍTULO 5 ACV – ANÁLISE DE CICLO DE VIDA 159

5.1 O QUE É ACV? 160

5.2 ALGUNS EXEMPLOS ILUSTRATIVOS 162

5.3 FASES DA ACV 164

5.4 ACV PARA IDENTIFICAÇÃO DE QUESTÕES-CHAVE 174

5.5 ANÁLISES COMPARATIVAS 175

5.6 ALGUMAS APLICAÇÕES DE ANÁLISE DE CICLO DE VIDA 176

CAPÍTULO 6 ECOLOGIA INDUSTRIAL E PROJETO PARA O MEIO AMBIENTE (DfE) 183

6.1 ECOLOGIA INDUSTRIAL 186

Projetar 191

Mudando o Processo de Projetar 192

Projeto para o Meio Ambiente 196

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6.2 DESENVOLVIMENTO DE NOVOS CONCEITOS 199

Desmaterialização 200

A Mudança para Serviços 200

Partilhamento de Equipamentos 201

6.3 OTIMIZAÇÃO FÍSICA 201

Integração de Funções 202

Otimização das Funções 202

Aumento da Confiabilidade e Durabilidade 202

Facilidade de Manutenção e Reparo 203

Estrutura Modular do Produto 204

Fortes Relações com Quem Utiliza o Produto 204

6.4 OTIMIZAÇÃO DO USO DOS MATERIAIS 205

Considerações sobre o Uso de Materiais 205

Reduzir Uso de Materiais 205

Materiais mais Limpos 206

Materiais Renováveis e Abundantes 206

Materiais Energeticamente Eficientes 208

Materiais Reciclados 208

Materiais Potencialmente Recicláveis 209

6.5 OTIMIZAÇÃO DAS TÉCNICAS UTILIZADAS NA PRODUÇÃO 210

6.6 OTIMIZAÇÃO DE SISTEMAS DE DISTRIBUIÇÃO 210

Embalagem 210

Transporte 211

Armazenamento 212

Logística Eficiente 212

6.7 REDUÇÃO DO IMPACTO DURANTE O USO 213

Redução no Consumo de Energia e Fontes de Energia mais Limpas 213

Reduzir Insumos e Utilizar Insumos mais Limpos 213

6.8 SISTEMAS PARA O FINAL DO CICLO DE VIDA 214

Reuso 215

Projeto para Desmontagem 216

Remanufatura de Produtos 216

Reciclagem 217

6.9 O FUTURO: PROJETO SUSTENTÁVEL 219

CAPÍTULO 7 ENERGIA 223

7.1 ENERGIA E MEIO AMBIENTE 225

7.2 CONSUMO DE ENERGIA NO CONTEXTO GLOBAL E NACIONAL 228

Consumo de Energia por Habitante no Mundo 228

Expectativa de Vida x Consumo de Energia 229

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7.3 CONSUMO DE ENERGIA NO BRASIL 231

Setor Industrial 231

Setor Residencial 233

Setor de Transporte 233

7.4 FONTES, FORMAS E CONVERSÃO DE ENERGIA 235

Energia Solar 236

Biomassa 239

Combustíveis Fósseis 242

Outras Fontes de Energia 243

7.5 MEDIDAS TÉCNICAS PARA MELHORIA DO DESEMPENHO ENERGÉTICO 244

Prevenção das Perdas e Dissipação de Energia 244

Co-Geração e Geração de Multiproduto 244

Sistemas de Energia Integrados 246

Entrosamento entre Demanda, Fornecimento e Armazenamento de Energia 246

Melhoria no Envoltório das Edificações 247

Uso de Aparelhos de Alta Eficiência 248

Iluminação mais Eficiente e Eficaz 248

Aquecimento e/ou Resfriamento por Região 250

Uso de Estratégias Passivas para Reduzir o Consumo de Energia 250

Oportunidades para Melhoria em Equipamentos Industriais 251

7.6 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E ENERGIA 256

Suprimento Energético 257

Limitações Práticas na Eficiência de Energia 260

Limitações Teóricas na Eficiência de Energia 260

7.7 O FUTURO: ANÁLISE DE EXERGIA 262

CAPÍTULO 8 TENDÊNCIAS PARA O FUTURO 267

8.1 TENDÊNCIAS FUTURAS 268

Uso Multifuncional da Terra 270

Ambientes de Produção Fechados e Controlados 271

Uso Completo de Plantas e Biomassa através da Conversão Integral 272

Alimentos à Base de Novas Proteínas 273

Tecnologias de Sensores 274

REFERÊNCIAS 277

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LISTA DE FIGURAS,

TABELAS E QUADROS

FIGURAS

CAPÍTULO 1

FIGURA 1.1 Gráfico com projeções da população mundial 24

FIGURA 1.2 Nordestino retirante 32

FIGURA 1.3 Produção limpa e limpeza de processos 35

FIGURA 1.4 Sistema não interativo correspondente à lógica do projetista e do operador 36

FIGURA 1.5 Lógica do controle externo sobre os poluentes 37

FIGURA 1.6 A mudança de lógica para tecnologias limpas 38

CAPÍTULO 2

FIGURA 2.1 Caminho do poluente no corpo receptor 61

CAPÍTULO 3

FIGURA 3.1 Processo industrial 73

FIGURA 3.2 Do Fim-de-tubo à sustentabilidade ambiental 86

FIGURA 3.3 Organograma mestre das ações para prevenção e controle da poluição 87

FIGURA 3.4 Diagrama da cebola para síntese de processos 95

FIGURA 3.5 Fluxograma esquemático de procedimentos para fechar um processo químico 97

FIGURA 3.6 Dois modelos de tratamento de efluentes de processo 98

FIGURA 3.7 Concurso de idéias 102

FIGURA 3.8 Minimização de resíduos na indústria de tratamento de metais 103

FIGURA 3.9 Gaiola transportando peças metálicas para o tratamento de superfícies 104

FIGURA 3.10 Hierarquia de preferências para reciclagem 107

CAPÍTULO 4

FIGURA 4.1 Países “hospedeiros” dos Centros Nacionais de Tecnologias Limpas 127

FIGURA 4.2 Fluxograma de implantação de Produção mais Limpa - 128

Metodologia UNIDO/UNEP

FIGURA 4.3 Diagrama de bloco 129

FIGURA 4.4 Organograma de Produção mais Limpa 131

FIGURA 4.5 Por que fazer um programa de Produção mais Limpa? 140

FIGURA 4.6 Ciclo de implantação de um SGA 143

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CAPÍTULO 5

FIGURA 5.1 Fluxo de material, ciclo total 163

FIGURA 5.2 Fases da ACV 164

FIGURA 5.3 Definição dos limites do sistema 167

FIGURA 5.4 Dimensões de uma ACV 167

FIGURA 5.5 Ciclo de vida do polietileno 168

CAPÍTULO 6

FIGURA 6.1 Sistemas abertos e fechados 188

FIGURA 6.2 Tipos de fluxo de materiais 189

FIGURA 6.3 Rotas de projeto - Design wheels 196

CAPÍTULO 7

FIGURA 7.1 Consumo de energia per capita no mundo 228

FIGURA 7.2 Expectativa de vida x consumo de energia 230

FIGURA 7.3 Consumo de energia na indústria por fonte 232

FIGURA 7.4 Consumo de energia no setor residencial por fonte 233

FIGURA 7.5 Consumo de energia no setor de transporte por fonte 234

FIGURA 7.6 Energia total incidente na Terra 237

FIGURA 7.7 Sistema de co-geração em ciclo combinado 245

TABELAS

CAPÍTULO 1

TABELA 1.1 Crescimento da renda per capita 24

TABELA 1.2 Padrões de consumo para mercadorias selecionadas 27

TABELA 1.3 Dados comparativos de aspectos ambientais – Automóvel 29

TABELA 1.4 Dados comparativos de aspectos ambientais – Infra-estrutura 30

TABELA 1.5 Resumo dos resultados 31

CAPÍTULO 2

TABELA 2.1 Classificação dos impactos ambientais em uma escala espacial 65

CAPÍTULO 3

TABELA 3.1 Compostos considerados no programa 81

TABELA 3.2 Procedimento de decisões hierárquicas para minimização de resíduos 94

TABELA 3.3 Resultado do concurso de idéias para conservação de energia na Dow/Louisiana 101

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CAPÍTULO 4

TABELA 4.1 Diferenças entre Tecnologias Fim-de-tubo e Produção mais Limpa 123

TABELA 4.2 Comparação entre SGA baseado na ISO 14001 e Produção mais Limpa – 149

Metodologia desenvolvida pela UNIDO/UNEP

TABELA 4.3 Categorias de resíduos 158

CAPÍTULO 6

TABELA 6.1 Limitações globais de recursos materiais 207

CAPÍTULO 7

TABELA 7.1 Eficiência energética para diferentes tipos de fontes de luz 249

QUADROS

CAPÍTULO 4

QUADRO 4.1 Participantes da Rede de Tecnologias Limpas do Brasil 119

QUADRO 4.2 Resumo da proposta de inserção dos conceitos de P+L 147 nos requisitos da ISO 14001

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APRESENTAÇÃO

As inovações tecnológicas exigem mudanças profundas em diversos campos do conhecimento humano, sinalizando com novas demandas para o sistema educacional do País. Os profissionais buscam renovar e/ou adquirir conhecimentos na expectativa de se manterem em atividade ou conquistarem novas oportunidades no mercado de trabalho. Firma-se, assim, a necessidade de educação permanente.

Ao mesmo tempo que se observa a relevância do desenvolvimento tecnológico, evidencia-se na sociedade a importância do meio ambiente para que se resguarde a qualidade da sobrevivência humana.

Há necessidade de se harmonizarem as demandas da população com o desenvolvimento industrial, buscando-se o equilíbrio ecológico e reduzindo-se a intensidade de poluição industrial por meio de uma produção mais limpa.

O mercado industrial proclama a perspectiva de absorção de novos perfis profissionais na área ambiental. Torna-se explícita a necessidade de desenvolvimento na performance dos profissionais da área.

Associando as novas tecnologias à educação a distância, com sólida proposta pedagógica, o SENAI apresenta o

Programa Tecnologias e Gestão Ambiental – TGA, que objetiva desenvolver competências profissionais relacionadas

às questões de prevenção e controle da poluição, focalizando

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as tecnologias mais adequadas juntamente com os aspectos da gestão ambiental.

O Programa TGA, sintonizado com os requisitos de qualidade e da regulamentação brasileira sobre educação a distância, é estruturado em módulos, que podem ser cursados de forma independente e flexível, de acordo com a necessidade do aluno.

Professores universitários brasileiros e canadenses, associados ao Programa SENAI de Qualidade Ambiental

(PSQA), consultores externos e especialistas do SENAI dedicaram-se à elaboração dos conteúdos didáticos de cada módulo.

Diversos meios de comunicação encontram-se disponíveis no processo de aprendizagem. Os recursos didáticos, produzidos por profissionais do SENAI, estão formatados no ambiente web, para oferta via Internet, e há, ainda, o livro didático impresso como material de apoio.

O Programa TGA é mais uma contribuição do SENAI para a capacitação de profissionais que, dentro de seu ambiente de trabalho, poderão utilizar, de forma correta e eficaz, novas metodologias e tecnologias necessárias para o equilíbrio ecológico associado ao desenvolvimento industrial.

José Manuel de Aguiar Martins

Diretor-Geral

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PROGRAMA TECNOLOGIAS E GESTÃO AMBIENTAL • TGA

Módulo Introdutório

10h/aula pré-requisito obri ga tó rio

Sistemas de

Gestão Ambiental

45h/aula

Visão Integrada em

Meio Ambiente

45h/aula

Fundamentos Legais e Eco nô mi cos

45h/aula

Efluentes Líquidos

45h/aula

Prevenção da Poluição

45h/aula

Contaminação dos Solos e Re cu pe ra ção de Áreas

De gra da das

45h/aula

Emissões Atmosféricas

45h/aula

Resíduos Sólidos

45h/aula

Os módulos poderão ser cursados de forma independente, como cursos de curta duração, ou combinados, formando os percursos abaixo:

PERCURSO GESTÃO AMBIENTAL

PERCURSO TECNOLOGIAS

AMBIENTAIS

ES PE CI A LI ZA ÇÃO EM TECNOLOGIAS E

GESTÃO AMBIENTAL

(em estudo)

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INTRODUÇÃO

Tradicionalmente, a gestão ambiental no Brasil, no que se refere aos processos produtivos, vem priorizando a abordagem de Comando e Controle (C&C), que se baseia na criação de dispositivos e exigências legais (comando) e de mecanismos para garantir o cumprimento destas (controle). Esta abordagem tem-se caracterizado pela não-integração de fatores ambientais

(ex.: água, ar, solo), fatores bióticos, sociais e a adoção de medidas de forma isolada, visando essencialmente ao controle da poluição.

Esta estratégia estimula uma postura reativa por parte das empresas, no tratamento das questões ambientais, levando os setores produtivos, o governo e outros agentes de interesse a adotarem posições antagônicas e de confronto.

Algumas empresas, no entanto, vêm, a partir dos anos

90, adotando estratégias que refletem uma mudança de comportamento diante dos impactos negativos decorrentes de suas atividades produtivas. Esta mudança baseia-se numa nova relação entre meio ambiente e negócios, que se configura em demandas de mercado por produtos e processos mais ambientalmente corretos, estimulando a adoção voluntária de instrumentos de gestão ambiental como certificação de produtos (selos-verde) e de processos (Norma ISO 14001); programas de Prevenção da Poluição.

A adoção destes instrumentos voluntários, normalmente pautados em princípios de auto-regulação, devidamente complementados com os mecanismos clássicos de C&C,

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18 impostos pelos órgãos ambientais, tem-se mostrado uma estratégia eficiente na melhoria do desempenho ambiental das empresas.

Dentre os instrumentos de gestão ambiental, os programas de Prevenção da Poluição / Produção Limpa, baseados no princípio de “antecipar e prevenir” possíveis fontes geradoras de problemas ambientais, apresentam resultados muito interessantes para as empresas com benefícios tecnológicos, financeiros, ambientais e outros, como a melhoria da imagem, contribuindo para o aumento de competitividade destas no mercado globalizado.

A Prevenção da Poluição tem como principal foco a não geração de poluentes, e está relacionada com o uso de matérias-primas, insumos e resíduos nos processos produtivos.

Este conceito está ligado ao de produção limpa, que considera o uso de técnicas que possibilitam o menor consumo de recursos naturais (água e energia) e a minimização dos resíduos, dos riscos e dos impactos ambientais negativos em geral.

A Produção Limpa também está relacionada com valores e comportamentos dos agentes econômicos e sociais. Esta pressupõe a transparência e abertura das informações pelas empresas, num estímulo à prática de benchmarking, assim como também a publicação de relatórios que favorecem a elevação de padrões ambientais.

O curso de Prevenção da Poluição visa promover, através de processo educativo, uma mudança de mentalidade dos profissionais da indústria, fazendo com que estes assumam, cada vez mais, uma postura pró-ativa alinhada com as tendências de gestão ambiental que compatibilizam o desenvolvimento com a proteção do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida.

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O conteúdo deste livro está dividido em 8 capítulos, onde no Capítulo 1 procuramos dimensionar o desafio ambiental que se coloca à nossa frente e questionamos se as práticas atuais de controle da poluição são capazes de superá-lo. Já no Capítulo 2 revisamos os principais problemas ambientais e apresentamos uma classificação de impactos em termos de amplitude espacial, comportamento ao longo do tempo e nível de risco.

No Capítulo 3 identificamos os agentes poluidores produzidos na indústria e discutimos as abordagens que podem ser utilizadas visando minimizar a geração destes.

No Capítulo 4 apresentamos o processo de evolução das práticas de Prevenção da Poluição no Brasil e a metodologia de Produção mais Limpa desenvolvida pela UNIDO/UNEP, divulgada no Brasil pelo CNTL – Centro Nacional de

Tecnologias Limpas, sediado no SENAI Rio Grande do Sul.

Nos Capítulos 5 e 6 ampliamos a discussão para fora do processo produtivo e mostramos a necessidade de se considerar os impactos ambientais associados a todo o ciclo de vida dos produtos e processos. Apresentamos no Capítulo 5 a Análise de

Ciclo de Vida e no Capítulo 6 o Projeto para o Meio Ambiente como mecanismos para atingir o objetivo proposto.

No Capítulo 7 consideramos o fato da questão energética estar intimamente associada aos impactos ambientais provocados, tanto em processos produtivos específi cos como pela sociedade como um todo, para apontar formas e tecnologias que contribuam para a melhoria do desempenho energético e, conseqüentemente, ambiental no processo produtivo.

No Capítulo 8, o último deste livro, em vez de tirarmos alguma conclusão sobre a viabilidade das alternativas apresentadas para reduzir a poluição, direcionamos o foco da

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19

20 Prevenção da Poluição discussão para uma avaliação do futuro tecnológico associado ao desenvolvimento sustentável. Para tanto, tomamos como referência o Programa de Desenvolvimento de Tecnologias

Sustentáveis proposto no Plano Holandês de Políticas

Ambientais.

Promovemos ainda neste capítulo final uma reflexão sobre o impacto da inovação tecnológica no processo produtivo, tendo como elemento de provocação as posições dos autores

Weaver et al. (2000): “As práticas habituais de inovação não oferecem qualquer perspectiva da tecnologia ter um papel, senão periférico, para se atingir o desenvolvimento sustentável”. Estes autores ainda complementam que há necessidade de se inovar o atual processo de inovação tecnológica para poder se pensar em legar um planeta equilibrado para os nossos filhos.

Vale salientar que todo o conteúdo deste módulo foi desenvolvido visando estimular a capacidade de inovar na marcha em direção ao desenvolvimento sustentável, focando o processo produtivo como objeto de melhoria, no que se refere à redução dos impactos ambientais.

Esperamos que todos nós sejamos parceiros nesta jornada, pois o desafio ambiental a ser vencido pode ser muito maior do que parece ser!

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

21

CAPÍTULO 1

MOTIVAÇÃO: DAS PRÁTICAS

DE FIM-DE-TUBO PARA A

PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO

Asher Kiperstok Universidade Federal da Bahia • UFBA • TECLIM

Mudar de controle da poluição para a sua prevenção é um bom começo, mas as empresas devem ir além.

Início do século XXI. Será que você ainda precisa ser convencido de que o único caminho para a humanidade sobreviver na face da Terra é tornar seus processos produtivos não poluentes? Prevenir a poluição? Talvez para você este capítulo seja como chover no molhado. Talvez seja até novidade.

Muito provavelmente você já deve ter intuído que as atuais práticas de produção e de controle da poluição deixam alguma coisa a desejar e queira compartilhar com seus colegas suas inquietações, e ouvir as deles. De certa forma, é o que nós estamos fazendo aqui.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Discutir a questão da velocidade que precisa ser imprimida ao processo de redução do impacto ambiental das atividades produtivas para alcançar o desenvolvimento sustentável.

Esclarecer a necessidade de uma mudança de paradigma no que se refere à relação atividade produtiva e meio ambiente. Da tecnologia

Fim-de-tubo para a Preven-

ção da Poluição.

Analisar os motivos que têm levado a priorizar o controle da poluição com base no uso de tecnologia Fim-de-tubo.

O ritmo de expansão do processo de degradação ambiental cresce dia a dia. Por outro lado, cresce a consciência ambiental da população e das corporações. Está estabelecida uma corrida entre estes dois processos. Do resultado dela depende o futuro de nossos descendentes. Como em toda corrida, ganha quem supera os concorrentes. O corredor que corre tudo quanto pode poderá se sentir satisfeito com seu desempenho e dormir tranqüilo depois. Mas não ganha necessariamente a corrida, e esta é uma corrida que não podemos nos dar ao luxo de perder.

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22 Prevenção da Poluição

Muitas corporações procuram melhorar continuamente seu desempenho ambiental.

Mas isto é sufi ciente? Como podemos saber se a velocidade de melhoria do desempenho ambiental da nossa sociedade é sufi ciente para que ganhemos a corrida?

Dúvidas?

Ótimo.

Ansiedade?

Relaxe, mas aja!

Neste capítulo discutiremos a questão da velocidade que precisa ser impressa ao processo de redução de impacto ambiental das atividades produtivas. Aproveitaremos, ainda, para rever as principais preocupações ambientais da sociedade moderna.

1.1 ESTAMOS CONSTRUINDO UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL?

Nos anos 70, ilustres homens públicos brilharam por demonstrar sua ignorância diante das questões ambientais levantadas, em 1972, em Estocolmo, pela Conferência das

Nações Unidas sobre o Ambiente Humano. Atualmente, existe uma quase unanimidade em torno da causa ambiental, seja por razões mercadológicas, ou de efetivo compromisso social (ou ambas?); o fato é que cada vez mais pessoas e empresas adotam atitudes ambientalistas. Convém, no entanto, analisar se os resultados que estão sendo atingidos efetivamente apontam para uma reversão do processo de degradação ambiental, ou sequer para uma redução da velocidade com que esse se dá.

Graedel e Allenby (1998), no trabalho intitulado “Ecologia Industrial e o Automóvel”, apresentam um interessante raciocínio para ilustrar a evolução do impacto do desenvolvimento sobre o meio ambiente nas últimas décadas e o que podemos esperar para o futuro.

Estes pesquisadores dos Laboratórios Bell e da AT&T, respectivamente, utilizam a conhecida Equação Mestra de impacto ambiental para pensar o futuro do planeta:

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

23

Weaver e colaboradores (2000) referem-se à equação acima como a Primeira

Expressão de Ehrlich, que difere, apenas formalmente, da anterior por colocar o segundo fator do lado direito da equação como “Consumo per capita”. Na realidade, o padrão de consumo está intimamente relacionado com a renda da pessoa.

Se aplicarmos a Equação Mestra para o momento atual e a projetarmos para um futuro, digamos de 30 a 50 anos, poderemos ter uma idéia de como evoluirá o impacto ambiental sobre o nosso planeta. Claro que não se pode esperar grande precisão de projeções a tão longo prazo. Ao contrário, espera-se que, com base na refl exão que tenhamos no momento, possamos infl uenciar o futuro de forma que as previsões mais negativas não venham a acontecer.

Os números a seguir apresentados devem ser criticados. Espera-se que cada um de nós componha seus próprios dados e os traga para discussão. Os próprios autores aqui citados divergem entre si, e nós deles. Felizmente! Isso, contudo, não retira a validade da linha de raciocínio apresentada.

Questão para reflexão:

Pesquise dados que permitam projetar o impacto ambiental para 2050.

Qual é seu palpite?

De volta à análise do primeiro fator da equação, este nos remete para a sempre acalorada discussão sobre o crescimento populacional.

Mitchell (1997), do Worldwatch Institute, citando dados do Escritório de Censos dos

Estados Unidos, aponta para um crescimento da população mundial entre 1950 e 1996 de 2,6 para 5,8 bilhões de pessoas. Isso representa uma taxa média de crescimento anual de 1,8%. Segundo a fonte, esta taxa fl utuou entre 1,3% e 2,2% a.a., com uma média de 1,8% a.a. Se considerarmos uma taxa de crescimento anual de 1,3%, nos próximos

30 anos a população mundial será 1,47 vez a atual e, em 50 anos, 1,9 vez. Caso nosso palpite seja 1,4% a.a., nestes horizontes a população cresceria 1,52 e 2,0 vezes.

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 23 5/2/2003, 15:13:25

24 Prevenção da Poluição

Fonte: UN apud WWI (Mitchell,1997).

FIGURA 1.1 – GRÁFICO COM PROJEÇÕES DA POPULAÇÃO MUNDIAL

Prever a evolução da renda per capita para os próximos 50 anos é outro exercício de arriscada futurologia. Graedel e Allenby (1998) ilustram, com dados do Banco Mundial, as taxas de crescimento verifi cadas em diversos blocos geoeconômicos (Tabela 1.1).

TABELA 1.1 – CRESCIMENTO DA RENDA PER CAPITA, 1980-2000 (BANCO MUNDIAL 1992)

Grupo de países

Mais desenvolvidos

1960-1970

4,1

1970-1980

2,4

1980-1990

2,4

1990-2000

2,1

Subsaara

Leste Asiático

América Latina

Leste Europeu

Menos desenvolvidos

0,6

3,6

2,5

5,2

3,9

0,9

4,6

3,1

5,4

3,7

-0,9

6,3

-0,5

0,9

2,2

0,3

5,7

2,2

1,6

3,6

Fonte: Graedel e Allenby, 1998.

Os números representam taxas médias de crescimento anual em %.

Os números para a década 1990-2000 são uma estimativa do próprio Banco Mundial

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 24 5/2/2003, 15:13:26

Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

25

Mesmo podendo-se contestar os dados projetados na tabela acima, os autores citados se permitem apontar para um crescimento da renda per capita mundial de três a cinco vezes (o que equivale a 2,2% e 3,3% a.a., respectivamente) nos próximos 50 anos.

Consideremos aqui, muito conservadoramente, uma taxa de crescimento anual da renda

per capita mundial de 2%. Apesar de representar uma alternativa que, provavelmente, confi naria os países subdesenvolvidos na sua pobreza, estes números implicam um crescimento da renda mundial de 81% (1,81 vez) nos próximos 30 anos, e 169% (2,69 vezes) em 50 anos. Usando dados conservadores, crescimento populacional de 1,3% a.a. e de renda per capita de 2% a.a., para todo o planeta, em 50 anos, os dois primeiros fatores da Equação Mestra (lado direito), multiplicados, representam o valor de 5,11

(1,9 x 2,69). Chamemos este valor de FATOR 5.

Fator 5, então, representa quanto o terceiro fator da equação, impacto ambiental por unidade de produto, teria que ser reduzido em 50 anos apenas para MANTER O ATUAL

NÍVEL DE IMPACTO AMBIENTAL NO PLANETA. Reduzir em cinco vezes o impacto ambiental de cada produto e atividade, para poder manter as coisas como estão.

Dados menos conservadores, tais como os apresentados por Allenby e Graedel, indicam valores até três vezes maiores!, para o crescimento da renda per capita mundial.

De fato, este crescimento acelerado da renda per capita se faz necessário para tirar uma enorme parcela da população mundial do estado de pobreza absoluta em que se encontra.

Basta lembrar que países como a Índia, a China e boa parte dos países da África detêm uma renda per capita quase 10 vezes inferior à brasileira. Isto é, se a renda média per

capita desses países crescer 10 vezes em 50 anos, estariam atingindo a renda média do

Brasil HOJE! Difi cilmente poderia se considerar isso aceitável, muito menos se este crescimento se der com a concentração de renda que nos caracteriza.

Continuando nossa análise, podemos ver que na Equação Mestra está implícita a inferência de uma relação linear entre renda per capita e consumo per capita. Desta forma caberia aqui discutir a validade desta relação, assim como também sua sustentabilidade no futuro.

Muitos são de opinião que nas sociedades mais desenvolvidas há uma tendência a dissociar o padrão de consumo do de qualidade de vida, atribuindo-se a isto o crescimento da consciência ambiental nas populações mais instruídas. Contudo, o mesmo argumento,

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 25 5/2/2003, 15:13:26

26 Prevenção da Poluição caso não se mostre consistente, pode nos levar a questionar se realmente está ocorrendo este crescimento da consciência ambiental da sociedade. A verifi cação, por exemplo, da retomada da moda de usar carros cada vez maiores, possantes e desperdiçadores de combustível, por parte das camadas mais opulentas da sociedade, é no mínimo preocupante. Compram-se, hoje, carros com tração nas quatro rodas e motores que têm um desempenho de cerca de 4.1 1itros/km para ir fazer compras em shopping centers.

Países do Primeiro Mundo têm defendido medidas de controle populacional nos países mais pobres. Esta pressão tem sido exercida nas Conferências Internacionais sobre a População, mas, também, tem-se dado através de fi nanciamento a programas que vão desde moderadas e equilibradas iniciativas de educação e planejamento familiar até programas de esterilização em massa.

Por outro lado, diversos pesquisadores apontam para o desequilíbrio nos níveis de consumo entre os países mais e menos desenvolvidos, como sendo o fator a ser atacado prioritariamente, de forma a se permitir a elevação das condições de vida nos países pobres, sem se degradar ainda mais o meio ambiente.

Parikh et al. (1994), do Instituto Indira Ghandi de Pesquisa para o Desenvolvimento, comparam o consumo per capita de diversos produtos, em países desenvolvidos e em desenvolvimento, no documento elaborado em 1991, com o objetivo de subsidiar as discussões da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento,

RIO-92. Estes mostram, por exemplo, que a relação de consumo per capita entre os países desenvolvidos e não desenvolvidos, respectivamente, é de 3/1 para cereais, 14/1 para papel, 20/1 para produtos químicos orgânicos e 24/1 para automóveis. A relação entre a produção anual per capita de CO

2

é de 8 para 1 (Tabela 1.2).

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 26 5/2/2003, 15:13:26

Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

27

TABELA 1.2 – PADRÕES DE CONSUMO PARA MERCADORIAS SELECIONADAS

INDIRA GHANDI INSTITUTE OF DEVELOPMENT RESEARCH PARA UNCED

Produtos

Total

Mundial

Participação %

Per Capita kg

Relação entre

Consumo Per Capita

To

Cereais

Papel

Alum.

Qui. Inorg.

Qui. Org.

Autom.

CO

2

anual

1.801

224

22

226

391

370

5.723

Fonte: adaptado de Parikh et al. (1991).

87

85

92

70

48

81

86

13

15

8

30

52

19

14

163

274

0,283

3,36

717

148

16

247

11

1

8

16

0,012

0,43

20

17

24

8

3

14

19

EUA/ India

52

28

320

27

6

115

85

Voltemos para o denominado Fator 5. Caso esperemos um futuro mais digno para as parcelas mais pobres da população, princípio básico do desenvolvimento sustentável, teremos que considerar crescimentos da renda per capita da ordem de grandeza de 10 vezes, pelo menos para os 50% dos países mais pobres do mundo. Vejam só, se isto acontecer, e se pudéssemos imaginar que 50% dos países mais ricos do mundo abririam mão de qualquer crescimento da sua renda per capita, para um crescimento populacional de 1,4% a.a, em 50 anos teríamos FATOR 10.

O Fator 10 também pode ser interiorizado se pensarmos em, mesmo com dados conservadores de crescimento populacional e de renda, ter como objetivo reduzir o nível de impacto ambiental, daqui a 50 anos, para metade do atual. Este raciocínio levou à criação do Clube do Fator 10 em 1993 (Weaver et al., 2000).

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) tem divulgado o conceito de Fator 10 no sentido de chamar a atenção da sociedade para a necessidade de se aumentar o ritmo de melhoria da produtividade dos recursos naturais

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 27 5/2/2003, 15:13:26

28 Prevenção da Poluição

(Cinq-Mars, 1997; Peneda & Frazao, 1997; Schmidt-Bleek, 1997; Carr-Harris, 1997).

Isto é, aumentar a ecoefi ciência da produção e consumo 10 vezes em 50 anos.

Ecoeficiência:

É um conceito relativamente novo e vem sendo inserido aos poucos nas discussões sobre meio ambiente e qualidade como um todo. Segundo

Henriques (1997), na União Européia, o conceito apareceu pela primeira vez, em um texto ofi cial, no ano de 1997. O conceito de ecoefi ciência aborda não só a efi ciência nas questões ambientais e econômicas, mas também nas questões sociais.

Como consumidores e cidadãos conscientes e mobilizados para as causas sociais e ambientais, podemos procurar interferir no sentido de controlar os impactos provocados no meio ambiente pelos dois primeiros fatores da Equação Mestra: aumento populacional e de renda per capita.

No entanto, quanto ao terceiro fator, impacto ambiental provocado por unidade de produção, a responsabilidade maior está nos setores produtivos e de pesquisa e desenvolvimento.

Questão para reflexão:

Você acha possível reduzir o impacto ambiental dos nossos produtos e atividades 10 vezes nos próximos 50 anos?

Vamos esclarecer melhor este questionamento. Vejamos o caso dos tecidos fabricados com fi bras sintéticas. Sua persistência no meio ambiente é muito superior àquela dos tecidos fabricados com fi bras naturais, tais como o algodão. Com a moda pressionando para os consumidores substituírem o seu guarda-roupa uma ou mais vezes por ano, o impacto ambiental desses produtos cresceu consideravelmente. Consideremos, ainda, os pesticidas usados na agricultura intensiva e sua persistência no meio ambiente, o uso cada vez maior de embalagens, e o que falar da imensa produção de resíduos associada

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

29 a fraldas e outros produtos descartáveis que uma criança de família de classe média ou alta gera nos três primeiros anos de vida?

Graedel e Allenby (1998) realizaram um interessante trabalho ao agregar e analisar, comparativamente, informações referentes ao impacto ambiental do automóvel dos anos

50 e do automóvel dos anos 90. Os autores desenvolvem uma análise de ciclo de vida para os veículos, ou seja, utilizam um instrumento que avalia um produto “do berço ao túmulo”, desde a matéria-prima para sua fabricação até o descarte fi nal. Eles avaliam seu impacto ambiental do “berço ao túmulo” desde a geração dos insumos para a sua fabricação até o descarte fi nal do produto obsoleto, passando pelo seu uso. O estudo inclui não apenas o produto em si, mas toda a infra-estrutura a ele relacionada. Observe os dados, resultado dos estudos, nas Tabelas 1.3, 1.4 e 1.5.

Estágio do Ciclo de Vida

TABELA 1.3 – DADOS COMPARATIVOS DE ASPECTOS AMBIENTAIS

AUTOMÓVEL, ANOS 50 E 90

Aspectos Ambientais

Extração de matériaprima

Anos

50

90

Escolha de

Materiais

2

3

Uso da

Energia

2

3

Resíduos

Sólidos

Efluentes

Líquidos

Emissões

Atmosf.

3

3

3

3

2

3

Manufatura

50

90

Distribuição

50

90

Uso

50

90

Recondicionamento, reciclagem, disposição

50

90

Total

50

90

Fonte: Graedel e Allenby (1998).

9/20

13/20

3

3

3

3

1

1

0

3

7/20

12/20

2

2

2

3

0

2

1

2

11/20

14/20

2

3

3

3

1

2

2

3

13/20

16/20

3

3

4

4

1

3

2

3

6/20

13/20

1

2

2

3

0

2

1

3

Total

11/20

13/20

46/100

68/100

12/20

15/20

6/20

14/20

14/20

16/20

3/20

10/20

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30 Prevenção da Poluição

Estágio do

Ciclo de Vida

Seleção e preparação do local da obra

Manufatura da infra-estrutura

TABELA 1.4 – DADOS COMPARATIVOS DE ASPECTOS AMBIENTAIS

INFRA-ESTRUTURA, ANOS 50 E 90

Anos

Biodiversidade/

Materiais

Uso da

Energia

Aspectos Ambientais

Resíduos

Sólidos

Efluentes

Líquidos

Emissões

Atmosf.

50

90

50

90

3

2

0

1

2

1

1

1

2

2

0

1

2

2

1

2

2

3

1

2

Uso da infra-estrutura

Sistemas complement.

Recondicion., reciclagem, disposição

50

90

50

90

50

90

3

2

2

1

2

0

2

2

3

2

2

1

3

2

2

1

3

1

4

4

3

1

3

3

3

3

1

0

1

2

Total

50

90

10/20

6/20

10/20

7/20

10/20

7/20

13/20

12/20

8/20

10/20

Total

51/100

42/100

3/20

7/20

11/20

10/20

11/20

7/20

11/20

5/20

15/20

13/20

Fonte: Graedel e Allenby (1998).

Em ambas as tabelas os valores superiores se referem aos anos 50, e os valores inferiores, aos anos 90. A pontuação máxima possível de ser alcançada por cada um dos itens é de quatro pontos. Então, por exemplo, na primeira tabela, para o item de extração de matéria-prima, nos anos 50, foram alcançados 12, do total de 20 pontos que poderiam ser alcançados somando todos os aspectos ambientais envolvidos na extração de matérias-primas; e para os anos 90, foram alcançados 15, do total de 20 pontos para os mesmos aspectos ambientais.

Os valores totais que representam o impacto ambiental do automóvel e a infraestrutura necessária para o seu uso, tomando-se como referência os anos 50 e os anos

90, apontam para resultados um tanto decepcionantes.

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

31

Infra-estrutura, anos 50 e 90

Anos 50

Anos 90

TABELA 1.5 – RESUMO DOS RESULTADOS

Automóvel

46

68

Infra-estrutura

51

42

Média

49

55

Evidentemente que o trabalho acima apresentado contém limitações, por exemplo, ao considerar os diversos aspectos ambientais com o mesmo peso ou importância. No trabalho original dos autores citados são apresentadas comparações mais elaboradas.

Aqui se pretende apenas dar uma idéia da dimensão do avanço ambiental conseguido no caso do automóvel nesse período. Sua qualifi cação ambiental passou de 49 para 55.

Basta lembrar de um modelo 50, como o Cadillac, por exemplo, e compará-lo com um modelo 90 para perceber que do ponto de vista de conforto, manobra e segurança, os avanços foram bem maiores. Se o automóvel em 40 anos, do ponto de vista ambiental, só teve esta evolução, como podemos esperar Fator 10 nos próximos 50 anos? A mesma pergunta caberia para qualquer outro bem de consumo.

Questão para reflexão:

Aplique o raciocínio anterior a outro bem de consumo e tente perceber o que seria um aumento da ecoefi ciência em Fator 10 em 50 anos.

1.2 A NECESSIDADE DE MUDAR DE PARADIGMA: DO FIM-DE-TUBO PARA

A PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO

Vamos considerar que a resposta que você deu para a refl exão anteriormente proposta foi igual à nossa: otimista! Sim, podemos, nos próximos 50 anos, reduzir em Fator 10 o impacto causado pelo tipo de produtos que hoje produzimos, a partir de melhorias tecnológicas e modos de consumo. Isto é, a forma como consumimos e a tecnologia poderiam suprir os avanços necessários para estancar o processo de degradação ambiental provocado pelo crescimento econômico.

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32 Prevenção da Poluição

Vimos que os avanços ambientais decorrentes da evolução tecnológica do automóvel fi caram bem aquém deste patamar nos últimos 40 anos, mas a evolução tecnológica pode surpreender.

Contudo, que tipo de tecnologia ou evolução tecnológica seria capaz de tanto? A nossa velha tecnologia fi m-de-tubo? Ou seja, mais e mais efi cientes estações de tratamento de efl uentes? Mais e mais efi cientes fi ltros para retenção de materiais particulados das nossas chaminés? Maiores aterros sanitários e industriais? Mais incineradores?

Questão para reflexão:

Para ilustrar o caminho que estaríamos trilhando se seguíssemos esta linha de raciocínio, imaginemos um nordestino retirante que segue rigorosamente toda a legislação ambiental e de segurança do trabalho a partir do uso de tecnologia fi m-de-tubo. Como ele conseguiria fazer isto? Pense um pouco antes de responder. Melhor ainda, tente representar grafi camente nosso herói.

Agora veja se o nosso herói parece com o que você idealizou:

2 faróis traseiros capacete protetor

óculos protetores buzina protetores auditivos corda no caso dos sistemas falharem repelente de mosquito cadeira protetora das costas e da cabeça mapas, caso você se perca kit primeiros socorros colete à prova de bala estação de tratamento para atender padrões do CONAMA cinto de segurança espelho retrovisor air-bag luvas protetoras proteção ocular para Jegue telefone para situações emergenciais

4 luzes alerta vermelhas faróis dianteiros rede de segurança

4 rodas da rede de segurança licença da Sociedade

Protetora dos Animais anti-derrapante para o jegue

FIGURA 1.2 – NORDESTINO RETIRANTE

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

33

Claro que uma empresa engessada por inúmeras exigências pontuais de controle de emissões difi cilmente teria como operar satisfatoriamente. Mais ainda, imaginemos o esforço que a mula do nosso nordestino terá que fazer apenas para deslocar os equipamentos de segurança e proteção ambiental. De forma similar, uma indústria que persistisse ou fosse obrigada a agir desta forma teria sérios encargos e custos adicionais.

Por outro lado, nada estaria sendo feito para reduzir a extração de recursos naturais.

Pelo contrário, mais matéria-prima e energia seriam demandadas para mover toda a parafernália de controle de poluição.

Se quisermos, de fato, dar uma opção mais segura para o nosso peão, nordestino retirante, teremos que pensar em uma outra rota para ele percorrer, que implique menos riscos e, conseqüentemente, menos equipamentos de proteção, sem que isto represente,

é claro, menor proteção efetiva.

Para termos sucesso nesta busca da rota mais segura é preciso rever conceitos. O que são resíduos, senão matéria-prima mal aproveitada? O que são esgotos, senão um líquido composto de 99,95% de água (mal utilizada) e 0,05% de material sólido arrastado por esta? Pelo menos 50% das nossas emissões decorrentes de queima de combustível decorrem de perdas energéticas e desperdícios provocados pelas tecnologias utilizadas ou inadequação de práticas operacionais.

Poluição não é, senão, o produto de uma baixa efi ciência no aproveitamento dos recursos naturais. Michel Porter, da Universidade de Harvard (EUA), e Claas van der

Linde, da Universidade de St Gallen, na Suíça, utilizam o conceito de produtividade no uso de recursos naturais e humanos (resource productivity) para discutir a relação entre o desempenho ambiental e a competitividade das corporações. Eles afi rmam que o crescimento desta produtividade faz as empresas mais competitivas e, neste sentido, regulações ambientais mais intensas, mas adequadamente elaboradas, elevam o valor das empresas (Porter e Class van der Linde, 1995).

Enfrentar o desafi o de reduzir o impacto ambiental do processo produtivo, apenas correndo atrás de corrigir os problemas que nós próprios criamos, não parece ser muito racional. Claro que temos que corrigir todos os problemas que criamos, e para tanto deveremos também usar tecnologias de fi m-de-tubo. Mas esta não é a solução

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34 Prevenção da Poluição que estamos buscando. Precisamos nos conscientizar que o desafi o agora não é criar problemas ambientais para depois resolvê-los. O desafi o é não gerar poluição! Não gerar resíduos!

Os caminhos para a não geração de resíduos são vários: devemos repensar as matériasprimas que utilizamos e rever os processos de fabricação, discutindo por que estes geram perdas de material e energia, e considerando se algumas dessas perdas, devidamente processadas, não seriam insumos para outros processos. Devemos, ainda, estudar o transporte de insumos e produtos, as embalagens e a vida útil de produtos e o destino desses pós-consumo. Todas essas ações resultam na Prevenção da Poluição.

Leo Baas, da Universidade de Lund, na Suécia, tem se dedicado a organizar esses conceitos compilando defi nições que podem ser muito úteis. Vejamos a defi nição de

Tecnologia de Baixo ou Nenhum Resíduo (LNWT – Low or No Waste Technology), proposta pela Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa em 1984 (Baas,

1996):

“(...) um método de manufatura (processo, planta industrial, complexo industrial) onde a totalidade de matérias-primas e energia é utilizada da forma mais racional e integrada no ciclo produtivo: matérias-primas-produção-consumo-recursos materiais secundários, de forma a prevenir qualquer impacto negativo no ambiente que possa afetar seu funcionamento normal.

Num sentido mais amplo, a tecnologia de baixa poluição e sem resíduos se preocupa não apenas com processos produtivos, mas também com o destino dos produtos num tempo de vida mais longo, seu fácil conserto e o seu reciclo e transformação após uso, de forma a prevenir danos ecológicos. O objetivo é atingir um ciclo tecnológico completo para o uso dos recursos naturais, compatível ou similar aos ecossistemas naturais.”

Esta é uma defi nição interessante? Que seja, mas não vamos fechar os conceitos agora (nem nunca!). Vamos usá-la como uma referência inicial que será aprofundada ao longo deste capítulo.

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 34 5/2/2003, 15:13:34

Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

35

Questão para reflexão:

Roland Clift, da Universidade de Surrey, ao sul de Londres, ilustra a evolução de práticas de fi m-de-tubo para tecnologias limpas com o seguinte gráfi co apresentado na Figura 1.3, abaixo. Como você usaria o conceito de inovação nesta interpretação? Tente interpretá-lo e responda.

Fonte: CLIFT, 1993, em CHRISTIE; et al., 1995.

FIGURA 1.3 – PRODUÇÃO LIMPA E LIMPEZA DE PROCESSOS

1.3 BARREIRAS A SUPERAR

Mas, afi nal de contas, se Prevenção da Poluição é a opção mais óbvia, por que tanto esforço para implementá-la?

Boa pergunta! Você poderia ajudar a respondê-la?

Na realidade, nem sempre novas propostas nascem óbvias. Elas assim se tornam depois de se mostrarem bem-sucedidas e, ainda assim, podem não ser implementadas na medida do esperado. Um exemplo próximo ao nosso tema seria o de ações preventivas e ações curativas da saúde. Alguém discordaria da prioridade sanitária ou econômica da implantação de ações de saneamento básico? Mesmo assim, aproximadamente 50% da população brasileira nos centros urbanos tem acesso a redes de esgotos (fonte:

OMS/UNICEF).

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 35 5/2/2003, 15:13:34

36 Prevenção da Poluição

Você já elaborou sua resposta à pergunta acima?

Vamos tentar dar a nossa. Primeiro, de um modo gráfi co; depois, apresentando algumas informações complementares.

Os profi ssionais que operam processos produtivos tendem a se enclausurar nos seus próprios métodos e paradigmas. Eles se aprofundam nas peculiaridades inerentes

à tecnologia da produção e em torno dela circulam suas experiências. A Figura 1.4 representaria esta afi rmação:

FIGURA 1.4 – SISTEMA NÃO INTERATIVO CORRESPONDENTE À LÓGICA DO PROJETISTA E DO

OPERADOR DO PROCESSO

O conhecimento circulando principalmente dentro da fábrica, ou dentro da lógica do setor.

Por outro lado, as pressões ambientais foram geradas a partir da constatação da degradação dos recursos naturais e dos impactos provocados na saúde da população.

Grandes acidentes ambientais contribuíram para o crescimento da demanda ambientalista e para a organização da sociedade nesta direção.

Na busca por soluções para os problemas ambientais, os setores organizados e as agências ambientais partem na direção dos empreendimentos geradores das cargas poluidoras. O embate entre ambientalistas e setores produtivos ocorre nos limites das fábricas. Ao lado do fi m do tubo que lança o efl uente no rio e em volta da chaminé

Prevenção da Poluição - Cap 1.indd 36 5/2/2003, 15:13:34

Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

37 que descarrega suas emissões na atmosfera, nada mais natural do que se acordar na implantação das chamadas “soluções fi m-de-tubo”.

Era o óbvio, e o que a sociedade exigia. Por outro lado, o pensamento produtivo mantém sua autonomia e poder de decisão. Cria-se a indústria ambiental com o objetivo de adequar a carga poluidora das emissões industriais à capacidade receptora dos corpos ambientais e, portanto, com a necessidade de considerar os fatores externos de interação e identifi car alternativas tecnológicas para a melhoria do desempenho ambiental. Ver Figura 1.5:

FIGURA 1.5 – LÓGICA DO CONTROLE EXTERNO SOBRE OS POLUENTES

As tecnologias fi m-de-tubo se caracterizam pelo baixo valor dos seus subprodutos, pelo alto custo da sua implementação e pelo fato de não eliminar os poluentes, mas apenas transferi-los de um meio receptor para outro.

A prevenção da poluição representa um novo paradigma para equacionar o problema da poluição, pois transfere o eixo da discussão dos limites da fábrica para o interior do processo produtivo (Figura 1.6). Para tal, torna-se necessário identifi car as causas da geração de resíduos, que estão normalmente associadas às falhas no processo produtivo.

Gerar resíduos implica custos adicionais com: perdas de matéria-prima, custos para tratamento e disposição fi nal.

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38 Prevenção da Poluição

FIGURA 1.6 – A MUDANÇA DE LÓGICA PARA TECNOLOGIAS LIMPAS

As práticas ambientais adotadas na produção pelas empresas e sociedade, em geral, determinam as políticas ambientais e vice-versa. O importante é perceber a necessidade do alinhamento entre estas, para que o discurso seja coerente com a prática.

Questão para reflexão:

Como você interpretaria a prioridade dada nos dias de hoje às medidas

“fi m-de-tubo”?

Analisando a evolução do comportamento das empresas em relação ao meio ambiente observamos que, ao longo dos anos, o meio ambiente foi considerado um aspecto de segunda ordem ou de menor importância, para o setor produtivo, tanto no campo econômico como no técnico. No campo econômico, ele tem sido tratado como uma externalidade. No campo técnico, medidas de controle da poluição têm sido tomadas (no melhor dos casos) para adequar as emissões aos padrões exigidos, sejam esses padrões de lançamento ou de concentração máxima no corpo receptor.

Historicamente, a regulamentação ambiental tem ocorrido em função da ocorrência de grandes acidentes. A crise do smog londrino de 1952 provocou o Ato do Ar Limpo

(Clean Air Act) de 1956, no Reino Unido. O acidente de Sevesso, na Itália, desencadeou a publicação de uma diretriz sobre Riscos de Acidentes Industriais por parte da

Comunidade Européia.

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

39

Questão para reflexão:

Pesquise os acidentes citados, resuma-os utilizando meia página para cada.

Apresente dois outros acidentes ambientais de importância, sendo um de abrangência internacional e outro de abrangência nacional. Aponte os seus desdobramentos em termos de medidas legais adotadas após sua ocorrência.

As medidas de controle ambiental têm se fundamentado na aplicação de padrões de lançamento de emissões, expressas na forma de concentrações de poluentes ou de cargas, e/ou na fi xação de concentrações máximas admitidas nos corpos receptores. Um exemplo claro disto é a Resolução CONAMA 20, de 1986.

Um dos princípios aprovados em Estocolmo, em 1972, estabelece que deve ser controlado o lançamento de substâncias tóxicas, ou outros compostos, no meio ambiente, se as quantidades ou concentrações destes excederem sua capacidade de absorção. Em

1975, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) popularizou o Princípio do Poluidor Pagador. Este princípio estabelece que o produtor deve se responsabilizar pelos custos ambientais, assim como os provocados a pessoas e propriedades. A ótica que prevaleceu nos anos 70 foi de aceitação do inevitável lançamento de poluentes no meio ambiente, estabelecendo-se medidas para seu controle.

Procurou-se transferir os custos ambientais para os produtores, de forma que estes assumissem as medidas cabíveis para minimizar seu impacto.

Questão para reflexão:

Analise o Princípio do Poluidor Pagador e o impacto deste no setor produtivo.

Uma coisa é certa: o Princípio Poluidor Pagador trata de uma visão na qual a relação com o meio ambiente só faz agregar custos ao processo produtivo. Neste sentido, a tecnologia ambiental representa a interface que tem por objetivo adequar os lançamentos

à capacidade do corpo receptor.

A rápida expansão da produção industrial e dos seus impactos obrigou o aprimoramento da compreensão da relação produção–meio ambiente. O meio ambiente passou a ser visto não apenas como um conglomerado de corpos receptores. A preservação da

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40 Prevenção da Poluição natureza tornou-se um valor em si mesmo. Além disso, novas funções são reconhecidas: a natureza como fornecedora de recursos, renováveis ou não, cuja preservação se constitui em pré-requisito para a continuidade da atividade produtiva; a natureza como fornecedora de informações fundamentais para o desenvolvimento tecnológico.

A sociedade, em geral, e os órgãos ambientais, em particular, passaram a exigir da indústria a adoção das “melhores técnicas” para os tratamentos fi m-de-tubo, não bastando atender a determinados padrões ambientais, exigindo do setor produtivo a utilização das melhores opções tecnológicas existentes.

Isto, de certa forma, quebrou uma barreira na relação entre as agências reguladoras e os agentes produtivos. Os fi scais passaram de meros controladores de descargas para avaliadores das tecnologias utilizadas para tratar as emissões. Mesmo que inicialmente utilizada para exigir melhores tratamentos fi m-de-tubo (Baas, 1996), o uso desta exigência começou a transferir a discussão ambiental para o interior das fábricas.

Nem sempre, contudo, a melhor técnica disponível está ao alcance da empresa avaliada. Surge a necessidade de se encontrar critérios que levem em consideração a capacidade do produtor de pagar pela melhor técnica disponível no mercado para abater determinados poluentes. Às exigências de aplicação da melhor tecnologia disponível

(BAT – Best Available Technology) agregam-se considerações econômicas e surgem as melhores técnicas economicamente disponíveis.

Tendo a discussão das medidas de controle ambiental atingido o interior das fábricas, trazendo, inclusive, critérios econômicos para a decisão das técnicas a serem adotadas, não tardaria para o conceito de prevenção vir a ser considerado.

Nesta última década, avanços importantes aconteceram. A partir do Tratado de

Maastricht (1992), a Comunidade Européia adotou o Princípio da Precaução, o qual estabelece que a possibilidade de um impacto ser causado por determinados processos ou produtos deve ser considerada como um fato, mesmo não existindo informações sufi cientes que o comprovem. Com dezenas de milhares de novos compostos sendo sintetizados anualmente, este princípio, que uma década antes pareceria impensável, desponta como indispensável.

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

41

Este princípio também determina que ações contundentes devem ser tomadas, mesmo antes de existirem provas científi cas de causa-efeito. O ônus da prova passa da vítima para o empreendedor (O’Riordan, 1995), e, nesse sentido, o cuidado com a gestão do processo de produção passa a ganhar nova importância.

Questão para reflexão:

Discuta o Princípio da Precaução e o impacto deste no setor produtivo.

Ainda na década de 90, o princípio do Desenvolvimento Sustentável ganhou espaço em nível mundial, a partir da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e

Desenvolvimento, RIO-92. Inicialmente defi nido pela Comissão Brundtland (1983), este princípio estabelece que o desenvol vimento atual não deve comprometer a capacidade de gerações futuras de também atenderem às suas necessidades.

Em 1990, o Parlamento britânico aprovou o Ato de Proteção Ambiental, EPA 90, que estabelece a política do Controle da Poluição Integrado (IPC). Este documento aponta para dois instrumentos, que devem ser utilizados pelas empresas potencialmente poluidoras:

• a melhor tecnologia disponível que não implique custos excessivos,

BATNEEC (Best Available Technique Not Entailing Excessive Cost), e

• a melhor opção ambiental praticável, BPEO (Best Practicable Environmental

Option), (DOE, HMIP, 1991).

O documento acima defi ne BATNEEC como técnicas que permitem prevenir a emissão de substâncias prescritas, exige que, caso a prevenção não seja possível, as emissões devem ser minimizadas e tornadas inofensivas e introduz uma gradação de prioridades com ênfase para a prevenção. Esta visão foi também adotada na Comunidade

Européia no Ato de Prevenção e Controle Integrados da Poluição (IPPC/95).

Um outro aspecto a ser observado na legislação britânica e européia recente diz respeito à ampliação do conceito de tecnologia utilizado. O termo technique é utilizado para abranger não apenas a tecnologia propriamente dita, mas os aspectos gerenciais e operacionais a ela relacionados.

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42 Prevenção da Poluição

Mesmo assim, o conceito das melhores tecnologias não consegue se desvincular das práticas de fi m-de-tubo com as quais estiveram inicialmente associadas.

Instrumentos econômicos também têm sido intensamente utilizados para controlar a poluição, permitindo grande fl exibilidade na aplicação, podendo promover também a adoção de medidas inovadoras nos processos produtivos.

Entre estes citamos:

Inserção de custos na produção a partir da cobrança de multas pela emissão de poluentes ou cobrança de taxas pelo uso de equipa mentos para o descarte fi nal de resíduos.

Oferta de subsídios e/ou incentivos fi scais na adoção de formas mais limpas de produção.

Autorizações de emissão (TEPs – Tradeable Emission Permits).

Dentre os instrumentos apresentados, as TEPs representam a forma mais nova de encarar os problemas ambientais. A idéia baseia-se na criação de um mercado de quotas ambientais sujeito a normas predefi nidas. Isso oferece aos empreen dedores maior liberdade para achar soluções de menor custo e menor impacto ambiental. Empresas poluidoras podem se articular para defi nir o elenco de medidas que cada uma deverá tomar para atender aos padrões ambientais fi xados pelos organismos reguladores. De outro lado, nenhum impacto adicional é gerado porque os níveis gerais de emissões são controlados (Turner, 1995).

Questão para reflexão:

Apresente duas situações nas quais têm sido utilizadas as permissões de emissão negociáveis, ou nas quais seria interessante utilizá-las. Comente as vantagens e desvantagens da sua aplicação.

As idéias mais recentes de Prevenção da Poluição (P2) ampliam as opções a serem consideradas para o equacionamento da relação produção e meio ambiente.

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Motivação: das Práticas de Fim-de-Tubo para Prevenção da Poluição

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Segundo Joseph Ling, ex-vice-presidente da empresa 3M, em 1975 esta empresa lançou seu programa P3, Prevenção da Poluição se Paga (Shen, 1995), o qual sustentava que a redução ou eliminação da poluição na fonte permitiria eliminar ou reduzir os custos de tratamento e limpeza e, ao mesmo tempo, a conservação de matérias-primas, tornando o processo produtivo mais efi ciente e menos custoso. A Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa convidou a empresa a apresentar esta proposta em

Paris, no ano de 1976, no seminário Princípios e Criação de Tecnologia sem Resíduos, propondo sua divulgação.

Apesar de a Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA) promover no fi m da década de 70 discussões sobre prevenção da poluição, o Congresso americano só deu o devido valor ao enfoque preventivo quando o assunto dos resíduos perigosos tornou-se público. Em 1989 a EPA montou seu Escritório de Prevenção da Poluição, e um ano depois o Congresso do Estados Unidos aprovou o Ato de Prevenção da Poluição (Ling, em Shen, 1995).

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44 Prevenção da Poluição

FECHAMENTO

Neste capítulo procuramos chamar a atenção para a necessidade de imprimir um ritmo mais acelerado

à redução do impacto ambiental das atividades produtivas e dos produtos em si. Vimos que os avanços tecnológicos não se mostram suficientes para garantir um desenvolvimento sustentável, se for mantida a postura, hoje predominante, de tentar controlar a poluição com base em medidas do tipo Fim-de-tubo. O Fator 10 tem que ser atingido em um prazo inferior a 50 anos.

Discutimos possíveis razões para entender por que essas medidas acabaram sendo priorizadas em detrimento da

Prevenção da Poluição. Ampliamos a visão conciliando interesses econômicos e ambientais com base na compreensão de que poluição é um indicador de ineficiência no uso dos recursos naturais e financeiros.

Entendemos que para as corporações se tornarem mais competitivas, elas devem enfrentar o desafio ambiental como uma oportunidade para inovar.

Constatamos, também, que a prática de Prevenção da

Poluição vem crescendo cada vez mais no mundo e hoje muitas empresas já apresentam excelentes resultados.

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Preocupações Ambientais

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CAPÍTULO 2

PREOCUPAÇÕES AMBIENTAIS

Asher Kiperstok Universidade Federal da Bahia • UFBA • TECLIM

Marc Rosen University of Ontario Institute of Technology*

(...) o medo ecológico é um medo planetário.

“A Terra ameaçada”, “A Terra com a corda no pescoço”, “A Terra em perigo de morte”,

“A natureza na U.T.I.”, “Nós só temos um planeta”, dizem as manchetes dos jornais, as capas de revistas, os programas de televisão, construindo a ecologia-espetáculo que, incrédulos ou persuadidos, habituamo-nos agora a contemplar.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Descrever os impactos ambientais mais significan tes, suas causas e abrangências.

Analisar as categorias de impacto.

Enquadrar as questões ambientais por categoria.

Avaliar a redução dos impactos com a visão da

No capítulo anterior discutimos, entre outras coisas, a evolução de alguns princípios ambientais.

Esta evolução se deu em razão do avanço dos impactos causados pelo homem sobre o meio ambiente. De forma geral, o agravamento das condições ambientais foi exigindo um aprimoramento dos meios necessários para a reversão dos problemas gerados. Soluções do tipo fi m-de-tubo não são mais sufi cientes para enfrentar os problemas.

Mas de que problemas estamos falando? Claro que todos nós temos uma resposta para esta pergunta. Vamos neste capítulo nos pôr de acordo ou estabelecer uma base comum sobre os problemas ambientais mais relevantes, suas causas e abrangências.

Não esperemos chegar a uma visão única quanto à gravidade destes ou com relação

à prioridade que deve ser dada na sua reversão. Nossas visões dependem da nossa realidade, assim como das informações que detemos e das experiências que vivemos.

Uma visão abrangente desses problemas é importante para que possamos esclarecer o que esperamos ao implementar programas de P2.

* A contribuição de Marc Rosen foi traduzida do inglês e incorporada ao texto pelos autores brasileiros.

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46 Prevenção da Poluição

Para conseguir uma razoável cobertura dos problemas ambientais, vamos seguir dois caminhos: primeiro, vamos propor a construção de uma listagem com a contribuição de todos e de cada um de nós; num segundo momento, vamos discutir as principais categorias para enquadramento dos problemas ambientais e procurar alocar os problemas listados nas categorias indicadas.

Por último, discutiremos as medidas cabíveis para reverter os problemas relacionados e o papel da P2 nesta tarefa.

2.1 IMPACTOS AMBIENTAIS: QUAIS SÃO?

Aos alunos:

Quais são, afi nal, esses tão falados impactos ambientais? Você pode imaginar pelo menos cinco impactos causados pelo homem que podem ser prejudiciais ao meio ambiente ou à saúde humana? Ou, ainda, algumas causas para esses problemas? Tente listar alguns desses impactos.

Vamos conferir alguns?

Deposições ácidas.

Mudança climática e efeito estufa.

Degradação da qualidade das águas subterrâneas.

Degradação de águas superfi ciais.

Degradação do solo.

Redução de hábitat e biodiversidade.

Buraco da camada de ozônio.

Névoas fotoquímicas (smog).

Degradação das condições de habitabilidade urbana.

Inserção de substâncias tóxicas na cadeia alimentar.

Outros problemas ambientais.

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Preocupações Ambientais

47

Vamos agora fazer um breve resumo dos impactos citados considerados mais importantes e suas implicações.

DEPOSIÇÕES ÁCIDAS

As nuvens, chuva, orvalho e névoa já são naturalmente um pouco ácidas, em função da dissolução do gás carbônico e a conseqüente formação de ácido carbônico. O pH da chuva normalmente se situa em torno de 5,6. Emissões atmosféricas de dióxido de enxofre (SO x

), óxidos de nitrogênio (NO x

) e compostos orgânicos voláteis (VOCs), decorrentes das atividades humanas, conduzem à formação de ácido sulfúrico, ácido nítrico, ozônio e peróxido de hidrogênio, e, por conseguinte, causam aumento na acidez da precipitação. Em alguns lugares da Europa e dos Estados Unidos chegam a se verifi car chuvas com pH na faixa de 3,0 (Davis e Cornwell, 1998). O exemplo da acidifi cação das encostas da Serra do Mar em torno de Cubatão, São Paulo, o ataque à cobertura vegetal e a conseqüente desestabilização de alguns locais da encosta ilustram este problema.

Um dos maiores responsáveis por esse processo é a queima de combustíveis fósseis.

Emissões provenientes de perdas de combustíveis e outros compostos para a atmosfera contribuem também com este problema. Enquanto que os compostos de enxofre decorrem da presença deste elemento no óleo cru, os NO x

são formados principalmente pela oxidação do nitrogênio atmosférico em condições de combustão que podem ser evitadas.

O uso de petróleo de baixo teor de enxofre reduz este problema. Alternativamente, o enxofre pode ser removido da linha de produção de combustíveis nas refi narias de formas variadas, inclusive na forma de enxofre elementar.

Emissões de VOCs são, antes de tudo, perdas indesejáveis de produtos para a atmosfera, decorrentes de condições inadequadas de transporte, armazenamento, carga e descarga. Em países como os Estados Unidos e Reino Unido, cuja matriz energética se baseia fundamentalmente na queima de combustíveis fósseis, as centrais termoelétricas se constituem em fator central na geração de SO x

. Neste sentido, a substituição do carvão mineral pelo gás natural, a partir da exploração intensiva deste combustível no Mar do Norte, representou uma redução substancial do problema no Reino Unido. No Brasil, a queima de combustível no transporte rodoviário se destaca entre as fontes deste problema, associado com as fontes de poluição industrial. Medidas de aumento da efi ciência energética dos processos produtivos, a racionalização do transporte e melhoria de transporte coletivo estão entre as principais medidas a serem consideradas.

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48 Prevenção da Poluição

Uma das maiores conseqüências decorrentes das deposições ácidas é a acidificação do solo e dos sistemas aquáticos, ocasionando perda de fertilidade. Além disso, provoca sérias perdas econômicas e culturais ao corroer edificações, equipamentos e obras-de-arte.

MUDANÇA CLIMÁTICA E EFEITO ESTUFA

Mudanças no clima acontecem naturalmente, mas há uma tendência a acreditar que essas mudanças vêm sendo mais pronunciadas devido às atividades humanas durante o último século.

A temperatura global média aumentou 0,5 o C desde a Revolução Industrial

(Houghton et al., 1990). Neste mesmo período ocorreu um marcante aumento no lançamento de gases que conduzem ao aquecimento, especialmente dióxido de carbono oriundo da queima de combustíveis fósseis (Boden et al.,1990), e foi observado que houve um aumento significativo na concentração de gás carbônico na atmosfera (de aproximadamente 280 ppm em uma base de volume, em 1800, para aproximadamente 350 ppm, em 1990) (Houghton et al., 1990), gerando o conhecido efeito estufa. O acúmulo de CO

2

na atmosfera cria uma camada que aumenta a reflexão de ondas de calor de volta à Terra.

Alguns pesquisadores prevêem, para as próximas décadas, um aumento na temperatura global da ordem de 0,5 o

C a 5 o

C, juntamente com numerosos efeitos correspondentes, como, por exemplo, uma elevação do nível do mar de 20-40cm, o que levaria à inundação de muitas cidades litorâneas. A avaliação dessas medidas meteorológicas ocorre em períodos de 25 anos.

A causa principal do aquecimento global é o aumento de lançamento dos gases associados ao efeito estufa. Estes gases absorvem radiação na faixa de 8-20 micrômetros (Graedel e Allenby, 1995), e assim interferem no balanço energético da Terra.

Alguns exemplos dos gases associados ao efeito estufa são:

CO

2

(gás carbônico);

CFCs, como R-11 (CFC-l3) e R-12 (CF

2

Cl

2

)

(compostos de cloro, fl úor, carbono);

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Preocupações Ambientais

49

CH

4

(metano);

NO x

(óxidos de nitrogênio).

Um balanço energético da Terra pode ser descrito da seguinte forma:

A energia de entrada absorvida pela Terra é de radiação solar de onda pequena; já a saída de energia emitida para o espaço é de radiação solar de onda longa.

O resultado desta equação é o aumento dos níveis de energia (na forma de calor) da

Terra e de sua atmosfera.

Algumas implicações básicas deste balanço energético global são descritas a seguir:

O resultado da equação é zero quando não há ocorrência de aquecimento global, o que implica que a entrada e a saída de energia são iguais.

Quando as concentrações dos gases associados ao efeito estufa aumentam na atmosfera, a saída de energia é reduzida, enquanto que a entrada de energia permanece constante. Dessa forma, ocorre acumulação de energia, aumentando a temperatura da Terra.

Eventualmente, se as concentrações desses gases se estabilizam em outro patamar, um equilíbrio de energia é restabelecido numa temperatura planetária média, maior.

A redução do ritmo de produção dos chamados gases estufa é a principal medida a ser tomada para combater este problema. Mais recentemente, contudo, têm sido introduzidos incentivos para a retirada ou seqüestro do CO

2

da atmosfera. Entre os mecanismos para promover esta retirada incluem-se o plantio de fl orestas novas e a captação de CO

2

para injeção em reservatórios de petróleo. Contudo, as medidas de maior impacto são aquelas que levam a uma redução das emissões. Entre estas, podem ser citadas a otimização do uso da energia e a substituição de fontes tradicionais pelas chamadas fontes alternativas de energia.

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50 Prevenção da Poluição

Alguns autores apontam para a necessidade de “descarbonização” da economia mundial. Isto é, reduzir a relação entre riquezas produzidas e a quantidade de CO

2 gerada. Na implementação de programas de P2 deve-se identifi car oportunidades para a eliminação de inefi ciências energéticas, que geralmente são muito altas.

DEGRADAÇÃO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS

Só para termos uma idéia da quantidade total de água existente no planeta,

97,13% se encontram nos mares e oceanos. Dos 2,87% de água doce restantes,

77,2% estão concentrados nas geleiras e calotas polares; 22,4%, no subsolo; 0,35%, nos lagos e pântanos; 0,04%, na atmosfera; e apenas 0,01%, nos rios. Portanto, as

águas subterrâneas são fundamentais em muitas partes do mundo, até mesmo como a principal fonte para o consumo humano.

Há dois tipos de preocupações principais com relação à degradação de águas subterrâneas:

Quantidade, porque a extração de águas subterrâneas reduz o atual potencial hídrico;

Qualidade, porque a pureza da água está sendo degradada pela poluição.

Entre as principais causas da degradação da qualidade das águas subterrâneas incluem-se:

• efl uentes líquidos, principalmente provenientes de processos industriais;

• atividades agrícolas;

• aterros sanitários, mal projetados ou operados;

• disposição de efl uentes líquidos em poços;

• vazamentos de petróleo e seus derivados;

• lançamento de outras substâncias químicas;

• esgoto doméstico;

• aplicação de pesticidas e herbicidas;

• percolação do chorume de aterros, principalmente os industriais.

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Preocupações Ambientais

51

A rigor, a alteração da qualidade da água pode ser decorrente também de causas na turais, mas normalmente esta não é a forma que mais preocupa. A poluição decorrente das atividades desenvolvidas pelo homem

é a que deve merecer os cuidados especiais.

A divulgação dos grandes acidentes ambientais, como os derramamentos de óleo, desvia um pouco a atenção para o problema da contaminação contínua a que estão sujeitos os mananciais de água, tanto subterrâneos como superficiais, principalmente por substâncias tóxicas e persistentes. Vazamentos de tanques de combustíveis nos postos de gasolina, lançamento de óleo lubrificante no solo, penetração de efluentes industriais no solo pela

USO DE HERBICIDAS E PESTICIDAS

É interessante refletir sobre as atividades agrícolas, o uso de pesticidas, herbicidas e o impacto destes não só para as águas subterrâneas, como também para o solo, para as águas superficiais e o meio ambiente como um todo.

Os herbicidas são substâncias empregadas na destruição de ervas daninhas, e os pesticidas são substâncias empregadas no combate às pragas.

Eles foram concebidos como elementos causadores de danos a alguns sistemas biológicos, sendo, portanto, diretamente, motivo de preocupação ambiental.

O indesejável dano ambiental e biológico causado por herbicidas e pesticidas ocorre por:

• toxicidade das combinações usadas;

• longo tempo de degradação das combinações no ambiente;

• intensidade de aplicação;

• métodos de aplicação utilizados.

Pressões para o aumento de produção de alimentos tendem a aumentar o uso de herbicidas e pesticidas. Estudos indicam que o uso deles pode ser reduzido por:

• otimização cuidadosa do uso, para que a aplicação só atinja a parte da planta que deve de fato ser tratada, para que ocorra o mínimo impacto ambiental;

• uso de métodos de controle alternativos para ervas daninhas e outros tipos de pestes prejudiciais às plantas.

falta de estanqueidade das canalizações que os transportam. Boa parte destes impactos se deve a perdas de matérias-primas para o solo. Sua redução implicaria, então, não apenas numa efetiva redução do impacto ambiental causado, como, também, em ganhos econômicos para os nossos negócios.

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52 Prevenção da Poluição

SITES INTERNET

Vale a pena dar uma olhada! A seguir sugerimos alguns sites interessantes sobre a água, onde você pode encontrar informações a respeito do ciclo da

água, das previsões futuras de sua escassez, da importância da evaporação no défi cit hídrico, etc.

http://www.proagua.gov.br

http://www.cnrh-srh.gov.br

http://www.hidricos.mg.gov.br

DEGRADAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS

A qualidade e a composição química das águas superfi ciais são afetadas pelo próprio ambiente natural (confi guração, tipo de ambiente circundante, etc.), mas os impactos causados pela atividade humana merecem especial destaque.

As mudanças na composição química das águas superfi ciais, associadas às atividades humanas, são geralmente causadas por:

• emissões diretas (por exemplo: esgotos sanitários, excedentes de fertilizantes, efl uentes industriais e derramamentos de óleo);

• emissões indiretas (por exemplo: incidência de contaminantes atmosféricos nas águas, chuvas ácidas).

Entre as principais preocupações com a qualidade das águas de superfície estão:

• concentração de organismos, tais como vírus e bactérias patogênicos e redução dos níveis de oxigênio dissolvido na água em razão do lançamento descontrolado de esgotos sanitários. É comum encontrarmos nas nossas cidades cursos d’água em condições anaeróbias, com o característico mau cheiro destes processos;

• lançamento de efl uentes contendo substâncias tóxicas que irão se bioconcentrar ao longo da cadeia alimentar. Freqüentemente, o lançamento deste tipo de compostos se dá associado ao descarte de compostos orgânicos

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Preocupações Ambientais

53 biodegradáveis consumidos como alimentos pelas espécies aquáticas, agravando o quadro de inserção de tóxicos na cadeia alimentar;

• acidifi cação de lagos e rios (ocorre freqüentemente devido à precipitação

ácida). O nível em que isso ocorre varia para cada corpo de água, porque alguns corpos podem retardar os efeitos melhor do que outros, dependendo das características do solo e da rocha adjacente ao corpo d’água;

• assoreamento provocado pelo arraste de substâncias que se depositam no fundo dos rios, diminuindo a profundidade do leito;

• eutrofização, fenômeno causado por processos de erosão, arraste e decomposição de restos de material orgânico, que fazem aumentar a concentração de nutrientes como N-nitrogênio e P-fósforo no meio aquoso, provocando a proliferação de algas, o que torna a água turva, dificultando a fotossíntese e, conseqüentemente, reduzindo a concentração de oxigênio dissolvido, aumentando a toxidez do meio e matando os organismos que nele vivem.

A degradação e exaustão dos recursos hídricos vêm-se agravando de forma acentuada, colocando o assunto no centro das atenções ambientalistas do mundo inteiro. Um dos principais fatores que tem contribuído para gerar esta situação e difi cultar sua solução tem sido o uso irracional dado à água. Consumos desnecessários, perdas e desperdícios permeiam a realidade do trato dos recursos hídricos. A minimização das perdas, a otimização do uso, o reuso e o reciclo entram cada vez mais na pauta da gestão dos processos produtivos.

Questão para reflexão:

Levante exemplos de duas áreas ou locais severamente atingidos por algum dos problemas acima citados e comente.

DEGRADAÇÃO DO SOLO

Práticas agrícolas inadequadas e a disposição de resíduos tóxicos são as principais causas deste problema.

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54 Prevenção da Poluição

A produção agrícola tem-se fundamentado no uso intensivo do solo com técnicas baseadas numa mecanização pesada e no uso de fertilizantes e praguicidas sintéticos.

Isto tem conduzido a uma exaustão precoce e à perda de áreas agricultáveis devido ao problema da erosão. A introdução de práticas menos agressivas de manejo do solo agrícola, que leve em consideração a lógica natural dos ecossistemas, vem crescendo.

A denominada agricultura orgânica procura seu lugar no mercado, alicerçada na oferta de produtos livres de compostos tóxicos, nocivos à saúde humana. Sua evolução poderá oferecer as alternativas necessárias para atender às necessidades humanas com menor impacto ambiental. Mesmo dentro da chamada agricultura tradicional existe grande espaço para se reduzir seu impacto ambiental, a partir do uso mais racional dos insumos agrícolas.

O solo tem sido um dos destinos mais utilizados para a disposição de resíduos tóxicos de origem industrial. Mais do que a implantação de soluções para a disposição fi nal “adequada” deve-se procurar a minimização da geração desses resíduos e, principalmente, a redução, e até a eliminação, do uso de compostos tóxicos.

O solo pode ser um importante aliado na prevenção da degradação das águas subsuperfi ciais, pois tem a capacidade de fi ltrar, acomodar e diluir contaminantes, enquanto eles se movem em direção às águas subterrâneas.

As principais propriedades físicas e químicas do solo que defi nem suas “características” e que, conseqüentemente, infl uenciam o destino dos compostos tóxicos são: classe do solo, porosidade, permeabilidade e área superfi cial, conteúdo de matéria orgânica e capacidade de troca de cátions.

Atenção!

Na verdade, os diversos meios físicos aqui discutidos separadamente não são isolados uns dos outros. Eles se encontram interligados, de modo que uma contaminação do solo geralmente leva a problemas de contaminação do lençol freático, assim também como há uma troca intensa entre a superfície marinha e o ar.

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Preocupações Ambientais

55

REDUÇÃO DE HÁBITAT E BIODIVERSIDADE

Ecossistema pode ser defi nido como um conjunto estrutural e funcional onde organismos vivos interagem com o ambiente físico-químico, de modo a haver interdependência entre estes segmentos naturais. Dessa forma, qualquer alteração em qualquer um dos elos da cadeia (componentes bióticos e abióticos) altera o ecossistema como um todo.

A extinção da fauna e da fl ora está ocorrendo, na maioria dos casos, devido às atividades antrópicas, conduzindo a uma série de impactos, tais como:

• quebra de cadeias alimentares; e

• redução na diversidade genética.

Isso pode limitar, por exemplo, o potencial para a criação de novos medicamentos e novas formas de energia, de biomassa.

Redução na biodiversidade é causada, em grande parte, pelas perdas e/ou fragmentação de hábitats naturais, decorrentes da expansão urbana, aumento de áreas dedicadas a usos agrícolas, desmatamento associado a uma série de usos, exploração acentuada dos recursos naturais e inserção de compostos tóxicos, estranhos aos ambientes naturais, entre outros.

Estão sendo particularmente ameaçadas grandes áreas contínuas de terra necessárias para a sobrevivência de algumas espécies.

O uso racional e efi ciente dos recursos naturais se apresenta como uma necessidade premente para a reversão deste quadro negativo.

BURACO DA CAMADA DE OZÔNIO

“A história de um dos maiores problemas ambientais da atualidade a nível global, a destruição da camada de ozônio (...), teve início em 1930, quando o químico Thomas

Midgley Jr., dos Laboratórios de Pesquisa da General Motors, nos Estados Unidos, foi solicitado a desenvolver novo composto de refrigeração que não fosse tóxico, nem infl amável, e apresentasse estabilidade química. (...) O resultado do trabalho levou à produção, já a partir de 1931, de um produto conhecido atualmente como

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56 Prevenção da Poluição

CFC-12 (diclorodifl uormetano), e a partir de 1934 teve início a produção de CFC-11

(triclorofl uormetano). Nos anos seguintes, os CFCs provaram ser os compostos ideais para muitas aplicações, e não seria exagero afi rmar que muito do moderno estilo de vida do século

XX só foi possível devido à utilização, em larga escala, desses produtos. Em 1974 foi publicado o primeiro artigo alertando que os CFCs presentes na atmosfera poderiam destruir a camada protetora de ozônio.” (Tanimoto et al., 1999)

Dica!

O texto acima foi retirado de um artigo da revista TECBAHIA, dos meses de maio/ago. 1999, e pode ser lido na íntegra no site da Rede de Tecnologias

Limpas da Bahia – TECLIM:

http://www.teclim.ufba.br

A camada de ozônio é uma camada natural da estratosfera (faixa que se estende entre

15 e 50km de altitude) que funciona como um fi ltro, impedindo a passagem de raios ultravioleta provenientes do sol. Com a diminuição da concentração de ozônio (O

3

) na estratosfera, diminui a absorção destas radiações, aumentando sua incidência sobre os sistemas biológicos a ela sensíveis. Algumas das conseqüências da destruição da camada de ozônio são: danos ao homem – catarata, câncer de pele, queimaduras, problemas no sistema imunológico e danos à natureza – à vegetação e agricultura, diminuindo a capacidade de fotossíntese e o crescimento das plantas.

Foi observado que a quantidade total de ozônio em algumas regiões polares foi reduzida em mais de 50% ao longo dos últimos 40 anos (Graedel e Allenby, 1995).

“A primeira ação efetiva visando à eliminação do consumo dos CFCs surgiu em

1978, quando esses produtos foram proibidos como propelentes em latas de spray nos

Estados Unidos, Canadá, Noruega e Suécia. Nos anos seguintes, desenvolveu-se um forte consenso entre governos e na comunidade científi ca internacional sobre a necessidade de proteger a camada de ozônio. O primeiro passo para transformar consenso em ação global foi dado em março de 1985, quando foi adotada a convenção de Viena para a proteção da camada de Ozônio.” (Tanimoto et al., 1999)

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Preocupações Ambientais

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Entre as substâncias químicas que causam a depreciação da camada de ozônio encontram-se :

Clorofluorcarbonos (CFCs). Estes compostos de cloro, flúor e carbono são os principais responsáveis pela destruição da camada de ozônio.

Emissões superficiais de CFCs podem permanecer na atmosfera por décadas, podendo ser transportados para a estratosfera por processos atmosféricos. Exemplo: uma molécula de CFC-12 é quebrada por ação ultravioleta, liberando cloro (Cl):

O mecanismo de destruição da camada de ozônio então seria:

O mesmo mecanismo é válido também para o Br (Bromo), o OH (óxido de hidrogênio) e NO (óxido nítrico), que têm a capacidade de remover o ozônio da estratosfera através de reações catalíticas.

Óxido nítrico (NO). Emissões de NO, oriundas de jatos, diretamente nas camadas superiores da atmosfera também reduzem a concentração de ozônio estratosférico, como demonstrado na reação seguinte:

Hidrocarbonetos halogenados. As substâncias que contêm bromo e que são usadas em extintores de incêndio e como fumigantes são objeto de grande preocupação, pois o bromo tem um efeito maior de degradação do ozônio e também maior tempo de vida do que o cloro.

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58 Prevenção da Poluição

A eliminação do uso de algumas dessas substâncias e sua substituição por outras, menos agressivas, são os principais meios para se enfrentar este problema.

NÉVOAS FOTOQUÍMICAS (SMOG)

O smog é um termo que combina as palavras inglesas smoke e fog. No Brasil usamos, analogamente, o termo Fublina, que é uma junção das palavras “fumaça” e “neblina”. A

Fublina é causada por uma reação fotoquímica entre os poluentes, a qual é defl agrada pela luz do sol sobre ar estagnado, podendo causar danos à saúde humana e aos cultivos de terra e reduzir a visibilidade.

O ozônio (O

3

) é o principal componente do denominado smog fotoquímico, produzido próximo à superfície da Terra e nas camadas atmosféricas mais baixas.

A Fublina é produzida a partir das seguintes reações químicas:

*NMHC denota hidrocarbonetos, como, por exemplo, etileno, butano (exceto metano).

A formação de ozônio nas camadas superfi ciais da Terra pode ser controlada através da limitação das emissões de NMHC e dos óxidos de nitrogênio (NO x

) (principalmente

NO e NO

2

). Essas emissões provêm das múltiplas aplicações de combustíveis fósseis

(carvão, petróleo, gás natural e xisto) na geração de energia, uso de automóveis e outros meios de transporte, na indústria e no setor doméstico. A minimização das emissões de hidrocarbonetos na fonte, além de prevenir este problema, traz benefícios à saúde das pessoas em contato com essas emissões, e representa economia de matérias-primas. Já as emissões dos NO x

tendem a ser reduzidas a partir de modifi cações nos processos de combustão.

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Preocupações Ambientais

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DEGRADAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE HABITABILIDADE URBANA

O desordenado crescimento das cidades, devido tanto a problemas estruturais da sociedade como à baixa qualidade de muitas administrações municipais, tem provocado diversos problemas que concorrem para a degradação da qualidade de vida e saúde da população.

Uma parcela importante da população urbana dos países subdesenvolvidos, por fi car excluída do mercado imobiliário, se vê obrigada a equacionar sua necessidade de moradia a partir de ocupações ilegais, desordenadas e que permanecem desprovidas de uma infra-estrutura adequada. Apesar dos serviços de abastecimento d’água e energia atingirem quase a totalidade dos moradores das grandes cidades, estes deixam muito a desejar em termos de qualidade. Já o esgotamento sanitário não alcança uma grande parcela da população urbana pobre, obrigando-a a conviver em contato com diversos agentes causadores de doenças. Os freqüentes episódios de enchentes são o resultado de desequilíbrios ambientais provocados pelo adensamento e a conseqüente impermeabilização descontrolada do solo urbano.

Canais de esgotos a céu aberto, no lugar dos rios, depósitos de lixo espalhados por todo lado, provocando a proliferação de vetores causadores de variadas doenças, e índices inaceitáveis de qualidade do ar, trazendo doenças que afetam o aparelho respiratório são aspectos corriqueiros da vida das nossas cidades.

Além de devolver ao meio ambiente a água na forma de esgotos, mais da metade da água extraída dos mananciais sequer nos traz qualquer benefício. Ela se perde ao longo do seu transporte ou é desperdiçada nos domicílios. Isto é, exerce-se uma pressão enorme sobre o meio ambiente e sequer tiramos o devido proveito. Enquanto uma parcela importante da população passa fome, outra desperdiça alimentos sem o menor cuidado.

Dessa forma, não dá para acreditar que a solução para os problemas anteriormente listados seja apenas tratar adequadamente os esgotos, dispor o lixo em aterros sanitários ou aproveitar restos de comida para gerar compostos orgânicos. É necessário encontrar respostas mais efi cientes para aumentar a produtividade dos recursos naturais. A busca por níveis mais altos de ecoefi ciência é uma necessidade ambiental premente, mas, além disso, é um pré-requisito para a construção de economias competitivas e cidades sustentáveis.

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60 Prevenção da Poluição

INSERÇÃO DE SUBSTÂNCIAS TÓXICAS PERSISTENTES NA CADEIA ALIMENTAR

A inserção de substâncias tóxicas na cadeia alimentar representa ameaça de desequilíbrio a todo o ecossistema. A origem dos contaminantes pode ser: lixiviados de solos agrícolas, água subterrânea contaminada, água de sedimentos contaminados, córregos urbanos, descargas atmosféricas, deposição de sedimentos, indústria, esgoto doméstico, depósitos de lixo.

O caminho que as substâncias químicas percorrem no ambiente aquático pode ser descrito da seguinte forma: dissolução das substâncias na água; adsorção em partículas orgânicas ou inorgânicas; incorporação pelos organismos gerando biotransformação

(metabolismo); bioacumulação e biomagnifi cação.

A biotransformação é o processo através do qual as substâncias são metabolicamente tornadas mais solúveis em água e, portanto, mais facilmente eliminadas; é a conversão biologicamente catalisada de uma substância química em outra. Este novo composto se comporta diferentemente no organismo, com respeito à distribuição nos tecidos, bioacumulação, persistência e rota de excreção, além de suas propriedades farmacológicas e toxicológicas.

A bioacumulação ou bioconcentração ocorre quando a taxa de assimilação de uma substância química pelo organismo excede sua taxa de eliminação, criando um

“reservatório” dentro do organismo. À medida que um organismo de um nível trófi co superior se alimenta das espécies que sofreram processos de bioacumulação, a concentração fi ca ainda maior, ocorrendo dessa forma o processo de biomagnifi cação.

Vamos tentar esquematizar o caminho do poluente em um corpo receptor:

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Preocupações Ambientais

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Fonte: NASCIMENTO, Iracema A. Inserção de substâncias tóxicas na cadeia alimentar: as substâncias tóxicas persistentes, Especialização em Gerenciamento e Tecnologias Ambientais na Indústria. UFBa. Módulo: Comportamento de Poluentes no Segmento Biótico.

FIGURA 2.1 – CAMINHO DO POLUENTE NO CORPO RECEPTOR

O mercúrio, por exemplo, provoca um dos mais graves problemas de contaminação do homem e do meio ambiente, pois através da terra ou da água entra na cadeia alimentar, colocando em perigo o homem, que se alimenta dos peixes e das aves de

áreas contaminadas. A ação tóxica do mercúrio afeta o sistema nervoso central, órgãos do sistema cardiovascular, urogenital e endócrino. Dentre os principais sintomas de

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62 Prevenção da Poluição intoxicação estão a paralisia, a dormência dos lábios, mãos e pés, distúrbios emocionais, fadiga, perda de memória, cefaléia, gengivite e estomatite. Em casos de intoxicação severa, os danos são irreversíveis. (Nascimento,2000)

Aos alunos:

Vocês já ouviram falar no caso da contaminação por mercúrio da Baía de

Minamata? Vamos pesquisar e fazer um resumo do que foi Minamata e quais foram as soluções encontradas.

OUTROS PROBLEMAS AMBIENTAIS

A lista de impactos ambientais, preocupações e discussões apresentada nesta seção não foi exaustiva, mas incluiu o que é freqüentemente percebido e considerado como mais signifi cante.

Vamos citar, de modo geral, outros impactos que podem ser considerados de menor peso:

Radiação e radionuclídeos. Muitas fontes de radiação existem naturalmente, mas a atividade humana pode aumentar o grau de exposição dos sistemas biológicos através do estabelecimento de novos níveis de radiação, resultando em problemas à saúde. Radônio do solo e de materiais de construção podem, por exemplo, expor as pessoas à radioatividade em suas casas, onde o radônio tende a se acumular no ar.

Poluição térmica. A poluição térmica é causada pelo lançamento de águas de resfriamento das usinas e outras instalações industriais em corpos de água, onde ele se concentra, causando elevações súbitas da temperatura local e reduzindo a concentração de oxigênio dissolvido no meio, tendo como causa a mortandade das espécies.

Qualidade do ar interior. A qualidade do ar interior é freqüentemente uma preocupação, especialmente para edifícios que têm baixo nível de reciclo de ar, porque a má qualidade do ar pode conduzir a problemas de saúde. Também alguns materiais de construção, como o amianto, podem causar danos à saúde humana.

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Preocupações Ambientais

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Poluição sonora. Um som desagradável é chamado de RUÍDO. Os danos causados pelo ruído dependem da intensidade, freqüência, tempo de exposição, intermitência ou continuidade, e das características de cada indivíduo. A intensidade do ruído é medido em decibel (dB), unidade de pressão sonora.

As principais conseqüências da poluição sonora são: perda gradativa da audição; incômodo; irritação; exaustão física; perturbação do sono; insônia; fadiga; problemas cardiovasculares; estresse; aumento da adrenalina no sangue; aumento da produção de hormônio da tireóide; redução da efi ciência e ocorrência de acidentes nos locais de trabalho. (Mota, 1997)

Controles na emissão de ruídos de maior abrangência e efetividade são aqueles aplicados na fonte, tais como:

• aperfeiçoamento dos equipamentos, de forma a reduzir o barulho produzido por estes;

• manutenção dos equipamentos: lubrifi cação, alinhamento de rolamentos e eixos, suportes antivibratórios;

• isolamento das fontes de ruídos (exemplo: paredes com materiais que impeçam a propagação do som – isolante acústico);

• regulagem das descargas dos veículos;

• disciplinamento dos horários de funcionamento de equipamentos barulhentos.

Entre as medidas de controle nos receptores podemos citar:

• isolamento de ambientes internos;

• redução do período de exposição ao ruído;

• diminuição da jornada de trabalho;

• uso de equipamentos de proteção auricular.

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64 Prevenção da Poluição

Assuntos relacionados à Higiene Industrial e à Segurança e Saúde no

Trabalho. Estes também são importantes aspectos ambientais que devem ser levados em consideração. Eles podem incluir ar contaminado em ambientes de trabalho e a exposição a material de isolamento de amianto.

2.2 CLASSIFICAÇÃO DOS IMPACTOS AMBIENTAIS

Conforme discutido no início deste módulo, após listarmos uma série de problemas ambientais contemporâneos, vamos tentar organizá-los de forma a melhor entendêlos. Para tanto vamos separá-los em categorias, com base em suas diferentes características.

Consideremos as seguintes categorias para orientar nossa discussão:

Espaço

Tempo

Risco

Essas classifi cações freqüentemente fornecem uma lista de prioridades, baseada em sua “importância”, já que os impactos ambientais que têm maior extensão e maior duração, e que apresentam riscos para os sistemas planetários e humanos, são normalmente vistos como mais importantes do que outros. Outras classifi cações, baseadas no nível de importância do impacto ambiental, podem ser desenvolvidas.

As determinações de quais impactos ambientais são signifi cantes, e quais as suas características defi nidoras, podem incluir certa dose de subjetividade, tornando difícil o desenvolvimento de uma classifi cação simples dos impactos ambientais, segundo seu grau de importância.

É comum, na literatura internacional gerada nos países desenvolvidos, se deixar de lado o impacto ambiental e social do lançamento indiscriminado de esgotos sanitários e seu contato direto com a população em áreas socialmente degradadas.

No entanto, nossa realidade é diferente e exige um foco maior neste problema, no momento em que se discute, de forma abrangente, os problemas ambientais. Neste

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Preocupações Ambientais

65 curso, porém, por priorizar os problemas ambientais dos processos de produção, a questão da habitabilidade e dos esgotos domiciliares, apesar de ser lembrada, não será aprofundada.

CLASSIFICAÇÃO ESPACIAL DOS IMPACTOS

Uma forma de classifi car os impactos ambientais é por sua extensão espacial, ou geográfi ca. Alguns autores entendem que os impactos ambientais que se estendem por grandes áreas, ou por todo o planeta, são geralmente de maior importância do que os que são limitados a regiões menores. Efeitos ambientais locais, no entanto, são de grande importância para a região sob impacto.

Uma classifi cação aproximada por extensão espacial é apresentada na Tabela 2.1, usando as seguintes categorias:

Global

Regional

Local

TABELA 2.1 – CLASSIFICAÇÃO DOS IMPACTOS AMBIENTAIS EM UMA ESCALA ESPACIAL

Global Regional Local

Mudança climática

Buraco da camada de ozônio

Redução de hábitat e biodiversidade

Degradação da qualidade das

águas subterrâneas

Degradação da qualidade das

águas superficiais

Inserção de substâncias tóxicas na cadeia alimentar

Deposições ácidas

Uso de herbicidas

Uso de pesticidas

Degradação do solo

Inserção de substâncias tóxicas na cadeia alimentar*

Degradação das condições de habitabilidade urbana

Radionuclídeos

Degradação do lençol freático

Disposição inadequada do lixo

Derramamento de óleo

Névoas fotoquímicas (smog)

Poluição térmica

*Um mesmo impacto pode ser classificado em mais de um nível como, por exemplo, a inserção de substâncias tóxicas na cadeia alimentar, que pode tanto ter uma abrangência global quanto regional.

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66 Prevenção da Poluição

Dê a sua opinião!

Você concorda com a forma como foram classifi cados os problemas na Tabela

2.1? Que mudanças você sugeriria?

Alguns autores consideram que o impacto ambiental local deve ter um peso maior do que o global, porque acreditam que a indústria, o comércio, etc. só se mobilizam para resolver os danos mais imediatos, que os atingem diretamente, e que não há interesse em investir em um Sistema de Gestão

Ambiental se não for dessa forma. E você, o que pensa sobre isso? Pense, por exemplo, na questão da habitabilidade urbana, que tem uma expressão local, mas se reproduz pelo mundo afora, assim como outros problemas classifi cados como locais! Não conviria repensar esta forma de classifi car os impactos ambientais?

CLASSIFICAÇÃO TEMPORAL DOS IMPACTOS

Impactos ambientais podem ser classifi cados com base em sua extensão temporal, como, por exemplo, pelo tempo que o impacto e seus efeitos persistem no ambiente. A duração pode variar de dias a anos, ou até mesmo séculos.

Efeitos que duram apenas um curto período de tempo podem se comportar desta forma, por serem eliminados através de processos naturais, ou porque ações podem ser tomadas para reduzir o tempo de duração do impacto. São os impactos reversíveis.

Uma classifi cação temporal é importante, pois impactos ambientais que persistem durante longo tempo são geralmente de maior importância do que os que possuem duração limitada.

Classifi cação dos impactos ambientais, discussões e questões levantadas em escala temporal interagem com as classifi cações espaciais. Poluentes que são resistentes a longo prazo podem atingir áreas maiores. Claro que isso depende do meio onde eles são lançados.

A classifi cação espacial de impactos ambientais da Tabela 2.1 pode, conseqüentemente, servir de base para uma classifi cação espaço-temporal, em que as categorias global,

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Preocupações Ambientais

67 regional e local correspondem a escalas de longo, médio e curto prazo. Contudo, alguns erros podem estar sendo introduzidos ao se praticar esta simplifi cação.

Considere, por exemplo, a questão da disposição de compostos tóxicos em locais confi nados e com pouca possibilidade de se movimentar.

O famoso caso de Love

Canal que descrevemos a seguir ilustra esta questão e propõe uma interessante discussão sobre a disposição de resíduos tóxicos em aterros industriais.

CLASSIFICAÇÃO DOS IMPACTOS

AMBIENTAIS PELO TIPO DE RISCO

Impactos ambientais podem ser classificados pelo tipo de risco que eles apresentam.

Classificações baseadas em riscos são freqüentemente muito subjetivas, já que riscos sociais são usualmente percebidos como de diferentes importâncias, por diferentes pessoas, e a percepção de risco é afetada por muitos fatores.

No entanto, muitas categorias de riscos ambientais podem ser consideradas, inclusive as que se seguem:

LOVE CANAL

Love Canal está localizado na vizinhança das

Cataratas do Niágara, no estado de Nova York.

O nome “Love Canal” provém do último nome de William Love, que em 1896 começou a obra de escavação de um canal com o propósito de interligar os lagos Ontário e Erie. A obra, porém, nunca foi concluída.

Em 1942 a companhia Química Hooker, que se localizava no lado oeste do canal, teve a idéia “engenhosa” de transformar o canal em um depósito para os resíduos químicos de seu processo produtivo, até completá-lo. Uma vez que o canal/aterro estava completamente cheio com os resíduos da indústria, no ano de 1952, este foi coberto com grama, sem dar indícios do problema enterrado, e vendido para a escola da cidade de Niagara Falls pelo valor de US$

1.00 (um dólar). A escola e algumas casas foram construídas exatamente em cima do lixo químico.

Em 1977 foi detectada a extravasão de componentes químicos, e uma série de problemas de saúde foi identificada. Dentre o lixo químico podiam ser encontrados: benzeno, um produto químico conhecido por causar anemia e leucemia; clorofórmio, um cancerígeno que afeta o sistema nervoso, respiratório e gastrointestinal; lindano, que causa convulsões e a multiplicação de células brancas; tricloretileno, um cancerígeno que ataca o sistema nervoso, o genes e o fígado; cloro de metileno, cujos efeitos incluem aflição respiratória crônica e morte (Mokhiber, 1988).

Centenas de moradores processaram a Hooker, a cidade e o governo estadual, exigindo mais de

US$ 9 milhões para compensar os danos sofridos no canal. A área foi evacuada e permanece deserta e degradada até hoje. Quem passa por lá tem a dimensão de quais danos os resíduos químicos podem trazer à nossa moderna sociedade.

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68 Prevenção da Poluição

Riscos de danos para sistemas planetários. Isso inclui riscos para entidades biológicas e seus sistemas de suporte (por exemplo, cadeias alimentares), e padrões e composições de circulação atmosférica e oceânica.

Riscos de danos para sistemas biológicos (incluindo sistemas humanos, animais e vegetais). Estes riscos incluem danos causados por toxinas e outros resíduos tóxicos.

Riscos de perdas fi nanceiras. Estes riscos incluem perdas fi nanceiras diretas e seus efeitos indiretos, como redução de produtividade.

Riscos da qualidade de vida e estéticos. Estes riscos incluem a perda de satisfação associada com um ambiente limpo e agradável.

Questão para reflexão:

Classifi que e estabeleça a magnitude dos problemas ambientais aqui discutidos usando a matriz a seguir. Insira dois outros problemas e justifi que suas escolhas.

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Preocupações Ambientais

69

MATRIZ PARA CLASSIFICAÇÃO DA MAGNITUDE DO IMPACTO DE PROBLEMAS AMBIENTAIS

Problema

Abrangência

Espacial

Abrangência

Temporal

Risco

Deposições ácidas

Mudança do clima e das condições meteorológicas

*Degradação da qualidade das águas subterrâneas

Degradação de águas superficiais

++ +++

Reduções de hábitat e biodiversidade

Buraco da camada de ozônio

Degradação do solo rural

Névoas fotoquímicas (smog)

Degradação das condições de habitabilidade nas cidades: solo, ar e

águas

Inserção de substâncias tóxicas na cadeia alimentar: as substâncias tóxicas

+++ + +++

Para classifi car, utilize a seguinte simbologia:

+ Peso baixo ++ Peso médio +++ Peso alto * depende dos contaminantes considerados .

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70 Prevenção da Poluição

FECHAMENTO

A idéia é que neste capítulo você tenha podido ter uma visão geral do que é importante ser considerado quando se fala em impactos ambientais e suas conseqüências.

Também é interessante chamar a atenção de que muitos aspectos são difíceis de medir e que, portanto, são avaliados através de uma estimativa.

Analisar e entender quais são as conseqüências das nossas ações sobre o ambiente em que vivemos tem como objetivo final pensar em propostas de desenvolvimento menos agressivas ao meio ambiente. Ao invés de corrigirmos o problema, pode ser mais viável, inclusive economicamente, evitar a poluição.

É bom lembrar: a poluição é um indicador de ineficiência no uso dos recursos naturais e financeiros.

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Minimização de Resíduos

71

CAPÍTULO 3

MINIMIZAÇÃO DE RESÍDUOS

Asher Kiperstok Universidade Federal da Bahia • UFBA • TECLIM

O que farão com as velhas roupas?

Faremos lençóis com elas.

O que farão com os velhos lençóis?

Faremos fronhas.

O que farão com as velhas fronhas?

Faremos tapetes com elas.

O que farão com os velhos tapetes?

Usá-los-emos como toalhas de pés.

O que farão com as velhas toalhas de pés?

Usá-las-emos como panos de chão.

O que farão com os velhos panos de chão?

Sua alteza, nós os cortaremos em pedaços, misturá-los-emos com o barro e usaremos esta massa para rebocar as paredes das casas.

Devemos usar com cuidado e proveitosamente, todo o artigo que a nós foi confiado, pois não é “nosso” e nos foi confiado apenas temporariamente.

Neste capítulo vamos discutir sobre

“Resíduos”, mais especifi camente sobre a sua

“Minimização” e, se possível, sobre o banimento deles das nossas vidas.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Discutir os tipos de resíduos industriais: gasosos, líquidos e sólidos nos processos;

Identificar as causas e fontes geradoras de resíduos;

Caracterizar os diferentes tipos de resíduos quanto ao grau de toxicidade;

Apresentar técnicas / medidas de minimização de resíduos nos processos;

Discutir o Organograma

Mestre das Ações para Preven ção e Controle da Poluição;

Detalhar medidas de P2 e exemplificar;

Permitir a percepção da diferença entre os enfoques

Fim-de-tubo e P2.

Vale salientar que minimizar resíduos signifi ca:

• aumentar a efi ciência ecológica da empresa – transformando toda a matériaprima em produto;

• benefi ciar-se das vantagens comerciais – aumentando a competitividade;

• minimizar custos de retrabalho;

• reduzir o impacto ambiental do processo produtivo.

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72 Prevenção da Poluição

Deu para sentir a importância de torná-los insignifi cantes e até mesmo inexistentes?

Afi nal, o que não é útil não justifi ca a existência. Concorda?

Resíduos são matérias-primas (na maioria das vezes adquiridas a alto preço) que não foram transformadas em produtos comercializáveis ou em matérias-primas a serem usadas como insumos em outro processo de produção. Eles incluem todos os materiais sólidos, líquidos e gasosos que são emitidos no ar, na água ou no solo, bem como o ruído e a emissão de calor.

O processo de produção também compreende atividades que, freqüentemente, se tende a esquecer, tais como manutenção, serviços, limpeza e a área administrativa.

Minimizar resíduos e emissões, portanto, também signifi ca aumentar o grau de utilização dos materiais e da energia usados para a produção (aumentando a efi ciência ecológica) até que sua utilização garanta um procedimento livre de resíduos e emissões

(este é o caso ideal!).

Assim, para a empresa, a minimização de resíduos não é somente uma meta ambiental, mas, principalmente, um programa orientado para aumentar o grau de utilização dos materiais e, conseqüentemente, sua produtividade.

Esta situação pode ser também ilustrada pelo fato de que, tanto o tratamento e a disposição de resíduos e emissões são onerosos, quanto os custos decorrentes da perda de matérias-primas (que se tornam resíduos no próprio sentido da palavra) também são normalmente altos.

A fi m de trabalhar sistematicamente na minimização e evitar a geração de resíduos e emissões, você deve conhecer os fl uxos de massa mais importantes em sua empresa, identifi car e quantifi car os resíduos gerados nas etapas do fl uxo. Além disso, você deve, principalmente, conhecer as características e a importância em termos de toxicidade e efeitos ecológicos dos resíduos. Dessa forma, neste capítulo você vai obter informações sobre os vários tipos de técnicas e medidas aplicáveis em programas de Prevenção da

Poluição, visando minimizar resíduos.

Prevenção da Poluição - Cap 3.indd 72 5/2/2003, 15:16:23

Minimização de Resíduos

73

3.1 OS PROCESSOS INDUSTRIAIS E SEUS RESÍDUOS

Os processos industriais transformam insumos em produtos fi nais e resíduos, conforme representado de forma simplifi cada na Figura 3.1. Contudo, enquanto os insumos e produtos são considerados nas suas devidas especifi cidades, os resíduos são tradicionalmente agrupados de acordo com os corpos receptores: água, ar e solo. Usase a lógica, um tanto perversa, de que os resíduos são parte inerente ao processo e que, conseqüentemente, só nos resta pensar em como e onde dispô-los.

Fonte: Construção própria

FIGURA 3.1 – PROCESSO INDUSTRIAL

Consideremos o exemplo de uma refi naria. Um complexo arranjo de processos transforma o óleo cru em combustíveis, insumos petroquímicos, lubrifi cantes e asfalto.

Parte do óleo é consumido como fonte energética para o processo de refi no.

Um dos problemas que mais preocupa os operadores e autoridades ambientais é o dos efl uentes líquidos. Estes são considerados inerentes e indesejáveis a cada uma das etapas do processo. Portanto, são afastados e concentrados num ponto único (às

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74 Prevenção da Poluição vezes dois), para se dar a eles um tratamento que os torne menos impactantes ao corpo receptor. A questão ambiental passa a ser considerada neste momento. O que fazer com esta água contaminada? Como destruir os compostos indesejáveis para poder descartá-la cumprindo a legislação, ou, pelo menos, tentando cumpri-la.

Raciocínio semelhante é praticado com as emissões oriundas da queima de combustíveis nas caldeiras. Estas são vistas como inerentes a estes equipamentos e ao tipo de combustível utilizado.

Mas, na realidade, tanto os efl uentes líquidos quanto as emissões atmosféricas (o mesmo se aplica para outros resíduos) têm sua origem num determinado ponto do processo. Suas causas podem ser várias e relacionadas a outros pontos que não apenas aqueles onde eles são visualizados. O vapor inserido numa coluna de destilação, por exemplo, sai no seu topo, é condensado e se transforma num efl uente que é lançado numa canaleta.

Esta situação, no entanto, poderia ser diferente. Uma otimização do processo, por exemplo, reduziria a quantidade utilizada e outras medidas poderiam reduzir o conteúdo de hidrocarbonetos, que são nada menos que o produto principal da refi naria. Por outro lado, será que esta corrente não tem utilidade para outro processo? Se ela é tachada de

“efl uente”, provavelmente não. Mas, se ela for vista como um possível insumo, a questão será outra. Que processo ou processos precisam dela? O que tem que ser feito para que ela possa ser considerada insumo para outros processos?

O pensamento corriqueiro tem sido tratar dos resíduos a partir da sua segregação como matéria indesejável. Com base neste raciocínio, só resta sua coleta, tratamento e disposição no ambiente. É a lógica da rede de coleta de resíduos, também chamada de

FIM-DE-TUBO.

No caso das emissões geradas pelos processos de combustão, a sua minimização não depende apenas da efi ciência das caldeiras e fornalhas, ou do combustível utilizado. A efi ciência energética da planta toda é que tem que ser analisada. Nesse caso, a “rede de efl uentes” é menos perceptível, pois se trata de uma rede invisível de incompetências ou perdas energéticas que inclui, desde a efi ciência energética de cada processo e equipamento, até a qualidade da integração energética de toda a planta.

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Minimização de Resíduos

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Consideremos, a seguir, algumas das principais fontes de emissões atmosféricas, efl uentes líquidos e resíduos sólidos geradas nos processos industriais.

RESÍDUOS GASOSOS

Emissões de resíduos gasosos são freqüentemente maiores em quantidade do que emissões de resíduos sólidos e líquidos, no ar e nas águas. As fontes principais de resíduos gasosos são:

• lançamento de vapores e gases da queima de combustíveis fósseis, seja de fontes fi xas ou móveis;

• perdas de produtos voláteis em tanques de armazenamento, pontos de carga e descarga, pontos de alívio de pressão, vazamentos de equipamentos e outras denominadas emissões fugitivas;

• perda de solventes de tintas e processos de limpeza de superfícies e equipamentos;

• perdas de gases refrigerantes;

• uso de gases propelentes de produtos aplicados na forma de aerossóis.

Diversos compostos são emitidos das fontes citadas. A seguir revisaremos alguns deles:

Gás carbônico – Esta emissão ocorre principalmente devido a processos de transformação de energia. É um produto da queima de combustíveis fósseis.

Não obstante, emissões de CO

2

podem ser reduzidas, aumentando-se a qualidade dos sistemas de combustão intensiva, aumentando-se a efi ciência de equipamentos, processos e sistemas, usando formas de energia não baseadas no carbono (isto será discutido mais extensivamente no Capítulo 7).

Metano – As fontes de emissão de metano incluem vazamentos de gás natural

(já que o metano é seu componente principal) e redução anaeróbia, que ocorre naturalmente, e também devido à atividade humana (por exemplo, agricultura, carvão, minas e refi namento de petróleo).

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76 Prevenção da Poluição

Óxidos de nitrogênio – Incluindo dióxido de nitrogênio (NO

2

) e óxido de nitrogênio (NO), a combinação que normalmente é chamada de NO x

é gerada durante uma combustão de alta temperatura no ar, e de alguns outros processos. Estas emissões podem ser reduzidas a partir de um controle mais cuidadoso do processo de combustão e utilizando-se queimadores especiais.

Dióxido de enxofre (SO

2

) – Suas fontes incluem combustíveis fósseis, fabricação de substâncias que contenha enxofre, metalurgia de cobre e processos de papel e celulose. A presença de compostos de enxofre no petróleo torna necessária sua remoção nos processos de refi no. Isso é feito em diversos estágios, tanto em fase líquida como gasosa. O uso de petróleos de baixo teor de enxofre simplifi ca e até elimina a necessidade destes processos de remoção. As emissões de SO

2

podem também ser reduzidas com medidas fi m-de-tubo, como lavadores de SO

2

. As medidas preventivas indicadas para reduzir emissões de CO

2

também se aplicam aqui.

Compostos orgânicos voláteis (VOCs) – Fontes de VOCs incluem uma série de processos industriais. O lançamento de VOCs no meio ambiente pode ser reduzido projetando-se mecanismos para sua reutilização, minimizando seus usos e as emissões dos processos, e através de sua substituição por outras substâncias que sejam o menos prejudicial possível. Uma das principais fontes de VOCs em plantas químicas e petroquímicas é o próprio sistema de afastamento e tratamento de efl uentes líquidos. Compostos orgânicos voláteis, presentes em altas concentrações nesses efl uentes, se desprendem para a atmosfera, gerando problemas de salubridade para o pessoal da fábrica e vizinhanças.

Clorofl uorcarbonos (CFC) e Hidroclorofl uorcarbonos (HCFC) – Estas substâncias são usadas em refrigeração e ar condicionado, limpadores de metais e, às vezes, como agentes propulsores e espumantes. O uso de CFC e HCFC foi bastante restringido em muitos países. Sistemas que usam esses materiais estão sendo modifi cados para usarem materiais alternativos menos agressivos à camada de ozônio. A longo prazo, prevê-se o redesenho completo desses processos.

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Minimização de Resíduos

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Halons – Usados em extintores de incêndio. Emissões de halon contêm bromo, o que pode conduzir à diminuição de ozônio. Esforços para reduzir emissões de halon estão focados na minimização ou eliminação de seus usos, na preferência de materiais alternativos.

Traços de metais – Por exemplo, alumínio, arsênico, cádmio, cromo, cobre, mercúrio, níquel, chumbo, antimônio, selênio, prata, incluindo metais pesados.

Emissões gasosas contendo metais, mesmo que em pequena concentração, são associadas principalmente com as atividades de mineração, indústrias de produção de metais, tintas, pesticidas, eletrônica, cimento, tratamento de superfícies, química, de baterias e couro, entre as principais.

Compostos odorífi cos – Por exemplo: aminas, sulfetos e mercaptanas. As fontes desses resíduos incluem indústrias que usam essas substâncias em processamento de alimentos, tratamento de couro, celulose e papel. Às vezes compostos odorífi cos são intencionalmente adicionados a gases tóxicos para permitir a identifi cação de vazamentos (por exemplo, gás natural), enquanto que em outras situações eles não são desejáveis. Em último caso, seu uso deve ser minimizado ou cuidadosamente controlado através da sua captura e neutralização.

EFLUENTES LÍQUIDOS

Entre as principais fontes de efl uentes líquidos na indústria, incluem-se:

Processos industriais – Alguns processos usam água como diluente, como meio de transferir energia (na forma de vapor) ou para absorver outros compostos. Nesses casos a água entra em contato com correntes de outras matérias-primas e, quando descarregadas, arrastam compostos indesejáveis, tornando-se efl uentes residuais.

Efl uentes de processo também utilizados para carregar outras perdas, como, por exemplo, descartes de amostragens, perdas em válvulas, conexões e gaxetas.

Águas de lavagem e águas de chuva contaminadas de áreas de processo, pátios de carga e descarga, tancagem.

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Drenagem de águas ácidas de minas (normalmente atribuível aos enxofres metálicos presentes em minérios que podem reagir para formar ácido sulfúrico).

Atividade agrícola envolve grandes quantidades de terra e o escoamento é de difícil controle. Além disso, o processo de irrigação arrasta muitos resíduos de animais, fertilizantes, pesticidas e herbicidas.

Os contaminantes presentes nos efl uentes líquidos geram grande preocupação pela facilidade de atingir cursos d’água, sejam superfi ciais ou subterrâneos, e desta forma atingir a cadeia alimentar, cujo elo fi nal é o próprio homem. A depender das suas características, os impactos podem ser muito variados. Podemos citar alguns dos principais contaminantes:

Compostos Orgânicos Biodegradáveis

Alteram as condições ambientais por consumir o oxigênio dissolvido na água dos corpos receptores. A matéria orgânica é atacada por microorganismos que utilizam o oxigênio da água no processo de digestão, reduzindo sua concentração a níveis que podem afetar a vida de outras espécies. Caso sejam atingidas condições anaeróbias, com concentrações muito baixas de O

2

, a decomposição da matéria orgânica gera problemas adicionais de mau cheiro, provocados, entre outros, pelo desprendimento de compostos reduzidos de enxofre. Entre outras fontes de compostos orgânicos biodegradáveis, podem ser considerados os esgotos sanitários e os efl uentes das indústrias de alimentos, bebidas, papel e celulose.

A depender do corpo receptor, a disposição de efl uentes com as características acima, pode ser feita apenas se administrando a relação entre a carga orgânica a ser disposta e a capacidade do meio de degradá-la em condições controladas e adequadas.

Se o corpo receptor não comporta a carga de um determinado efl uente, este pode ser tratado biologicamente. O lodo digerido resultante destes processos pode ser usado como condicionador de solos para uso agrícola.

Um aspecto fundamental para a adequada disposição desses resíduos é estes não estarem contaminados por compostos biorresistentes e tóxicos.

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Minimização de Resíduos

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No caso de efl uentes sanitários, as medidas de prevenção apontam para a minimização do uso de água, seja a partir da redução do seu consumo nos aparelhos hidrossanitários, seja pelo reuso de águas servidas para alimentar as descargas dos vasos sanitários. Além de reduzir a demanda de recursos hídricos, estas medidas diminuem signifi cativamente os custos de tratamento, reciclagem e disposição fi nal dos efl uentes líquidos.

No caso de efl uentes de indústrias de alimentos e bebidas, inicialmente convém verifi car a origem da matéria orgânica, de forma a se reduzir as perdas de matéria-prima.

A indústria de papel e celulose tem otimizado gradativamente o uso de água, em razão do enorme consumo envolvido. O uso de cloro e seus derivados, como agentes oxidantes para o branqueamento da celulose, tem sido motivo permanente de preocupação pela possibilidade da geração de compostos orgânicos clorados. Os processos mais modernos, porém, são totalmente livres de cloro, usando ozônio como oxidante. Isso abre novas oportunidades de reciclo.

Nutrientes

Efl uentes ricos em compostos de fósforo e nitrogênio, tais como os produzidos pelo uso excessivo de fertilizantes sintéticos e os provenientes de detergentes, provocam a eutrofi zação de corpos líquidos. A concentração de nutrientes em resíduos líquidos pode ser reduzida, otimizando-se ou evitando-se seu uso, e recuperando os materiais descarregados.

Ácidos

Provenientes de uma série de processos industriais, estes resíduos líquidos podem ser tratados minimizando seu uso e, às vezes, combinando-os com resíduos básicos. A drenagem ácida na mineração é uma preocupação de alta prioridade, e pode ser contida se for isolada da água e do ar, para então ser tratada.

Sólidos em Suspensão

Podem diminuir a claridade de água, degradar hábitats aquáticos e afetar a composição da água, absorvendo substâncias químicas. Medidas como redução da entrada de sólidos inertes nos efl uentes industriais e remoção de sólidos de resíduos líquidos industriais

(por exemplo, por fi ltração, sedimentação, precipitação) podem ser utilizadas para evitar os problemas associados à presença de sólidos suspensos na água.

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Substâncias Tóxicas Persistentes (PTS)

São elementos ou compostos que pelas suas características se degradam muito lentamente no meio ambiente. Fenômenos físicos e biológicos contribuem para sua dispersão no meio físico e sua concentração no meio biótico. Neste grupo incluem-se os metais pesados e os compostos orgânicos tóxicos.

Nos seres vivos, provocam mutações genéticas (mutagenicidade), câncer

(carcinogenicidade) e alterações fetais (teratogenicidade). A presença dessas substâncias no meio ambiente é mais difícil de ser monitorada em razão das baixas concentrações em que podem se apresentar, diferentemente do que ocorre com os chamados poluentes convencionais, anteriormente citados (material biodegradável, por exemplo). No entanto, a presença dos compostos tóxicos persistentes é de extrema relevância, mesmo em concentrações não detectáveis, pela sua persistência e capacidade de se concentrar na cadeia alimentar.

Para esses compostos aplica-se o Princípio da Precaução, popularizado na conferência de Maastrich. Este princípio propõe que seja dado o devido espaço à ignorância científica com relação às substâncias cujo comportamento nos ecossistemas não é, ainda, devidamente compreendido. Nestes casos caberia ao poluidor provar que estes são inócuos antes de serem despejados no meio ambiente.

Se vivemos como se importasse e não importa, então não importa.

Se vivemos como se não importasse e importa, então importa.

Conferência Internacional sobre a Agenda da Ciência para o Meio

Ambiente e o Desenvolvimento para o Século 21, Viena, 1991

Observe na Tabela 3.1 os compostos considerados no programa voluntário de redução de tóxicos dos Estados Unidos (USEPA TRI 33/50).

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TABELA 3.1 – COMPOSTOS CONSIDERADOS NO PROGRAMA

Benzeno

Cádmio e compostos

Tetracloreto de carbono

Clorofórmio

Cromo e compostos

Cianeto e compostos

Diclorometano

Chumbo e compostos

Mercúrio e compostos

Metil etil cetona

Metil isobutil cetona

Níquel e compostos

Tetracloroetileno

Tolueno

1,1,1-Tricloroetano

Tricloroetileno

Xylenos

Fonte: USEPA TRI 33/50.

Metais Pesados

Diferentemente das substâncias tóxicas orgânicas, criadas pelo homem, os metais possuem concentrações de fundo, background, na natureza, provenientes da dissolução de rochas e minerais (Schnoor, 1996). As quantidades totais de metais na natureza mantêmse constantes. Porém, a forma como eles se apresentam muda. Metais originalmente confi nados nas suas jazidas naturais são extraídos e inseridos no processo produtivo.

Eles acabam sendo colocados à disposição da cadeia alimentar, onde se bioconcentram, acumulam e magnifi cam, ultrapassando as concentrações naturais e colocando em risco as espécies vivas e o homem. O reconfi namento, após passar pelo processo produtivo, tem sido uma das formas de reduzir o impacto desses elementos.

Os metais formam complexos com outros compostos, modifi cando sua toxicidade e comportamento no meio ambiente. Geralmente, mas nem sempre, o metal livre é mais tóxico que os complexos que ele forma (Sawyer et al., 1994).

Muitos metais são micronutrientes indispensáveis à vida aquática, mas tornam-se tóxicos quando em concentrações que excedem os níveis necessários à alimentação. É o caso do zinco, cobre, ferro, manganês, cobalto e selênio. Outros metais como mercúrio, chumbo e cádmio não são importantes à manutenção da biota, mas provocam efeitos adversos em concentrações tóxicas (LaGrega, 1994).

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É interessante observar que a evolução dos métodos de detecção tem permitido correlacionar efeitos adversos decorrentes da presença de metais em concentrações cada vez menores. Dos anos 60 até o momento, os níveis de detecção de chumbo evoluíram de dezenas de miligramas por litro (10

-2

g/l), para nanogramas por litro (10

-9

g/l) isto

é, sete ordens de grandeza em 35 anos! Os limites aceitáveis pela legislação atual variam ao redor de 10

-5

g/l em água salobras (CONAMA 20/86) e 0,3 x 10

-3

g/l para os efl uentes lançados no sistema inorgânico do Complexo Petroquímico de Camaçari-BA

(Cepram 300/90).

Metais são emitidos, por exemplo, de processos de eletrodeposição para proteção de superfícies contra corrosão (cromagem, galvanoplastia), mineração, fundição, fabricação de substâncias químicas, tingimento de couro e produção de baterias.

Emissões atmosféricas de traços de metais são, em muitos casos, uma rota importante de contaminação de águas superfi ciais.

Orgânicos Tóxicos

A nomenclatura da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) inclui mais de quatro milhões de produtos químicos orgânicos. A cada ano esta lista cresce com aproximadamente mil novos produtos químicos orgânicos sintetizados e produzidos comercialmente. Somente pequena parte desses são tóxicos ou carcinogênicos, sendo que a maior parte deles é destruída no meio ambiente.

Os que, além de tóxicos, são persistentes, representam sérios riscos para os seres vivos, por se bioconcentrarem e biomagnifi carem na cadeia alimentar, conforme discutido no capítulo anterior.

As principais atitudes perante esses compostos são: evitar ou minimizar sua manipulação. Podemos ainda destruí-los criteriosamente, reduzir sua toxicidade e persistência ou confi ná-los (retirá-los da biota de forma a impedir sua inserção na cadeia alimentar).

RESÍDUOS SÓLIDOS

Existem várias fontes de resíduos sólidos. Algumas delas são discutidas abaixo, ao lado de métodos de como minimizá-los:

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Minimização de Resíduos

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• resíduos de processo como, por exemplo, cinzas de combustão, resíduos sólidos extraídos de soluções líquidas;

• resíduos de produto como, por exemplo, excesso de material, produtos fora de especifi cação;

• resíduos de embalagens como, por exemplo, o empacotamento e a cobertura protetora de materiais que geram uma quantidade muito grande de resíduos;

• resíduos de escritório;

• outros resíduos sólidos misturados.

Os produtos normalmente encontrados como resíduos sólidos são:

Traços de metais – Algumas das formas principais de assentamento de metais são cinzas de processos de combustão, processos siderúrgicos, metalúrgicos e metal-mecânicos. Escórias e resíduos de catalizadores normalmente apresentam concentrações altas de diversos metais, incluindo alguns preciosos. Peças metálicas de grande porte, incluindo latas de bebidas, são cada vez menos considerados resíduos, devido a seu alto valor e conseqüente aproveitamento como matéria-prima na siderurgia;

Plásticos;

Papel;

Biológicos – Por exemplo, organismos fabricados, vacinas, remédios. Este tipo de resíduo normalmente requer um cuidado especial no seu manuseio.

Radioativos – Por exemplo, radionuclídeos para equipamento médico e detetores de fumaça. Estes resíduos normalmente requerem cuidado especial na sua disposição. Pode-se evitar ou minimizar seu uso, particularmente quando existem outros materiais não-radioativos que os substituem.

Borras – Pode-se tratar este resíduo minimizando sua quantidade ou encontrando um outro uso para ele (mesmo que para isso seja necessário um tratamento adicional).

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Resíduos heterogêneos – Como é muito mais difícil a reciclagem ou reuso de resíduos heterogêneos do que dos homogêneos, sua mistura deve ser evitada.

Resíduos heterogêneos são particularmente problemáticos quando um deles é tóxico, pois desta forma todo fl uxo tem que ser tratado cuidadosamente.

3.2 COMO ABORDAR O PROBLEMA DOS RESÍDUOS, EMISSÕES E

EFLUENTES NA INDÚSTRIA

Você já deve ter notado que para revisar os tipos de resíduos gerados na indústria optamos por classifi cá-los pela forma como eles são produzidos e o corpo receptor onde serão lançados. Esta é a forma tradicional de abordar o assunto. É parte da visão fi m-detubo que discutimos no primeiro capítulo deste módulo. Provavelmente, se seguirmos esta lógica, no passo seguinte nos veríamos procurando tecnologias para abater, destruir, tratar ou dar uma destinação adequada a esses resíduos. Isto é, estaríamos, desde já, assumindo que os resíduos são inevitáveis, inerentes aos processos produtivos. Nessa altura da discussão estaríamos identifi cando novos apetrechos para colocar no nosso amigo retirante citado no Capítulo 1.

Vamos inverter o enfoque e questionar: Por que geramos esses resíduos? Onde erramos? O que fi zemos para transformar matéria-prima em produto sem valor ou com valor negativo porque, além do mais, ainda vai provocar um efeito nefasto nas nossas vidas?

A Figura 3.2 mostra que o problema pode ser enfocado de várias maneiras, sugerindo uma evolução destas, de forma a se procurar maior ecoefi ciência. Na medida em que se sobe a escada, aumenta-se a racionalidade e a produtividade no uso dos recursos naturais, aliando-se ganhos ambientais e econômicos.

Nos degraus mais baixos da escada encontram-se as denominadas medidas fi m-detubo (end of pipe). Neles assume-se que os resíduos são inevitáveis e procura-se apenas reduzir o impacto do seu lançamento no meio ambiente. Para isso gasta-se energia e outros insumos.

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Minimização de Resíduos

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Nos degraus intermediários estão representadas medidas que procuram modifi car o próprio processo produtivo dentro de uma fábrica ou cadeia produtiva. Procurase aqui identifi car perdas e inefi ciências que acabam se transformando em impactos ambientais, de forma a corrigi-las na fonte. Isto é, corrigir o próprio processo que as originou, para lhe agregar valor. Esse tipo de enfoque visa prevenir a geração de resíduos aproveitando melhor as matérias-primas e a energia. Além de reduzir o impacto nos pontos de lançamento, reduz-se o impacto causado na extração das matérias-primas. Se o nosso objetivo, porém, é atingir níveis de ecoefi ciência que impliquem melhorias da ordem de grandeza de 10 vezes em 50 anos (o Fator 10 discutido no capítulo inicial), enfocar apenas melhorias de processos internos à unidade produtiva ou sua cadeia imediata não será sufi ciente.

Nos degraus mais altos incluem-se medidas para as quais há necessidade de maior articulação, tanto com o mercado consumidor como com outros setores produtivos.

Procura-se otimizar todo o mecanismo econômico-social para que este funcione articulado, respeitando a capacidade de suporte do nosso planeta.

Neste capítulo e no seguinte discutiremos aspectos relativos ao estágio intermediário.

Nos Capítulos 6 e 8 a abordagem se dará nos degraus seguintes:

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Fonte: Construção própria.

FIGURA 3.2 – DO FIM-DE-TUBO À SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Para orientar este novo enfoque, consideremos o organograma a seguir que detalha alguns aspectos da Figura 3.3. Ele é muito utilizado por diversos autores, com algumas variações.

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Minimização de Resíduos

87 baseado em LaGrega (1994)

FIGURA 3.3 – ORGANOGRAMA MESTRE DAS AÇÕES PARA PREVENÇÃO E CONTROLE DA POLUIÇÃO,

Não interessa pensar agora se a perda vai ser para o ar, o solo ou um rio. Vamos focar nossa atenção em como não gerar resíduos.

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88 Prevenção da Poluição

Na Figura 3.3, as possíveis tecnologias e/ou atitudes, gerenciais e técnicas, organizamse, da esquerda para a direita, e de cima para baixo, segundo sua importância ou prioridade de aplicação. Em outras palavras, quanto mais à esquerda, ou mais no alto, mais desejável

é a atitude, ou a tecnologia. Esta ordem representa um indicativo para o levantamento de alternativas de intervenção. Na prática, ao se defi nir uma intervenção, deve-se procurar conciliar outros aspectos, tais como as características da planta considerada, custos de implementação das propostas, o retorno fi nanceiro e o impacto ambiental. Mais adiante vamos aplicar este organograma a processos do nosso conhecimento para procurar identifi car ações que nos levem, cada vez mais, para os estágios mais desejáveis. Primeiro convém revisar, e ilustrar com exemplos, cada uma das caixas do organograma.

REDUÇÃO NA FONTE, PENSANDO A

MUDANÇA DO PRODUTO

É a primeira consideração a se fazer. Aqui, antes de tudo, convém se pensar se, afi nal de contas, precisamos de um determinado produto ou o compramos e usamos “porque sempre foi assim” (ver o texto ao lado).

Uma empresa pode se antecipar

à sua época mudando o produto que produz para eliminar seu impacto no meio ambiente e com isso reforçar sua posição no mercado. Pode-se citar o caso da empresa Interface, maior fabricante mundial de carpetes, que optou por substituir a venda de carpetes pelo fornecimento de serviços de cobertura de piso, retornando para a empresa o material após o uso. Com isso, eliminou um resíduo pós-uso, reincorporando o carpete usado a seu ciclo produtivo, como insumo.

PORQUE SEMPRE FOI ASSIM

O argumento “sempre foi assim” se repete em todos os ambientes e se faz presente nos diversos momentos de um projeto de Produção mais Limpa. Representa a dificuldade de pessoas e grupos de ousarem tentar novos paradigmas. Tratase de assunto de tamanha importância que merece ser abordado aqui, em destaque, com uma piada. Caso já a conheça, não conte à turma...

Um grupo de pesquisa desenvolvia um estudo sobre o comportamento de pequenas comunidades de macacos. Sete símios conviviam numa confortável gaiola.

O alimento, na forma de um cacho de bananas, era colocado pendurado com uma corda no meio da gaiola, a uma altura ao alcance da turma. Ao longo de um extenso período, a altura do cacho foi sendo aumentada, até exigir, primeiro, saltos acrobáticos individuais, e acrobacias coletivas, depois. Quando o esforço para se alcançar as bananas começou a ser tal que provocava um alto nível de estresse, introduziu-se na gaiola, num cantinho, uma escada...

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Minimização de Resíduos

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Óbvio, todos já perceberam que os macacos logo entenderam a utilidade deste feliz instrumento. A vida voltou à normalidade e a felicidade voltou a reinar entre a macacada.

Mas como cientista que se preza não pode deixar os outros em paz por muito tempo, logo começaram a jogar um jato de água gelada nas costas dos macacos que ficavam no chão, olhando para o colega que subia na escada para pegar as bananas.

Incomodados com este tratamento, os macacos passaram a bater no infeliz que ousasse usar a escada para pegar o cacho, e voltaram à prática milenar de pegar o alimento com estressantes acrobacias.

Aos poucos os macacos condicionados com jato de água gelada foram sendo substituídos por outros que não tinham passado por esta experiência. Após sete semanas, não restava um único macaco que tivesse passado pelo desprazer de levar um jato de água gelada nas costas cada vez que um colega usava a escada para alcançar as bananas. Mas, mesmo assim, cada vez que um novo macaco era introduzido e ousava usar o maldito instrumento, apanhava horrores...

O grupo de cientistas continuou seus afazeres em outras experiências, deixando em paz os macacos por um bom tempo. Meses depois um inquieto estudante, na hora do almoço, ficou observando nossos amigos e achou muito estranho eles ficarem se matando de esforço para alcançar o cacho ao invés de usar a escada. Armou-se de coragem para fazer a pergunta, mesmo correndo o risco de fazer um papelão.

– Professor, mas por que os macacos não usam a escada????

Ao que o professor respondeu:

– Sei lá, sempre foi assim...

Questão para reflexão:

Pesquise outros exemplos e

avalie criticamente esta opção de

substituir produtos por serviços.

A modifi cação de um produto para evitar a geração de resíduos depende de uma avaliação de mercado e requer uma visão de longo prazo por parte do produtor. Contudo, oportunidades de menor complexidade podem surgir se esta opção for considerada.

Shen (1995) sugere os seguintes critérios para o projeto de novos produtos:

• usar recursos naturais

renováveis;

• usar material reciclado;

• usar menos solventes tóxicos ou

substituí-los por produtos menos

tóxicos;

• reutilizar sucatas e materiais em

excesso;

• usar tintas com base de água em

vez de solventes orgânicos;

• reduzir o uso de embalagem;

• produzir produtos com mais

partes substituíveis ou que

possam ser consertadas;

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90 Prevenção da Poluição

• produzir bens mais duráveis;

• produzir bens e embalagens que possam ser reutilizados pelos consumidores;

• fabricar produtos recicláveis.

Esta é uma tendência futura, considerada pelos ecologistas industriais, que exige uma mudança profunda na forma como se produz atualmente. Esta tendência será analisada com mais detalhe num momento posterior, quando discutiremos a Ecologia Industrial e o Projeto para o Meio Ambiente.

Questão para reflexão:

Apresente um exemplo que ilustre a mudança de produto com sensíveis ganhos ambientais.

Se uma mudança no produto não pode ser implementada de imediato, pode-se, pelo menos, voltar a atenção para o processo produtivo existente e considerar alterações nos insumos, nas tecnologias de produção ou práticas de gestão que minimizem a geração de perdas para o meio ambiente. É o denominado Controle na Fonte.

MUDANÇA DE INSUMOS

O lançamento de óxidos de enxofre na atmosfera, oriundos de processos de combustão, pode ser reduzido ou minimizado pelo uso de óleos combustíveis com baixo teor de enxofre (BTE). O Programa e Plano Nacional do Reino Unido para a

Redução de Emissões de SO x

e NO x

de Plantas de Combustão de Grande Porte, lançado em 1990 (DOE, 1990), para atender à Diretiva Européia 88/609/EEC, favoreceu uma migração para o uso, quase que exclusivo, de petróleo e gás natural do Mar do Norte, com baixo teor de enxofre, no lugar do carvão na alimentação do sistema termoelétrico.

É um exemplo, em nível nacional, de controle da poluição na fonte através da mudança no uso de insumos.

Questão para reflexão:

Apresente um exemplo que ilustre a mudança de insumos.

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Minimização de Resíduos

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A substituição de insumos e produtos em geral, mas não sempre, envolve processos de decisão que podem ser complexos e extremamente dependentes de cada processo e das condições externas. A utilização de Análise de Ciclo de Vida auxilia na identifi cação de oportunidades e na escolha das alternativas de menor impacto. Este instrumento será visto com mais detalhe no capítulo seguinte.

Outros exemplos:

Substituição do DDT e outros pesticidas organoclorados por produtos menos tóxicos e persistentes, tais como os organofosforados e piretróides no controle de pragas na lavoura;

Utilização de produtos químicos em pellets em vez de pó, para reduzir emissões e perdas na embalagem e transporte;

Uso de papel não branqueado no lugar de papel branqueado na indústria gráfi ca;

Um exemplo no sentido inverso é o crescimento, na matriz energética brasileira, do uso de combustíveis fósseis a partir do programa de incentivo à implantação de usinas termoelétricas.

O setor de revestimentos e tintas, por exemplo, vem reduzindo o uso de compostos orgânicos voláteis a partir da substituição de tintas à base de óleo por tintas à base de água.

Um exemplo, quase pitoresco, citado por Graedel e Allenby (1995): substituição de munição de caça feita de chumbo por munição feita de bismuto, para reduzir a inserção de chumbo, metal muito tóxico, na cadeia alimentar.

MUDANÇAS NA TECNOLOGIA

Uma série de medidas consideradas de cunho tecnológico podem ser aplicadas visando evitar perdas, reduzir consumo de energia e quantidade de resíduos gerados num processo de produção. Estas medidas podem consistir em alterações do próprio processo, reconstruções relativamente simples ou instalação de equipamentos mais sofi sticados que podem até mesmo mudar as condições operacionais. Vale salientar que freqüentemente estas medidas precisam ser combinadas com Boas Práticas Operacionais,

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92 Prevenção da Poluição também conhecidas como “housekeeping “ – melhoria na manutenção da casa – e/ou com o uso de matérias-primas/insumos modifi cadas. (CNTL, 2000)

A seguir alguns exemplos:

Redução de consumo de energia

Exemplo: instalação de detectores de movimento para ligar/desligar sistema de iluminação e aquecimento no local de trabalho.

Uso efi ciente da energia

Exemplo: uso de maquinário com controle de velocidade: bombas alimentadoras, ventilação, exaustores de gás combustível, etc.

Aumento da vida útil dos produtos químicos/materiais

Exemplo: tratamento de emulsões lubrifi cantes refrigerantes através de ultrafi ltração.

Redução da entrada de impurezas

Exemplo: mudança de teto fi xo de tanques de gasolina para teto fl utuante.

MUDANÇAS NO PROCESSO

Na indústria de processos é comum se usar vapor de água para controlar reações químicas. A água é posteriormente retirada do produto, através de diferentes processos de separação, como a destilação, por exemplo. Em muitos casos esta água, contaminada com hidrocarbonetos e outros compostos do produto, é descartada como efl uente de processo, indo para posterior tratamento. As empresas investem em caros sistemas de tratamento para remover esses compostos.

Esses tratamentos não fazem senão retirar os contaminantes da fase líquida para convertê-los em borras, ou lodos, sem valor econômico e que ainda deverão ter um tratamento posterior e/ou uma disposição adequada dispendiosa. Modifi cações no próprio processo podem permitir não apenas que a água contaminada retorne para o processo, como, ainda, que se aproveite esses contaminantes como matérias-primas, transformando perdas em ganhos econômicos e ambientais.

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Minimização de Resíduos

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Na modificação dos processos de produção incluem-se desde aprimoramentos localizados em algumas etapas/equipamentos até a otimização da configuração de parte ou de todo o processo. Recentemente, pesquisadores dedicados ao desenvolvimento de metodologias para a síntese de processos começaram a introduzir a variável ambiental no âmago de suas propostas. Até o fim dos anos 80, no desenvolvimento desses métodos, as questões ambientais eram tratadas no final da elaboração do projeto conceitual.

O projeto preocupava-se apenas com a viabilidade econômica do processo, e as correntes residuais eram encaminhadas para tratamento e descarte, agregando custos ao projeto como um todo. O crescimento dos custos industriais relacionados a impactos sobre o meio ambiente e a consolidação do Princípio da Prevenção pressionaram por mudanças neste campo.

Nos métodos mais recentes, a geração de emissões, e o seu possível impacto ambiental, passa a fazer parte interna do processo de síntese. Os métodos hierárquicos propostos com este objetivo consistem no estabelecimento de prioridades para fazer uma síntese de processos e assim identifi car fontes geradoras de resíduos. A síntese de processos é dividida em uma seqüência de etapas. Cada etapa corresponde a um nível de detalhamento do processo, e para que a etapa seguinte seja avaliada, o processo tem que se mostrar econômica e ambientalmente viável.

A evolução do método de decisões hierárquicas (Douglas, 1988 e 1992) ilustra esta tendência. As principais etapas deste método encontram-se na Tabela 3.2.

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94 Prevenção da Poluição

NÍVEL 1

NÍVEL 2

NÍVEL 3

NÍVEL 4

NÍVEL 4A

NÍVEL 4B

NÍVEL 4C

NÍVEL 4D

NÍVEL 5

NÍVEL 6

NÍVEL 7

NÍVEL 8

TABELA 3.2 – PROCEDIMENTO DE DECISÕES HIERÁRQUICAS PARA

MINIMIZAÇÃO DE RESÍDUOS

Informações de entrada, tipo de problema

Estrutura de entrada e saída do fluxograma

Estrutura de reciclagem do fluxograma

Especificações do sistema de separações

Estrutura geral: separação de fases

Sistemas de recuperação de vapores

Sistemas de recuperação de líquidos

Sistemas de recuperação de sólidos

Integração energética

Avaliação de alternativas

Flexibilidade e controle

Segurança

Fonte: Douglas, JM, 1992.

As questões ambientais devem ser consideradas desde o nível inicial, porém são mais freqüentemente consideradas em etapas, como na defi nição de reciclagens de correntes, efi ciência de separação, recuperação de materiais e, evidentemente, integração energética.

Outros autores, como Linnhoff, Smith e Petela (1992), também pensaram na inserção de aspectos ambientais no processo de síntese, propondo, para tal, o método da “cebola”, que consiste numa análise de resíduos gerados através de uma auditoria nas etapas de síntese de processo, de acordo com a seguinte ordem de prioridades: reator, sistemas de separação, redes de transferência de calor e sistemas de utilidades.

A hierarquização por eles proposta se dá a partir das partes componentes do processo em si e não da organização do próprio trabalho de síntese, como no enfoque de Douglas

(Figura 3.4).

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Minimização de Resíduos

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FIGURA 3.4 – DIAGRAMA DA CEBOLA PARA SÍNTESE DE PROCESSOS, SEGUNDO LINNHOFF (SMITH E PETELA, 1992)

O trabalho de Smith e Petela (1992) atesta que a minimização de resíduos começa a ser pensada ao se projetar as reações químicas. Nesse momento, procuram-se maiores taxas de conversão das matérias-primas no produto fi nal assim como na especifi cação de subprodutos de forma a poder ser, na seqüência, transformados em produtos de maior valor. Deve-se, também, discutir a efi ciência energética do processo e as alternativas para um melhor desempenho.

Depois de ocorrida a reação que gera os novos produtos e subprodutos, estes devem ser separados de outros compostos indesejáveis. É comum se pensar apenas na especifi cação dos produtos principais, assumindo-se como inerente ao processo a geração de correntes residuais a serem tratadas ou descartadas. Cabe se verifi car processos de separação mais efi cientes que permitam maiores níveis de reuso e reciclo, transformando possíveis resíduos em insumos do próprio processo ou de outros.

A crise do petróleo dos anos 70 obrigou a indústria e os centros de pesquisa a desenvolver metodologias de otimização energética. Entre os métodos que mais se destacaram estão a Tecnologia Pinch e os métodos baseados em programação matemática.

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96 Prevenção da Poluição

Esses métodos, inicialmente, procuraram resolver o problema da otimização de redes de transferência de calor (HEN). Isto é, como se conseguir o melhor aproveitamento do calor contido em correntes (quentes) que requereriam resfriamento, para aquecer outras que requereriam aquecimento (frias). Esta otimização leva a reduções substanciais nos custos de capital, operacionais e ambientais relacionados com os sistemas de aquecimento e

águas de refrigeração.

Os avanços conseguidos na otimização de redes de transferência de calor foram aproveitados para a síntese de redes de transferência de massa (MEN). Em 1989, El-

Halwagi e Manousiouthakis defi niram a síntese de redes de transferência de massa como um processo em que, dado um conjunto de correntes ricas e um conjunto de correntes pobres, sintetiza-se uma rede de trocadores de massa que possa transferir algumas substâncias das correntes ricas para as pobres com o mínimo custo.

Como trocadores de massa os autores consideraram qualquer operação de transferência de massa contracorrente, tais como extração líquido-líquido, adsorção, absorção, desorção, etc.

O conceito de otimização de redes de transferência de massa tem permitido, entre outras coisas, encontrar formas mais econômicas de reduzir os custos e os impactos relacionados ao uso da água, tratamento e disposição de efl uentes.

Akehata (1991), citando o livro O sistema de processos químicos fechados (ainda não traduzido para o português), de Yasuharu Saeki, 1979, discute a idéia de fechamento dos processos químicos de forma a se reutilizar ao máximo os resíduos através da sua reincorporação no próprio processo. Para tanto, propõe-se a seqüência apresentada na

Figura 3.5.

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Minimização de Resíduos

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FIGURA 3.5 – FLUXOGRAMA ESQUEMÁTICO DE PROCEDIMENTOS PARA FECHAR UM PROCESSO QUÍMICO

(AKEHATA, 1991)

O autor ilustra a idéia de fechamento do processo com o sistema de efl uentes de uma indústria, como pode ser observado na Figura 3.6.

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98 Prevenção da Poluição

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Minimização de Resíduos

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Observe que no exemplo de Akehata os tratamentos descentralizados são inseridos de forma a permitir o reciclo da água para o mesmo processo que gerou o efl uente.

Mas será que esta é a única alternativa? Por que não pensar em encaminhar o efl uente de um processo diretamente a outro se este não exigir uma melhoria da sua qualidade?

Bagajewicz (2000) apresenta uma interessante revisão de metodologias utilizadas para o projeto de redes de água e efl uentes industriais, visando a soluções de máximo reuso e mínimo custo. Métodos de otimização, usando programação matemática, também já foram pesquisados para se sintetizar sistemas de reuso, tratamento fi nal e descarte de efl uentes líquidos de forma integrada, levando em consideração até mesmo a capacidade dos corpos receptores (Kiperstok & Sharratt, 1997; 1997a; 1997b).

Outros aspectos a serem considerados no que se refere à modifi cação de processo ou da sua tecnologia, para prevenir a geração de poluição:

Melhoria dos sistemas de controle e melhoria do processo de produção:

– melhor especifi cação fi nal dos produtos;

– redução na produção de produtos secundários de menor valor e resíduos;

Desenvolvimento/substituição de catalisadores visando a:

– maior recuperação, maior tempo de vida;

– menor impacto no seu descarte;

Utilização de novas técnicas de extração e separação, visando à eliminação do uso de solventes orgânicos e maior efi ciência no retorno de subprodutos a processo;

Extração supercrítica;

Membranas, osmose reversa, ultrafi ltração, eletrodiálise.

Mas, ATENÇÃO, muitas modifi cações de processo podem ser introduzidas de forma simples e com base no bom senso, quando se observa o processo no qual temos trabalhado durante anos, com novos olhos.

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100 Prevenção da Poluição

É o caso de efl uentes que sempre foram descartados para a canaleta e que podem ser aproveitados para make-up de uma torre de refrigeração. É o caso de retornar condensados para uso como água desmineralizada em outros processos, é o caso de checar se os equipamentos estão sendo utilizados conforme recomendado pelo fabricante!

Um exemplo divulgado por consultores do CNTL (Centro Nacional de Tecnologias

Limpas), do SENAI/RS, é bastante ilustrativo de mudanças de processo na indústria metal-mecânica.

O setor de pintura de uma fábrica de implementos agrícolas gastava muita tinta pintando com pistola sobre pressão. Verifi cou-se que a substituição do processo de pintura pelo método eletrostático não seria viável economicamente a curto prazo e se decidiu investir um pouco de esforço para reduzir as perdas no processo vigente. Num primeiro momento, ao se checar a pistola utilizada, verifi cou-se que o orifício ejetor não correspondia ao especifi cado pelo fabricante. Sugeriu-se então o uso de um orifício menor. Ao se colocar esta alternativa para os operadores, a resposta foi rápida:

– Não vai dar certo, o bico entope!

Dito e feito, o bico entupiu.

– Tá veeendo?

Ao invés de desistir ante a resistência ao processo de mudança, o consultor de P+L foi a montante do processo e verifi cou o grau de diluição utilizado para a tinta. Não era o especifi cado pelos fabricantes da pistola.

Moral da história: especifi cou-se a tinta, reduziu-se o bico ejetor e, conseqüentemente, reduziram-se as perdas de tinta para a cortina de água e o sistema de tratamento.

BOAS PRÁTICAS OPERACIONAIS (GOOD HOUSEKEEPING PRACTICES)

A implementação de pequenas melhorias pode levar a grandes reduções na geração de resíduos e à descontaminação de um número signifi cativo desses. A literatura apresenta uma extensa lista de experiências nesse sentido. Vale destacar o programa 33/50 da EPA, agência ambiental dos EUA.

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Minimização de Resíduos

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A implementação de boas práticas operacionais depende, por um lado, de uma gestão que priorize a minimização de resíduos e, por outro, do desenvolvimento de um olhar crítico perante o próprio processo produtivo, no âmbito da organização. O exemplo do concurso de projetos para conservação de energia da Dow Química, Louisiana, EUA

(em Graedel e Allenby, 1995) ilustra o potencial de desenvolvimento de um programa de minimização de resíduos (Tabela 3.3 e Figura 3.7).

TABELA 3.3 – RESULTADO DO CONCURSO DE IDÉIAS PARA CONSERVAÇÃO DE

ENERGIA NA DOW/LOUISIANA

1982 1984 1986 1988 1990 1992

Projetos ganhadores

27 38 60 94 115 109

Retorno médio do investimento (%)

173 208 106 182 122 305

(em Graedel e Allenby, 1995)

Entre as ganhadoras incluem-se idéias aplicáveis a qualquer indústria, tais como: isolamentos de tubulações condutoras de fl uidos quentes, limpeza e manutenção de trocadores de calor, uso de pontos de aquecimentos ao longo de tubulações longas e

áreas de estocagem.

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102 Prevenção da Poluição

FIGURA 3.7 – CONCURSO DE IDÉIAS, DOW (GRAEDEL E ALLENBY, 1995)

Interessante notar no exemplo que o número de projetos contemplados teve uma clara tendência ascendente com o tempo. Os ganhos fi nanceiros também mostraram uma evolução positiva. Fazemos esta observação porque é comum ouvir que num programa de minimização de perdas apenas nos momentos iniciais existem ganhos fi nanceiros substanciais. Na realidade isso depende da forma como se implementa o programa.

Quando o programa é interiorizado na empresa ou instituição, o surgimento de uma nova mentalidade entre os funcionários pode levar a ganhos adicionais ano a ano. A tendência ascendente das curvas também poderia ser explicada pela incorporação de novas tecnologias.

Nelson K. E. (1990), da Dow Química, Louisiana, apresenta algumas sugestivas idéias para se evitar resíduos: uso de esguichos para se reduzir as perdas de água na lavagem de equipamentos; verifi cação da própria necessidade de lavagem, e sua freqüência; aumento da pressão e redução da vazão; varrição de material inerte depositado em pátios de estacionamento, para se reduzir a geração de lodos contaminados em

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Minimização de Resíduos

103 estações de separação de óleo; varrição antes da lavagem de pisos. Estas são algumas considerações que podem ser feitas com relação ao gasto de água com lavagem de áreas e equipamentos.

Na indústria metal-mecânica, o tratamento das superfícies antes da pintura é um dos pontos mais importantes da geração de efl uentes líquidos. Uma das fontes identifi cadas

é a perda de compostos na seqüência de banhos (ver Figura 3.8).

FIGURA 3.8 – MINIMIZAÇÃO DE RESÍDUOS NA INDÚSTRIA DE TRATAMENTO DE METAIS (LAGREGA, 1994)

Observe a imagem seguinte. Temos aqui um exemplo de processo inefi ciente, em que uma solução simples como a apresentada anteriormente evitaria perdas.

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104 Prevenção da Poluição

Fonte: UFBA/TECLIM.

FIGURA 3.9 – GAIOLA TRANSPORTANDO PEÇAS METÁLICAS PARA O TRATAMENTO DE SUPERFÍCIES

Em vez de, apenas, se tratar o efl uente gerado, a colocação de canaletas invertidas entre os tanques de produtos evita perdas dos compostos de tratamento e reduz a carga para o tratamento.

No controle na fonte deve se dar principal atenção à redução de toxicidade dos resíduos. O Instituto para a Redução do Uso de Compostos Tóxicos (TURI), da Universidade de Massachusetts, em Lowell

(http://turi.uml.edu)

, vem desenvolvendo estudos nas

áreas de solventes alternativos, novos métodos para limpeza de superfícies e métodos alternativos para tratamento de metais, entre outras atividades. Esse estado americano instituiu umas das mais avançadas legislações de combate ao uso de substâncias tóxicas, incluindo a criação do próprio TURI. A minimização do uso dessas substâncias é um conceito considerado sinônimo de Prevenção da Poluição.

Questão para reflexão:

Visite a página do TURI e identifi que idéias interessantes para seu negócio.

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Minimização de Resíduos

105

Convém também conhecer o inventário de lançamentos tóxicos, TRI (Toxic Release

Inventory), do governo federal americano. Trata-se de um extenso banco de dados, regularmente atualizado, sobre o uso e emissão de substâncias tóxicas nos EUA. As informações estão à disposição do público em geral através da Internet e de bibliotecas públicas

(http://www.epa.gov/opptintr/tri/index.html)

. Criado com base no Ato sobre Planejamento de Emergências e o Direito a Saber da Comunidade, de 1986, o

TRI concentra as informações sobre substâncias tóxicas manipuladas por todas as empresas e organizações do país, com mais de 10 empregados, que produzem mais de 11 toneladas dos aproximadamente 600 produtos químicos designados, ou usam mais de

4,5 toneladas desses produtos.

O mapeamento da toxicidade dos efl uentes líquidos de uma indústria permite a identificação de prioridades para a minimização desta na fonte. Técnicas de biomonitoramento das correntes de efl uentes podem ser utilizadas para tanto. A idéia consiste em se identifi car em que pontos do processo são liberadas substâncias que conferem toxicidade signifi cativa ao efl uente da indústria, para que essas fontes sejam atacadas prioritariamente.

RECICLAGEM INTERNA E EXTERNA

Esgotadas as idéias para redução na fonte, passa-se a pensar no reuso e reciclagem de resíduos gerados. Normalmente, se defi ne reuso como sendo o aproveitamento de um resíduo ou efl uente diretamente em um outro processo, sem que para isso haja necessidade de promover qualquer adequação das suas características. Já reciclagem seria o aproveitamento do resíduo a partir de uma modifi cação das suas características para atender aos requisitos de um outro processo.

A ênfase aqui é para o reuso e reciclagem de forma a se aproveitar o maior valor agregado a uma corrente residual. Normalmente é mais proveitoso se esgotar as alternativas de reuso-reciclagem internas ao processo antes de se pensar em alternativas externas.

Ao se abordar a questão da reciclagem externa cria-se uma ponte com os conceitos de projeto para o meio ambiente e projeto para reciclagem, que serão abordados posteriormente neste módulo. Discute-se aqui a questão do aproveitamento de parte ou

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106 Prevenção da Poluição a totalidade dos componentes de um produto fi nal após sua utilização pelo consumidor.

Graedel e Allenby (1995) apresentam, na Figura 3.10, uma forma interessante de hierarquizar alternativas de reciclagem.

Observe que se propõe o aproveitamento de conjuntos de partes agregadas de forma a se recuperar o maior valor possível. Quanto maior o valor do conjunto reaproveitado, maior a recuperação de recursos naturais. Na reinserção, por exemplo, da estrutura de um banco de automóvel completo, num automóvel novo, está implícita uma recuperação de energia e materiais muito maior do que a simples reciclagem dos metais e plásticos que compõem esta peça.

No topo desse esforço situa-se a própria extensão do tempo de vida do produto em si. A simples consideração dessa possibilidade provoca no leitor uma reação:

Mas isto não é contrário aos próprios interesses do fabricante???

Alguns indícios, que podem apontar para a quebra desta lógica, começam a surgir.

A Resolução CONAMA 258, de 1999, regulamenta a reciclagem de pneus e coloca sob responsabilidade dos fabricantes, a partir de 2005, a retirada do mercado de cinco pneus usados para cada quatro produzidos.

Esse tipo de legislação, enquadrada entre as denominadas de “Responsabilidade

Estendida aos Produtos”, poderá tornar interessante o aumento da vida útil dos pneus, como medida de economia para o setor como um todo. Claro que para se obter esses resultados, é preciso um esforço muito maior do que apenas o realizado na fabricação dos pneus, na pesquisa e desenvolvimento do produto. Isso também implica num processo de educação do consumidor para o uso do produto (não rodar com pneus fora da pressão ideal...), e no compromisso do estado em manter as vias em boas condições de trânsito.

Longe da realidade atual, sem dúvida, mas vale a pena começar a se “antenar” com a proposta de um futuro melhor.

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Minimização de Resíduos

107

FIGURA 3.10 – HIERARQUIA DE PREFERÊNCIAS PARA RECICLAGEM (GRAEDEL E ALLENBY, 1995)

É bom salientar que vários autores apresentam de maneiras diferentes os assuntos discutidos neste capítulo.

Shen (1995) sugere algumas medidas práticas para a minimização dos resíduos nos processos produtivos:

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108 Prevenção da Poluição

• identifi car melhorias nos sistemas de limpeza, considerando:

• uso de água em vez de solventes orgânicos;

• utilização de revestimentos mais resistentes que permitam o uso de maior pressão de lavagem e conseqüentemente menores vazões de água;

• uso de revestimentos não aderentes;

• separação e recirculação d’água;

• reuso d’água;

• segregar correntes de emissões.

Lembre-se que:

Uma gota de poluente numa solução pura cria um recipiente inteiro de poluição.

A separação de resíduos de não-resíduos reduz a quantidade de resíduos a ser manipulada. Ao se misturar emissões de processos diferentes reduz-se a possibilidade para o seu reaproveitamento, pela geração de novas misturas e até pela criação de novos compostos, diferentes das matérias-primas utilizadas e produtos gerados.

As diferenças entre as propriedades físicas e químicas dos diversos materiais originais devem ser aproveitadas para facilitar os processos de separação e retorno à produção.

Essas diferenças se perdem ao misturá-los nas correntes de resíduos.

É muito comum, na indústria, a existência de redes de drenagem únicas e sem cadastro ou cadastros inexatos. É comum, ainda mesmo que após o cadastramento, que as informações estejam incorretas. Isso difi culta a segregação das correntes de efl uentes.

Cabe também se considerar a segregação de coletores de poeiras provenientes dos fi ltros de sistemas de remoção de material particulado instalados para reduzir a poluição atmosférica.

Um exemplo clássico de efeitos negativos, ambientais e econômicos, da não segregação de resíduos é a do lixo dos serviços de saúde. A não-segregação dos resíduos

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Minimização de Resíduos

109 infecciosos e perfurocortantes dos resíduos convencionais (administrativo, refeitórios, etc.) obriga a manipulação de todos os resíduos, na coleta e transporte, com medidas e custos relacionados aos de resíduos perigosos para preservar a saúde dos trabalhadores envolvidos nessas atividades.

Graedel e Allenby (1995) apontam para algumas práticas interessantes para minimizar perdas materiais e energéticas e facilitar a reciclagem de materiais. Este assunto é também lembrado no Capítulo 6 – Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente:

• minimizar o número de componentes e materiais diferentes nos produtos a serem reciclados;

• evitar usar compostos tóxicos e, quando isso não é possível, facilitar sua identifi cação e remoção;

• evitar montar peças de materiais diferentes de forma que sua separação seja difícil.

Outras práticas a serem consideradas:

• para a reciclagem de alguns materiais: quando não é possível reduzir o volume ou a toxicidade de um resíduo pode-se procurar seu reaproveitamento. Em geral, quanto mais próximo do processo que o gerou, maior o valor do resíduo. No caso de resíduos perigosos, esta regra também reduz riscos de acidentes;

• para o reuso d’água: a água, saindo como efl uente de um determinado processo pode ser diretamente usada em outros processos que requeiram menor nível de qualidade da água, desde que os contaminantes não interfi ram no processo ou, até mesmo, possam se incorporar ao produto. Isso reduz tanto a quantidade de

água utilizada como a vazão de efl uentes líquidos, podendo ou não alterar a carga fi nal do poluente na saída para tratamento fi nal;

• para regeneração e reuso: o efluente de um processo pode ser tratado parcialmente para atender às exigências de um outro processo. Esta regeneração pode ser específica para a remoção daqueles poluentes que impedem seu reuso. Nesse caso, pode-se conseguir melhores relações custo-benefício do que se tratando todos os efluentes ou removendo todos

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110 Prevenção da Poluição os contaminantes neles inseridos. Em alguns casos, efluentes podem ser tratados de forma que possam ser reaproveitados no mesmo processo

(regeneração e reciclagem).

A recuperação de solventes para reuso é uma prática comum na indústria que deve ser estendida. O uso de solventes em cascata reduz a quantidade de solvente utilizada.

Óleos contaminados podem ser usados em funções menos exigentes ou ser regenerados e reusados, ou reciclados. Em determinadas circunstâncias, óleos contaminados podem ser misturados com óleo combustível para queima em caldeiras. Isso requer um cuidado especial, para evitar o lançamento de compostos tóxicos na atmosfera. A depender da técnica utilizada para a remoção de óleo de efl uentes aquosos pode-se conseguir maiores reaproveitamentos. LaGrega et al., 1995, cita um caso em que o uso de ultrafi ltração levou a um acréscimo de 40% na recuperação de óleo com relação à remoção por fl otação com ar dissolvido, anteriormente utilizada.

As bolsas de resíduos também promovem grandes oportunidades. Elas visam colocar

à disposição de terceiros resíduos da indústria. Entre as informações necessárias para a comercialização de resíduos deve-se incluir: identifi cação da companhia (nome ou código), tipo de resíduo (ácido inorgânico, solvente orgânico, etc.), compostos principais, contaminantes, estado físico, quantidade, área geográfi ca, embalagem, etc.

O site do CEMPRE (Compromisso Empresarial para Reciclagem) merece uma consulta:

(http://www.cempre.org.br/index2.htm)

. Nele se encontram casos interessantes, como o do papel de escritório e o óleo lubrifi cante usado, entre outros.

EMBALAGENS E TRANSPORTE

Um outro aspecto que podemos chamar atenção para a necessidade de considerar de maneira transversal, na aplicação de técnicas de redução da poluição num processo produtivo, é o relacionado com embalagens e transporte. Avaliações recentes mostram que atualmente mais de 30% do material coletado pelos serviços de limpeza nos países desenvolvidos são resíduos de embalagens (Graedel e Allenby, 1995).

Quarenta por cento das embalagens utilizadas nos EUA são utilizadas para transferir produtos entre corporações. Este dado permite racionalizar as negociações, visando à redução do impacto das embalagens.

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Minimização de Resíduos

111

O programa “Anjo Azul” da Alemanha requer que as embalagens sejam totalmente recicláveis, tenham o máximo de componentes reciclados, não contenham compostos tóxicos (ex.: metais nas tintas) e não sejam branqueadas, no caso do papel.

Algumas sugestões de prioridades no que se refere às embalagens (Graedel e Allenby,

1995):

1. Não usar embalagens;

2. Usar o mínimo de embalagens;

3. Usar embalagens consumíveis, retornáveis, que possam ser reenchidas ou reutilizadas;

4. Usar embalagens recicláveis.

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112 Prevenção da Poluição

FECHAMENTO

As técnicas propostas neste capítulo de redução da poluição são utilizadas nos diversos programas, cujo princípio é o de prevenir.

É bom lembrar, nesse momento, o que não é Prevenção da Poluição:

• tratamento de resíduos;

concentração de componentes nocivos ou tóxicos para diminuir volume;

diluição de componentes para reduzir nocividade ou toxicidade;

transferência de componentes nocivos ou tóxicos de um ambiente para outro.

Discutimos com você diversas técnicas e apresentamos exemplos de cada uma delas, com a finalidade de fazer com que você perceba a necessidade de parar para repensar produtos e processos, enxergando oportunidades de melhoria. Tente priorizar as medidas que visem à redução na fonte geradora de problema, pois estas, com certeza, vão contribuir de maneira mais eficaz para uma produção mais limpa.

Temos a certeza de que com o seu conhecimento do processo produtivo, e das técnicas de Prevenção da Poluição que você deve ter absorvido neste capítulo, aliado aos de seus colegas de trabalho, você terá condições de assumir o papel de agente de transformação, propondo e implementando muitas ações que irão se constituir em experiências bem-sucedidas de Prevenção da Poluição e que poderão ser compartilhadas com outras empresas.

Sua motivação e seu comprometimento com a melhoria da qualidade ambiental vão fazer diferença onde quer que você esteja!

No próximo capítulo, apresentaremos uma metodologia de gestão ambiental amplamente usada e de eficácia comprovada para implantar um programa de Prevenção da Poluição num processo produtivo.

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

113

CAPÍTULO 4

METODOLOGIAS DE GESTÃO

AMBIENTAL COM ENFOQUE EM

PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO E

MINIMIZAÇÃO DE RESÍDUOS

Arlinda Coelho SENAI • CETIND • Centro de Tecnologia Industrial Pedro Ribeiro

Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma per-sonalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.

A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida.

Albert Einstein

Vimos nos capítulos anteriores que a intensifi cação dos processos produtivos, principal-mente após a Segunda Guerra Mundial, teve como conseqüência uma série de problemas ambientais que afetaram a qualidade de vida na Terra.

Verifi camos, ainda, que o momento atual exige um repensar na reestruturação de nações, na criação de blocos regionais, na organização de mercados e na criação de requisitos ambientais que sejam cumpridos por todos e em favor de todos para que possamos garantir a sobrevivência das gerações futuras.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Definir Prevenção da Polui-

ção / Produção mais Limpa e discutir como surgiu.

Apresentar o histórico da P+L no Brasil.

Comparar os modelos de gestão ambiental: Prevenção da Poluição/Produção mais

Limpa X Fim-de-tubo.

Apresentar a metodologia desenvolvida por UNIDO-

UNEP para dar suporte ao processo de implantação de

Produção mais Limpa nas empresas.

Analisar a Produção mais

Limpa como instrumento de

marketing.

Fazer um estudo comparativo entre SGA, baseado na norma ISO 14001, e

Produção mais Limpa.

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114 Prevenção da Poluição

Segundo o Worldwatch Institute (2000), “As economias não serão suportáveis por muito tempo a menos que o ambiente natural que as sustenta o seja”. No entanto, para que o ambiente se suporte, é preciso promover uma relação mútua entre ambientalismo e crescimento econômico, propiciando o desenvolvimento sustentável, obtido a partir de uma redução dos impactos ambientais decorrentes principalmente de atividades produtivas (Capra, 2000).

Quando analisamos as inter-relações entre o conceito de desenvolvimento sustentável, baseado no crescimento sem comprometimento das necessidades das futuras gerações, e o processo de gestão ambiental, envolvendo um conjunto de ações visando à melhoria do desempenho ambiental, verifi camos que a transformação dos bens comuns globais

(global commons) constitui a manifestação mais recente e talvez mais incontornável das questões contemporâneas dos “limites do crescimento”.

As alterações verifi cadas na atmosfera e biosfera são o resultado cumulativo de padrões globais de industrialização impostos por modelos ultrapassados de gestão ambiental (Sadler, 1994).

Essas tendências têm refl exos em termos da liderança ambiental, em nível nacional e local, podendo ser encaradas como uma condenação das abordagens convencionais de gestão ambiental. Dessa forma, a primeira abordagem reativa de “fi m-de-tubo” adotada no controle da poluição, que apoiou os instrumentos de gestão, Avaliações de Impacto

Ambiental (AIA) e a Avaliação dos Projetos de Grande Investimento de Capital, tornouse impotente para lidar com problemas globais e regionais de segunda e terceira geração, resultantes de alterações cumulativas.

A mudança para uma visão de sustentabilidade baseada nos três pilares da

ECOEFICIÊNCIA: ambiental, econômica e social, para que uma empresa ou um processo seja válido, ou seja, ambientalmente compatível, economicamente rentável e socialmente justo, implica a adoção de modelos de gestão que identifi quem as causas dos problemas ambientais para evitar a necessidade de medidas de caráter corretivas, reduzindo os impactos provocados por estes no meio ambiente, possibilitando a defi nição de alternativas que sejam viáveis economicamente e que contribuam efetivamente para a melhoria da qualidade de vida na Terra (Sadler, 1994).

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

115

Os modelos de gestão ambiental propostos atualmente pelos países desenvolvidos como estratégia para substituir a abordagem de gestão ambiental de fi m-de-tubo que utilizam as tecnologias de tratamento/disposição de resíduos, baseiam-se fundamentalmente no princípio de Prevenção da Poluição – PP ou P2.

Conforme visto no capítulo anterior, a gestão ambiental baseada na Prevenção da

Poluição derruba o velho paradigma de que resíduos são subprodutos inevitáveis da produção, sendo, portanto, inerentes a todo processo produtivo para assumir o novo paradigma de que gerar resíduos representa uma inefi ciência do processo produtivo, pois isto signifi ca a transformação de matérias-primas/insumos, com alto valor agregado, em produtos de baixo ou nenhum valor que podem, ainda, adicionar mais custos ao processo produtivo, quando são tratados/dispostos devidamente (Gardner, 2001).

Os modelos de gestão referidos anteriormente pressupõem ainda transparência e abertura das informações pelas empresas e organizações do setor público, num estímulo

à pratica de benchmarking e à publicação de relatórios com o objetivo de contribuir para a elevação dos padrões ambientais (Andrade, Marinho, Kiperstok, 2001).

Neste capítulo, portanto, apresentamos os modelos de gestão ambiental baseados nos princípios de Prevenção da Poluição, adotados como estratégia para promover o desenvolvimento sustentável, através do estímulo às empresas da prática de identifi cação das causas dos problemas ambientais decorrentes de atividades produtivas, a fi m de eliminá-las na fonte. Evita-se, assim, ações corretivas para os impactos ambientais, trazendo inúmeros benefícios para as empresas e o meio ambiente em geral.

4.1 PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO/PRODUÇÃO MAIS LIMPA – O QUE É? COMO SURGIU?

A adoção de metodologias de Prevenção da Poluição vem sendo proposta como estratégia efi caz para evitar os desperdícios de matérias-primas e energia, convertidos em resíduos sólidos, líquidos e gasosos, responsáveis por adicionar custos aos processos produtivos e gerar problemas ambientais.

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116 Prevenção da Poluição

Atualmente é possível encontrar várias abordagens concorrentes promovidas no mundo por entidades nacionais e internacionais:

PP ou P2 – Prevention Pollution, divulgada pela EPA – Environmental

Protection Agency (EPA, 1990);

P+L – Produção mais Limpa, desenvolvida pela UNIDO – United Nations for

Industrial Development e UNEP – United Nations Environmental Program

(UNEP, 1994);

PL – Produção Limpa, defendida por organizações ambientalistas e vários centros de P&D – Pesquisa e Desenvolvimento;

Ecoefi ciência, desenvolvida pelo WBCSD – World Business Council for

Sustainable Development (Signals of Change, 1995).

A publicação do WBCSD intitulada Eco-effi ciency and cleaner production (WBCSD,

1996), estabelece a perfeita complementaridade entre os conceitos de ecoefi ciência, defi nida como uma orientação gerencial estratégica, cientifi camente embasada, e

Produção Limpa, defi nida como conjunto de procedimentos de chão-de-fábrica, muito mais integrado ao processo.

Na literatura, é freqüente encontrar referências em relação à Produção Limpa (PL) como: “Tecnologias Limpas”, “Tecnologias mais Limpas”, “Produção mais Limpa”,

“Tecnologias de Baixos Desperdícios”, entre outras. Também se encontra a PL relacionada a conceitos e metodologias da qualidade, como Total Quality Environmental Management

– TQEM, terminologia introduzida pela Global Environmental Management Initiative

– GEMI, em 1991 (Pio, 2000).

Dessa forma, é importante apresentar as características mais importantes, principalmente de Produção Limpa e Produção mais Limpa, para facilitar o entendimento do nível de comprometimento relacionado a cada um desses programas, que podem ser adotados por uma empresa visando a uma melhor gestão ambiental.

Segundo Furtado (2000), tanto Produção Limpa como Produção mais Limpa são programas baseados no princípio da Prevenção da Poluição, defendendo a exploração sustentável de fontes de matérias-primas, a redução no consumo de água e energia e a

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

117 utilização de indicadores de desempenho ambiental. No entanto, vale salientar que a proposta de Produção Limpa é mais audaciosa, pois:

• baseia-se no princípio da precaução, o qual determina o não-uso de matériasprimas e não-geração de produtos com indícios ou suspeitas de provocar problemas ambientais;

• avalia o ciclo de vida do produto/processo considerando a visão holística;

• disponibiliza ao público em geral informações sobre riscos ambientais de processo e produtos;

• estabelece critérios para tecnologia limpa, reciclagem atóxica, marketing e comunicação ambiental;

• limita o uso de aterros sanitários e tem restrições à incineração como alternativa de tratamento de resíduos.

No que se refere à Produção mais Limpa (P+L), este programa representa um processo de melhoria contínua visando tornar a atividade produtiva cada vez menos danosa ao meio ambiente. Um outro aspecto a considerar ainda é que as metodologias propostas com este objetivo não se baseiam apenas em tecnologia, englobando também a forma de gestão das empresas.

As alternativas apresentadas normalmente, no âmbito de um programa P+L, para atingir os objetivos propostos, são conhecidas como “Técnicas de Produção mais Limpa”.

As Técnicas de Produção mais Limpa consistem em uma série de medidas que podem ser implementadas na empresa, compreendendo desde uma simples mudança de procedimento operacional até uma mudança de processo ou tecnologia.

Vale salientar, no entanto, que este caráter mais abrangente das metodologias de P+L atualmente propostas, contemplando até mesmo técnicas gerenciais, pode contribuir para que as empresas tendam a dar mais ênfase a estas últimas, pois normalmente representam menor custo, fazendo com que seja mais freqüente o uso de alguma engenharia adaptativa, preservando os projetos e as patentes originais, sem promover uma mudança mais efetiva no processo produtivo.

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118 Prevenção da Poluição

4.2 HISTÓRICO DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA NO BRASIL

Resgatando um pouco do histórico da Produção mais Limpa no Brasil, em 1992 ocorreu a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – RIO-92, em que o foco, segundo o Greenpeace, foi erroneamente voltado para a discussão sobre

Tecnologias Limpas, apresentando estas como solução para os problemas ambientais, estimulando muito mais o aspecto mercadológico do que o de discussão propriamente dita dos danos ambientais e sociais causados por tecnologias e práticas inadequadas adotadas em todo o mundo (Pio, 2000).

Em 1995, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI)/Departamento

Regional do Rio Grande do Sul foi escolhido pela UNIDO e UNEP para sediar um Centro Nacional de Tecnologias Limpas (CNTL), visando atuar como agente disseminador das técnicas de Produção mais Limpa no seio da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em 1997, realizou-se a Conferência Latino-Americana para o Desenvolvimento

Sustentável e Competitividade, na qual o presidente do Brasil, Fernando Henrique

Cardoso, deu um depoimento estimulando as empresas a aderirem a programas de Produção mais Limpa como alternativa de aumento de competitividade e sustentabilidade.

A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo

(CETESB) vem atuando também como um agente disseminador do programa Pollution

Prevention (P2) da Environmental Protection Agency (EPA), reestruturando em 1997 o programa Controle da Poluição Industrial de São Paulo (PROCOP) com base nos conceitos de Prevenção da Poluição/Produção mais Limpa. Em outubro de 1998, a

CETESB promoveu a Conferência das Américas sobre Produção Limpa, na qual foi assinada a Carta de São Paulo pelos governos dos EUA, Chile, Brasil, Costa Rica e Jamaica.

Esta conferência instituiu como primeira recomendação considerar Produção mais

Limpa (P+L) e Prevenção da Poluição (P2) como elementos norteadores para a política e legislação ambiental em nível dos governos federal, estadual e municipal, bem como para o planejamento estratégico das empresas e organizações não-governamentais (Pio, 2000).

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

119

A partir de 1998, o CNTL-SENAI/RS e o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), numa ação conjunta com o SEBRAE-Nacional e outras instituições, começaram a desenvolver a Rede Brasileira de Produção mais Limpa com o objetivo de repensar a relação entre o processo produtivo e o meio ambiente, dentro da ótica do aumento da ecoefi ciência e da produtividade.

Faz parte da estratégia utilizada pela Rede promover a internalização de conceitos e práticas de P+L a partir da realização de cursos de capacitação, consultorias às empresas, fóruns, seminários e outras atividades.

Atualmente esta Rede envolve vários órgãos de governo, centros de pesquisa, instituições de ensino, etc., que se encontram relacionados no Quadro 4.1 a seguir:

CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.

SEBRAE-Nacional – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.

CNI – Confederação Nacional da Indústria.

CNTL-SENAI/RS – Centro Nacional de Tecnologias Limpas.

Centro Tecnologias Limpas do DR/SP.

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos.

MMA – Ministério de Meio Ambiente.

NPLs – Núcleos de Produção mais Limpa (BA, MG e SC).

SENAI/SP.

CETESB – Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do

Estado de São Paulo.

UFBA – Universidade Federal da Bahia/TECLIM.

QUADRO 4.1 – PARTICIPANTES DA REDE DE TECNOLOGIAS LIMPAS DO BRASIL

Em nível estadual, podemos destacar a formalização na Bahia, em 1999, da Rede

TECLIM, de Tecnologias Limpas, coordenada pela Universidade Federal da Bahia

(UFBA), com o apoio da Redes Cooperativas de Pesquisa (RECOPE), FINEP, Centro de Apoio ao Desenvolvimento Científi co e Tecnológico (CADCT) da Secretaria de Planejamento do Governo do Estado da Bahia e do Centro Nacional de Pesquisa (CNPq) do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT).

Com a fi nalidade de fortalecer a Rede TECLIM, a Federação da Indústria do

Estado da Bahia/Instituto Euvaldo Lodi (FIEB/IEL) também instituiu o Programa de

Tecnologias Limpas na Bahia (PTL/BA), com adesão de várias empresas e instituições de ensino e pesquisa locais.

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120 Prevenção da Poluição

4.3 PREVENÇÃO DA POLUIÇÃO/PRODUÇÃO MAIS LIMPA X TECNOLOGIAS FIM-DE-TUBO

O Ministério do Meio Ambiente e de Energia da Província de Ontário, Canadá, defi niu a Prevenção da Poluição como:

“Qualquer ação que reduza ou elimine a geração de poluentes ou resíduos na fonte, realizada através de atividades que comprovem, encorajem ou exijam mudanças nos padrões de comportamento industrial, comercial e geradores institucionais ou individuais.” (SENAI, 1998)

Segundo Prestrelo et al. (2000), a lei americana de Prevenção da Poluição de 1990

(Pollution Prevention Act 1990) defi ne a Prevenção da Poluição (P2) como:

“quaisquer práticas, uso de materiais, processos que eliminem ou reduzam a quantidade e/ou toxicidade de poluentes, substâncias perigosas ou contaminantes em sua fonte de geração, prioritariamente à reciclagem, tratamento ou disposição fi nal (...)”.

Segundo o CNTL*1 (2000), a Prevenção da Poluição inclui práticas que eliminem ou reduzam o uso de materiais (nocivos ou inofensivos), energia, água ou outros recursos, bem como privilegiem aqueles procedimentos que protegem os recursos naturais através da conservação e do uso mais efi ciente.

Um programa de Prevenção da Poluição industrial é dirigido a todos os tipos de resíduos e representa uma revisão abrangente e contínua das operações numa instalação, visando à minimização dos resíduos.

Para que a implementação de um programa de Prevenção da Poluição numa empresa seja efi caz, este deve:

• proteger o funcionário, a saúde pública e o meio ambiente;

• melhorar o moral e a participação dos funcionários;

• reduzir os custos operacionais;

• melhorar a imagem da empresa;

• reduzir o risco de responsabilidade criminosa ou civil.

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

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A defi nição ofi cial da Produção mais Limpa dada pela UNIDO é:

“Produção mais Limpa signifi ca a aplicação contínua de uma estratégia preventiva, econômica, ambiental e tecnológica integrada aos processos e produtos, a fi m de aumentar a efi ciência no uso das matérias-primas, água e energia, através da não geração, minimização ou reciclagem de resíduos gerados em todos os setores produtivos.”

(CNTL*1, 2000)

Para processos produtivos, a Produção mais Limpa inclui o uso mais efi ciente das matérias-primas, insumos e energia, a redução dos materiais tóxicos e perigosos e a minimização na fonte de resíduos sólidos, efl uentes e emissões.

Para produtos, a busca é pela redução dos impactos ambientais associados a estes, e a estratégia adotada é baseada em dois instrumentos:

ACV – Análise de Ciclo de Vida, instrumento de gestão que avalia o ciclo de vida completo de um produto, processo ou atividade desde a extração e processamento de matérias-primas, fabricação, transporte e distribuição, uso e reuso, manutenção, reciclagem e disposição fi nal.

Projeto para o meio Ambiente, ou Ecodesign, que consiste no processo de desenhar, projetar um produto ou processo de maneira que este seja menos danoso ao meio ambiente. Pode ser considerado a parte da ACV que objetiva a melhoria do produto.

Estes dois instrumentos de gestão serão vistos com mais detalhes nos Capítulos 5 e 6, respectivamente, deste módulo.

No nível da gestão, P+L implica em mudança de atitudes e comportamentos, de todos os envolvidos no processo, propiciando uma nova cultura empresarial, impactando diretamente na melhoria do desempenho ambiental.

Podemos entender, a partir das defi nições anteriores, que tanto a Prevenção da

Poluição como a Produção mais Limpa pretendem integrar os objetivos ambientais ao processo de produção, a fi m de reduzir os resíduos e as emissões em termos de quantidade e toxicidade e, dessa maneira, reduzir custos num processo de melhoria contínua.

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122 Prevenção da Poluição

Segundo o CNTL*1 (2000), numa análise mais direta pode-se assumir que a gestão convencional de resíduos questiona: O que se pode fazer com os resíduos sólidos,

efl uentes e as emissões existentes? Enquanto que a Produção mais Limpa, proteção ambiental integrada à produção, pergunta: De onde vêm nossos resíduos sólidos,

efl uentes e emissões e por que, afi nal, se transformaram em resíduos?

Portanto, podemos concluir que a diferença essencial entre a gestão convencional de resíduos focada em Fim-de-tubo e a Produção mais Limpa (P+L) está no fato de que esta não trata simplesmente dos sintomas tentando atingir a raiz do problema.

Uma característica adicional que pode ser salientada é que P+L propõe uma visão integrada da empresa. Isso signifi ca considerar que matérias-primas, energia, produtos, resíduos sólidos e emissões estão intimamente interligados com água, ar, solo, via processo de produção, não obstante o fato de estes fatores serem tratados de forma separada na legislação.

A Tabela 4.1 a seguir relaciona diferenças entre Tecnologias Fim-de-tubo e Produção mais Limpa.

TECNOLOGIAS FIM-DE-TUBO

Como se pode tratar os resíduos e as emissões existentes?

... pretende reação.

PRODUÇÃO MAIS LIMPA

De onde vêm os resíduos e as emissões?

... pretende ação.

... geralmente leva a custos adicionais.

... pode ajudar a reduzir custos.

Os resíduos e emissões limitados através de filtros e capítulos de tratamento; Soluções de Fim-de-tubo; Tecnologia de reparo;

Estocagem de resíduos.

Proteção ambiental entra depois do desenvolvimento de produtos e processos.

Problemas ambientais resolvidos a partir de um ponto de vista tecnológico.

Proteção ambiental é um assunto para especialistas competentes.

Prevenção de resíduos e emissões na fonte;

Evita processos e materiais potencialmente tóxicos.

Proteção ambiental entra como parte integral do design do produto e da engenharia de processo.

Tenta-se resolver os problemas ambientais em todos os níveis/em todos os campos.

Proteção ambiental é tarefa de todos.

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Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

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... é trazida de fora.

... aumenta o consumo de material e energia.

Complexidade e riscos aumentados.

Proteção ambiental desce para preenchimento de prescrições legais.

... resultado de um paradigma de produção do tempo em que os problemas ambientais não eram conhecidos.

... é uma inovação desenvolvida na empresa.

... reduz o consumo de material e energia.

Riscos reduzidos e transparência aumentada.

Riscos reduzidos e transparência aumentada.

... abordagem que pretende criar técnicas de produção para um desenvolvimento sustentável.

Fonte: CNTL*5, 2000.

TABELA 4.1 – DIFERENÇAS ENTRE TECNOLOGIAS FIM-DE-TUBO E PRODUÇÃO MAIS LIMPA

Podemos considerar ainda que a Prevenção da Poluição/Produção mais Limpa, quando comparada às Tecnologias Fim-de-tubo (focadas no tratamento e/ou disposição de resíduos) apresenta várias vantagens:

• potencial para soluções econômicas na redução da quantidade de materiais e energia usados;

• indução a um processo de inovação dentro da empresa, devido a uma intensa avaliação do processo de produção, à minimização de resíduos, efl uentes e emissões;

• redução dos riscos no campo das obrigações ambientais e da disposição de resíduos devido ao fato de que a responsabilidade pode ser assumida para o processo de produção como um todo;

• facilitação do caminho em direção a um desenvolvimento econômico mais sustentado.

O conceito de Produção mais Limpa, adotado pela UNIDO/UNEP, tem como base o programa Ecoprofi t – Ecological Project For Integrated Environmental Technologies

(Projeto Ecológico para Tecnologias Ambientais Integradas), que visa fortalecer economicamente a indústria através da Prevenção da Poluição, inspirado no desejo de contribuir com a melhoria da situação ambiental de uma região.

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124 Prevenção da Poluição

Baseado em problemas ambientais conhecidos, o Ecoprofi t investiga o processo de produção e as demais atividades de uma empresa, e os estuda do ponto de vista da utilização de materiais e energia. Essa abordagem ajuda a induzir inovação dentro das próprias empresas, a fi m de trazer a estas, e a toda a região, um passo em direção a um desenvolvimento econômico sustentado.

A partir disso, são criteriosamente estudados os produtos, as tecnologias e os materiais, a fi m de minimizar as emissões e os resíduos e encontrar modos de reutilizar os resíduos inevitáveis. Nesse sentido, o Ecoprofi t não representa uma solução para um problema isolado, mas uma ferramenta lucrativa para estabelecer um conceito holístico.

O prefi xo “eco” da palavra Ecoprofi t tem um signifi cado triplo, nomeadamente:

• benefício ecológico;

• benefício econômico;

• em alusão ao signifi cado etimológico da palavra grega oîkos – casa, evoca a proposta de encontrar soluções para a manutenção da casa – housekeeping.

Nesse contexto, o sucesso da implantação de um programa baseado no Ecoprofi t depende do nível de comprometimento dos empregados, tendo em vista que o know-how, ou seja, o conhecimento que estes detêm sobre o processo produtivo, é essencial para identifi car as situações-problema e propor alternativas que resultem numa melhoria do desempenho ambiental da empresa. Desse ponto de vista, o Ecoprofi t tem, acima de tudo, o propósito de ser um auxílio em direção à auto-ajuda.

4.4 METODOLOGIA DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA DESENVOLVIDA PELA UNIDO/UNEP

“Em 1998 a UNEP lançou, em solenidade realizada na Coréia, a Declaração

Internacional Sobre Produção Mais Limpa, que é um comprometimento público para a estratégia e prática da Produção mais Limpa. A declaração é um conjunto de princípios que, quando implementados, leva ao aumento da conscientização, compreensão e fi nalmente a uma maior demanda por Produção mais Limpa. Para os que advogam a Produção mais Limpa é uma ferramenta para encorajar os governos, empresas e organizações a adotar e promover aquela estratégia.” (Prestrelo et al., 2000)

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LIDERANÇA

CONSCIENTIZAÇÃO

EDUCAÇÃO E

TREINAMENTO

INTEGRAÇÃO

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Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

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DECLARAÇÃO INTERNACIONAL SOBRE

PRODUÇÃO MAIS LIMPA

Nós reconhecemos que obter o desenvolvimento sustentável

é uma responsabilidade coletiva. Ações para proteger o meio ambiente global devem incluir a adoção de práticas de consumo e de produção sustentáveis melhoradas.

Nós acreditamos que a Produção mais Limpa e outras estratégias preventivas como Eco-eficiência, produtividade verde e Prevenção da Poluição são as opções preferidas. Elas requerem desenvolvimento de apoio e medidas apropriadas:

Com esta finalidade, nós estamos comprometidos a:

Usar nossa influência:

Para encorajar a adoção de práticas de produção e consumo sustentáveis através do nosso relacionamento com as partes interessadas.

Construir capacidades/capacitações:

Pelo desenvolvimento e condução de programas de conscientização, educação e treinamento dentro da nossa organização.

Pelo encorajamento da inclusão dos conceitos e princípios nos currículos educacionais em todos os níveis.

Encorajar a integração de estratégias preventivas:

Em todos os níveis da organização.

Dentro dos sistemas de gestão ambiental.

Pelo uso de ferramentas, tais como avaliação de desempenho ambiental, contabilidade ambiental, impacto ambiental, ciclo de vida e avaliações de produção mais limpa.

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126 Prevenção da Poluição

PESQUISA E

DESENVOLVIMENTO

COMUNICAÇÃO

IMPLEMENTAÇÃO

Criar soluções inovadoras:

Pela promoção de uma mudança de prioridade da estratégia de

Fim-de-tubo para preventiva, em nossas políticas e atividades de pesquisa e desenvolvimento.

Pelo apoio ao desenvolvimento de produtos e serviços que são ambientalmente eficientes e atendimento às necessidades dos consumidores.

Compartilhar nossas experiências:

Pelo reforço ao diálogo sobre a implementação de estratégias preventivas e informação às partes interessadas externas sobre os seus benefícios.

Tomar ações para adotar a Produção mais Limpa:

Pelo estabelecimento de metas desafiadoras e o relato regular do progresso através de sistemas de gestão existentes.

Pelo encorajamento de novos e adicionais financiamentos e investimentos em opções por tecnologias preventivas, e promoção de cooperação e transferência de tecnologias ambientalmente adequadas entre países.

Através da cooperação com a UNEP e outros parceiros e partes interessadas no apoio a esta declaração e na análise crítica do sucesso de sua implementação.

Fonte: Prestrelo et al. (2000), traduzido do site da UNEP (2001).

A metodologia de Produção mais Limpa é o resultado de um esforço conjunto da

UNIDO (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial) e da UNEP

(Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), tendo sido desenvolvida com base no estado-da-arte do conhecimento europeu sobre gestão de resíduos e desperdícios energéticos e materiais.

A estratégia adotada para disseminar a metodologia no mundo foi implantar Centros

Nacionais de Tecnologias Limpas – CNTLs, envolvendo como parceiros um país chamado “donante” (Holanda, Alemanha, Suíça e Áustria), responsável pelo suporte técnico/fi nanceiro, e um “hospedeiro” (países sub e semidesenvolvidos no mundo) a serem benefi ciados pelo programa. (Ver Figura 4.1)

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

127

Fonte: CNTL*1, 2000.

FIGURA 4.1 – PAÍSES “HOSPEDEIROS” DOS CENTROS NACIONAIS DE TECNOLOGIAS LIMPAS

A instalação de um CNTL no Brasil, no entanto, não contou com a parceria de um país “donante”, tendo esta iniciativa contado com o suporte técnico/fi nanceiro do

SENAI, com o compromisso de atuar como agente disseminador da metodologia junto ao parque industrial brasileiro. Atualmente, o CNTL-SENAI/RS desenvolve programas de P+L também em instituições e empresas de outros países, como Paraguai, Equador e Moçambique.

A implantação do Programa de Produção mais Limpa (P+L) numa empresa, com base na metodologia desenvolvida pela UNIDO, consiste na avaliação do processo produtivo, seja qual for a natureza, e na aplicação de técnicas que possam envolver desde a mudança de matéria-prima/insumo, consumo de água e de energia, tecnologia/ processo, procedimento operacional, até mesmo a mudança do próprio produto, que pode ser considerado ambientalmente incorreto nos moldes do apresentado no item 3.2 do capítulo anterior.

O processo de implantação de P+L, segundo a metodologia da UNIDO, segue o fl uxo apresentado na Figura 4.2:

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Fonte: CNTL*1, 2000.

FIGURA 4.2 – FLUXOGRAMA DE IMPLANTAÇÃO DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA – METODOLOGIA UNIDO/UNEP

Analisando o fluxograma de implantação de P+L representado na Figura 4.2, podemos dizer que a primeira etapa, a implantação de um programa de Produção mais Limpa, envolve:

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

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• realização de processo de sensibilização dos funcionários, através da apresentação das vantagens de se implantar P+L na empresa;

• elaboração de diagnóstico ambiental que funciona como um raio-X da empresa apresentando os principais problemas;

• construção de um diagrama de bloco do fl uxo do processo produtivo (Figura

4.3) e análise dos inputs (entradas: matérias-primas/insumos) e outputs

(saídas: produtos, resíduos sólidos, líquidos e emissões atmosféricas).

FIGURA 4.3 – DIAGRAMA DE BLOCO

Numa segunda etapa, o processo de implantação de P+L na empresa envolve:

• identifi cação das fontes geradoras de resíduos que possam ser tratadas como oportunidades de Produção mais Limpa;

• levantamento quali-quantitativo dos resíduos para identifi cação;

• identifi cação das técnicas aplicáveis e das barreiras que se apresentam à implantação destas;

• defi nição de indicadores de maneira a possibilitar uma avaliação do desempenho ambiental da empresa. Esses indicadores devem ser criados com base nas metas de redução a serem atingidas. Exemplos:

- consumo de água/tonelada de produto produzido/ano;

- consumo de energia – kWh/tonelada de produto produzido/ano;

- tonelada de um resíduo X gerada/tonelada de produto produzido/ano;

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• estruturação de um plano de monitoramento para facilitar a implementação de ações corretivas. No caso, por exemplo, de uma ação que consista em realizar medições, este plano deve conter informações do tipo: objetivo da medida, responsável pela medição, intervalos, periodicidade, estratégia de medição;

• realização de estudo de viabilidade econômica das alternativas de técnicas de

Produção mais Limpa que é feito visando balizar o processo de decisão.

É importante colocar que o processo de sensibilização em conjunto com os resultados gerados deve fazer com que a empresa que adota o programa P+L perceba claramente que este torna o processo produtivo mais efi ciente no emprego de matérias-primas e insumos, gerando mais produtos e menos resíduos, trazendo benefícios tecnológicos, ambientais, econômicos e outros, e contribuindo para a sustentabilidade e o aumento de competitividade.

Aos alunos:

Resíduos: uma vez localizadas as fontes geradoras e levantados qualitativamente e quantitativamente, o que fazer?

Quando perguntado sobre os fatores que infl uenciam na geração de resíduos e emissões, pode-se pensar primeiro na tecnologia usada na empresa. Certamente esta desempenha um papel importante neste contexto. Mas isso não deve levar à conclusão de que somente as medidas tecnológicas podem ajudar a realizar produção efi ciente e limpa.

Há uma infi nidade de campos que devem ser levados em conta. Os principais aspectos que podem indicar a origem dos resíduos e emissões são os seguintes:

• pessoal (falta de pessoal qualifi cado);

• tecnologias (uso de tecnologias ultrapassadas);

• matérias-primas (uso de recursos não renováveis e compostos tóxicos);

• produtos (de difícil degradabilidade – pós-uso);

• capital (escassez de recursos fi nanceiros);

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know-how do processo (resistência à mudança);

• fornecedores/parceiros comerciais (falta de alinhamento com os princípios de gestão ambiental adotados).

Com base nesses aspectos, é possível utilizar técnicas ou medidas entendidas como de Produção mais Limpa visando à minimização de resíduos. Estas estão agrupadas representando níveis diferenciados de efi ciência de aplicação de P+L.

A Figura 4.4 a seguir apresenta estes níveis e constitui um organograma de Produção mais Limpa.

Fonte: CNTL*5, 2000.

FIGURA 4.4 – ORGANOGRAMA DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA

Nível 1 – quando são priorizadas medidas para resolver o problema na fonte que consideram para tal, modifi cações tanto no próprio produto (projeto ecológico, ou ecodesign) como no processo de produção (uso cuidadoso de matérias-primas e com o processo, incluindo mudanças organizacionais, substituição de matérias-primas/insumos tóxicas por outras menos agressivas e modifi cações tecnológicas com adoção de tecnologias limpas).

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Nível 2 (reciclagem interna) – quando não é possível evitar os resíduos com a ajuda das medidas classifi cadas como de nível 1, estes podem ser reintegrados ao processo de produção da empresa: dentro do próprio processo original de produção, em outro processo, ou através da recuperação parcial de uma substância residual.

Nível 3 (reciclagem de resíduos e emissões fora da empresa) – através de reciclagem externa ou de uma reintegração ao ciclo biogênico (por exemplo, compostagem).

Aos alunos:

Como norma, você pode ter em mente que, quanto mais próximo à raiz do problema e quanto mais otimizados os ciclos, mais efi cientes serão as medidas.

Vale nesse momento ressaltar que a coleta de dados é a base para Produção mais

Limpa. Portanto, para assegurar informações que possam fundamentar o processo de implantação do programa P+L, é preciso:

• estabelecer uma visão geral dos principais fl uxos de materiais dentro da empresa;

• determinar onde serão coletados os dados (o ideal é considerar a empresa como todo);

• usar uma base de dados atualizada;

• determinar os limites do balanço de massa e energia (o princípio de conservação de massa e energia estabelece que tudo que entra em um processo deve deixá-lo: ou é estocado, ou é transformado em outro material);

• observar os pontos de monitoramento dos recursos materiais (na entrada, ou seja, no momento em que foram adquiridos; no ponto de uso – na máquina, na unidade de produção e no ponto de saída – isto é, no momento em que deixam o processo).

Os dados coletados devem responder às seguintes questões:

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Quanta matéria-prima e auxiliares de processo e quanta energia usamos?

Quantos resíduos e emissões são produzidos?

De qual/quais parte(s) do processo eles vêm?

Que resíduos são prejudiciais/precisam ser controlados e por quê?

Que porção das matérias-primas e auxiliares de processo se torna resíduo?

Que porção das matérias-primas e auxiliares de processo se perde na forma de emissões voláteis?

Quais são os custos incorridos devido à disposição de resíduos e à perda de matérias-primas?

Para facilitar a tarefa de sistematização de informações, são apresentados no anexo deste capítulo exemplos de folhas de trabalho que compõem o Relatório de Implantação

de Produção mais Limpa:

Folha de trabalho 1: Registro quali-quantitativo dos principais produtos/serviços produzidos. É interessante trabalhar sempre com uma única unidade de medida.

Folha de trabalho 2: Registro dos resíduos e emissões mais importantes, incluindo-se resíduos de água e de ar. Além das quantidades produzidas, há também perguntas sobre custos unitários com compra e disposição, os quais devem ser indicados em unidade monetária por unidade quantitativa. O custo total em unidades monetárias é calculado multiplicando-se o custo unitário pela quantidade.

Folha de trabalho 3: Registro das quantidades de matérias-primas e auxiliares mais importantes do processo. Os custos unitários e totais são de grande interesse, assim como também o objetivo de uso. Recomenda-se determinar o percentual de qualquer matéria-prima usada para a produção. Se não houver dados de medidas disponíveis, deve-se estimar da melhor maneira possível. A matéria-prima/auxiliar considerada como tóxica deve ser identifi cada.

Folha de trabalho 4: Registro das técnicas de P+L utilizadas para minimizar ou prevenir cada resíduo do processo produtivo. Pode-se gerar folhas separadas para diferentes tipos de resíduos e emissões.

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134 Prevenção da Poluição

As opções que se apresentam para solução dos problemas devem ser analisadas e selecionadas enfocando a minimização de resíduos e emissões, reuso de resíduos e emissões. Estas opções de soluções denominadas de Técnicas de Produção mais Limpa podem consistir em:

Mudança de Produto;

Mudança de Processo;

Substituição de Matérias-Primas/Insumos;

Modifi cação Tecnológica;

Aplicação de Boas Práticas Operacionais (Good Housekeeping Practices);

Reciclagem Interna e Externa.

Aos alunos:

Tente analisar os resíduos de um processo produtivo e identifi que as técnicas de P+L mais adequadas para evitar ou minimizar a geração destes. Não esqueça de considerar os níveis de aplicação de P+L apresentados na Figura

4.4. Uma revisão do Capítulo 3 deste módulo poderá ajudar nessa tarefa.

Folha de trabalho 5: Registro dos resíduos por categoria. Resíduos e emissões podem ter origem em diferentes matérias-primas por diferentes razões. Se for estabelecida uma lista de origens possíveis, os resíduos e as emissões poderão ser classifi cados de acordo com estas.

A Tabela 4.3, incluída no anexo deste capítulo, contém 11 categorias, para as quais podem ser aplicadas várias estratégias com o objetivo de evitar ou minimizar resíduos e emissões. Essa tabela pode ser usada para ajudar no preenchimento da folha de trabalho 5.

Registrados os dados requeridos nas folhas de trabalho é feito um estudo de viabilidade econômica das ações propostas para minimizar resíduos, a fi m de se balizar o processo de decisão em relação à medida a ser adotada.

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No fechamento do Relatório de Implantação de Produção mais Limpa é fundamental também fazer a análise quali-quantitativa dos benefícios obtidos com o programa. A exemplo de:

Benefícios ambientais – % de redução de: resíduos sólidos, emissões atmosféricas e efl uentes líquidos.

Benefícios econômicos – % de redução de custos com tratamento de: resíduos sólidos, efl uentes líquidos; emissões atmosféricas, consumo de energia elétrica e água.

Benefícios tecnológicos – adoção de tecnologias limpas, upgrade de equipamentos diversos.

Benefícios na saúde ocupacional – % de redução no índice de doenças ocupacionais.

Benefícios sociais – melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e de comunidades circunvizinhas.

Vale ressaltar a importância de se manter um registro fotográfi co de situações na empresa antes e depois da Produção mais Limpa, para efeitos comparativos e estimuladores no processo de implantação de P+L.

Todas as fases da implantação do programa só podem ser realizadas com o total envolvimento e comprometimento principalmente da alta gestão, a fi m de garantir a introdução e internalização do conceito e prática de Produção mais Limpa na cultura da empresa, impactando diretamente no gerenciamento ambiental.

Nesse sentido, a metodologia orienta para que seja formado um grupo de trabalho

Ecotime para coordenar as ações de implementação envolvendo trabalhadores da empresa com as seguintes características:

• liderança;

• motivação;

• representatividade;

• envolvimento com a equipe de trabalho;

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136 Prevenção da Poluição

• responsabilidade;

• autoridade.

O papel do Ecotime deve ser:

• coletar e analisar as informações de consumo e geração de resíduos;

• levantar as atuais práticas e procedimentos da planta industrial;

• estabelecer e avaliar novas oportunidades;

• implementar e dar continuidade às ações;

• multiplicar os conhecimentos adquiridos.

Aos alunos:

Organize um treinamento de P+L para o Ecotime, antes de iniciar a implementação do programa numa empresa.

4.5 OUTRAS METODOLOGIAS

Além da metodologia da UNIDO/UNEP, outras foram desenvolvidas com foco na minimização de resíduos e na Prevenção da Poluição visando dar suporte no processo de melhoria de desempenho ambiental nas empresas.

É interessante também colocar que existem propostas que têm a mesma confi guração do Sistema de Gestão Ambiental (SGA), baseado na norma internacional ISO 14001

– Diretrizes para Implantação de SGA.

A norma ISO 14001, uma vez implantada na empresa, possibilita a sistematização de informações sobre os impactos ambientais provocados pela atividade produtiva, assim como também a ação de gestão sobre estes. Consiste num processo de melhoria contínua desenvolvido em cinco etapas: Defi nição de Política Ambiental, Planejamento de Atividades, Implementação e Operação, Verifi cação e Ação Corretiva, Análise Crítica pela Administração.

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

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Como exemplo de outras metodologias de P+L que têm a mesma confi guração do

SGA, podemos citar o programa de Prevenção da Poluição (PP) do Ministério do Meio

Ambiente e de Energia da Província de Ontário, Canadá, cujo escopo consiste em:

Defi nição de Política Ambiental baseada no princípio de Prevenção da

Poluição.

Elaboração de Plano de Ação adequado com os objetivos propostos na Política

Ambiental.

Formação de EQA – Equipe de Qualidade Ambiental.

Avaliação preliminar para coleta de informações: regulamentação, processos, matérias-primas/insumos, problemas ambientais, etc.

Levantamento quali-quantitativo dos problemas ambientais e priorização. Os métodos propostos para realização desta etapa do programa são:

- Descrição semiquantitativa do processo: avaliação focada em dados qualitativos, não indicando quantidade de resíduo gerado e matéria-prima/ insumo.

- Análise de um processo: exame do processo de produção antes da PP e comparação com as mudanças ocorridas depois da PP.

- Análise de projeto: foco nos resultados obtidos de cada atividade proposta no

Programa PP: mudança de quantidades de compostos tóxicos, na toxicidade das substâncias, resultados econômicos, etc.

Estabelecimento de procedimentos de comunicação com as partes interessadas.

Identifi cação de barreiras potenciais técnicas, econômicas, regulamentares e institucionais.

Desenvolvimento de Plano de Emergência.

Comparando o instrumento SGA, baseado na norma ISO 14001, com as metodologias desenvolvidas pela UNIDO/UNEP e pelo Ministério do Meio Ambiente e de Energia da Província de Ontário, podemos dizer que a empresa que opta pela implantação do

SGA baseado na norma internacional ISO 14001, após a implementação de todas estas etapas, pode solicitar de uma instituição credenciada uma auditoria para verifi car se

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138 Prevenção da Poluição todos os itens exigidos pela norma foram cumpridos e, assim sendo, obter a certifi cação ambiental da empresa.

As metodologias da UNIDO/UNEP e do Programa de Prevenção da Poluição do

Ministério do Meio Ambiente e de Energia da Província de Ontário, não visam à certifi cação ambiental.

4.6 PRODUÇÃO MAIS LIMPA COMO INSTRUMENTO DE MARKETING

Podemos dizer que a Produção mais Limpa provoca uma mudança de cultura organizacional, de forma a atender aos requisitos ambientais e de mercado no sentido da minimização de resíduos. Trata-se, portanto, de um programa que contempla os aspectos qualitativos e quantitativos de melhoria dos produtos, serviços e seus efeitos ao meio ambiente e à qualidade de vida das pessoas.

Como vimos anteriormente, a implantação de um programa de Produção mais Limpa numa empresa é reconhecida como uma prática de gestão ambiental de grande efi cácia; no entanto, não visa à certifi cação. O grande diferencial desse programa está no fato de que este tem foco na melhoria do desempenho ambiental e normalmente requer menos investimentos que outros instrumentos de gestão ambiental.

Os resultados obtidos pelo CNTL-SENAI/RS na implantação de P+L em várias empresas no Brasil encontram-se disponíveis no site

http://www.rs.senai.br/cntl .

A implantação do programa P+L pode ser também uma opção bastante interessante para as micro, pequenas e médias empresas, que normalmente dispõem de poucos recursos, principalmente fi nanceiros e humanos.

Existem, no entanto, algumas barreiras para a implantação de P+L que precisam ser vencidas:

Parâmetros legais: a empresa pode limitar o seu desempenho ambiental em função do atendimento ao requisito legal, consolidando uma ação reativa, impedindo, assim, o processo de melhoria contínua.

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Barreiras econômicas: algumas medidas para solucionar problemas ambientais podem requerer investimentos fi nanceiros, e a empresa pode não dispor destes.

Falta de informações sobre as vantagens da Produção mais Limpa: as empresas não têm a cultura de quantifi car os custos ambientais associados ao processo produtivo para determinar quanto isso representa no preço do produto.

Barreiras comportamentais: a metodologia P+L, desenvolvida pela UNIDO,

é baseada na coleta de dados através de medições, e há muita resistência na realização desta tarefa.

Falta de integração entre os diversos setores de uma empresa, em relação aos seus problemas ambientais e de produção: os setores das empresas atuam normalmente de forma dissociada, o que difi culta a visão integrada do processo produtivo.

Busca de qualidade sem passar pela Produção mais Limpa: as empresas ainda não têm a cultura nem a prática de associar o conceito de qualidade do produto/processo ao impacto causado no meio ambiente.

Busca da tecnologia limpa diretamente, sem passar pela Produção mais

Limpa: a Tecnologia Limpa é uma alternativa de Produção mais Limpa que exige normalmente investimentos fi nanceiros maiores. Quando temos a oportunidade de avaliar melhor o processo produtivo, sob a ótica de P+L, podemos identifi car outras alternativas que podem contribuir para a melhoria do desempenho ambiental com menores investimentos, ou até mesmo nenhum.

As vantagens de se implantar o programa de Produção mais Limpa numa empresa utilizando esta metodologia, por sua vez, são inúmeras:

Disponibiliza uma metodologia que representa o passo a passo para a implementação de P+L.

Não requer custos adicionais com certifi cações e desenvolvimento de modelos mais sofi sticados de sistematização de informações.

Aumenta a efi ciência do processo produtivo.

Minimiza o impacto ambiental decorrente da atividade produtiva.

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140 Prevenção da Poluição

Orienta na adoção de medidas que, mesmo quando envolvem custos, podem apresentar o período de retorno baixo. Vale salientar que normalmente não existe período de retorno em investimentos de fi m-de-tubo.

Facilita o processo de decisão em relação a quanto a empresa deseja investir na gestão ambiental, pois fornece dados para avaliação.

Proporciona melhoria de imagem da empresa diante da sociedade e aumento da competitividade no mercado globalizado.

Evita custos crescentes devido ao tratamento de resíduos.

Apresenta menor suscetibilidade às condições que impactam no desempenho da empresa: necessidade crescente de espaço para disposição de resíduos, difi culdades na obtenção de licenças para exportação, passivos ambientais, produtos/processos considerados ambientalmente incorretos, etc.

Enfi m, um argumento muito forte que sensibiliza o empresário para implantar um programa de Produção mais Limpa está representado pela Figura 4.5. É preciso deixar claro que a geração de resíduos impacta diretamente tanto o desempenho ambiental da empresa como o fi nanceiro, diminuindo a sua competitividade.

FIGURA 4.5 – POR QUE FAZER UM PROGRAMA DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA?

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Aos alunos:

Tente preparar um material para ser utilizado num processo de sensibilização de uma empresa para adoção de P+L. Não esqueça de analisar as barreiras primeiro!

4.7 O SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL (SGA) BASEADO NA

NORMA INTERNACIONAL ISO 14001 E A PRODUÇÃO MAIS LIMPA (P+L)

Atualmente, as empresas estão sendo mobilizadas para uma corrida em busca da certifi cação de Sistema de Gestão Ambiental (SGA), com o objetivo de demonstrar que seus processos, produtos e serviços estão em conformidade com as normas ambientais internacionalmente aceitas.

A adoção desses instrumentos é voluntária, mas talvez o grande elemento motivador da busca pela certifi cação seja a existência de barreiras mercadológicas não tarifárias, impostas por países desenvolvidos, à aceitação de produtos/processos considerados ambientalmente inadequados.

A série ISO 14000, da Organização Internacional de Padronização, é uma resposta a esta demanda e consiste num conjunto de normas técnicas que orienta como implantar um SGA numa empresa, de maneira a se obter um certifi cado que ateste a conformidade do sistema à norma.

O importante, no entanto, é considerar este momento, como uma oportunidade para melhorar efetivamente o desempenho ambiental das empresas.

Que tal conhecer um pouco mais sobre o SGA?

Para que uma empresa tenha um SGA, segundo a norma ISO 14001, que é a norma da série ISO 14000 que orienta especifi camente como implantar um SGA, esta precisa ter realizado as seguintes etapas:

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142 Prevenção da Poluição

1. Defi nição da Política Ambiental, em que a alta direção da empresa expressa e formaliza o pensamento, a visão e o comprometimento da empresa com o meio ambiente. Segundo a norma, a política ambiental constitui “declaração dos princípios e intenções da empresa em relação ao seu desempenho ambiental e que devem nortear o planejamento de ações e o estabelecimento de seus objetivos e metas ambientais”.

2. Planejamento, constando os procedimentos de identifi cação dos principais impactos ambientais causados pela atividade produtiva da empresa e o estabelecimento de objetivos e metas a serem alcançados, de maneira a solucionar os problemas ambientais levantados.

3. Implementação e Operação, consistindo na defi nição de toda a estrutura básica necessária para alcançar os objetivos e as metas ambientais, tais como: recursos físicos, materiais e humanos, levantamentos de necessidades de treinamentos, estabelecimento de responsabilidades, procedimentos de documentação e comunicação, controle e operação para situações de emergências.

4. Verifi cação e Ações Corretivas do Sistema, com a fi nalidade de checar e adequar o SGA implantado à política ambiental da empresa e também aos objetivos e metas ambientais defi nidos. O mecanismo empregado é a auditoria interna, a qual consiste na avaliação sistemática documentada, periódica e objetiva do desempenho ambiental da empresa através do seu SGA. Esta é realizada pelos próprios empregados, devidamente treinados.

5. Análise Crítica pela Alta Administração, com a fi nalidade de identifi car novos objetivos e metas ambientais a serem alcançados, visando à melhoria

contínua do sistema.

Apresentamos as etapas de implantação da norma ISO 14001 de forma sucinta, pois não é objeto deste capítulo detalhar o SGA, mas, sim, exercitar a capacidade crítica dos instrumentos de gestão ambiental disponíveis.

Se você tiver interesse em conhecer mais sobre o SGA, consulte o módulo de

Sistemas de Gestão Ambiental produzido pelo SENAI, para atender ao Programa TGA

– Tecnologias e Gestão Ambiental do SENAI/DN.

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Aí está o ciclo de implantação de um SGA, baseado na norma ISO 14001!

FIGURA 4.6 – CICLO DE IMPLANTAÇÃO DE UM SGA

Ao realizar todas essas etapas, a empresa pode solicitar de uma instituição credenciada uma auditoria para verifi car se todos os itens exigidos pela norma foram cumpridos e, assim sendo, obter a certifi cação ambiental da empresa.

É interessante salientar mais uma vez que os certifi cados ambientais apenas signifi cam que estas empresas têm um sistema que possibilita sistematizar informações sobre os impactos ambientais provocados pela atividade produtiva e que há uma gestão sobre estes. Assim, podemos concluir que o fato de uma empresa ter um sistema de gestão formal não quer dizer que ela é ambientalmente mais correta que outra que não tem o certifi cado.

Existem alguns pontos, no entanto, que podem gerar interpretações errôneas quanto ao objeto de certifi cação e ao signifi cado do certifi cado propriamente dito:

• princípios norteadores mal defi nidos e que podem orientar a empresa a adotar uma postura de fi m-de-tubo não ambientalmente correta;

Segundo Prestrelo et al. (2000), a ISO 14001 no seu item 3.13 defi ne a Prevenção da Poluição como:

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144 Prevenção da Poluição

“3.13 Prevenção da Poluição: uso de processos, práticas, materiais ou produtos que evitem, reduzam ou controlem a poluição, os quais podem incluir reciclagem, tratamento, mudanças no processo, mecanismos de controle, uso efi ciente de recursos e substituição de materiais.”

NOTA

“Os benefícios potenciais da Prevenção da Poluição incluem a redução de impactos ambientais adversos, a melhoria da efi ciência e a redução de custos.”

(ISO 14001:1996)

Os autores ainda colocam que este conceito de Prevenção da Poluição defi nido pela ISO não incentiva a inovação pela promoção de uma mudança de prioridade da estratégia de tratamento e controle (fi m-de-tubo) para uma estratégia preventiva (atuação na fonte de geração).

• escopo do sistema pode ser limitado apenas a uma unidade do processo produtivo, ou ainda a um setor da organização (na divulgação da certifi cação esta informação pode não fi car clara);

• desempenho ambiental das empresas não ser o foco da certifi cação.

Quanto a este último ponto, segundo a ABNT (1996), é possível que duas empresas que desenvolvem atividades similares obtenham o certifi cado de conformidade emitido pelo mesmo organismo certifi cador, tendo, no entanto, níveis de adequação e/ou desempenho ambiental bastante diferentes. (Magnani, UFRJ, 1999)

Para entender melhor esta questão, é preciso perceber como a dimensão ambiental é vista pelas empresas e qual a estratégia de gestão adotada. A proposta de minimização de resíduos em processos produtivos, por exemplo, está diretamente associada à tecnologia do processo e à forma como as operações são executadas. Espera-se que estes condicionantes evoluam continuamente para opções cada vez mais adequadas em termos ambientais, as chamadas técnicas de redução da poluição, também conhecidas como Tecnologias Limpas.

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As técnicas de redução da poluição utilizadas num processo produtivo, vistas no

Capítulo 3 deste módulo, podem, por sua vez, traduzir o tipo de estratégia ambiental adotada (reativa, ofensiva ou inovativa).

A evolução progressiva de uma organização, através da adoção das estratégias ambientais referidas acima, exige em nível operacional que estas sejam traduzidas em procedimentos compatíveis com os princípios básicos de cada estratégia. (Fernandes et al., 2001)

Voltando à norma ISO 14001 de implantação de SGA, podemos dizer que o seu aspecto crítico é exatamente o processo de padronização de procedimentos. Muitas vezes a ânsia de estruturar o sistema impede a análise preliminar destes com a fi nalidade de verifi car a coerência com a estratégia de gestão adotada pela empresa, para a partir daí então decidir se há necessidade ou não de adequação dos mesmos antes da padronização.

O enfoque normalmente dado no processo de implantação da norma, visando à certifi cação, é priorizar tecnologias de fi m-de-tubo já dominadas, assim como também atender à legislação, o que caracteriza o sistema como reativo, mesmo que a atitude de implantar a norma de SGA seja considerada pró-ativa. (Fernandes et al., 2001)

Esta situação pode ser amenizada quando consideramos que o processo pressupõe uma melhoria contínua. Entretanto, quanto mais lento este ocorrer, pior será o problema, pois estes procedimentos inadequados, uma vez padronizados, continuarão a ser adotados porque foram atestados como certos, no sistema. (Fernandes et al., 2001)

O papel dos consultores e de auditores de sistema de gestão ambiental é muito importante para contornar esta situação, pois quando estes têm entendimento das práticas de gestão e tecnologias baseadas no princípio da Prevenção da Poluição, podem contribuir para orientar a empresa a contemplá-las no sistema de gestão ambiental.

Além disso, Prestrelo et al. (2000) reforçam a importância de se estimular as empresas que adotam a estratégia de certifi cação a incorporar outros compromissos, a exemplo de Atuação Responsável (ABIQUIM) e Declaração Internacional sobre

P+L (UNEP), que, uma vez assinados, tornam-se objeto de avaliação/verifi cação do seu cumprimento nas auditorias, pois torna-se “outros requisitos legais” (itens 4.3.2 e 4.5.1 da norma).

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146 Prevenção da Poluição

Quando fazemos uma análise comparativa do SGA baseado na norma ISO 14001 com a Produção mais Limpa (P+L), podemos salientar nesse momento que esta última estabelece o princípio de Prevenção da Poluição claramente e, além disso, concentra esforços na identifi cação das causas geradoras dos problemas ambientais, priorizando a identifi cação de medidas que efetivamente resultem na minimização de resíduos e, conseqüentemente, na melhoria do desempenho ambiental.

Dessa forma, P+L é um instrumento de gestão aplicável tanto em empresas certifi cadas que têm a intenção de focar mais na direção da minimização de resíduos como nas que não têm interesse pela certifi cação, mas que desejam melhorar o desempenho ambiental.

Vale salientar, no entanto, que, segundo Prestrelo et al. (2000), alguns aspectos da

Produção mais Limpa podem ser entendidos como pontos fracos, como por exemplo a falta de uma diretriz para defi nição da estrutura organizacional com as devidas responsabilidades; a estratégia adotada de formação de Ecotime para implantar P+L que pode não estimular o envolvimento de toda a empresa; a não-contemplação do plano de atendimento a emergências/contingências, para os casos de derramamentos/vazamentos, incêndios/explosões, etc.; a falta de mecanismo que divulgue os compromissos do programa P+L; e a não-avaliação periódica dos resultados do programa por instituições auditoras, para manter o estímulo à continuidade e melhoria.

Podemos dizer que o importante nesse processo de avaliação de instrumentos de gestão é entender as limitações de cada um e identifi car alternativas para cobrir a lacuna existente, de maneira a se atingir o objetivo maior de um programa de gestão ambiental, que deve ser o de melhoria do desempenho ambiental com enfoque em ações integradas de Prevenção da Poluição, visando a uma Produção mais Limpa. Isso quer dizer que na verdade podemos adotar vários instrumentos de forma complementar num sistema de

Gestão Ambiental, desde que estes não sejam confl itantes.

Tendo em vista as considerações feitas anteriormente, acreditamos que a utilização de instrumentos de gestão, de maneira geral, traz benefícios para os processos produtivos, pois normalmente estes estão embasados em metodologias conhecidas internacionalmente que sistematizam as informações e facilitam o levantamento, a leitura e a interpretação de dados, subsidiando a tomada de decisão quanto à postura a ser adotada diante das questões ambientais.

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 146 5/2/2003, 15:20:32

Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

147

O quadro a seguir pode contribuir para orientar o processo de inserção de P+L em

Sistema de Gestão Ambiental (SGA) baseado na norma ISO 14001.

REQUISITO DA NORMA ISO 14001

4.2 Política ambiental

ÊNFASE/ABORDAGEM PRINCIPAL

Compromisso com a P+L na forma de Prevenção da

Poluição

Levantamento de aspectos e avaliação de impactos usando a oportunidade de P+L como um filtro de significância

4.3.3 Objetivos e metas

4.3.4 Programas de gestão

ambiental

4.4.1 Estrutura e responsabilidade

Objetivos e metas viabilizados com projetos que tenham enfoque em P+L

Recursos para implantação de tais projetos

Conscientização, capacitação em metodologias, conceito e tecnologia para levar a cabo projetos de P+L

4.4.6 Controle operacional

4.5.1 Monitoramento e medição

4.5.4 Auditorias internas do SGA

4.6 Análise crítica pela

administração

Atividades envolvidas identificadas como oportunidades de P+L e planejadas e procedimentadas para dar sustentação às atividades dos projetos implantados

Criação de indicadores e monitoramento dos resultados e parâmetros relativos aos projetos e como conseqüência dos objetivos e metas a serem atingidos

Verificação independente sobre o andamento das providências de P+L

Balanço semestral/anual com a inclusão dos resultados e proposição de melhorias, tendo os projetos de P+L como importante input

Fonte: Prestrelo et al. (2000).

QUADRO 4.2 – RESUMO DA PROPOSTA DE INSERÇÃO DOS CONCEITOS DE P+L NOS REQUISITOS DA ISO 14001

Atualmente as empresas estão caminhando na direção da adoção de um Sistema de

Gestão Integrado que possibilite tratar a gestão de forma mais abrangente, envolvendo as questões ambientais, de segurança dos processos e da saúde e bem estar dos trabalhadores e utilizando conceitos/estratégias, técnicas da Produção Mais Limpa ou Prevenção da

Poluição e ferramentas como avaliação de desempenho ambiental (prevista nas normas de diretrizes ISO 14031/32 de 1999) e Análise de Ciclo de Vida (prevista nas normas de diretrizes ISO 14040/41/42/43) (Prestrelo et al., 2000).

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 147 5/2/2003, 15:20:32

148 Prevenção da Poluição

4.8 A ÉTICA NAS ORGANIZAÇÕES

Outro ponto que podemos enfatizar neste capítulo está relacionado à ética organizacional. Neste processo das empresas, de defi nir qual o caminho a seguir, para atingir o objetivo de tornar o desenvolvimento compatível com o meio ambiente, este pode ser um fator crítico para assegurar a credibilidade da prática adotada.

Utilizar ferramentas de gestão como instrumentos de marketing faz parte da regra do jogo no mundo da competitividade e da busca da sustentabilidade. O importante, entretanto, é fazer isso de forma ética, sem manipular e divulgar informações enganosas, mesmo porque, principalmente em questão de meio ambiente, ninguém tem como fugir por muito tempo do impacto de uma postura que não seja em prol do meio ambiente, pois isso está diretamente relacionado com a garantia da nossa sobrevivência na Terra.

Questão para reflexão:

Você acredita que a ética organizacional é exercida da mesma forma, tanto em países desenvolvidos como em países sub ou em desenvolvimento?

Em Souza (1999), tem-se que é pertinente que em países socialmente mais equilibrados e democráticos o grau de conscientização, a mobilização e a participação popular nas discussões sobre as questões ambientais são incomparáveis com a realidade enfrentada pelos países subdesenvolvidos, predominando nestes últimos um estado crônico de ignorância da população em geral que se refl ete em uma postura apática e facilmente manejável pelas mídias de comunicação. Isso nos leva a concluir que nos países desenvolvidos, em razão da pressão da própria sociedade junto às empresas, estas sejam levadas a dar mais atenção à questão da ética.

Vale a pena, no entanto, frisar que, apesar de reconhecermos as difi culdades associadas a fatores históricos e estruturais vivenciadas nos países subdesenvolvidos (incluindo-se neste contexto o Brasil), é preciso entender que todo esforço deve ser empreendido por instituições de ensino, governamentais, entre outras, na divulgação de informações que possam fundamentar o poder de crítica da sociedade, para que o exercício da cidadania ambiental ocorra de maneira mais efetiva, contribuindo dessa maneira como elemento de pressão na defesa do meio ambiente.

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 148 5/2/2003, 15:20:33

Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

149

A Tabela 4.2 a seguir representa um estudo comparativo entre o SGA baseado na norma ISO 14001 e a Produção mais Limpa – metodologia UNIDO/UNEP.

Aos alunos:

Analise as informações apresentadas e tente enriquecer o estudo comparativo, acrescentando outras diferenças entre os instrumentos de gestão apresentados.

TABELA 4.2 – COMPARAÇÃO ENTRE SGA BASEADO NA ISO 14001 E

PRODUÇÃO MAIS LIMPA – METODOLOGIA DESENVOLVIDA PELA UNIDO/UNEP

Parâmetros /

Instrumento de

Gestão

Princípio

SGA baseado na norma ISO 14001 Produção mais Limpa

Não definido.

Prevenção da Poluição.

Enfoque

Sistematização de informações referentes aos aspectos do processo produtivo: uso de técnicas em geral que podem minimizar/tratar resíduos.

Identificação da fonte geradora e aplicação de técnicas para a minimização de resíduos. Pode-se fazer uso de técnicas de Fim-de-tubo, tratamento/disposição, mas não é prioridade.

Não é ainda certificável.

Custos

Instrumento de

Marketing

Associados principalmente à:

- elaboração de procedimentos e geração de toda a documentação exigida pela norma ISO 14001;

- aplicação de técnicas de minimização/tratamento de resíduos.

Reconhecido.

Associados à aplicação de medidas de minimização de resíduos.

Em reconhecimento.

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 149 5/2/2003, 15:20:34

150 Prevenção da Poluição

Abrangência

Visão

Mecanismo de

Revisão

Aplicabilidade

Fonte: Construção própria.

Medidas de caráter sistêmico referentes a:

Política ambiental, Comunicação com as partes interessadas, Planos de emergências ambientais, etc.

Obs.: O levantamento dos aspectos e impactos ambientais foca os resíduos, mas com uma abrangência menor do que P+L.

Medidas de redução do consumo de energia, matérias-primas/insumos e minimização da geração de resíduos sólidos, efluentes líquidos e emissões atmosféricas.

Integrada e de melhoria contínua.

Através de controles operacionais, auditorias e análise crítica, utilizando indicadores na maior parte de caráter administrativo.

Integrada e de melhoria incremental e contínua.

Através do acompanhamento dos indicadores ambientais.

Empresas de médio e grande porte.

Todas as empresas, incluindo as micros e pequenas.

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 150 5/2/2003, 15:20:34

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 151

Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

151

FECHAMENTO

Podemos nesse momento tirar algumas conclusões bastante significativas com relação às metodologias de gestão ambiental com enfoque em minimização de resíduos e prevenção da poluição discutidas neste capítulo:

Os instrumentos de gestão devem está alicerçados nos três pilares da Ecoeficiência: econômico, ambiental e social.

Tanto a Prevenção da Poluição como a Produção mais Limpa obedecem ao mesmo princípio norteador de prevenir, a partir da aplicação de técnicas de minimização de resíduos, num processo contínuo que visa prioritariamente identificar as fontes geradoras de resíduos.

As questões ambientais são objeto de conflitos mercadológicos internacionais, resultando muitas vezes no desenvolvimento de instrumentos que, apesar de contribuírem para a melhoria das condições de vida no mundo, podem constituir barreiras não tarifárias.

Podemos assumir, como regra geral, que um programa

é eficiente quanto à melhoria ambiental se:

- a quantidade de poluentes é reduzida;

- os resíduos que não foram eliminados tiveram pelo

menos sua carga tóxica reduzida;

- ocorreu uma redução na utilização de

recursos naturais.

A ética organizacional deve ser trabalhada para que as empresas não utilizem os instrumentos de gestão ambiental como marketing enganoso.

Acrescente aqui as suas conclusões...

5/2/2003, 15:20:34

152 Prevenção da Poluição

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Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

153

ANEXOS

ANEXO 1 – FOLHA DE TRABALHO 1

FOLHA DE TRABALHO Nº 1 – PRINCIPAIS PRODUTOS E/OU SERVIÇOS

N

O

Empresa:

Objetivo do produto / serviço

1

Cerveja em garrafas, total (64%)

Redator:

Quantidade por ano

160.000

Página:

Unidade

Hl

7

8

5

6

9 das quais:

• 85% Märzen

• 100% Cerveja especial

• 5% Bockbier

2

Remoção direta do barril, total

(26%)

3

Enlatada, total (10%)

4

Fonte: Manual P+L do CNTL-SENAI/RS

65.000

25.000

Hl

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 153 5/2/2003, 15:20:34

154 Prevenção da Poluição

ANEXO 2 – FOLHA DE TRABALHO 2

FOLHA DE TRABALHO Nº 2 – OS PRINCIPAIS RESÍDUOS GERADOS E/OU EMISSÕES

2

3

Empresa:

1

Resíduos/emissões sólidos, líquidos, atmosféricos

Água residual

Pó de malte

Resíduo de cevada

Redator:

Quantidade por ano

Unidade

180.000

447

220 m

3 t t

Custo de compra (R$)

6

Página:

Custo de disposição

(R$)

Custo total (R$)

10 2.880.000

4.000

4.000

?

1.788.000

?

880.000

6

7

4

5

Sedimentos

Vidro/vidro quebrado

Recipientes plásticos

Papelão/papel

8

9

Pallets de madeira

Filmes plásticos

10

Resíduos industriais

35

24

1,5

104

30

92

18 t t t t t t t

2.400

10.000

5.000

6.000

22.000

?

250

350

2.000

40

-

4.500

800

7.500

253.000

216.000

175.000

144.960

39.750

83.200

11

Resíduos de manutenção, graxas

12

Conteúdos do separador de óleo

13

Óleo residual recolhido

14

Vernizes residuais recolhidos

15

Lâmpadas fluorescentes

16

Acumuladores

17

Gás residual, caldeira a vapor

Fonte: Manual P+L do CNTL-SENAI/RS

200

3.200

1.000

50

20

25

1.000.000

kg kg kg kg kg kg m

3

?

?

50

100

120

70

-

11

2,8

2

15

12

2,8

-

2.200

8.960

52.000

5.750

2.640

1.820

-

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 154 5/2/2003, 15:20:35

ANEXO 3 – FOLHA DE TRABALHO 3

Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

155

FOLHA DE TRABALHO Nº 3 – AS PRINCIPAIS MATÉRIAS-PRIMAS E AUXILIARES

Empresa: Redator: Página:

Nº Material

Quantidade por ano

Unidade

Custo unitário

(R$)

Custo total (R$)

Objetivo

% que participa do produto

1

Cevada crua

2

Rótulos

3

Tampas

4

Recipientes plásticos

5

Garrafas

6

Latas

4.700

t

120.000

Unidade

30.000

Unidade

20.000

Unidade

50.000

Unidade

5.000

Unidade

3.000

0,5

1

20

0,5

0,2

14.100

material básico

60 embalagem

30.000 embalagem

40.000 embalagem

60%

99%

99%

99%

99%

99%

7

Água de captação

8

Água de resfriamento

9

Eletricidade

120.000

40.000

10 Gasolina

40.000

Fonte: Manual P+L do CNTL-SENAI/RS m

3 m

3

5.000

MWh

1

4

4

2.150

5

5 embalagem

1 embalagem

480

água para fabricação da cerveja e água industrial

160.000 resfriamento

10.750

200.000

total da companhia frota de veículos

21%

-

-

-

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 155 5/2/2003, 15:20:35

156 Prevenção da Poluição

ANEXO 4 – FOLHA DE TRABALHO 4

FOLHA DE TRABALHO Nº 4 – PREVENÇÃO E MINIMIZAÇÃO DE RESÍDUOS E EMISSÕES

Empresa: Redator: Página:

RESÍDUOS E/OU

EMISSÕES

E/OU PROBLEMAS

MÉTODO ADOTADO

PARA PREVENÇÃO

1

2

3

4

5

7

Logística de resíduos

Padronização /

Automação

Compras melhoradas

8

9

Reuso, ciclo interno melhorado

10

Reciclagem externa

11

12

13

Compostagem, ciclos biogênicos

Alterações na seqüência de processo

Material de embalagem retornável

14

Modificação do produto

Substituição / troca de matérias-primas

Modificação da tecnologia

Otimização de parâmetros

(dosagem controlada, concentração de materiais,...)

Fonte: Manual P+L do CNTL-SENAI/RS

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 156 5/2/2003, 15:20:36

ANEXO 5 – FOLHA DE TRABALHO 5

Metodologias de Gestão Ambiental com Enfoque em

Prevenção da Poluição e Minimização de Resíduos

157

FOLHA DE TRABALHO Nº 5 – CATEGORIA DE RESÍDUOS GERADOS E EMISSÕES

(sólidos, líquidos e atmosféricos)

Empresa: Redator: Página:

RESÍDUOS/EMISSÕES

CATEGORIA

A MP não empregada

B Impurezas na MP

X

X X

X X

X

X X X X X

F MP mal-utilizada/refugo

X

X

X

X

I

H

Materiais de manuseio, estocagem, amostragem, análise, transporte

Perdas devido a evaporações

X

X

X X

X

X X

K Material de embalagem

L

Fonte: Manual P+L do CNTL-SENAI/RS

X X X X

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 157 5/2/2003, 15:20:36

158 Prevenção da Poluição

Mudanças tecnológicas, automação, melhor controle operacional, treinamento do pessoal, uso de diferentes matérias-primas, realização de macro e micro medição, melhoria na estocagem, melhoramento na logística Uso de diferentes matérias-primas quanto a fonte e procedência , buscar alter Reutilização como um nova matéria-prima, melhoria tecnológica, mudanças no processo, mudanças de insumos Treinamento de pessoal, uso cuidadoso, busca de diferentes matérias- primas, modificação de tanques e sistemas, modificação da for Garantia de qualidade, manutenção melhorada, automação, treinamento de pessoal Orientações de compra, redução do número de embalagens e de componentes em embalagens, embalagens retor

Prevenção da Poluição - Cap 4.indd 158 de madeira, finos de minério, perdas nas operações florestais e perdas em geral de matérias primas Cinzas de combustíveis, óleos e graxas de lâminas de metal, cascas e sementes de fr Produtos não comerciais, produtos fora de especificação, recipientes apenas parcialmente enchidos, misturas de produtos sem qualidade definida e não unifor Elementos filtrantes, óleos lubrificantes, estopas de limpeza, solventes, produtos de limpeza, isolantes de tubulação, material refratário Resíduos da limpeza de laboratório ou dos recipientes, frascos de amostragem, mercadorias danificadas Agentes de fixação de óleo, impurezas em matérias-primas ou produtos devido a problemas de manuseio, perdas de calor

Impurezas, substâncias secundárias nas matérias-primas ou subprodutos inevitáveis Resíduos e subprodutos não desejados Substâncias produzidas na par Resíduos e materiais da manutenção Materiais de manuseio, estocagem, amostragem, análise, transpor Materiais de distúrbios e vazamentos

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Análise de Ciclo de Vida

159

CAPÍTULO 5

ACV – ANÁLISE DE CICLO DE VIDA

Clarissa Campos Meira Universidade Federal da Bahia • UFBA • MEAU

Asher Kiperstok Universidade Federal da Bahia • UFBA • TECLIM

Guiados por um novo paradigma, os homens de ciência adotam novos instrumentos e orientam seus olhares em novas direções.

T. S. Kuhn

No contexto da Prevenção da Poluição surge a necessidade de instrumentos novos para avaliação do impacto ambiental de produtos que permitam a indicação de medidas que possam agregar

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Apresentar ao aluno a ferramenta Análise de Ciclo de Vida.

Avaliar os benefícios associados ao uso da ferramenta.

Descrever e discutir a metodologia utilizada na aplica-

ção de ACV. valor econômico aos setores produtivos. Devese considerar que os instrumentos atualmente utilizados para avaliação de impacto ambiental tendem a induzir a adoção de medidas chamadas de fi m-de-tubo que, normalmente, acrescentam custos à produção.

A Análise de Ciclo de Vida (ACV) é um dos instrumentos que desponta como indispensável para apoiar a implementação de propostas de ecoefi ciência. Sua efetiva implementação no futuro dependerá da existência de bancos de dados devidamente aparelhados.

Segundo Chehebe (1998), a Análise de Ciclo de Vida surgiu em 1965, num estudo custeado pela Coca-Cola, para avaliar de forma comparativa os diferentes tipos de embalagens de refrigerantes. O objetivo fi nal do estudo era concluir qual das embalagens tinha a menor carga ambiental associada. O processo de quantifi cação da utilização de recursos naturais e dos índices de emissão utilizados pela Coca-Cola nesse estudo, inicialmente, tornou-se conhecido como REPA (Resource and Environmental Profi le

Analysis), e depois evoluiu para o que hoje conhecemos como ACV.

Prevenção da Poluição - Cap 5.indd 159 5/2/2003, 15:22:25

160 Prevenção da Poluição

No entanto, muitos autores apontam para a SETAC (Sociedade para Toxicologia e

Química Ambiental) como a instituição onde se desenvolveu a metodologia de Análise de

Ciclo de Vida. “A defi nição e descrição de como deve ser feita a Análise de Ciclo de Vida de um produto foi desenvolvida internacionalmente pela Sociedade para Toxicologia e

Química Ambiental (...).” (Shen, 1995)

Desde 1989 diversos seminários internacionais têm sido promovidos para consolidar os avanços deste instrumento. Rydberg (1996) faz uma revisão de autores e momentos da evolução da ACV.

A ACV é um instrumento recente e vem melhorando continuamente. Cada vez mais análises com grau de complexidade maior são efetuadas. Segundo comentário dos autores Graedel e Allenby (1995), naquela época as Análises de Ciclo de Vida estavam em sua infância, tendo muita coisa mudado de lá para cá. A perspectiva é que pela sua própria essência e pelas tendências econômicas e ambientais do mundo atual os estudos de ACV deverão ter um caráter global.

5.1 O QUE É ACV?

Normalmente quando se quer falar sobre Análise de Ciclo de Vida utiliza-se a sigla

ACV. Mas você também pode ouvir por aí:

“Através de uma LCA a empresa Z constatou que seu produto gera maior impacto ambiental na fase em que ele está sendo utilizado pelo consumidor e não no seu processamento, como se esperava (...)”, ou:

“(...) Fizeram uma LCA comparativa de dois produtos e concluíram que, apesar de o produto X consumir mais matéria-prima na sua fabricação, a disposição fi nal do produto

Y contamina o lençol freático com uma substância de difícil tratamento (...).”

Como quase toda a literatura sobre Análise de Ciclo de Vida ainda é em inglês, vocês podem ouvir pessoas se referirem à ACV como LCA, isto é, Life Cycle Analysis.

Prevenção da Poluição - Cap 5.indd 160 5/2/2003, 15:22:27

Análise de Ciclo de Vida

161

Segundo a SETAC (Sociedade para Toxicologia e Química Ambiental): “Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) é um processo objetivo para avaliar os encargos ambientais associados com um produto, processo ou atividade com base na identifi cação e quantifi cação da energia e materiais usados e dos resíduos emitidos para o meio ambiente, de forma a avaliar o impacto do uso desta energia e materiais e as emissões para o meio ambiente, assim como avaliar e implementar oportunidades que redundem em melhorias ambientais. A avaliação inclui o ciclo de vida completo do produto, processo ou atividade, englobando a extração e processamento de matérias-primas, fabricação, transporte e distribuição, uso e reuso, manutenção, reciclagem e disposição fi nal.” (Shen, 1995)

Uma ACV aborda os impactos ambientais relativos à saúde humana (ela não envolve análise sobre os recursos humanos, apenas avalia os impactos sobre o homem), aos sistemas ecológicos e depreciação de recursos. A ACV não tem como propósito avaliar os efeitos econômicos ou sociais (Lindfors, 1995).

Dessa forma, saímos dos limites da indústria e fazemos uma análise mais ampla, completa, que nos permitirá identifi car onde e em que momento determinado produto representa maior risco ambiental, e desse modo identifi camos oportunidades de mudanças que levem a melhorias ambientais. A ACV foi concebida, principalmente, como um instrumento de mudança e não apenas de avaliação.

A frase clássica sobre ACV, que de fato é uma ótima defi nição do conceito, é: analisar a vida do produto “do berço ao túmulo”, ou, melhor ainda, “do berço à reencarnação”.

Lembrando!

Aliás, os “túmulos” estão fi cando realmente saturados!

Há um limite na capacidade de absorção do solo, do ar e da água.

Prevenção da Poluição - Cap 5.indd 161 5/2/2003, 15:22:27

162 Prevenção da Poluição

5.2 ALGUNS EXEMPLOS ILUSTRATIVOS

Para esclarecer melhor o conceito, observe os seguintes exemplos:

Imagine um proprietário de uma rede de shopping centers que decida avaliar que contribuições sua empresa pode dar para a preservação do meio ambiente.

Após visitar vários de seus shoppings, ele percebe que o consumo total de toalhas de papel em todos os banheiros gera um volume considerável de resíduos e decide, então, reduzir esse impacto ambiental.

A solução lhe parece óbvia: retornar ao método convencional e substituir as toalhas de papel por toalhas de pano. Analisando, no entanto, um pouco mais o assunto, ele percebe que ao tomar tal decisão estará, na realidade, simplesmente realizando uma transferência de problema. Reduzirá, sem dúvida, o desperdício de papel nos banheiros, mas fará ao mesmo tempo crescer, através das repetidas lavagens das toalhas de pano, um outro tipo de contaminação: aumentará o consumo de detergentes, de água (O DOBRO!), de energia (30%), a poluição das águas (86%), as emissões atmosféricas (40%) e outros tipos de poluição. Em outras palavras, ele estará transferindo a contaminação de um processo para outro (Chehebe, 1998).

Um outro estudo de ACV sobre a contribuição de determinado produto para a destruição da camada de ozônio apresentou os seguintes resultados:

Através da ACV foi possível identifi car que o estágio mais impactante, e, portanto, onde devem ser concentrados os projetos de melhorias, é o do processamento do produto

(Lindfors, 1995).

Mesmo tendo sido idealizado para subsidiar mudanças que levem a melhorias ambientais, a ACV pode ser usada para avaliar impactos que gerem reclamações usuais, para a defi nição de critérios para outorga de selos verdes, para identifi car informações necessárias para cobrir lacunas do conhecimento ou projetar um novo produto, com menores encargos ambientais.

Prevenção da Poluição - Cap 5.indd 162 5/2/2003, 15:22:27

Análise de Ciclo de Vida

163

Uma forma esquemática de representar o fl uxo de materiais de um produto qualquer encontra-se na Figura 5.1:

Fonte: Graedel e Allenby, 1995.

FIGURA 5.1 – FLUXO DE MATERIAL, CICLO TOTAL

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164 Prevenção da Poluição

5.3 FASES DA ACV

De modo geral, a literatura a respeito de ACV subdivide a análise nas seguintes fases:

FIGURA 5.2 – FASES DA ACV

As setas no diagrama indicam que uma fase pode infl uenciar na outra, de modo que o que fi cou inicialmente estabelecido pode ser modifi cado ao longo do estudo. Portanto, as defi nições iniciais têm caráter preliminar, podendo se cumprir ou não.

OBJETIVO E ESCOPO

Uma Análise de Ciclo de Vida deve ser abrangente, mas não pode ser superfi cial.

Isto é, deve considerar todas as etapas da vida do produto, processo ou atividade, mas não pode deixar de se aprofundar no que se refere às informações mais importantes.

De modo geral, podemos dizer que as maiores limitações para a realização de uma

ACV são: difi culdades práticas como coleta de dados em campo, tempo, acesso aos dados, custos, entre outras. Quanto mais ampla e mais detalhada a ACV, mais complexa, cara e demorada ela se torna. Por isso devem ser estabelecidos os objetivos do estudo, os limites da abordagem e a unidade funcional que servirá de referência para o trabalho.

Objetivos

Para podermos delimitar a ACV e torná-la exeqüível, e ao mesmo tempo proveitosa,

é fundamental ter o objetivo do estudo muito claro ao longo de todo o processo. Isso permitirá delimitar os esforços necessários.

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Análise de Ciclo de Vida

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Muitas vezes o estudo é feito apenas para identifi car as etapas que correspondem a um

maior impacto ambiental ou, ainda, poder fazer-se uma análise somente qualitativa, em função da difi culdade de se obter os dados necessários para uma análise quantitativa.

Um objetivo muito comum de uma Análise de Ciclo de Vida é o de, ao fi nal do estudo, ter reunido uma série de informações e parâmetros que irão auxiliar no projeto de um novo produto. A idéia é que no projeto sejam tomadas medidas que minorem os encargos ambientais identifi cados no produto estudado. É o que se chama DfE – Design for

Environment (Projeto para o Ambiente), que utiliza a ACV como ferramenta básica.

Outras metas comuns num estudo de Análise de Ciclo de Vida são: melhoria dos produtos para obtenção de selo verde, minimização de impactos ambientais conhecidos, identifi cação de pontos que devem ser pesquisados com maior profundidade, identifi cação das atividades causadoras dos maiores impactos, entre outras.

Limites

Estabelecido o objetivo, deve-se identifi car qual o limite do sistema, ou seja, quais processos serão analisados e, dentro dos processos, quais insumos, matérias-primas, formas de energia e de resíduos serão levados em consideração. O critério é que na defi nição dos limites sejam levados em consideração os itens mais importantes, os que representam maior custo ambiental. Podem ser selecionados, também, os de maior presença na composição do custo fi nal.

Lembrando!

Os limites e objetivos estabelecidos inicialmente não são rígidos, podendo ser modifi cados ao longo do estudo, em função das difi culdades ou facilidades encontradas.

Para se defi nir os limites do sistema, aí vão algumas dicas!

Segundo Chehebe (1998), deve-se observar:

• as aplicações pretendidas do estudo;

• as hipóteses realizadas;

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166 Prevenção da Poluição

• a defi nição dos critérios de corte;

• as restrições quanto aos dados, às despesas e ao tempo disponível;

• a audiência pretendida.

Para o estabelecimento dos limites, os critérios devem ser identifi cados e claramente justifi cados no escopo, de forma a se estabelecer a própria validade do estudo.

Atenção!

Toda ACV deve ser feita com completa transparência. Qualquer decisão de omitir um determinado estágio, processo ou corrente de entrada ou saída deve ser citada, e o motivo da omissão devidamente explicado para garantir credibilidade ao processo e orientar as decisões que possam ser tomadas a partir dele.

Algumas etapas que difi cilmente são descartadas na defi nição dos limites são:

• uso de combustíveis, eletricidade e calor;

• aquisição primária de energia e o processamento do combustível para uma forma utilizável;

• etapa de uso dos produtos;

• disposição fi nal dos resíduos do processo ou produto;

• reuso, reciclagem e recuperação de energia;

• transporte e embalagens.

Atenção!

Você deve concentrar-se nos processos que reconhecidamente geram maiores impactos ambientais. Substâncias tóxicas são um prato cheio.

A Figura 5.3 representa esquematicamente os limites de uma ACV:

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Análise de Ciclo de Vida

167

FIGURA 5.3 – DEFINIÇÃO DOS LIMITES DO SISTEMA (SHEN, 1995)

Nas bordas dos limites serão indicadas as entradas e saídas de materiais, insumos e energia.

De forma simplifi cada, a norma internacional ISO 14040 – Gestão Ambiental

– Análise de Ciclo de Vida – princípios e estruturas, estabelece que o conteúdo mínimo do escopo de um estudo de ACV deve referir-se às suas três dimensões: onde iniciar e parar o estudo do ciclo de vida (a extensão da ACV), quantos e quais subsistemas incluir

(a largura da ACV) e o nível de detalhes do estudo (a profundidade da ACV).

A Figura 5.4 mostra essas dimensões (Chehebe, 1998):

FIGURA 5.4 – DIMENSÕES DE UMA ACV (CHEHEBE, 1998)

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168 Prevenção da Poluição

Esses aspectos devem ser devidamente tratados, de forma a se ter uma resultante equilibrada, exeqüível e que atenda ao objetivo do estudo.

Observe o fl uxo do polietileno e a defi nição das três dimensões na Figura 5.5:

FIGURA 5.5 – CICLO DE VIDA DO POLIETILENO (RYDBERG, 1996)

No exemplo do polietileno da Figura 5.5 temos:

A extensão do estudo vai desde a extração do petróleo até a disposição fi nal no aterro.

É o início e o fi m.

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Análise de Ciclo de Vida

169

A largura representa os subsistemas, que vão ser analisados entre o início e o fi m do estudo: fabricação de torres de exploração de petróleo, insumos para perfuração, combustíveis, pneus e lubrifi cantes para o transporte, etc.

A profundidade se refere ao nível de detalhamento e precisão das informações a serem levantadas.

Dica! as que tratam de ACV são:

ISO 14040 – Gestão Ambiental – Análise de Ciclo de Vida – Princípios e estrutura.

ISO 14041 – Gestão Ambiental – Análise de Ciclo de Vida – Defi nição e escopo e análise do inventário.

ISO 14042 – Gestão Ambiental – Análise de Ciclo de Vida – Avaliação do impacto do ciclo de vida.

ISO 14043 – Gestão Ambiental – Análise de Ciclo de Vida – Interpretação do ciclo de vida.

ISO-TR-14047 – Gestão Ambiental – Avaliação de Ciclo de Vida –

Exemplos para interpretação da ISO 14042.

ISO 14048 – Gestão Ambiental – Análise de Ciclo de Vida – Formato da apresentação dos dados.

ISO-TR-14049 – Gestão Ambiental – Análise de Ciclo de Vida – Exemplos para a aplicação da ISO 14041.

Ainda na fase de objetivo e escopo, até mesmo antes do estabelecimento dos limites,

é importante fazer um fl uxograma do processo para se ter uma idéia geral de todas as fases do ciclo de vida.

Por fi m, uma vez que o objetivo do estudo esteja claro, é fundamental defi nir nesta fase da análise a unidade funcional. Para tanto, vale fazer algumas considerações para facilitar o entendimento da importância deste parâmetro numa ACV.

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170 Prevenção da Poluição

Tanto o impacto ambiental de um produto ou processo como os benefícios econômicos dele dependem do porte da produção e do seu desempenho produtivo, considerandose também no nível do consumidor ou usuário. Por exemplo, se fi zermos uma análise de ciclo de vida comparativa entre dois detergentes e concluirmos que o detergente A tem maior carga ambiental do que o detergente B, mas que no entanto o detergente A permite lavar 1,5 vez o número de pratos que o detergente B lava, isso pode reverter o critério de maior impacto ambiental.

Portanto, é indispensável identifi car um parâmetro que permita correlacionar esses aspectos. Este parâmetro funcional ou funcionalidade serve para referenciar cada um dos aspectos estudados com a fi nalidade ou função do processo ou produto analisado.

No caso de análises comparativas, a defi nição da funcionalidade é essencial, pois permite que sejam comparados produtos diferentes mas que se igualam na função que desempenham no caso de estudos comparativos.

Exemplos de unidades funcionais de alguns produtos ou processos:

Refi no de petróleo ¨ Toneladas/ano de gasolina ou mistura de produtos

A defi nição da funcionalidade permitirá que os parâmetros de impacto possam ser referidos a uma base única.

ANÁLISE DO INVENTÁRIO

Esta talvez seja a fase mais trabalhosa. Aqui devem ser levantados os dados necessários ao estudo. Todos os materiais e energia que entram e saem do sistema são levantados na forma de balanços de massa e energia. O que sai do sistema, ou de cada subsistema, um produto secundário comercializado, uma perda de energia, um resíduo gasoso, líquido ou sólido, disposto em aterro, reciclado, etc., deve ser aqui levantado.

O mesmo vale para os insumos materiais e energéticos. É importante que os dados venham de fontes seguras. A qualidade das fontes utilizadas deve ser devidamente esclarecida.

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Análise de Ciclo de Vida

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Outra observação importante é que na fase de coleta deve-se observar se os dados obtidos provêm da região onde está sendo feito o estudo ou são compatíveis com as condições da região. Por exemplo, suponha que estivéssemos fazendo uma ACV de um refrigerador e quiséssemos obter dados relativos ao total de energia consumido durante sua fabricação. Ora, sabemos que há diversas fontes de energia – nuclear, hidroelétrica, etc. –, de modo que se os dados obtidos para uso de energia forem relativos a uma fonte energética diferente da que irá ser usada no processo, de que vão valer as informações?

Os dados devem refl etir, da melhor forma possível, as condições que irão ser encontradas no processo.

Como já foi ressaltado, a obtenção dos dados não é tão simples assim. A difi culdade de se obter dados é um dos principais responsáveis pela redefi nição de objetivos e do escopo. Se a qualidade dos dados obtidos não for satisfatória para o cumprimento da meta inicialmente estabelecida, deve-se coletar dados adicionais, para melhorar a qualidade ou redefi nir a meta e o escopo do estudo. Dados de menor qualidade levam a resultados que mesmo que possam ser utilizados para subsidiar decisões, seu alcance necessariamente será mais restrito.

Lindfors (1995) inclui entre as fontes de dados:

Entrevistas com profi ssionais que tenham reconhecido conhecimento sobre o assunto;

Companhias, indústrias que tenham em seus processos os elementos estudados;

Normas técnicas;

Fatores de emissão;

Literatura técnica;

Informações dentro das companhias, indústrias;

Fornecedores;

Bancos de dados prontos de Análise de Ciclo de Vida;

Software de ACV.

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172 Prevenção da Poluição

Observe que os dados levantados devem ser normalizados com relação ao critério de funcionalidade, por exemplo: km/h por quilômetro rodado pelo pneu ou m

3

de água por tonelada de polipropileno produzido.

Uma importante verifi cação ao fi nal desta fase é que o inventário de cada um dos subsistemas somados deve se igualar ao inventário total do sistema. Tudo o que entra sai. Qualquer desvio deste princípio deve ser ressaltado e justifi cado.

Segundo Lindfors (1995), se a qualidade dos dados obtidos não for satisfatória para o cumprimento da meta inicialmente estabelecida, então pode-se:

1. Coletar dados adicionais para melhorar a qualidade. Se não for possível...

2. Redefi nir a meta e o escopo do estudo. Se não for possível...

3. Abandonar o estudo. Largar tudo. Desistir!

AVALIAÇÃO DO IMPACTO

Neste ponto do estudo, já temos um levantamento de todos os dados: matérias-primas, insumos e energia, que entram e saem em cada uma das etapas, que fazem parte dos limites que estabelecemos para nosso sistema. Em alguns casos, essas informações serão quantitativas; e em outros, qualitativas.

Na fase anterior, os dados obtidos certamente permitiram observar que algumas fases do ciclo de vida contribuem de forma mais signifi cativa do que outras na exaustão dos recursos naturais, nos impactos sobre a saúde humana e sobre o meio ambiente. Na fase de avaliação do impacto isso deve ser validado através de um estudo mais profundo.

Há muitas metodologias disponíveis para fazer a análise quantitativa/qualitativa que essa fase do estudo requer, como, por exemplo, metodologias de AIA, análises de risco, análises de melhorias técnicas e econômicas, entre outras.

As metodologias são geralmente muito detalhadas e complexas. A escolha vai depender dos objetivos estabelecidos na primeira fase do estudo. Esta norma recomenda que, seja qual for a metodologia escolhida, as seguintes etapas não podem deixar de ser consideradas:

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Análise de Ciclo de Vida

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Seleção e Defi nição das Categorias: Onde são identifi cados os grandes focos de preocupação ambiental, as categorias e os indicadores que o estudo utilizará (estes se relacionam a efeitos ou impactos ambientais conhecidos, efeitos tóxicos, aquecimento global, acidifi cação, saúde humana, exaustão dos recursos naturais, etc.). As categorias devem ser estabelecidas com base no conhecimento científico dos processos e mecanismos ambientais. Como isso nem sempre é possível, admite-se que, em alguns casos muito específi cos, o julgamento de valores possa substituir parte do conhecimento científi co.

Classifi cação: Onde os dados do inventário são classifi cados e agrupados nas diversas categorias, anteriormente identifi cadas. A atribuição adequada é crucial nesses casos para a relevância e validade da avaliação do impacto.

Caracterização: Onde os dados do inventário atribuídos a uma determinada categoria são modelados, para que os resultados possam ser expressos na forma de um indicador numérico para aquela categoria. Pontos a serem observados:

• o indicador de categoria representa a carga total ambiental ou a signifi cância do uso dos recursos naturais especifi cada para a categoria, após a conversão e a agregação dos dados do inventário atribuídos à mesma;

• para a conversão dos dados do inventário deve-se dar preferência à utilização de fatores de equivalência baseados em conhecimentos científi cos e universalmente aplicáveis. Os fatores de equivalência são também chamados de fatores de caracterização. Os fatores científi cos de caracterização nem sempre podem ser obtidos. Se o julgamento de valores for utilizado em substituição aos fatores de caracterização em estudos dentro das organizações, os resultados dos indicadores devem ser identifi cados na forma de uma escala de valores;

• juntos, os resultados dos indicadores representam um perfil de emissão e utilização de recursos naturais para o sistema. (ISO 14042, 1997, apud

Chehebe, 1998)

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174 Prevenção da Poluição

INTERPRETAÇÃO E PROPOSTAS

Nesta etapa, segundo Chehebe (1998), deve-se:

• analisar os resultados obtidos nas duas fases anteriores;

• tirar conclusões compatíveis com os objetivos estabelecidos;

• explicar as limitações do estudo;

• identifi car oportunidades de melhoria de acordo com o objetivo.

As melhorias podem se dar através de mudanças no processo de manufatura, em um novo design para o produto, em mudanças de matérias-primas, na forma de uso e descarte do produto, enfi m, podem ser identifi cadas melhorias ao longo de todo o ciclo analisado.

Aqui também pode ser indicada a forma como o estudo pode ser aperfeiçoado, com indicação do uso de outras ferramentas, ou pesquisa relativa a determinado tema, enfi m, é feita uma avaliação crítica do próprio estudo, indicando caminhos para aperfeiçoá-lo.

São essas, enfi m, as quatro fases de estudo de uma ACV. Essa divisão pode variar um pouco de autor para autor, mas os conteúdos são similares.

5.4 ACV PARA IDENTIFICAÇÃO DE QUESTÕES-CHAVE

Nem todas as Análises de Ciclo de Vida cumprem necessariamente as quatro fases anteriormente descritas. Muitas análises são efetivadas apenas para se identifi car as questões ambientais principais, ou questões-chave.

Uma ACV como essa pode ser extremamente útil para identifi car questões como:

Uma categoria de impactos dominante;

Um estágio dominante no ciclo de vida;

Uma lacuna nos dados ou no conhecimento.

(Lindfors, 1995)

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Análise de Ciclo de Vida

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Neste caso, trabalha-se basicamente com informações qualitativas. Informações quantitativas são utilizadas para comparar a importância de processos, correntes de insumos e resíduos e impactos ambientais.

5.5 ANÁLISES COMPARATIVAS

Além da Análise do Ciclo de Vida de um único produto, processo ou serviço, há uma outra forma típica de ACV. É a ACV comparativa.

Através de uma análise comparativa entre dois produtos é possível identifi car as maiores diferenças nos impactos ambientais potenciais das duas alternativas, para ver qual delas é menos agressiva ao ambiente.

Atenção!

Neste caso, os produtos têm que atender ao mesmo propósito. Têm que ter a mesma funcionalidade, a mesma utilidade. Não importa se um deles é feito de metal e o outro de plástico, por exemplo. Portanto, não estará se comparando bananas com laranjas, pois o importante é comparar o impacto ambiental fi nal que cada um deles causa, por unidade funcional.

Os resultados de um estudo como esse podem ser:

Comparar as maiores diferenças dos impactos ambientais potenciais entre os sistemas;

Selecionar os tipos de impactos causados por um sistema, que são candidatos em potencial a melhorias, quando comparados com um sistema de referência;

Avaliar as opções ambientais potenciais dadas pela escolha entre as diferentes alternativas, isto é, identifi cando os benefícios ambientais de determinada alternativa;

Identifi car as categorias de impactos que não são signifi cativamente afetadas pela escolha entre as alternativas.

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Como já foi dito, uma Análise de Ciclo de Vida pode ser muito trabalhosa se não forem excluídas as partes menos importantes. No caso de uma análise comparativa, pode-se imediatamente descartar do estudo os impactos equivalentes entre os dois produtos. Só tem sentido comparar efeitos ambientais se pudermos optar pelos menos impactantes.

5.6 ALGUMAS APLICAÇÕES DE ANÁLISE DE CICLO DE VIDA

A seguir são apresentados dois estudos de Análise de Ciclo de Vida, do Café e do

Vidro, ambos realizados pela Universidade dos Andes, Colômbia. Para sua realização foi utilizado um software especializado em ACV, o SimaPro. Segundo Hoof, autor do documento que relata os dois exemplos, “o SimaPro é o software mais utilizado no mundo, principalmente na Colômbia”, onde se realizaram os estudos.

Estudo 1 - Análise de Ciclo de Vida: Café

Referência: Bart van Hoof – Análisis de Ciclo de Vida (ACV) y su aplicación en

Colombia. Santa Fé de Bogotá, maio de 2000.

Descrição do projeto

Empresa: uma região de cafeicultura na Colômbia.

Produto: café tradicional, tostado e moído.

Pesquisador: Universidade dos Andes. Carlos Francisco Pareja.

Objetivo da empresa com o estudo

A associação dos cafeicultores tem entre os seus objetivos, incentivar a investigação científi ca em áreas que possam contribuir para melhorar a qualidade do café, que permitam também um aumento de produtividade e receita aos seus associados, levando sempre em consideração o fator ambiental. Adicionalmente, o estudo de Análise de

Ciclo de Vida ajuda a comparar os cafés orgânicos com relação aos tradicionais, dando diretrizes para melhorias de mercado e direcionamento de produtos.

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Análise de Ciclo de Vida

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Unidade Funcional

Para o estudo adotou-se como unidade funcional 100kg de café tostado e moído, disposto em um supermercado de Bogotá, em unidades de 500g, empacotado em sacos de polipropileno metalizado. No estudo foram analisadas as etapas de cultivo, benefi ciamento tradicional e também ecológico, processamento industrial e distribuição.

Resultados

Foi estudada a produção de dois tipos de café: o café tradicional e o café orgânico com benefi ciamento ambiental. Ambos os produtos têm como processos similares a parte industrial e de transporte, e determinando um impacto comparativo temos que o café do processo tradicional tem maior impacto sobre o meio ambiente que o orgânico.

A diferença da “ecopontuação” do orgânico em relação ao tradicional chega a ser maior em 600%. Uma vez que o café orgânico tem um público bastante reduzido devido aos altos custos envolvidos, decidiu-se analisar em que ponto do ciclo de vida do café tradicional era prioritário trabalhar.

Segundo o estudo, as prioridades citadas anteriormente encontram-se nas fases de cultivo e benefi ciamento. Isso nos ajuda a determinar de maneira preliminar que fatores ou que fases são prioritárias para melhorar o perfi l ambiental do produto.

Estudando essas duas fases percebemos que na fase de cultivo a utilização de pesticidas, fungicidas e herbicidas é o fator que determina a alta pontuação desta etapa. Essas substâncias apresentam um impacto considerável devido à periculosidade para a saúde humana e de algumas espécies. O segundo problema encontra-se na eutrofi zação da água, que é causada pela grande quantidade de nutrientes e sólidos em suspensão gerada no processo e lançada normalmente em corpos d’água.

No processo industrial, a etapa de tostar é responsável pela principal causa do problema de acidifi cação nas diferentes emissões atmosféricas decorrentes da combustão. Dado o grande volume de produção nesta fase, a carga por unidade funcional é mínima.

Através do estudo fi ca claro que o maior impacto é o causado pelo uso de pesticidas na etapa de produção do cultivo. Para o estudo, foi considerado um período de cinco anos. Nessa análise deve-se destacar que a terra foi identifi cada como insumo, não tendo sido considerado como prioritário, pois não representa maior impacto.

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178 Prevenção da Poluição

No detalhamento da fase de benefi ciamento úmido, segundo os dados do inventário, a maior contribuição para eutrofi zação encontra-se na fase de remoção da polpa. Nessa fase, a quantidade de nutrientes emitida para a água é considerável.

Conclusões

Da Análise de Ciclo de Vida (ACV) realizada chegou-se às seguintes conclusões:

As tendências de mercado para o consumo de café orgânico não só são benéfi cas do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista ecológico, tal como mostram os resultados.

No ciclo de vida do café tradicional, as fases de cultivo e benefi ciamento são aquelas em que se devem concentrar as melhorias.

Os esforços que se realizam atualmente para alcançar menor consumo de água no benefi ciamento do café são apropriados.

Não são prioritários os efeitos derivados do transporte e do empacotamento, em que pese este ser é um resíduo sólido.

A médio prazo poderia se pensar na utilização de combustíveis alternativos para a fase de tostar o café, e dessa maneira buscar diminuir as emissões atmosféricas devido à combustão.

Estudo 2 - Análise de Ciclo de Vida: Vidro

Referência: Bart van Hoof – Análisis de Ciclo de Vida (ACV) y su aplicación en

Colombia. Santa Fé de Bogotá, maio de 2000.

Descrição do projeto

Empresa: uma empresa de produção de vidro.

Produto: garrafas de vidro.

Pesquisadores: Universidade dos Andes. Mauricio Aponte, Magola Torres,

Medardo Barrios e Guillermo Zarco.

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Análise de Ciclo de Vida

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Objetivo da empresa com o estudo

A empresa busca, mediante este projeto, adquirir argumentos válidos em relação aos impactos ambientais da garrafa de vidro retornável e a não retornável, permitindo, assim, uma orientação nas suas estratégias de mercado e produção, tendo como base o suporte técnico dos resultados analisados através do ciclo de vida dos produtos em questão.

Unidade de análise

Foi defi nida, em conjunto com os empregados da empresa, a unidade funcional de

100 litros de cerveja, engarrafados e empacotados, e postos no supermercado, para cada um dos seguintes produtos:

Garrafa retornável de 300cm 3 para cerveja, de cor âmbar (210g).

Garrafa não retornável de 300cm

3

para cerveja, cor âmbar (190g).

Resultados

De acordo com a “ecopontuação” obtida para os ciclos de vida de cada uma das garrafas, a garrafa não retornável contribui consideravelmente mais para os problemas ambientais do que a garrafa retornável. A razão principal é a economia de recursos em matérias-primas na produção da garrafa retornável, por causa do uso repetitivo ao longo de sua vida útil.

Segundo as “ ecopontuações” obtidas para cada fase do ciclo de vida das garrafas, a fase de matérias-primas da garrafa não retornável contribui consideravelmente mais para os problemas ambientais do que as outras fases da mesma garrafa; e seguem nessa ordem as fases de produção, transporte, uso e reciclagem. Para a garrafa retornável, a ordem de contribuição é transporte e uso, matérias-primas, produção e reciclagem. Os resultados indicam que as fases de matéria-prima e produção da garrafa não retornável aportam consideravelmente mais aos problemas ambientais do que as mesmas fases da garrafa retornável, e ocorre o contrário para as fases de transporte, uso e reciclagem.

O estudo indica que o maior problema ambiental ocasionado no ciclo de vida da garrafa não retornável é a acidifi cação. Este problema surge, principalmente, no processo do segundo forno, na fase de produção; as principais emissões geradas no ciclo de vida que conduzem a este problema são NO x

e SO

2

, pela utilização de combustíveis fósseis.

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180 Prevenção da Poluição

O maior problema ambiental ocasionado pelo ciclo de vida da garrafa retornável são os compostos cancerígenos. Este problema surge, principalmente, no processo de lavagem e enchimento, nas fases de transporte e uso; o principal componente no ciclo de vida que conduz a este problema é o níquel no ar.

O maior problema ocasionado pela fase de matérias-primas do ciclo de vida de ambas as garrafas são os metais pesados. Este problema surge, principalmente, no processo de obtenção do casco, e o principal componente no ciclo de vida que conduz a este problema é o nível de chumbo dissolvido na água que é utilizada na lavagem.

Conclusões a que se chegou neste estudo:

O melhor produto em nível ambiental é a garrafa retornável.

Não se pode concluir sobre a vantagem ou prejuízo de uma troca na composição das matérias-primas do casco, porque não foi levado em conta o possível benefício ou prejuízo que traria um aumento ou diminuição da reciclagem do vidro como resposta ao aumento ou diminuição de sua demanda. Dessa forma, se faz necessária uma análise mais profunda deste aspecto para que seja superado este aspecto limitante do estudo.

Recomenda-se seguir adiante com o processo de substituir o óleo combustível utilizado no segundo forno por gás natural.

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Análise de Ciclo de Vida

181

FECHAMENTO

Apresentamos neste capítulo a Análise de Ciclo de Vida de produtos e processos como uma nova estratégia ambiental para fazer frente à crescente exaustão dos recursos naturais e aos impactos ambientais. Esta ferramenta é considerada como uma alternativa pró-ativa na defesa do meio ambiente, podendo contribuir para aumentar a competitividade da empresa que a adota.

Fizemos, ao longo desta etapa de aprendizado, uma abordagem conceitual da ferramenta e tentamos passar uma idéia de como aplicar o conhecimento de ACV na prática. Apontamos também as dificuldades normalmente encontradas na realização de uma ACV e algumas possíveis formas de superá-las. Procuramos demonstrar que esta ferramenta permite, através de sua estrutura, calcular quantitativamente o perfil ambiental de um produto, processo ou serviço.

Vimos ainda neste capítulo que a ferramenta Análise de

Ciclo de Vida é relativamente nova. Portanto, podemos concluir que muitos aspectos aqui abordados tendem a ser aprimorados e desenvolvidos mais detalhadamente numa velocidade muito rápida num futuro próximo, uma vez que as exigências ambientais também vêm se solidificando em ritmo acelerado.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

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CAPÍTULO 6

ECOLOGIA INDUSTRIAL E PROJETO

PARA O MEIO AMBIENTE (DfE)

Sean Patrick Bradley Universidade Federal da Bahia • UFBA • MEAU

Asher Kiperstok Universidade Federal da Bahia • UFBA • TECLIM

As empresas precisam formular estratégias próprias de projeto/manufatura que sejam específicas o suficiente para atender às suas necessidades como criadores de produtos

únicos, mas que se relacionem e atendam a demandas mais altas, tais como as políticas e os desafios das estratégias ambientais globais.

Antes de iniciarmos o conteúdo deste capítulo, vamos revisar um pouco o conhecimento até agora trabalhado de processo de aprendizagem. Isto certamente vai ajudá-lo a compreender melhor o contexto em que Projeto para o Meio Ambiente

(DfE) poderá ser inserido.

No primeiro momento de interação com você discutimos, em termos de ordem de grandeza, a redução do impacto ambiental necessária por unidade de produto, para se contrapor aos

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Introduzir a Ecologia Industrial e os conceitos e medidas a ela relacionados.

Apresentar metodologias de Projeto para o Meio

Ambiente.

Discutir a forma de organizar variáveis de decisão ambiental em contextos mais amplos do que um processo produtivo restrito.

Apresentar fatores ambientais relevantes como escolha de materiais, melho rias no processo, transporte, armazenamento, embalagens.

Contextualizar o Projeto para o Meio Ambiente em relação

à ACV.

Trazer informações gerais sobre o processo de projetar produtos e processos.

impactos decorrentes do crescimento da atividade econômica. Na ocasião falamos sobre o Fator 10, um conceito que autores institucionais e individuais têm usado para expressar o nível de redução do impacto ambiental por unidade de produto, que deve ser atingido nos

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184 Prevenção da Poluição próximos 50 anos. Longe de ser um número preciso, ou de se pretender qualquer exatidão no sentido dos prazos para isto ser atingido, o Fator 10 alerta para a necessidade de se pensar além das medidas convencionais, hoje predominantes, de gerar resíduos para depois destruílos. “Pensar fora da caixa”

Num segundo momento, com o objetivo de compreender melhor o motivo das preocupações ambientais, compartilhadas por vários segmentos da sociedade como um todo, relacionamos os principais problemas associados a produtos e processos projetados sob a ótica de um paradigma de que resíduo é inerente ao processo produtivo.

Como não podia deixar de ser, apresentamos medidas e enfoques que podem ser aplicados visando minimizar os resíduos gerados principalmente em processos produtivos já existentes. Passamos aí a tentar fazer você perceber a necessidade de adequar produtos e processos de maneira a atender às demandas ambientais de mercado.

Consideramos importante também apresentar a metodologia desenvolvida pela UNIDO/

UNEP para implementar um programa de Prevenção da Poluição/Produção mais Limpa, de forma prática, em processos produtivos.

Outra ferramenta que achamos interessante discutir um pouco mais com você foi a ACV

(Análise de Ciclo de Vida), que pode ser utilizada para avaliar o impacto de produtos e serviços em todas as suas fases, desde a extração da matéria-prima até disposição fi nal do produto pós-uso. É bom lembrar que através da ACV podemos identifi car os aspectos críticos a serem trabalhados e defi nir diretrizes a serem adotadas no processo de concepção de um novo produto ou processo considerado mais ecologicamente correto.

Vale salientar que até este momento do aprendizado estávamos concentrados nos limites físicos da fábrica. No entanto, neste capítulo vamos procurar abrir um pouco mais a discussão. Vamos pensar, aqui, na necessidade de uma maior articulação entre os setores produtivos e a sociedade. Vamos, ainda, entender que o impacto ambiental da produção deve ser discutido bem antes de se construir a fábrica. Deve começar até mesmo na própria fase de concepção dos produtos a serem manufaturados. Estaremos conversando a partir de agora sobre Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente.

Atingir o Fator 10 vai exigir isto, e muito mais! Por exemplo, mudanças nos padrões de consumo, principalmente nas sociedades opulentas. Contudo, esta discussão, mesmo sendo apaixonante, foge ao escopo deste módulo.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

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O desenvolvimento de conceitos abrangentes para orientar a relação entre os modos de produzir e consumir, como não podia deixar de ser, tem gerado diferentes pontos de vista. Alguns deles colocam de forma confl itante as propostas da Prevenção da

Poluição/Produção mais Limpa com as da Ecologia Industrial (EI). Outros autores interpretam estas diferenças como enfoques complementares e não antagônicos. O trabalho de Marinho e Kiperstok (2000), Ecologia Industrial e Prevenção da Poluição:

uma contribuição ao debate regional, aborda estas diferenças e as aplica ao caso do

Pólo Petroquímico de Camaçari -

www.teclim.ufba.br

. O periódico Journal of Cleaner

Production dedicou uma edição inteira à discussão das divergências e convergências entre esses conceitos.

De fato, os autores mais relacionados com a P2 têm focado mais o processo interno

à fábrica. Já os autores relacionados à EI têm-se preocupado mais com as relações interfabris e sua inserção nos ciclos naturais. Instrumentos como a Análise de Ciclo de

Vida e metodologias de Projeto para o Meio Ambiente tentam operacionalizar esses esforços. Eles tentam responder a perguntas do tipo: Quais são os fatores que você deve levar em conta quando está projetando produtos ou processos industriais? Quais são realmente suas prerrogativas, e o que se encontra previamente defi nido pelas restrições do mercado, e pela legislação e regulamentação?

O Projeto para o Meio Ambiente (Design for Environment – DfE) representa uma linha de pensamento que a cada dia que passa se consolida como uma alternativa para casar interesses corporativos com preservação ambiental.

Tomar decisões nunca foi fácil, mas hoje as complexidades envolvidas são signifi cantes, e erros de projeto podem condenar o produto a impactar o ambiente por anos, comprometendo o nome da empresa. Portanto, não é sufi ciente identifi car fatores ambientais importantes no projeto de produtos, mas sim estruturá-los de forma que projetistas possam incluí-los apropriadamente.

A meta do DfE, assim como da Ecologia Industrial, precisa ser esclarecida, e o processo de projetar, avaliado diante desta meta. Nossas decisões de projeto precisam caminhar nesta direção, de forma a contribuir efetivamente para a sustentabilidade dos sistemas de produção.

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186 Prevenção da Poluição

6.1 ECOLOGIA INDUSTRIAL – EI

A discussão sobre a sustentabilidade do planeta, à luz do crescimento do poder de impacto do binômio produção-consumo, obrigou a aproximação de cientistas e pensadores das ciências naturais, sociais e de tecnologia do processo produtivo. Um importante encontro desse tipo ocorreu em julho de 1992, em Snowmass, Colorado,

EUA, reunindo 50 participantes de diferentes países para discutir o tema Ecologia

Industrial e Câmbio Global. Os resultados desse encontro foram publicados por Socolow et al. (1994).

Os conceitos de “Metabolismo Industrial” e “Ecologia Industrial” têm-se manifestado ao longo das últimas três décadas, ainda que de forma dispersa.

A idéia de descrever os fl uxos de material e energia, dos processos industriais, como um sistema metabólico foi introduzida por Robert U. Ayres, que cunhou o termo

“Metabolismo Industrial” (Ehrenfeld, 1997). O conceito se fundamenta, basicamente, na aplicação do princípio de equilíbrio de massas à circulação de materiais e energia ao longo dos processos produtivos.

O conceito de Ecologia Industrial, entretanto, deveria ir além. Erkman (1997) entende que, a partir do conhecimento de como os sistemas industriais funcionam e são regulados, de suas interações com a biosfera e do conhecimento disponível sobre meio ambiente, estes sistemas seriam reestruturados para compatibilização com os ecossistemas naturais

(Marinho e Kiperstok, 2000).

Na sua origem, a palavra “industrial” no termo “Metabolismo Industrial” tinha um signifi cado mais amplo do que o utilizado em “Ecologia Industrial”. No primeiro, abrangia toda a civilização; no segundo, abordava processos produtivos específi cos.

No primeiro, se discutia o assunto transporte, por exemplo; enquanto que o segundo se discutia o automóvel, os pneus, etc. Com o passar do tempo, o termo “Ecologia

Industrial” passou a ter uma abrangência ampliada, sendo mais divulgado (Socolow et al., 1994).

Ambos os termos surgem da comparação entre os processos naturais com os processos produtivos. Esta comparação apontou para uma diferença fundamental: enquanto os processos produtivos se dão em ciclos abertos, os naturais são fechados. Ciclos abertos implicam em geração de produtos e resíduos. Nos ciclos fechados não cabe o conceito de resíduo.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

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Questão para reflexão:

O que poderia ser considerado resíduo numa fl oresta natural, por exemplo?

Retire qualquer componente da fl oresta. As folhas caídas no chão? Os troncos podres? E condenaremos a fl oresta ao desaparecimento. Ou teremos que importar insumos externos para sua manutenção. Porque esses elementos, que alguns ainda enxergam como restos, são um elo fundamental na estrutura e funcionamento de todo o ecossistema da fl oresta, e sem esse elo/”resíduo” a fl oresta morreria.

Graedel e Allenby (1995) defi nem a Ecologia Industrial como “o meio através do qual a humanidade pode, deliberada e racionalmente, aproximar e manter uma capacidade de carga apropriada, com uma contínua evolução econômica, cultural e tecnológica.

Assim, Ecologia Industrial precisa apoiar a estrutura e função dos ecossistemas, porque os seres humanos são apenas uma componente nas interações ecológicas e não podem ser separados deste todo”. Simplesmente, nossa saúde é dependente da saúde dos outros componentes do ecossistema. O todo é integrado.

O termo “Ecologia Industrial”, ao se fundamentar numa analogia com a ciência da ecologia, prioriza as funções e relações das partes diversas que conformam um ecossistema. “A EI procura otimizar os ciclos de materiais, da matéria virgem aos produtos fi nais, de forma a eliminar a disposição de resíduos.” (Graedel, T. apud

Socolow, 1994)

Para ilustrar a evolução de sistemas abertos para sistemas fechados sob o enfoque dos materiais, Graedel utiliza as Figuras 6.1 e 6.2:

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188 Prevenção da Poluição

Fonte: Graedel, T. apud Socolow et al., 1994.

FIGURA 6.1 – SISTEMAS ABERTOS E FECHADOS

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

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FIGURA 6.2 – TIPOS DE FLUXOS DE MATERIAIS (GRAEDEL, T. APUD SOCOLOW ET AL., 1994)

O sistema Tipo I caracteriza uma situação de abundância de recursos naturais, em que não existem pressões no sentido de se preocupar com qualquer efi ciência no seu uso. Usam-se insumos ilimitados e geram-se resíduos ilimitados. Na medida em que o processo de transformação é insignifi cante, em relação ao ecossistema onde se localiza, os impactos gerados são imperceptíveis.

Com o crescimento da produção e do consumo começa a ser sentida uma pressão sobre os ecossistemas, sejam locais, regionais ou planetários. Os limites do meio ambiente passam a ter presença real. Surgem restrições ao uso ilimitado dos recursos naturais e, conseqüentemente, a produtividade no seu uso aumenta. Isso leva à redução da relação resíduo produzido por unidade de produto gerado. Esta situação encontra-se representada no sistema Tipo II, da Figura 6.1.

O crescimento do consumo nos coloca a necessidade de pensar caminhos para poder atingir o sistema Tipo III. O surgimento do conceito de Fator 10 aponta para os esforços que estão sendo realizados nesse sentido.

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190 Prevenção da Poluição

Resumindo, a abordagem da Ecologia Industrial pretende:

• perceber sistemas e atividades em conjunto com o meio ambiente, em vez de considerá-los de forma isolada;

• fornecer uma perspectiva global e sistêmica;

• identifi car e seguir fl uxos e transformações de materiais e energia através dos sistemas;

• estabelecer uma abordagem transdisciplinar;

• mudar de processos abertos para processos cíclicos e fechados;

• reduzir impactos ambientais;

• integrar os sistemas industriais entre si e com a comunidade;

• estimular os sistemas naturais, que são mais sustentáveis e efi cientes;

• promover o uso sustentável de recursos naturais.

Com isso a Ecologia Industrial busca ciclos e processos ótimos para todos os recursos materiais e energéticos, enquanto enquadrados nos limites ambientais e fi nanceiros atuais. Soluções ótimas são buscadas e determinadas através do estabelecimento de um equilíbrio entre os fatores e os limites em confl ito. Dessa forma a Ecologia Industrial ajuda na obtenção de soluções racionais, amplas e sustentáveis.

Por fi m, pode-se dizer que a Ecologia Industrial busca uma economia sustentável ligada ao desenvolvimento cultural, levando em conta um moderado crescimento populacional. No entanto, as ações da Ecologia Industrial são, em grande parte, avanços tecnológicos e soluções técnicas em vez de soluções sociais.

Para complementar o aqui exposto, sugere-se a leitura dos trabalhos:

AUSUBEL, J. H. Liberação do meio ambiente. Tecbahia, Bahia, v. 12, n. 2, p. 29-41, 1997.

FROSCH, R.A. No caminho para o fim dos resíduos, as reflexões sobre uma nova ecologia das empresas. Tecbahia, Bahia, v. 12, n. 2, p. 42-53, 1997.

LOVINS, A.B.; LOVINS, L.H.; HAWKEN, P. A road map for natural capitalism. Harvard

Business Review, p. 145-158, may/jun.1999.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

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Questão para reflexão:

Compare os textos citados e aponte suas convergências e divergências.

Com esta visão, passemos agora a discutir como introduzir esses conceitos no projeto e fabricação de novos produtos e processos.

PROJETAR

Numa escala conceitual mais detalhada, o Projeto para o Meio Ambiente (Design for Environment – DfE) é normalmente inserido no contexto da Análise de Ciclo de

Vida (ACV). Considerado assim, o DfE compõe a parte da ACV em que objetivamos a melhoria do produto. Outras perspectivas consideram o Projeto para o Meio Ambiente um tipo de projeto com abordagem holística que leva em conta todo o ciclo de vida.

Nesse caso, é freqüentemente equacionado com ecodesign, mas tem-se uma série de outros nomes, mais ou menos equivalentes, como: “Life Cycle Design”, “EcoRedesign” e “Green Design”.

De qualquer modo, pode-se identifi car três elementos-chave na questão:

processo de projeto envolve a tomada de decisões a respeito da forma, função e uma série de outras qualidades do produto;

• uma nova abordagem que vai além do simples objeto, em que se incluam todas as etapas da vida, é hoje considerada fundamental;

• considerações ambientais têm que ser levantadas cedo no processo de produção.

Apesar de abordar conceitos novos, já existem críticas direcionadas ao DfE, por focalizar demasiadamente melhoramentos incrementais no produto em vez de concentrarse em novas maneiras de satisfazer as necessidades dos clientes e assim conseguir resultados ambientais além dos previstos para atingir o Fator 10.

Por enquanto, podemos enquadrar o Projeto para o Meio Ambiente no âmbito de uma série de conceitos ambientais emergentes. A raiz do DfE é o processo de projetar.

Projeto é fundamentalmente um processo de inovação. Porém, os métodos de projeto, tanto associados ao desenho industrial como em outras áreas, não têm sido inseridos em

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192 Prevenção da Poluição seus respectivos contextos sociais e ambientais. Tradicionalmente, os fatores de função, aparência e custos têm dominado quase por completo os processos de projeto.

A importância do projeto não é sempre reconhecida. Muitas vezes os administradores de fábricas são culpados por problemas de poluição, quando na verdade são problemas resultantes de decisões feitas por projetistas de produtos e processos em conjunto com o próprio mercado. Então, existe uma grande responsabilidade por parte do projetista em aplicar todos os métodos possíveis de reduzir os impactos ambientais que possam advir dos processos e produtos por ele projetados. A extensa vida útil de muitos produtos e processos, que freqüentemente vai de alguns anos a várias décadas, torna as decisões do

Projeto para o Meio Ambiente essenciais, já que os impactos de tais decisões persistem ao longo desse mesmo período.

Alguns autores citam que 70% dos custos de manufatura e os atributos dos produtos são decididos relativamente cedo no processo de projeto (Andreasen, M.; Khiler, S.

& Lund, T. Design for Assembly, London: IFS Publications, 1983). Graedel e Allenby

(1995) também destacam o fato que estratégias de Projeto para o Meio Ambiente são mais efetivas durante as fases iniciais do projeto. Nas fases iniciais, normalmente é mais fácil alterar o projeto para adequar-se aos fatores ambientais do que nas fases subseqüentes. Por exemplo, é mais simples e menos caro reduzir emissões de gases

ácidos removendo compostos de enxofre da matéria-prima do que capturá-los e tratálos nos estágios fi nais do processo.

Sem dúvida, os projetistas são a força principal atrás da forma do produto pronto e do seu posterior uso. As decisões tomadas nesse estágio de desenvolvimento afetarão a quantidade e a qualidade dos materiais utilizados, os gastos energéticos, os resíduos gerados, além dos fatores tradicionais de função, custo, etc.

MUDANDO O PROCESSO DE PROJETAR

O processo de projeto é responsável por muitas mudanças que atingem a sociedade.

Projeto no sentido do design, em inglês, é algo que defi ne soluções para problemas novos, ou, então, cria um produto ou um processo que satisfaça a demanda da sociedade.

Por exemplo, se uma área fechada demonstra claridade inadequada, então é projetado um sistema de iluminação artifi cial, ou meios para proporcionar o uso da iluminação natural para suprir as necessidades de luz.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

193

Qualquer processo de projetar precisa contemplar os seguintes passos:

• reconhecimento de necessidades, a identifi cação do serviço a ser prestado e as limitações e restrições para tanto;

• seleção e defi nição do produto ou processo a ser desenvolvido, para atender ao serviço a ser prestado;

• desenvolvimento de um projeto conceitual;

• avaliação de vários modelos desenvolvidos, considerando as interações entre fabricantes, fornecedores e usuários, além do marketing e aceitabilidade do produto ou processo;

• desenvolvimento de um projeto detalhado, considerando todos os fatores pertinentes;

• comunicação do projeto.

Entretanto, o projeto, hoje, precisa analisar e sintetizar muito mais do que jamais visto antes. Para poder projetar algo, custos e função não são sufi cientes, e precisamos saber o máximo possível sobre o comportamento previsto do produto e dos usuários durante todo seu ciclo de vida. Em face desta realidade, é fundamental utilizar os processos de análise para simplifi car o mundo real através de modelos e de síntese para poder juntar elementos num todo (Dieter, G. E. Engineering Design, First Edition, 1986). Análise e síntese permitem tomar decisões num contexto em que há relações complexas e decisões interligadas, de tal forma, que muitas entram em confl ito e somente se resolvem através de trocas de vantagens e desvantagens (trade-offs).

Portanto, é preciso agrupar o número crescente de variáveis de projeto que deveriam ser consideradas. As variáveis genéricas básicas são:

• função;

• aparência/estilo;

• custo.

Por função podemos identifi car a satisfação da necessidade básica do usuário ou da sociedade. Função pode ser associada também o conforto e conveniência. A questão de aparência e estilo não é somente o caso de se criar formas que satisfaçam esteticamente

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194 Prevenção da Poluição o cliente, mas podem ser elementos orientados para destacar o produto no mercado.

A luta por ser único é forte no mercado mundial. O que vale dizer que custo baixo é essencial para competir no mercado. Mais adiante veremos, repetidamente, que custo baixo é também uma importante variável de projeto ambiental.

Outras variáveis, geralmente consideradas no projeto de produtos, são:

• qualidade e durabilidade;

• fatores de segurança;

• facilidade da manufatura;

• processos de montagem e desmontagem;

• disponibilidade de materiais, equipamentos e componentes;

• facilidade de manutenção;

• confi abilidade;

• vida útil;

• conformidade com os regimentos legais;

• responsabilidade legal;

• impactos ambientais.

Tradicionalmente, a variável impacto ambiental inclui apenas os resíduos gerados no processo produtivo e, mais recentemente, no descarte do produto após uso. A lista citada destaca a abrangência de considerações importantes para o projeto de produtos e processos, porém é necessário agrupá-los e organizá-los. Estas considerações foram organizadas através da classifi cação em grupos de uso sistemático como variáveis.

Autores como Graedel e Allenby (1995) utilizam uma forma simplifi cada chamada de

Projeto para X (ou Design for X-DfX), onde X pode ser substituído por uma série de

“variáveis”.

Assim, além das variáveis clássicas mencionadas, juntou-se a busca de qualidade de serviço e de produção, que incluem:

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

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DfA: (Assembly) – Facilidade de montagem, uso de peças padronizadas, etc.

DfM: (Manufacturability) – Como o projeto pode facilitar a própria

manufatura do produto.

DfT: (Testability) – Projeto que leva em conta a fase de testes e a integração de componentes complexos.

DfS: (Serviceability) – Projeto que facilita a instalação. Além de manutenção, reparo e modifi cação futura.

DfR: (Reliability) – A consideração da confi abilidade do produto perante os problemas de cargas eletrostáticas, corrosão, resistência a ambientes variáveis, etc.

DfSL: (Safety and Liability Prevention) – Projeto dentro dos padrões de segurança para prevenir acidentes e questões de responsabilidade legal.

(Graedel e Allenby, 1995)

Mais recentemente a questão ambiental passou a ter uma inserção mais sistêmica no projeto, e novas variáveis são consideradas e agrupadas em:

DfE: (Environment) – Projeto para o Meio Ambiente;

DfR: (Recycling) – Projeto para reciclagem;

• efi ciência energética;

• seleção e uso de materiais;

• transportes utilizados;

• armazenamento e embalagens.

Com base, em parte, nas críticas de uma abordagem bastante incremental, essas mesmas variáveis, e outras, podem ser consideradas dentro de um macrocontexto de projeto. Assim, cria-se uma hierarquia de estratégias de projeto que especifi ca quando aplicar conceitos e modifi car o resultado fi nal. Portanto, diferentes rotas “design wheels” foram desenvolvidas com a fi nalidade de ajudar o processo de síntese.

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196 Prevenção da Poluição

PROJETO PARA O MEIO AMBIENTE

Projeto para o Meio Ambiente pode ser considerado, então, a aplicação de diferentes fatores de projeto, de forma hierarquizada, visando reduzir impactos ambientais e custos, fomentando a eficiência. A estrutura apresentada do DfE, ou ecodesign, segue mais ou menos o esquema apresentado e utilizado por Five Winds International and Associates

(http://www.fivewinds.com)

e Ralf Nielsen, de Nielsen Design

Consulting (ver Figura 6.3).

FIGURA 6.3 – ROTAS DE PROJETO – DESIGN WHEELS

Com base na estruturação da Figura 6.3, fi ca claro que o Projeto para o Meio Ambiente inicia-se com o Desenvolvimento de Novos Conceitos (1), para resolver o problema em questão. Nesse estágio, qualidades essenciais são a criatividade e a capacidade de ver antigos problemas de um outro modo.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

197

Considera-se, nesta etapa:

• desmaterialização;

• mudança para serviços;

• partilhamento de equipamentos.

A segunda consideração do projeto é a Otimização Física (2), que tem como primeira prioridade o aumento da vida útil do produto, incluindo também os seguintes fatores:

• a integração das funções;

• a otimização das funções do produto;

• o aumento de confi abilidade e durabilidade;

• a facilidade de manutenção e reparo;

• a estrutura modular do produto;

• as fortes relações com quem utiliza o produto.

Em seguida vêm as tentativas de Otimização do Uso de Materiais (3):

• redução de materiais;

• materiais mais limpos;

• materiais renováveis e abundantes;

• materiais energeticamente efi cientes;

• materiais reciclados;

• materiais recicláveis.

Ao mesmo tempo, é importante considerar a Otimização das Técnicas Utilizadas

na Produção (4). O projeto do produto pode afetar o tipo de processo utilizado e assim gerar impactos ambientais. No geral, a produção deve minimizar o uso de materiais, evitar os compostos perigosos, fornecer alta efi ciência com poucas perdas e gerar poucos resíduos. Os processos produtivos devem ser cada vez mais efi cientes, minimizando paradas e evitando taxas e multas associadas à conformidade regulatória. Para tanto, deve-se considerar:

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198 Prevenção da Poluição

• técnicas alternativas de produção;

• menos etapas na linha de produção;

• menos consumo de energia (ver Capítulo 7);

• fontes energéticas mais limpas;

• menos resíduos;

• menos insumos.

Uma importante consideração, que não é independente das outras aqui apresentadas,

é a Otimização dos Meios de Distribuição (5), que precisam ser sistematizados e otimizados. Entre os fatores a serem considerados incluem-se:

• embalagem;

• modo de transporte;

• modo de armazenamento e manuseio;

• logística.

Reforçando o fato de que o DfE é uma abordagem associada a todo o ciclo de vida de um produto, precisamos incluir fatores de projeto que antecipem o que acontece fora do espaço físico da fábrica. Portanto, devemos considerar algumas das seguintes alternativas para se obter Redução do Impacto Durante o Uso do Produto (6):

• redução no consumo de energia;

• fontes de energia mais limpas;

• redução de insumos;

• insumos mais limpos.

Depois de considerar estes outros aspectos envolvidos no processo de projetar nossos produtos, devemos considerar alternativas de Otimização de Produtos no Final de sua

Vida Útil (7). Como sempre, soluções para o fi m do ciclo não são todas iguais, e assim são consideradas de forma hierárquica:

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

199

• reuso do produto;

• projeto para desmontagem;

• remanufatura de produtos;

• reciclagem;

• descarte fi nal.

Então, considerações conceituais de projeto, hierarquizadas sob a ótica ambiental, podem levar a novas formas de resolver problemas. Portanto, precisamos revê-los mais detalhadamente para entender como trabalhar com variáveis ambientais no projeto.

6.2 DESENVOLVIMENTO DE NOVOS CONCEITOS

Uma parte fundamental de qualquer projeto está associada ao processo de “pensar lateralmente”, ou pensar “fora da caixa”. Isso quer dizer: abordar um problema antigo de forma totalmente inovadora e, às vezes, requerendo mudanças até no contexto do problema, tanto quanto no problema em si. Tipicamente, no desenvolvimento do produto, este tipo de solução envolverá muitos atores na hierarquia da empresa, e fora dela.

São essas novas soluções que às vezes trazem “revoluções” na forma de atender a uma necessidade da sociedade. Um exemplo freqüentemente citado é o uso de e-mail em vez da carta de papel. No caso, a necessidade de comunicação é resolvida sem os gastos materiais. Para a área industrial, a principal mudança de conceito necessário é o desvio de atenção do produto como objeto para o produto como um sistema, com um ciclo de vida que deve satisfazer os requisitos de todos os “clientes” atuais e subseqüentes.

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200 Prevenção da Poluição

Ao aluno:

Você conhece a famosa pegadinha abaixo?

Tente unir todos os pontos com 4 linhas retas sem levantar a caneta do papel.

E aí, quantas soluções você encontrou?

DESMATERIALIZAÇÃO

O conceito de desmaterialização leva a projetos que reduzem o tamanho do produto ao mínimo necessário, sem que sua aplicação seja comprometida. Outra possibilidade

é identifi car ou criar substitutos para produtos que resolvam uma necessidade sem o uso de materiais. Igualmente importante é a substituição de sistemas baseados no uso intensivo de energia, ou infra-estrutura.

É essencial, então, que os projetistas levantem em detalhe as necessidades dos possíveis usuários para realmente defi nir o produto ou serviço a ser oferecido. A partir disso, procura-se novas soluções. Atualmente, as tecnologias de informação e comunicação permitem novas perspectivas em problemas tradicionais.

A MUDANÇA PARA SERVIÇOS

Isto representa uma mudança radical na forma de uma empresa negociar os recursos oferecidos ao mercado. Num contexto novo, quando uma empresa fornece um serviço que um determinado produto presta, em vez do produto em si, ela assume a responsabilidade pela manutenção, reparo, reciclagem e qualquer disposição que seja necessária. Assim,

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

201 a empresa vende somente o serviço e não o objeto que fornece. O nível de controle envolvido nesse tipo de relacionamento permite que a empresa desenvolva sistemas muito mais efi cientes.

Os tipos de benefícios promovidos são:

informações atualizadas sobre as necessidades dos usuários;

• possibilidade de responder rapidamente às mudanças no mercado;

• mais controle sobre todo o ciclo de vida do produto;

• possibilidade de ter retornos não somente no uso do produto, mas também nas fases seguintes.

PARTILHAMENTO DE EQUIPAMENTOS

O uso de um produto por um conjunto de pessoas ou empresas tende a ser mais efi ciente. Como foi visto anteriormente, os usuários pagarão por uma unidade de serviço utilizado, em vez de pagar para ser o dono do mesmo.

Isso permite ao projetista criar sistemas que:

• reduzam materiais e gastos energéticos;

• baixem custos de transporte;

• facilitem a reutilização e reciclagem do produto.

6.3 OTIMIZAÇÃO FÍSICA

Além dos aspectos relacionados à função, à estética, ao custo e a outros, tradicionalmente considerados pelos projetistas, no DfE devem ser incluídas considerações associadas à ampliação das funções do produto e de sua vida útil. Para esta fi nalidade, o projetista deve projetar as características físicas, as feições e os componentes, com o objetivo de agregar valor ao produto para o usuário.

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202 Prevenção da Poluição

Isso envolve não somente o estabelecimento de funções efi cientemente adaptadas

às necessidades do usuário, mas também um aumento na sua vida útil técnica, isto é, o tempo em que o produto funciona bem, e na sua vida estética, ou seja, o tempo em que o usuário considera o produto atrativo. É preciso, contudo, encontrar um equilíbrio entre essas considerações.

INTEGRAÇÃO DE FUNÇÕES

Combinando serviços e funções num único produto, podemos reduzir espaço e aumentar o uso de materiais.

Precisamos considerar, nesse caso, que pode haver um aumento também na complexidade do produto não somente para o usuário, mas também para o projetista.

No entanto, a integração de funções traz possíveis benefícios, como:

• uso mais efi ciente de espaço;

• redução de materiais (desmaterialização) e redução em gastos energéticos;

• mais unidades de “serviço” por unidade de transporte.

OTIMIZAÇÃO DAS FUNÇÕES

Pode ser importante reunir funções num único produto, mas é igualmente importante identifi car funções supérfl uas e eliminá-las. É preciso descobrir quais são as funções primárias e as secundárias, e saber se são de natureza utilitárias ou estéticas.

AUMENTO DA CONFIABILIDADE E DURABILIDADE

São considerações até de certa forma tradicionais, mas que têm sua importância redobrada quando consideradas sob o enfoque ambiental. O objetivo é, por um lado, considerar todos os meios para aumentar a vida útil de produtos e, conseqüentemente, reduzir o uso de recursos naturais. Por outro lado, procura-se minimizar a ocorrência de acidentes ambientais provocados pela prematura falência de equipamentos, tais como tubulações transportando produtos químicos e veículos terrestres e marítimos despejando seus conteúdos no meio ambiente. Um dos maiores programas ambientais da história recente da indústria do petróleo no Brasil foca este assunto.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

203

A questão da confi abilidade começa com a análise dos componentes funcionais para combater o desgaste que os produtos sofrem. A durabilidade refere-se à capacidade de um produto resistir aos danos causados pelo uso.

FACILIDADE DE MANUTENÇÃO E REPARO

Trata-se, também, de técnicas utilizadas para aumentar a vida útil de um produto e assegurar que a limpeza, a manutenção e o reparo sejam feitos no tempo certo e de modo apropriado.

A manutenção depende, freqüentemente, apenas de instruções claras e simples.

Quando o produto é por natureza complexo, precisa de assistência especializada, que deve considerar:

• como o produto chega ao local do reparo;

• o perfi l do profi ssional que fará o serviço de manutenção ou reparo;

• a facilidade de desmonte do produto;

• o desenvolvimento de uma estrutura modular.

Algumas estratégias para facilitar o reparo e a manutenção são:

• indicar de forma clara e simples, com etiqueta ou selo, como o produto deve ser aberto para limpeza ou reparo;

• indicar quais as peças que devem ser limpas ou submetidas à manutenção, usando para isso, por exemplo, diferentes cores;

• indicar as peças que devem ser freqüentemente inspecionadas;

• o projeto do produto deve deixar visível os efeitos de desgaste para que os reparos sejam feitos na hora certa;

• agrupar peças que têm desgaste relativamente rápido e deixá-las acessíveis para facilitar o reparo ou a troca;

• fazer com que os componentes mais frágeis possam ser desmontados com facilidade para conserto ou troca.

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204 Prevenção da Poluição

Programas como o Total Production Management (TPM) têm entre os seus pilares de implementação a Manutenção Autônoma. Este pilar foca a responsabilidade da manutenção corriqueira nas próprias equipes de operação, desenvolvendo uma relação salutar entre equipes de operação e os seus equipamentos.

ESTRUTURA MODULAR DO PRODUTO

Uma estrutura modular facilita a reformulação técnica e estética de um produto, evitando sua falência prematura. Permite sua atualização através da incorporação de novos componentes durante o seu uso, reduzindo a freqüência de descarte e a necessidade de sua substituição.

Portanto, projetistas devem fazer produtos que permitam:

• atualizações;

• renovação de elementos tecnica ou esteticamente obsoletos;

• fácil manutenção.

FORTES RELAÇÕES COM QUEM UTILIZA O PRODUTO

Os usuários precisam considerar o projeto atrativo, não só inicialmente, mas no seu uso e manutenção. Deve-se evitar que a vida útil psicológica do produto seja curta, para evitar seu desuso com mudanças de modos temporários. Portanto, o produto deve envelhecer de forma digna, aumentando-se o tempo em que os usuários o percebem como um produto de valor.

Pode-se fortalecer a relação entre produto e usuário das seguintes maneiras:

• criando um produto que faça mais do que o esperado pelo usuário;

• projetando uma superfície que envelheça bem;

• assegurando que a manutenção e o reparo serão processos fáceis e até agradáveis;

• assegurando que a manutenção possa ser feita com segurança e com um mínimo de ferramentas hiperespecializadas;

• agregando valor em termos de projeto e funcionalidade para que o usuário tenha receio em trocar o produto.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

205

6.4 OTIMIZAÇÃO DO USO DOS MATERIAIS

CONSIDERAÇÕES SOBRE O USO DE MATERIAIS

Os materiais devem ser utilizados de forma efi caz, dadas as suas limitações. Os tipos de limitações freqüentes são:

• quantidades fi nitas – alguns metais existentes na Terra têm quantidades limitadas;

• combustíveis fósseis – são essencialmente não-renováveis, porque demandam um longo tempo de formação;

• taxas de renovação e uso – a madeira, por exemplo, pode ser um recurso renovável se administrada de forma correta.

A extração de materiais deve ser feita cuidadosamente porque os processos de extração freqüentemente causam grandes impactos ambientais. No geral, os materiais selecionados devem possuir as seguintes características:

• ser abundantes;

• não-tóxicos;

• não estar sob nenhuma restrição de uso.

REDUZIR USO DE MATERIAIS

Primeiramente, precisa-se projetar produtos e processos com uso mínimo de materiais. A melhoria de projetos de reforços e estruturas internas de produtos pode ser feita para resultar num produto mais efi ciente.

Vista a questão estrutural, tentamos otimizar o volume e o peso dos materiais para utilizar menos energia durante a produção, transporte e armazenamento. Além de reduzir impactos, reduz-se consumo e aumenta-se a produtividade.

Redução de peso: esta é uma forma direta e simples de limitar o impacto ambiental

– quando menos recursos são extraídos, menos resíduos são produzidos e menos impactos associados ao peso durante o transporte são causados.

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206 Prevenção da Poluição

Redução de volume (transporte): quando um produto e sua embalagem são reduzidos em tamanho e volume, mais produtos podem ser transportados mais efi cientemente num determinado modo de transporte. Deve-se considerar, nos projetos, produtos e embalagens dobráveis que possam ser empilhados e desmontados para serem reusadas.

MATERIAIS MAIS LIMPOS

Materiais tóxicos como metais pesados e solventes orgânicos e radioativos devem ser evitados, porque eles introduzem sérios riscos em todas as fases de um processo ou produto: produção, transporte, armazenamento, uso e disposição.

Materiais tóxicos: além de substâncias proibidas localmente e em acordos internacionais como os Poluentes Orgânicos Prioritários (POP), halons, CFC e HCFC, devem ser incluídos em listas de substâncias a serem evitadas dentro da fábrica e pelos fornecedores o mercúrio, o chumbo, os VOCs e o PVC (cloreto de polivinil).

Convém conhecer os avanços conseguidos por programas governamentais desenvolvidos com este propósito. Sejam voluntários, como o programa 33/50 da USEPA -

(http://www.epa.gov)

, ou compulsórios, como o Toxics Release Inventory (TRI), da mesma agência. Destaque-se, ainda, o Programa de Redução do Uso de Substâncias

Tóxicas (TURI), do estado de Massachusetts, nos EUA

(http://www.turi.org)

.

MATERIAIS RENOVÁVEIS E ABUNDANTES

Materiais renováveis são substâncias originadas de uma planta, animal ou ecossistema que têm a capacidade de se regenerar.

Portanto, os materiais renováveis:

• não serão exauridos se forem gerenciados corretamente;

• podem reduzir emissões de CO

2

se comparados com combustíveis fósseis;

• geram resíduos biodegradáveis;

• geram emprego local através de plantações locais.

No entanto, é necessário se comparar o ciclo de vida inteiro, porque em certos casos fatores como consumo energético podem contra-indicar seu uso. Materiais plásticos podem ser menos impactantes do que papel em certas funções.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

207

Questão para reflexão:

O que você acha do uso de sacos plásticos x sacos de papel, nas compras em supermercados?

Autores como Graedel e Allenby (1995) sugerem, no caso de recursos não renováveis, a consideração da sua disponibilidade em escala mundial e os impactos referentes aos processos de extração. Na Tabela 6.1 eles apresentam uma visão geral da disponibilidade de alguns elementos no planeta.

Abundante

Comum

TABELA 6.1 – LIMITAÇÕES GLOBAIS DE RECURSOS MATERIAIS

Abundância de elementos na crosta terrestre superior

>0.1 % Al, Ca, Fe, K, Mg, Na, Si, Ti

>100 ppm Ba, Mn, P, Rb, Sr, Zr

Relativamente comum 10-99 ppm

Não comum 1-9 ppm

Raro

Cr, Cu, Ga, Li, Ni, Pb, Sc, V, Y Zn

B, Be, Co, Cr, Th, U

<1 ppm Ag, Au, Hg, Pt, Sb

Traços de metais recuperados como subprodutos

Zn

Zr

Pb

Pt

Reservatório

Al

Cu

Traços metálicos

Ga

As, Se, Te

As, Bi

Ir, Os, Pa, Rh, Ru

Cd, Ge, In, Th

Hf

Suprimento infinito

Suprimento amplo

Suprimento adequado

Classes de suprimento de elementos

Br, Ca, Cl, Kr, Mg, N, Na, Ne, O, Rn, Si, Xe

Al, (Ga), C, Fe, H,K, S, Ti

I, Li, P, Rb, Sr

Suprimento potencialmente limitado Co**, Cr*, Mo (Rh), Ni**, Pb (As, Bi), Pt (Ir, Os, Pa, Rh, Rn)*, Zr (Hf)

Suprimento altamente limitado

Fonte: Graedel e Allenby, 1995.

Ag, Au, Cu (As, Se, Te), He, Hg, Sn, Zn (Cd, Ge, In,Th)

* Sujeito a controle cartorial por se encontrar quase que exclusivamente na Africa do Sul e no Zimbábue.

**A manutenção do suprimento exige exploração do fundo marinho.

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208 Prevenção da Poluição

MATERIAIS ENERGETICAMENTE EFICIENTES

Materiais provenientes de processos eficientes de extração, processamento e refi namento devem ser preferidos. Normalmente, a redução do número de passos ou etapas no processo produtivo limita os gastos energéticos.

Às vezes é necessário maior gasto de energia no processo de fabricação para criar produtos tecnicamente mais apropriados e que, portanto, possam reduzir outros gastos na fase de uso. Precisa-se comparar a demanda de energia com as qualidades fi nais de durabilidade, fi rmeza, resistência a calor ou desgaste. Tendo-se estas qualidades em mente, procura-se escolher os materiais com a menor energia embutida possível.

MATERIAIS RECICLADOS

Sempre que possível, devemos usar material reciclado em lugar de extrair material virgem, deixando-o em forma reciclável após o seu uso. Materiais reciclados são utilizados quando estão disponíveis e na forma apropriada, porque são menos impactantes e menos caros do que materiais novos. O potencial de reciclagem dos materiais varia.

Por exemplo:

• metais são freqüentemente recicláveis;

• madeira e produtos de papel são, às vezes, recicláveis, mas a qualidade decai a cada nova reciclagem (porque o comprimento da fi bra diminui);

• alguns plásticos são recicláveis, outros não;

• materiais heterogêneos geralmente não são recicláveis.

Também deve-se considerar os benefícios de uso de materiais reciclados disponíveis, notando alguns pontos relevantes:

• a implementação de um programa de coleta nas empresas gera materiais de custo reduzido;

• o uso de materiais reciclados geralmente reduzirá a energia gasta no produto em seu ciclo de vida;

• normalmente, a fase de extração é responsável por grande parte dos gastos energéticos;

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

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• podemos aproveitar as qualidades inerentes dos materiais reciclados, como a variação de cor e a textura.

As principais fontes de materiais reciclados são:

• materiais industriais fora de especifi cação, provenientes do próprio processo industrial e não utilizados;

• materiais pós-consumidos, recuperados depois do uso, num contexto industrial ou residencial.

MATERIAIS POTENCIALMENTE RECICLÁVEIS

Na falta de fontes de materiais disponíveis para reciclagem é interessante especifi car aqueles que podem ser facilmente reciclados, a partir da existência de uma infra-estrutura de reciclagem funcionando ou prestes a funcionar.

Para tanto, é necessário:

• identifi car quais são os materiais que são recicláveis;

• descobrir o estágio atual do sistema de coleta e reciclagem;

• garantir que o material, quando reciclado, terá uma qualidade apropriada.

O projeto do produto pode auxiliar no processo de reciclagem, portanto:

• selecione somente um tipo de material para o produto;

• deve-se trabalhar com materiais compatíveis, se não for possível trabalhar com um determinado material;

• evite contaminar metais com outros metais;

• evite materiais compostos que são difíceis de separar, como laminados;

• escolha materiais recicláveis que existam no mercado;

• evite elementos que atrapalham o processo de reciclagem, como adesivos, colas e componentes de difícil separação.

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210 Prevenção da Poluição

6.5 OTIMIZAÇÃO DAS TÉCNICAS UTILIZADAS NA PRODUÇÃO

O Capítulo 3 deste módulo aborda bem as alternativas de técnicas para redução de poluição que podem ser utilizadas em processos produtivos.

6.6 OTIMIZAÇÃO DE SISTEMAS DE DISTRIBUIÇÃO

Projetos podem assegurar que os produtos sejam transportados da forma mais efi ciente possível quando consideram o ciclo de movimento do produtor ao distribuidor, ao varejista e ao usuário fi nal. Essas redes de movimento envolvem:

• embalagem;

• transporte;

• armazenamento;

• logísticas.

No geral, devemos utilizar a menor quantidade de embalagem possível, escolhendo também a mais limpa e reutilizável. O sistema de transporte também deve ser programado de forma efi ciente, para evitar gastos energéticos.

EMBALAGEM

As embalagens são usadas, principalmente, para proteger os produtos e para tornálos atraentes. Entretanto, as embalagens podem contribuir signifi cativamente para o impacto ambiental. Elas compõem, por exemplo, 30% dos resíduos sólidos em algumas localidades (Graedel e Allenby, 1995).

Devido à sua função de proteger o produto, a seleção ou projeto da embalagem deve ser dependente das condições de transporte a que o produto será submetido.

Freqüentemente a questão de proteção do produto é superestimada e as embalagens são feitas com excesso de material, que pode ser reduzido sem comprometer esta função.

Algumas soluções podem ser tratadas somente pelos fornecedores de embalagens; outras requerem uma cooperação entre fornecedores e distribuidores.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

211

Alguns objetivos do Projeto para o Meio Ambiente para embalagens (em ordem decrescente de redução de impacto ambiental) são:

• nenhuma ou uma quantidade mínima de embalagem. Esta opção envolve a redução ou eliminação do excesso de proteção, decoração, etc.;

• embalagens retornáveis e/ou reutilizáveis com um sistema de devolução entre as partes envolvidas;

• embalagens recicláveis e/ou produzidas com material reciclado;

• redução de volume;

• se a embalagem tem função principalmente estética, tente usar um estilo simples;

• para facilitar o processo de reciclagem os materiais não devem conter substâncias tóxicas, pigmentos e materiais inseparáveis.

TRANSPORTE

Transporte por terra, água e ar pode causar, cada um deles, signifi cantes impactos ambientais. Estes podem ser classifi cados em duas categorias:

Operações normais. Por exemplo, o gasto de energia no uso de veículos e equipamentos e suas emissões correspondentes.

Operações irregulares. Por exemplo, lançamento acidental de substâncias tóxicas ou perigosas durante eventos, como descarrilhamento de trem e derramamentos de óleo de navios.

As preocupações ambientais, quanto à questão do transporte, estão relacionadas:

à distância percorrida;

• ao tempo de duração da viagem.

Nos processos em que são utilizadas substâncias tóxicas ou perigosas os riscos de lançamentos acidentais podem ser bastante reduzidos se estas substâncias forem produzidas o mais próximo possível do local onde serão utilizadas, em vez de num local distante, que exija transporte.

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212 Prevenção da Poluição

Geralmente pode-se atingir maiores reduções de impactos através de um programa de redução de gastos energéticos no transporte. Na escolha do meio de transporte, considera-se preço, volume, confi abilidade, tempo de entrega e distância.

Defi nidas estas variáveis, compara-se as várias modalidades de transporte e se avalia os seus respectivos impactos ambientais. Processo semelhante deve ser exigido dos fornecedores para todos os estágios do processo produtivo.

ARMAZENAMENTO

A depender da indústria e dos produtos armazenados, as operações de armazenamento podem se constituir em um dos focos de impacto ambiental mais relevantes. É o caso, por exemplo, do armazenamento de compostos voláteis na indústria de petróleo e petroquímica. Nesta indústria, mesmo nas operações de rotina, as principais emissões de

VOCs estão relacionadas a carga, descarga e armazenamento. Esse aspecto assume uma dimensão muito maior quando se trata de substâncias de alta toxicidade e periculosidade.

Nesses casos, devem ser realizados esforços especiais na logística de fornecimento e movimentação, de forma a se reduzir ao máximo a necessidade de armazenamento.

As formas de armazenagem também podem levar a outras preocupações ambientais.

Por exemplo, alguns produtos devem ser mantidos em condições especiais – ambiente quente ou frio, pressurizado ou a vácuo –, e recursos de energia são usados para manter tais condições. Portanto, deve-se adequar às condições de armazenamento para reduzir gastos desnecessários. Por exemplo, sistemas de armazenamento de calor podem ser usados acoplados a coletores de energia solar, para que o recurso solar continue provendo calor, mesmo sem a presença do sol.

LOGÍSTICA EFICIENTE

O estudo cuidadoso de rotas de entrega para otimizar o tempo gasto e as distâncias percorridas pode reduzir signifi cativamente os impactos do sistema de distribuição.

Poderíamos considerar:

• motivação do pessoal que lida com os fornecedores para que estes incentivem os fornecedores a reduzir distâncias;

• introdução de formas efi cientes de distribuição, como entrega simultânea de maiores quantidades de produtos;

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

213

• utilização de embalagens padronizadas;

• utilização de programas computadorizados de otimização de rotas;

• uso de fornecimento just-in-time (produção sem estoque) com recipientes reutilizáveis e retornáveis;

• redução da distância entre os depósitos e a linha de produção; e, melhor ainda, entre os fornecedores e a fábrica.

6.7 REDUÇÃO DO IMPACTO DURANTE O USO

Muitos produtos consomem quantidades consideráveis de energia, água e outros insumos durante sua vida útil. Além disso, recursos utilizados para manutenção e reparo podem magnifi car os impactos ambientais. Portanto, deve-se dar a devida atenção aos impactos ambientais associados com o uso dos produtos.

REDUÇÃO NO CONSUMO DE ENERGIA E FONTES DE ENERGIA MAIS LIMPAS

A importância do consumo de energia na composição do impacto ambiental de produtos e processos impõe mais detalhes para sua abordagem. Isso será feito no

Capítulo 7 deste módulo.

REDUZIR INSUMOS E UTILIZAR INSUMOS MAIS LIMPOS

No projeto de produtos deve-se procurar alternativas que conduzam a um menor consumo de insumos durante a sua vida útil, tais como: água, óleo, fi ltros, detergentes, etc. Isso foi analisado na unidade de Minimização de Resíduos, mas convém aqui lembrar que projetos inadequados são muitas vezes responsáveis por difi culdades encontradas para reduzir o uso de insumos durante a operação.

Na indústria de processo, por exemplo, as plantas são projetadas para transportar dois ou três tipos de água (clarifi cada, desmineralizada, potável) e um único, ou no máximo dois, tipos de efl uentes. Isso difi culta a implantação de sistemas de reuso e reciclagem da água, encarecendo os esforços para minimizar o uso deste importante insumo.

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214 Prevenção da Poluição

Projetistas e fornecedores devem coletar informações para reduzir o impacto de insumos e produtos auxiliares.

Freqüentemente, existe diferença entre o uso indicado pelo fabricante e o uso dado pelo operador. Alguns cuidados podem facilitar um uso mais efi ciente do produto:

• projetar de forma que o uso seja fácil, incluindo instruções claras;

• projetar de forma a difi cultar o desperdício de insumos ou energia por parte dos usuários;

• inserir mecanismos de medição e calibragem que permitam monitorar e racionalizar o consumo dos diversos insumos utilizados no processo produtivo.

6.8 SISTEMAS PARA O FINAL DO CICLO DE VIDA

Esgotadas as possibilidades até aqui consideradas no projeto, é muito provável que o nível de desenvolvimento atual da tecnologia e dos padrões de consumo nos obrigue a pensar em um destino “fi nal” para algumas partes ou componentes do produto.

Mesmo assim, convém considerar esta etapa não apenas no sentido de minimizar o impacto sobre um determinado corpo receptor, mas visando ao maior aproveitamento possível, seja ele imediato ou no futuro. A lógica de aumentar a efi ciência do uso dos recursos naturais se mantém, mesmo que envolvendo interações de prazos maiores.

A reinserção de efl uentes líquidos no ciclo natural das águas deve ser procurada considerando os aspectos tanto econômicos como de segurança. Se o projeto do processo ou produto leva em consideração a inserção fi nal de algumas de suas partes nos ciclos naturais, haverá condições de se fazer isso com maior segurança.

A exclusão de compostos biorresistentes e tóxicos permite o aproveitamento de outros compostos orgânicos como insumos na lavoura ou no refl orestamento. As pressões de grupos ambientalistas no sentido da exclusão de plásticos contendo cloro, como o PVC, apontam para a possibilidade de um aproveitamento térmico sem o risco da emissão de dioxinas e furanos.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

215

Os avanços esperados com o crescimento da prestação de serviços, em vez da venda de produtos, têm sentido na medida em que isto obrigue as empresas a pensar sua produção na forma de ciclos fechados.

Assim, o projetista deve considerar vários possíveis cenários no fi nal da vida do produto. Entre eles:

é possível reutilizar o produto/os componentes/as peças?

• pode-se remanufaturar as peças/componentes e depois reutilizá-los?

é possível reusar as peças para reciclagem de material?

• as peças podem ser incineradas seguramente?

• algumas peças devem ir para aterros sanitários ou industriais?

Aos alunos:

O próprio conceito de aterro fi nal merece uma revisão. Os aterros não devem ser considerados como um espaço de confi namento fi nal, mas como um local de armazenamento provisório, enquanto as tecnologias ou a demanda pelos materiais estocados não permitam ou justifi quem economicamente seu aproveitamento. Isso obriga a se pensar em mecanismos para se passar informações para o futuro, no sentido de tornar viável, em prazos mais curtos, o reaproveitamento dos compostos depositados.

REUSO

O melhor projeto permite que o produto seja reutilizado quase por completo, para a mesma aplicação ou para uma outra diferente. Quanto mais o produto mantiver sua forma original melhor, do ponto de vista ambiental. Esse conceito, obviamente, depende da existência de programas de devolução e reciclagem.

O reuso depende da:

• vida útil técnica, estética e psicológica;

• existência de mercado secundário para produtos usados;

• infra-estrutura de manutenção e reparo.

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216 Prevenção da Poluição

O projeto de produtos deve, ainda:

• prolongar a vida útil;

• ser o mais útil/agradável para usuários sucessivos;

• usar tecnologia confi ável e componentes de qualidade para manter o valor do produto;

• prever limpeza, manutenção e atualização.

PROJETO PARA DESMONTAGEM

Para otimizar o fi nal do ciclo de vida de um produto é importante considerar a previsão do desmonte, levando em consideração fatores como a vida útil das peças/componentes, sua padronização, requisitos de manutenção e instruções para manutenção e remontagem.

No geral, os projetistas devem tentar:

• usar juntas destacáveis em vez de soldadas ou coladas;

• usar juntas padronizadas para que o produto possa ser desmontado com poucas ou uma única ferramenta comum;

• posicionar as juntas para que não seja necessário virar ou movimentar o produto para desmonte;

• indicar no produto como abri-lo sem danos;

• posicionar as peças com desgaste parecido o mais próximo possível, para poder trocá-las simultaneamente;

• indicar no produto quais as peças que precisam de manutenção ou limpeza específi ca.

REMANUFATURA DE PRODUTOS

Muitos produtos ainda acabam no aterro sanitário, apesar de conterem componentes

úteis. Freqüentemente, esses componentes podem ser reutilizados, seja para os fi ns originais ou para outros. Portanto, o processo de remanufatura é importante para recuperar materiais e energia nas peças e estabelecer uma fonte confi ável de peças ou componentes para novos produtos ou para reparo.

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O que é importante nesse processo é:

• considerar o projeto de desmontagem;

• projetar de forma modular;

• projetar peças/componentes de fácil limpeza e reparo;

• indicar a composição das peças e seus devidos cuidados;

• considerar o processo de remanufatura no projeto original;

• considerar os requerimentos de transporte e embalagem para peças/ componentes remanufaturados.

RECICLAGEM

A reciclagem, neste contexto, é uma das últimas considerações de DfE. No geral, a reciclagem é empreendida apenas se for menos danosa ao ambiente e mais econômica, quando comparada ao uso de outras fontes de materiais. Por isso, tanto na reciclagem quanto no reuso de materiais é importante considerar todos os impactos, particularmente de fatores que possam exceder o impacto causado pela utilização de materiais novos, como acontece com gastos no transporte para reciclagem.

No entanto, os processos de reciclagem são um componente muito importante do Projeto para o Meio Ambiente. Substâncias e equipamentos reciclados podem ser usados:

• em reciclagem primária – com a mesma fi nalidade com que foi usado originalmente (por exemplo, garrafas de vidro recicladas);

• em reciclagem secundária – aplicação menos nobre, como, por exemplo: pneus velhos podem ser desfeitos e reutilizados na fabricação de outros produtos de borracha;

• em reciclagem terciária – decomposição em material básico.

A reciclagem normalmente é mais efetiva quando implementada o mais cedo possível nos elos da cadeia industrial (i.e., considerado na ordem decrescente de vantagens, é melhor reciclar ou reutilizar primeiramente o produto inteiro, depois cada uma de suas partes e, fi nalmente, seu material).

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218 Prevenção da Poluição

Vamos destacar algumas categorias importantes de materiais recicláveis:

• metais – São normalmente recicláveis, embora esta reciclagem seja difi cultada se os metais forem impuros ou misturados com outros materiais;

• produtos fl orestais – São normalmente recicláveis, mas a qualidade do material reciclado é inferior a cada reciclagem (por exemplo, papelão reciclado produz papéis de baixa qualidade);

• plásticos – Alguns tipos, como os termoplásticos, são mais facilmente recicláveis, enquanto outros são mais difíceis ou perdem muito valor a cada reciclo;

• substâncias químicas – Às vezes são recicláveis, tendo que passar, porém, por processo de tratamento ou purifi cação.

Portanto, no projeto deve-se tentar facilitar o processo de reciclagem das seguintes maneiras:

• especifi cando materiais com mercado de recuperação existente ou emergente;

• integrando várias funções em um componente;

• reduzindo o número de materiais que compõem um produto, ou pelo menos considerando a compatibilidade dos materiais. Por exemplo: vidro/cerâmicas, plásticos, metais variados;

• considerando que materiais não similares não devem ser unidos de uma forma que difi culte sua separação. Por exemplo: parafusos são retirados mais facilmente do que soldas ou rebites;

• evitando o uso de elementos que interferem com o processo como adesivos;

• identifi cando materiais sintéticos com codifi cação padronizada;

• evitando o uso de materiais tóxicos e perigosos, porque a presença de tais materiais, até mesmo em quantidades reduzidas, difi culta a desmontagem, o reuso, a incineração e a recuperação de energia;

• considerando que se materiais tóxicos têm que ser parte do produto, estes devem ser concentrados numa área do produto para que possam ser retirados com facilidade.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

219

6.9 O FUTURO: PROJETO SUSTENTÁVEL

Vimos até agora que os parâmetros básicos e mais citados de Projeto para o Meio

Ambiente se baseiam nos resíduos – sejam eles sólidos, líquidos ou gasosos – gerados nos processos produtivos ou no pós-consumo, tendo como desafi o que estes sejam:

• eliminados;

• reduzidos em quantidade;

• reciclados;

• modifi cados através da substituição de alguns materiais e outras ações de modo a causar menos impacto ao meio ambiente.

Entretanto, a adoção de uma abordagem simples, do tipo DfE-Projeto para o Meio

Ambiente, pode não ser o sufi ciente para se ter um “Projeto Sustentável”, ou seja, aquele que considere aspectos sociais, econômicos e ambientais. Podemos dizer também que as decisões sobre projetos de produtos têm que ser não só integradas, mas também abranger os vários estágios da vida do produto e do processo de projetar.

Voltando agora um pouco ao Fator 10 para redução de consumo, o que corresponde a diminuir em cerca de 90-95% o impacto ambiental decorrente das atividades humanas, podemos afi rmar que não é provável se atingir esta meta através unicamente de melhorias incrementais no produto, sem contar, ainda, com a hipótese de que este fator de redução pode não ser sufi ciente para reverter o processo de degradação ambiental atual.

Dessa forma, apontamos outro caminho a ser adotado, que corresponde à classifi cação do “processo de melhoria de Brezet”, o qual descreve a “melhoria incremental” como sendo o primeiro estágio de uma escala de melhorias com tempos de atuação diferentes.

Depois da “melhoria incremental”, e numa escala de tempo mais prolongada, há o que Brezet chama de “reprojeto do produto”. Este seria um estágio que realmente incorpora um grande número de considerações ambientais de vez, num produto amplamente modifi cado.

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220 Prevenção da Poluição

Segue então o terceiro estágio, onde volta a se considerar a essência da função em questão, desencadeando-se o processo propriamente dito de “inovação na função”.

O último estágio pode implicar na “inovação do sistema” e nos levar ao Fator 10, se neste processo for abordado não só a função do produto, mas também o contexto dela, incluindo a infra-estrutura e sistemas de organização.

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Ecologia Industrial e Projeto para o Meio Ambiente

221

FECHAMENTO

Ao relembrar o modelo apresentado “design wheels

– Rotas Tecnológicas discutido neste capítulo, verificamos que este apresenta uma estrutura de projeto que leva a atingir diferentes estágios de melhoria. Quando tomamos o exemplo do processo de desmaterialização, podemos verificar que este se baseia na análise da função do produto. No entanto, podemos concluir que

é preciso considerar a questão do estabelecimento de um processo de inovação sistêmica, ou seja, a inovação que considere fatores de sustentabilidade, em vez de se limitar a implementar melhorias incrementais focadas exclusivamente no produto.

Dito isso, deixamos a discussão com as perguntas:

A melhoria incremental e o Fator 10 são suficientes?

Se forem, como vamos além do Fator 10?

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Energia

223

CAPÍTULO 7

ENERGIA

Ednildo Andrade Torres Universidade Federal da Bahia • UFBA • TECLIM

Aqueles que dominam a natureza

E buscam possuí-la

Jamais conseguirão,

Porque a natureza é um sistema vivo, tão sagrado

Que, quem a usar de forma profana,

Certamente a perderá;

E perder a natureza

É perder a

Nós mesmos.

TAO

A proposta de adotar Prevenção da Poluição como princípio, implica considerar todos os aspectos que podem reduzir o impacto ao meio ambiente.

Energia é um destes aspectos, pois está associada

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Discutir a importância da energia nos diversos setores;

Analisar as diferentes fontes, formas e possibilidades de conversão de energia;

Discutir a viabilidade de medidas técnicas para melhoria do desempenho energético-ambiental;

Avaliar o uso da energia do ponto de vista do desenvolvimento sustentável;

Apresentar ao aluno a

Exergia.

diretamente ao uso racional dos recursos naturais utilizados como fonte energética e aos impactos ambientais decorrentes do processo de produção e da forma de consumo adotada, tanto em setores industriais específi cos como pela sociedade como um todo.

Assim sendo, neste capítulo abordaremos alguns pontos sobre a questão energética para que você possa fazer uma análise da situação atual no cenário mundial. Além disso, vamos apresentar alternativas de medidas e tecnologias que podem ser adotadas visando ao uso mais efi ciente de energia no trabalho, na sua casa ou em qualquer outro local.

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Vale salientar nesse momento que a energia, desde os seus primórdios, vem sendo fator de disputa entre as mais diversas nações, onde as guerras e, conseqüentemente, as conquistas têm trazido situações peculiares. A condição prévia de qualquer civilização é a energia. Por isso, tanto no passado, em que se utilizava a força animal e humana, quanto mais adiante, após o avanço das técnicas, quando se passou a utilizar os recursos naturais como o sol, o vento, as águas e as fl orestas, a energia sempre teve um papel destacado.

Porém, com o crescimento da população, as necessidades energéticas passaram a ser cada vez mais concentradas e o modelo de desenvolvimento industrial adotado baseado na centralização da geração.

Esse modelo teve como base a transformação das fontes primárias, inicialmente a de carvão mineral e em seguida a do petróleo e seus derivados. Essa civilização foi forjada tendo como base, inicialmente, a máquina a vapor e depois os motores de combustão interna. Com o surgimento e o fortalecimento da indústria, houve a geração de empregos, paralelamente ao desenvolvimento da demanda de energia.

Atualmente, a população da Terra é superior a 5 bilhões de habitantes, sendo que cerca de 70% vivem nas cidades. Para exemplifi car a escalada urbana, e conseqüentemente a concentração populacional, vejamos: no ano de 1900, apenas 11 cidades do mundo tinham população superior a 1 milhão de habitantes; em 1950, eram 75; em 1978, já eram

191; em 1985 o número passou para 273; e atualmente são mais de 350 cidades, sendo a maioria localizada em países do Terceiro Mundo.

Estamos vivendo uma fase de transição, em que a base ainda é a centralização da geração. Entretanto, já é uma realidade a participação da iniciativa privada na geração de energia, a contribuição dos autoprodutores, a introdução das alternativas e a conscientização do uso racional da energia.

O Brasil não diverge das grandes questões mundiais, tampouco as soluções empregadas seguem uma linha diferente. O nosso processo de industrialização também desencadeou uma crescente incorporação da energia como fator de crescimento, e, por outro lado, como fator limitante. Nas fábricas, possibilitou a produção em larga escala, gerando empregos, estimulando investimentos, proporcionando o desenvolvimento e o bem-estar da população.

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O comércio acompanhou o processo industrial, o que acarretou a criação de novos empregos. Nas residências, esse vetor foi sentido com a introdução de eletrodomésticos, a popularização do uso do gás de cozinha, equipamentos de lazer, mudando os hábitos dos povos. Nos transportes, a utilização dos veículos automotivos, com a implantação das grandes montadoras, além das várias modalidades de transporte coletivo. Na agricultura, o processo de industrialização proporcionou maior produtividade, a mecanização agrícola, e em certos lugares contribuiu para a fi xação do homem ao campo.

Na verdade, no ciclo que estamos vivendo, verifica-se a transição de uma ordem superada para a busca de um novo paradigma, e nele a energia deixa de ser só valorizada nos seus aspectos quantitativos para também ser enfocada numa perspectiva qualitativa, onde o que é fundamental não são só os grandes mananciais ou os fluxos energéticos, mas também a forma como a energia incorpora-se à economia, agregando qualidade aos produtos, reduzindo custos e, sobretudo, minimizando os impactos sobre o meio ambiente.

7.1 ENERGIA E MEIO AMBIENTE

A ciência define energia como a capacidade de realizar trabalho. Etimologicamente, a palavra “energia”, de origem grega, é similar ao termo. O trabalho é uma grandeza escalar conceituada na física como sendo o produto de uma força pelo deslocamento que ela provoca no sentido em que é aplicada. É oportuno lembrar que a ciência física utilizou nessa definição o mesmo termo “trabalho”, contudo este conceito já era existente, e de origem socioeconômica, portanto, atribuindo um significado particular (Bôa Nova, 1985).

O conceito atual de energia foi proposto pelo físico inglês Young, no início do século XIX. Muitos séculos antes, o Homem já observava e utilizava as diferentes formas de energia existentes na Natureza: a radiação solar, o fogo, os ventos, a lenha, posteriormente as quedas d’água e o movimento dos astros celestes. Há longo tempo, as pessoas e grupos familiares começaram a aprender como aproveitar a energia primária

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226 Prevenção da Poluição para facilitar a vida, utilizando a natureza como fonte de suprimento, nas diversas formas apropriadas a satisfazer suas necessidades básicas: calor, cocção, movimento, iluminação, etc.

Para se entender a relação entre a utilização da energia e os impactos provocados sobre o meio ambiente é importante observar que o homem a transforma, a organiza para poder utilizá-la. Isto é, disponibiliza a energia de uma forma mais facilmente manuseável, podendo ser mais concentrada e mais disponível para uso imediato. Como exemplos citamos a transformação do petróleo e seus derivados, da lenha em carvão vegetal, do potencial hidráulico em hidroeletricidade. Mas para isso se paga um preço, as irreverssibilidades, que têm tanto um componente ambiental como energético.

Nessa luta contra a “desordem” dissipa-se uma determinada quantidade de energia, que se perde para fora das fronteiras do sistema. Isso implica que se necessita de mais energia para ordená-la. De forma simplificada, as atividades econômicas não fazem nada mais que estruturar a matéria de modo a propiciar sua utilização pelo homem, e para isso exigem a incorporação de um aporte de energia externa. O grande problema é que existe uma contrapartida. As irreversibilidades ou perdas, que são transferidas sob a forma de energia degradada, são rejeitadas para o meio ambiente.

Assim, a incorporação pelo homem da energia fóssil (petróleo, carvão mineral, gás)

à produção de bens e serviços será acompanhada de perdas de matéria e energia para o meio externo, causando uma série de impactos ambientais (Odum, 1988).

Outrossim, além da emissão de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, o aproveitamento das fontes energéticas provoca impactos ambientais associados ao custo (econômico, social e ecológico) de oportunidade da utilização de recursos naturais. Estes impactos podem ser significativos, mesmo no caso do emprego de fontes renováveis de energia como a hidroeletricidade, a biomassa energética, a energia solar e eólica, pelas grandes áreas utilizadas para a produção energética em grande escala (na construção e na área de influência de grandes barragens, em florestas e plantações energéticas, na superfície ocupada por coletores solares e aerogerados).

Além dos impactos ambientais que acompanham a operação normal das instalações de produção e utilização da energia, as tecnologias energéticas podem provocar riscos

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227 de acidentes, catástrofes e desvios de seu uso para outros fi ns. O caso da energia nuclear

é sem dúvida o mais importante nesse campo devido aos problemas a ela associados: disposição de resíduos, desativação dos equipamentos (após o tempo de vida útil), contaminação e vazamentos.

Embora nenhuma emissão para o meio ambiente esteja associada com a operação de usinas de geração de eletricidade nuclear, os resíduos de combustível nuclear permanecem radioativos por milhares de anos, e, apesar de pequenos em quantidade, devem ser dispostos e gerenciados cuidadosamente, pois representam uma grande ameaça para o meio ambiente e para a humanidade.

No caso da hidroeletricidade, esta modifi ca a operacionalidade dos rios, inunda terras anteriormente agricultáveis ou utilizadas para outros fi ns, altera os ecossistemas e muda o microclima. E durante a construção das barragens são empregadas grandes quantidades de materiais, o que provoca impactos, desde a sua extração até a sua aplicação nas usinas.

Aos alunos:

Outras tecnologias energéticas que envolvem grandes riscos são: minas de carvão, campos de petróleo, refi narias, transporte de petróleo, etc. Pesquise os impactos provocados por estas tecnologias alternativas energéticas.

No primeiro capítulo deste módulo, para analisarmos as conseqüências dos problemas decorrentes de algumas atividades criativas, apresentamos a Equação Mestra do Impacto

Ambiental. No caso específi co do impacto ambiental provocado pelo uso da energia, convém fazer uma análise do consumo de energia no mundo.

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7.2 CONSUMO DE ENERGIA NO CONTEXTO GLOBAL E NACIONAL

CONSUMO DE ENERGIA POR HABITANTE NO MUNDO

O consumo per capita de energia tem sido um dos indicadores que medem o desenvolvimento de um país. Quanto maior o consumo, maior o desenvolvimento da nação. Após sucessivas crises do petróleo e o conseqüente aumento dos preços, ocorreu uma retração do consumo. Já na década de 90, com as pressões dos movimentos ecológicos, houve um crescimento da conscientização ambiental. Nesse sentido, a preocupação com o consumo de energia passou a ser exercida pelos governos e em seguida pela sociedade organizada. Medidas de redução do consumo e campanhas educacionais fi zeram com que o consumo de energia per capita deixasse de crescer nas mesmas taxas do passado.

Na Figura 7.1 são apresentados os valores do consumo de energia per capita para os diversos países ou regiões do mundo.

Fonte: Torres, 1999

FIGURA 7.1 – CONSUMO DE ENERGIA PER CAPITA NO MUNDO

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Nela foram lançados os dados referentes aos anos de 1971, 1990 e 2000, assim como um cenário para 2010. Os valores representam toda a energia consumida no período, dividida pela população do país. A unidade de medida em que foram expressos os

índices é a tep (tonelada equivalente de petróleo), ou seja, transformam-se todas as fontes de energia consumida em uma única, que equivale à energia produzida que pode ser extraída a partir de uma tonelada de petróleo.

Nos EUA e no Canadá, para o ano de 1990, o consumo per capita foi de cerca de

7,5 tep/habitante; enquanto para o ano de 2000, um consumo por habitante de 8,2 tep.

O que representou um crescimento de 9,3% em uma década.

Para a América Latina, o consumo específi co em 1990 foi de aproximadamente

0,9 tep/habitante; enquanto para o ano de 2000, cerca de 1,2 tep/habitante. Quando comparado com a média mundial, a América Latina não se encontra muito distante com relação ao consumo per capita. Porém, com relação aos EUA, a relação é de um para aproximadamente sete.

Com esses números podemos afi rmar que o processo de desenvolvimento na América

Latina está muito aquém dos países desenvolvidos. No entanto, o objetivo não é aumentar o consumo per capita de qualquer maneira, e sim buscar um desenvolvimento sustentável e equilibrado.

Particularizando, podemos estabelecer os índices para o Brasil, desagregando-os do que foi mostrado. Para isso utilizaremos os dados fornecidos pelo BEN (Balanço

Energético Nacional). Para o ano de 1990, o consumo per capita foi de 1,18 tep/habitante e em 1995 foi de 1,28 tep/habitante. Sendo que em 1997 esse número cresceu para 1,317 tep/habitante e pelo BEM (2000) o valor aumentou para 1,55 tep/habitante. Portanto, quando comparado com a América Latina, o Brasil tem um consumo por habitante maior, condizente com o processo de desenvolvimento no país em relação aos demais da América Latina.

EXPECTATIVA DE VIDA X CONSUMO DE ENERGIA

Iniciaremos a discussão deste item apresentando a Figura 7.2, que mostra a correlação entre o consumo de energia e a expectativa de vida da população de alguns países.

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FIGURA 7.2 – EXPECTATIVA DE VIDA X CONSUMO DE ENERGIA (FONTE: TORRES, 1999)

O consumo de energia no eixo x é expresso em tep/ano e no eixo y é mostrada a expectativa de vida ou vida média dos diversos países, em anos. Observa-se que os EUA têm o maior consumo de energia per capita, com cerca de 7,5 tep/ano e uma expectativa de vida de cerca de 79 anos. Por outro lado, na Etiópia, o consumo per capita é inferior a 0,22 tep/ano e a expectativa de vida é menor do que 50 anos. Já no Brasil, onde o consumo per capita é pouco maior do que 1,3 tep/ano, a esperança média de vida de um brasileiro é de cerca de 70 anos. Maior consumo de energia indica a existência de mais indústrias, mais saúde, mais habitação, mais educação, mais empregos, e a condição social da população é refl etida sob a forma de uma vida mais longa.

Portanto, podemos afi rmar que quanto maior a renda per capita, maior é a vida média e o nível de vida da população, e maior seu consumo de energia.

Questão para reflexão:

Que outras implicações você vê nisso?

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7.3 CONSUMO DE ENERGIA NO BRASIL

Segundo o Balanço Energético Nacional (2000), o setor industrial foi responsável por 37,4% do consumo nacional em 1999, seguido pelo setor de transporte, com 20,6%, e pelo setor residencial, com 15,9%. Esses números apontam para a importância da racionalização do uso da energia na indústria, assim como nos demais setores consumidores.

SETOR INDUSTRIAL

A indústria tem um grande peso no consumo de energia tanto no Brasil como no exterior. O setor industrial consome diversas formas de energia, dentre elas cita-se: gás natural, carvão mineral e vegetal, óleo combustível, eletricidade, etc.

Na Figura 7.3 pode-se verifi car a participação das diversas fontes da energia consumida pelo setor industrial. Verifi ca-se que a eletricidade e o óleo combustível, juntos, têm atendido mais de 50% do consumo dos energéticos, sendo que em 1996 a parcela da eletricidade foi 47,7% e do óleo combustível de 10,6%.

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Fonte: Balanço Energético Nacional, 1997.

FIGURA 7.3 – CONSUMO DE ENERGIA NA INDÚSTRIA POR FONTE, BRASIL 1981–1996

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SETOR RESIDENCIAL

Fonte: Balanço energético nacional, 1997.

FIGURA 7.4 – CONSUMO DE ENERGIA NO SETOR RESIDENCIAL POR FONTE, BRASIL 1981–1996

O setor residencial no Brasil tem uma participação importante no contexto da matriz energética brasileira. A lenha (biomassa) teve no passado uma importância fundamental.

No ano de 1981, no Brasil, a lenha participava com 55,5% do consumo de energia no setor residencial, enquanto a eletricidade contribuía com 28,4% e o GLP com 11,3%.

Mas em 1996 a participação da lenha caiu para 17,9%, sendo substituída pelo GLP, que fi gurou com 18,5%, e pela eletricidade, com 61,8%. A Figura 7.4 mostra a evolução dos energéticos no setor residencial no Brasil.

SETOR DE TRANSPORTE

O setor de transporte é o segundo maior consumidor, perdendo apenas para o setor industrial. Os energéticos mais consumidos são o óleo diesel e a gasolina. Na Figura

7.5 observa-se que a gasolina em 1981 participava com 32,5% no consumo de energia,

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234 Prevenção da Poluição o óleo diesel com 48,4% e o álcool com 5,1%, e os demais com 14%. Já em 1996 a participação foi de 29,1%, 46,7% e 16%, respectivamente. A grande mudança foi com a introdução do álcool etílico na matriz energética após o ano de 1981. Evidencia-se, ainda, a importância do setor de transporte coletivo de passageiros e de carga, consumidores de óleo diesel.

Fonte: Balanço Energético Nacional, 1997.

FIGURA 7.5 – CONSUMO DE ENERGIA NO SETOR TRANSPORTE POR FONTE, BRASIL 1981–1996

Além desse contexto geral, outras especifi cidades caracterizam a realidade brasileira no que se refere ao seu consumo energético, como, por exemplo:

• a forte preponderância da geração de origem hidráulica no suprimento de eletricidade, com a maior parte do potencial hidroelétrico remanescente localizado em região de ecossistemas particularmente frágeis e de elevada biodiversidade, a Amazônia;

• a existência de importante segmento da indústria siderúrgica, em particular a produção de ferro-gusa e ferroligas, baseada no uso de carvão vegetal (como redutor e combustível), oriundo em sua maior parte de desmatamentos;

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• a importância do álcool de cana-de-açúcar como combustível de automóveis, graças ao maior programa de biomassa renovável em todo o mundo;

• a má qualidade do carvão mineral brasileiro, com seus altos teores de cinzas e enxofre.

Estas especifi cidades e outros exemplos demonstram a necessidade de nossa política ambiental estar particularmente atenta às características da produção e uso da energia no país, assim como a importância crescente de uma adequada inserção da dimensão ambiental no planejamento energético brasileiro.

Aos alunos:

Tente dar sugestões para a redução do consumo de energia nos setores apresentados. Pense nas causas primeiro, é claro!

7.4 FONTES, FORMAS E CONVERSÃO DE ENERGIA

Agora que foi apresentado o contexto em que a questão energética se insere, é preciso considerar de que maneira se encontram os recursos energéticos para nosso uso. O objetivo disso é identifi car a melhor forma de aproveitar energia para os fi ns que temos em mente.

Genericamente podemos dizer que o uso de energia envolve:

produção das formas de energia utilizáveis através de processos de conversão de energia; transporte, distribuição e armazenamento de energia;

• utilização de recursos de energia e formas processadas de energia para produzir serviços e processar tarefas.

O conhecimento da finalidade a ser dada à energia deve ser conjugado com o conhecimento das suas fontes, formas e meios de conversão, para identificar a maneira mais eficiente e menos impactante para o seu aproveitamento. Deve-se lembrar, contudo, que transformações para se obter uma forma de energia apropriada ao uso final implica perdas.

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Apesar de suas múltiplas formas, a energia se origina de apenas três tipos de interações fundamentais da natureza: gravitacional, eletromagnética e nuclear. Apenas três!

As fontes de energia, ou energia primária, provêm das interações anteriormente mencionadas, que são encontradas na natureza. Consideram-se formas de energia primária a energia solar, o potencial hidroelétrico, a biomassa, os combustíveis fósseis, a energia eólica e a geotérmica. Estas formas de energia possuem algumas interdependências.

ENERGIA SOLAR

A energia solar, por exemplo, é a mais importante para o homem. É vital para a vida na Terra, e dessa fonte energética derivam, indiretamente, várias outras formas de energia utilizáveis no nosso planeta.

A energia solar provém da fusão termonuclear, na superfície do Sol, de elementos leves, especialmente do hidrogênio, produzindo deutério e hélio. Como a massa total resultante é ligeiramente menor que a inicial, há nesse processo uma transformação dessa pequena diferença de massa em uma enorme energia, liberada sob a forma de calor, segundo a fórmula da teoria da relatividade restrita de Einstein: E = m.c

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(energia igual ao produto da massa relativística pelo quadrado da velocidade da luz).

Parte da energia produzida atinge a Terra sob a forma de radiação eletromagnética, especialmente à luz visível. Cerca de 30% dessa energia são refl etidos de volta ao espaço pelas nuvens, por partículas na atmosfera e pela superfície terrestre. O resto é absorvido pela atmosfera e, principalmente, pela Terra, que uma vez aquecida reemite esse calor de volta ao espaço através dos ciclos hídricos, biológicos e dos ventos, conforme indica a Figura 7.6.

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FIGURA 7.6 – ENERGIA TOTAL INCIDENTE NA TERRA

Como a temperatura da Terra é bem menor do que a do Sol, a freqüência dessa radiação é também muito menor, possibilitando a absorção de parte desse calor por alguns gases que estão na atmosfera (o dióxido de carbono e o metano, por exemplo).

Este fenômeno é na realidade o chamado “efeito estufa” – que nós já vimos no Capítulo

2. Graças ao efeito estufa a temperatura do nosso planeta subiu até atingir um nível equilibrado, o que permitiu o aparecimento e o desenvolvimento de formas cada vez mais complexas de vida. Recentemente, o excesso de emissões dos chamados gases estufa é que está produzindo indesejáveis mudanças climáticas.

Bom, vamos ver o que o Sol faz? Os vegetais crescem e se desenvolvem graças

à fotossíntese, que é a assimilação da energia solar pela clorofi la de suas folhas, transformando-a em matéria orgânica – a biomassa. A lenha e o carvão vegetal de fl orestas plantadas, o álcool e o bagaço da cana-de-açúcar, por exemplo, são combustíveis produzidos de forma renovável, graças ao fl uxo de energia que recebemos do Sol.

Além disso, os chamados combustíveis fósseis – petróleo, gás natural e carvão mineral – são oriundos da decomposição da biomassa, ao longo de milhões de anos, pela ação de bactérias. Essa reação conduz a uma perda do oxigênio presente nos vegetais,

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238 Prevenção da Poluição dando origem, de acordo com o tempo de decomposição, à formação de diversos tipos de carvões, como a hulha, o linhito e a turfa, por ordem de idade decrescente.

O petróleo e o gás natural resultam da reação bacteriana de matéria orgânica sob condições especiais, transformando os hidratos de carbono em hidrocarbonetos, que em estado líquido ou gasoso se deslocam facilmente na crosta terrestre até serem aprisionados por rochas porosas.

É importante notar que os combustíveis fósseis constituem um estoque não renovável, pois o tempo de sua formação na Terra, da ordem de milhões de anos, é muito maior que a escala de tempo das atividades humanas. Outras fontes de energia que estão disponíveis na Terra de forma fi nita são: matéria orgânica parcialmente decomposta como turfa; urânio, etc.

A energia solar também é responsável pela evaporação da água na superfície de oceanos, lagos e rios. Conforme indica a Figura 7.6, 23% da energia incidente sobre a

Terra são absorvidos no ciclo hidrológico. O vapor d’água resultante sobe à atmosfera e após certo tempo, tendo percorrido alguma distância, se condensa em gotas d’água, retornando à Terra como chuva e liberando calor no processo de condensação. Assim, a energia do Sol realimenta a energia hidráulica das quedas d’água, originada pela força de gravidade. Por se tratar de ciclos anuais, esta forma de energia é considerada renovável.

A diferença entre as quantidades de energia solar recebidas nas várias partes da superfície terrestre causa diferenças de temperatura e pressão, provocando ventos na atmosfera. Também contribuem para sua formação a energia cinética, o movimento de rotação da Terra e a atração gravitacional da Terra sobre a massa da atmosfera que a envolve. Portanto, a energia eólica resulta da energia solar e da energia gravitacional.

Também a partir dessas duas fontes os oceanos poderão (no futuro, pois hoje só temos projetos piloto para desenvolvimento das tecnologias necessárias, que de modo geral ainda são muito caras) fornecer energia de três tipos:

• das marés, provocada pelo movimento de rotação da Lua em torno da Terra, arrastando pela atração gravitacional a massa de água dos oceanos, fazendo variar a altura da superfície do mar, que pode ser usada próximo às costas;

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• das ondas, provocada por efeitos combinados de movimentos do mar e dos ventos, que se atritam com a superfície dos oceanos;

• da diferença de temperatura entre a água da superfície, aquecida pela energia solar, e as águas mais profundas dos oceanos.

Pode-se, enfi m, usar diretamente a energia solar como fonte energética, através de equipamentos especialmente construídos para captá-la, destacando-se:

Coletores planos. Capazes de aproveitar não só a radiação direta do Sol mas também a radiação difusa (única disponível em dias nublados) para aquecimento de água e do ar (na secagem de grãos, por exemplo).

Células fotovoltáicas. Para geração direta de energia elétrica, aproveitando o efeito fotovoltáico: a radiação solar direta desprende elétrons de materiais semicondutores

(como o silício metálico, por exemplo), dando origem a uma corrente elétrica.

Coletores concentradores (cilíndrico-parabólicos, por exemplo). Estes são concentradores da radiação solar direta num único ponto, de forma a produzir calor em alta temperatura para vaporizar a água e gerar eletricidade numa turbina.

Aos alunos:

Tente levantar os custos das opções apresentadas e fazer um estudo da relação custo x benefi cio.

BIOMASSA

A biomassa é matéria orgânica de origem tanto animal como vegetal, obtida de fl orestas nativas e plantadas, culturas energéticas, plantas aquáticas e resíduos orgânicos

– domésticos, industriais e agropecuários. Exemplos típicos são: cana-de-açúcar, lenhas e madeiras de diversas origens, óleos vegetais, como de mamona e dendê, esterco animal, esgoto, etc.

Esses materiais são transformados em energia pelas vias termoquímica ou bioquímica, normalmente para gerar calor direto, gás metano ou eletricidade.

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Os processos termoquímicos são a combustão, a pirólise (aquecimento na ausência de oxigênio, utilizada, por exemplo, na fabricação de carvão vegetal), a gaseifi cação e a liquefação. A conversão bioquímica inclui a digestão anaeróbia e a fermentação alcoólica.

No meio rural e periferias dos países do Terceiro Mundo, ainda hoje, a combustão direta da lenha, de resíduos agrícolas e de esterco constitui-se na principal fonte de energia para o cozimento de alimentos e aquecimento. Nesses países, a lenha para fi ns energéticos chega a representar 80% do consumo total. Em nível mundial, a lenha ainda representa 47% deste consumo energético (Torres, 1999).

Este consumo tem acarretado sérios prejuízos ambientais pela forma indiscriminada como a lenha é coletada, provocando degradação do solo, erosão e, fi nalmente, desertifi cação. Milhões de hectares de áreas de fl orestas são destruídos por ano no

Terceiro Mundo.

No início da década de 40 a biomassa era responsável por cerca de 76% do consumo de energia do Brasil, a energia elétrica por 7,0%, o petróleo por 9,0%, o carvão mineral por 7,0%e a cana-de-açúcar por 1,0%. Com o uso crescente dos derivados de petróleo, logo acompanhados da grande expansão da hidroeletricidade, a biomassa passa a diminuir de participação década após década. Mas a tendência é que esse quadro volte a se inverter, e para um futuro próximo a biomassa volte a ser responsável por suprir grande parte da energia necessária.

O Proálcool é o maior programa de produção de álcool em nível mundial. Na verdade, pode-se produzir álcool a partir da fermentação de cana-de-açúcar, mandioca, milho, sorgo sacarino, entre outras matérias-primas. Porém, a maior produtividade energética por hectare é fornecida pela cana-de-açúcar, que assim é a base para o programa.

Atualmente, estima-se em cerca de 12 bilhões o número de litros anuais produzidos no país, movimentando 4 milhões de carros a álcool, além de participar com aproximadamente 2% na mistura álcool/gasolina, que abastecem os demais 8 milhões de automóveis.

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Apesar de seu sucesso tecnológico, o Proálcool também representa importantes custos sociais e ecológicos (La Rovere, 1988):

• os incentivos dados à expansão da cultura da cana-de-açúcar – não estendidos

às culturas alimentares para abastecimento do mercado interno – chegaram, ao longo da implementação do Proálcool, a causar, em algumas regiões, a substituição dos cultivos alimentícios pela cana-de-açúcar;

• sua produção, à base de monocultura, com a prática da queimada para facilitar o corte, exige muito do solo, além de um elevado uso de insumos como: fertilizantes, água, pesticidas, entre outros;

• a transformação da cana em álcool nas destilarias gera efl uentes líquidos altamente poluentes, como as águas de lavagem e principalmente o vinhoto, emitido em grande quantidade (10 a 17 litros para cada litro de álcool).

• o tratamento do vinhoto em lagoas de decantação e/ou estabilização deu margem a diversos acidentes de rompimento ou transbordo das represas, e o conseqüente despejo do vinhoto em rios causa mortandade de peixes em decorrência da demanda de oxigênio dessa enorme carga orgânica.

Um uso mais efi ciente da biomassa é fundamental para reduzir os impactos ambientais decorrentes do seu uso. A conversão em carvão vegetal, o desenvolvimento de fornos aperfeiçoados, de maior rendimento e capazes de permitir a recuperação do alcatrão, poderá contribuir para atenuar os impactos ambientais negativos do uso de carvão vegetal.

A biodigestão anaeróbia propicia um tratamento conveniente de resíduos poluentes como esgoto, vinhoto (de destilarias de álcool e açúcar) e diversos efl uentes industriais, fornecendo ainda o biogás como subproduto. Além disso, esta tecnologia também permite eliminar os germes patogênicos do esterco, através do uso de biodigestores rurais, que ainda produzem um biofertilizante bem mais efi caz que o esterco in natura, e biogás para cocção, iluminação e geração de energia elétrica.

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242 Prevenção da Poluição

COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS

Pela importância do impacto causado pela queima de combustíveis fósseis, faremos uma análise mais detalhada desta.

A combustão é utilizada para muitos fi ns, como, por exemplo, em máquinas, transporte, etc. Qualitativamente, a combustão dos hidrocarbonetos pode ser expressa como a seguir:

Estequiometricamente, a combustão de um hidrocarboneto genérico (CmHn) no ar

(tratado como apenas nitrogênio e oxigênio) pode ser descrita pela seguinte reação:

Aqui, m e n são variáveis que podem possuir diferentes valores numéricos para diferentes hidrocarbonetos (ex.: em termos aproximados, m=1 e n=4 para o gás natural, principalmente o metano; m=1 e n=2 para o óleo; e m=1 e n=1 para o carvão).

Alguns pontos são importantes para as duas expressões da reação anterior:

• o dióxido de carbono é claramente um produto inerente da combustão de qualquer combustível que contenha carvão. De modo geral, a única maneira de evitar a emissão de dióxido de carbono é eliminar o uso de combustíveis baseados no carbono (ex.: utilizando o hidrogênio como combustível);

• se o oxigênio disponível for insufi ciente (ou se os gases não se misturarem, ou o tempo de reação for curto), o carbono irá geralmente fazer uma combustão apenas parcial, produzindo CO;

• o nitrogênio não deveria reagir no ar, mas preferivelmente passar diretamente para um combustível imutável. Entretanto, oxidação do nitrogênio pode ser produzida sob certas condições de combustão, como a alta temperatura (ex.: máquinas de automóvel);

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• usualmente, ar em excesso, além do total requerido pela combustão estequiométrica, é utilizado para melhorar a queima do combustível. Porém, a temperatura dos gases de exaustão é diminuída quando é utilizado ar em excesso, assim como alguma energia de combustível pode ir diretamente aquecer o ar em excesso, e esse efeito pode resultar em diminuição da efi ciência;

• geralmente o combustível não é um hidrocarboneto puro e contém outras substâncias, como o enxofre. Quando o enxofre está presente, ele entra em combustão (produzindo energia) e reage transformando-se em dióxido de enxofre.

Nos aspectos mais diretamente ligados ao processo de combustão, as seguintes medidas podem ser utilizadas para reduzir emissões:

• limpar primeiramente o combustível, antes de executar a combustão (ex.: a retirada do enxofre do petróleo, carvão mineral e gás natural);

• modifi cação do processo de combustão (ex.: usar um sistema de combustão duplo, o qual fornece ar insufi ciente em uma seção e ar em excesso em outra, para reduzir a produção de poluentes como óxido de nitrogênio);

• tratar os gases de exaustão após a combustão (ex.: uso de precipitadores eletrostáticos, ciclones, fi ltros de fábrica, esfregadores de partículas para remover o material particulado).

OUTRAS FONTES DE ENERGIA

Outra fonte energética renovável, mas que não é originada pela energia solar, é a formada pela alta temperatura do núcleo da Terra, e alimentada pela desintegração radioativa de núcleos atômicos instáveis, presentes no seu interior.

Finalmente, quando se sabe controlar a reação nuclear que se desenvolve exponencialmente, em cadeia, sua energia pode ser usada como uma fonte energética.

É o caso da fi ssão de núcleos pesados como o urânio, usado nos reatores nucleares, onde são submetidos a um bombardeio de nêutrons. O calor liberado serve para produzir vapor, movimentando uma turbina que aciona um gerador elétrico. Entretanto, esta fonte

é não renovável, pois o estoque de materiais fósseis na crosta terrestre é fi nito, sendo

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244 Prevenção da Poluição o urânio relativamente escasso. Já a fusão de núcleos leves, mais abundante, ainda não

é controlada pelo homem, que até agora só conseguiu utilizá-la para gerar explosões, com fi ns bélicos, como no caso da bomba de hidrogênio.

Aos alunos:

Identifi que as vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de energia apresentados anteriormente e estabeleça um critério para expressar o grau de impacto ambiental associado ao uso de cada um deles.

7.5 MEDIDAS TÉCNICAS PARA MELHORIA DO DESEMPENHO ENERGÉTICO

PREVENÇÃO DAS PERDAS E DISSIPAÇÃO DE ENERGIA

As perdas de energia estão associadas a vazamentos que ocorrem dentro dos sistemas

(ex.: fl uxo quente dentro de um espaço frio) ou para fora do sistema (ex.: vazamento de combustível de um tanque de armazenagem, vazamento de vapor).

A efi ciência pode ser melhorada através da prevenção desses vazamentos de energia por intermédio das duas principais abordagens:

• aplicação de tecnologias e métodos de prevenção de vazamento como, por exemplo, o uso de selos em tanques e dutovias e aplicação de isolamento;

• inspeção periódica para detectar perdas e vazamentos e para levar às ações apropriadas a serem formuladas e implementadas.

CO-GERAÇÃO E GERAÇÃO DE MULTIPRODUTO

A geração de dois ou mais produtos simultaneamente às vezes resulta no aumento de efi ciência quando comparado à soma da produção individual de cada um dos produtos.

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Co-geração, ou combinação de aquecimento e potência (CHP), geralmente se refere

à geração simultânea de energia (trabalho) e calor (ou uma forma aquecida como água quente ou vapor). Muitas indústrias utilizam a co-geração internamente, com algumas sendo capazes de até vender parte da energia co-gerada!

Uma geração tripla pode ser resultante de um processo de co-geração, em que se pode produzir um refrigeramento em adição ao aquecimento e eletricidade.

Também existem outros processos que geram produtos múltiplos, que resultam em ganho de efi ciência, como, por exemplo, a eletrólise de água para produzir hidrogênio gera uma mercadoria secundária, o oxigênio, normalmente de alto grau de pureza e, dessa forma, pode ser considerado como um co-produto ou um produto co-gerado.

Observe na Figura 7.7 um sistema de co-geração de ciclo combinado:

FIGURA 7.7 – SISTEMA DE CO-GERAÇÃO EM CICLO COMBINADO

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246 Prevenção da Poluição

SISTEMAS DE ENERGIA INTEGRADOS

A efi ciência pode ser melhorada unindo sistemas separados e criando sistemas de energia integrados. As integrações de sistemas são benéfi cas em situações em que as saídas dos processos, as perdas ou os resíduos não podem ser reusados naquele mesmo processo, mas sim como entrada de outros processos.

Por exemplo, o dióxido de carbono emitido como combustão de resíduos sólidos pode, com uma variedade de níveis de tratamento, tanto ser utilizado em outros processos em que ele é requerido como também ser injetado dentro de reservatórios de óleo, na intensifi cação das operações de recuperação de óleo ou na carbonatação de bebidas.

A integração de sistemas de energia pode ser muito ampla e complexa, especialmente nos parques industriais, onde muitos recursos são utilizados e uma grande variedade de resíduos é gerada.

Na indústria de processos, muitas correntes de saída possuem cargas térmicas elevadas para o seu destino e, portanto, têm que ser submetidas a trocas térmicas com

água de refrigeração. Por outro lado, outros processos exigem que as suas correntes de entrada sejam aquecidas. Para tanto, usam-se fornalhas, ou vapor. Dessa forma, tanto para o aquecimento como para o resfriamento, consome-se energia. Se o calor a ser retirado de uma corrente puder ser aproveitado para aquecer uma outra, que precisa ter sua carga térmica aumentada, estaríamos conseguindo um duplo ganho, tanto econômico como ambiental. A instalação criteriosa de trocadores de calor permite essas transferências.

De acordo com o que vimos no Capítulo 3 – Minimização de Resíduos, o método PINCH possibilita uma integração mais ampla, incluindo calor e potência, e posteriormente serve de base para a integração mássica, onde o objetivo é minimizar perdas materiais procurando-se os arranjos mais econômicos para transferir compostos de efl uentes líquidos para correntes de processo.

ENTROSAMENTO ENTRE DEMANDA, FORNECIMENTO E ARMAZENAMENTO DE ENERGIA

Algumas formas de fornecimento de energia difi cultam seu controle, provocando perdas. Isso faz com que a energia seja oferecida num nível que excede o requerido para uma demanda específi ca. Portanto, é mais efi ciente fornecer uma forma de energia em um nível mais próximo do necessário. Isso pode ser realizado de diversas maneiras, tais como:

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• adequar a temperatura do fl uxo de transferência de calor para o fi m determinado. Para um aquecimento interno em torno de 22 o C, por exemplo, o fornecimento de calor de 40 o C seria sufi ciente e muito melhor do que o uso de calor vindo de uma caldeira de combustão que gera calor a centenas de graus.

Dessa forma se torna viável o uso de calor residual de indústrias;

• armazenar a energia excedente, das fontes que estão disponíveis em quantidades superiores à demanda, em determinados momentos.

MELHORIA NO ENVOLTÓRIO DAS EDIFICAÇÕES

A efi ciência de energia em uma edifi cação pode ser melhorada utilizando-se uma variedade de medidas, tais como:

• aumento no isolamento de paredes e telhados, para reduzir a infi ltração de calor no verão e a perda no inverno;

• vedação nas fendas, portas, janelas e pequenas frestas, para reduzir trocas de ar do meio externo com o meio interno;

• janelas modernas, de alta efi ciência, que devem ter as seguintes características:

- camadas duplas (ou mais) de esmalte, que reduzem as perdas de calor;

- janelas eletrônicas ou com fotossensores, que automaticamente refl itam ou absorvam luz;

- aplicação de camadas de baixas taxas de emissão, que aumentam a resistência da janela às perdas de calor;

• persianas e brises, equipadas com sensores fotossensíveis que são auto-ajustáveis, em função da projeção da luz do sol, de forma a impedir ou liberar a absorção da luz, de acordo com a estação.

Questão para reflexão:

Se você fosse construir uma casa hoje, consideraria as medidas propostas acima no projeto?

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248 Prevenção da Poluição

USO DE APARELHOS DE ALTA EFICIÊNCIA

Cada vez é mais fácil encontrar equipamentos e aparelhos de alta eficiência, como por exemplo:

• aparelhos domésticos de alta efi ciência (ex.: refrigerador, fogão, lava-prato, lava-roupa, secadora, etc.);

• aquecedores e ares-condicionados de alta efi ciência;

• motores e caldeiras de alta efi ciência;

• motores de velocidade variável, utilizados em bombas, ventiladores, compressores, bombas quentes e linhas de processos na indústria e que possam se adequar melhor ao serviço requerido do que os que têm uma única velocidade.

Aos alunos:

Quando você for comprar um aparelho verifi que os dados relacionados ao consumo de energia. Compre esta briga!!

ILUMINAÇÃO MAIS EFICIENTE E EFICAZ

A iluminação representa um consumo de energia signifi cativo, somando um valor em torno de 20% do uso total de energia nos Estados Unidos. Novas instalações elétricas

(incluindo lâmpadas elétricas, refl etores e difusores) trazem maior efi ciência e maior vida útil. Por exemplo, efi ciência de energia para alguns tipos de fonte de luz (em lumens de iluminação por watt de eletricidade consumido, são:

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Dessa forma a mesma quantidade de luz pode ser gerada com iluminação de alta efi ciência com menos de 10% da eletricidade requerida para uma lâmpada incandescente.

Aos alunos:

Faça um levantamento de custos dos diferentes tipos de lâmpadas apresentados na Tabela 7.1 e avalie a relação custo x benefício.

Também pode ser conseguida efi ciência através da adequação da iluminação ao espaço e função, através de algumas outras medidas, como:

• utilizar iluminação direcionada para onde for mais necessário. Por exemplo: uma mesa deve estar mais iluminada do que o restante do quarto;

• ajustar os níveis de iluminação para que se adaptem às necessidades do olho humano, sem deixá-los excessivamente altos, por razões estéticas ou quaisquer outras;

• utilizar sensores que levem as luzes a serem apagadas quando os ambientes não estiverem ocupados e se ajustem para intensidades mais baixas quando as atividades assim o permitirem;

• no próprio projeto arquitetônico, sempre que possível, buscar a utilização de iluminação natural ao invés de artifi cial;

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250 Prevenção da Poluição

• empregar os tipos de luminárias que consomem menos energia por lumens.

Evitar particularmente o uso de iluminação incandescente.

Aos alunos:

Que tal implementar alguma dessas ações em casa ou no trabalho e avaliar os resultados?

AQUECIMENTO E/OU RESFRIAMENTO POR REGIÃO

Sistemas de aquecimento por área podem usar estruturas de aquecimento centralizadas para produzir uma média de aquecimento, a qual é transportada para vários usuários conectados ao longo da rede de aquecimento da região. Por exemplo: construções no centro de muitas cidades são geralmente conectadas por tubos ao longo dos quais água quente ou vapor fl uem para fornecer o aquecimento do espaço ou da água.

Similarmente, o resfriamento de uma região envolve uma produção central de um resfriamento médio, o qual é transportado para os usuários por uma rede de tubulação para fornecer o resfriamento do espaço.

Comparada com a alternativa de aquecimento e resfriamento individuais, os sistemas de aquecimento e resfriamento por distrito têm melhorado a efi ciência e reduzido os impactos ambientais, porque na forma centralizada, com a geração de energia em larga escala, há facilidade de implementar melhorias de efi ciência, e, além disso, medidas de controle ambiental se tornam possíveis. Aquecimento por região é geralmente associado de forma vantajosa com co-geração.

USO DE ESTRATÉGIAS PASSIVAS PARA REDUZIR O CONSUMO DE ENERGIA

Alguns métodos passivos podem ser utilizados para reduzir o consumo de energia.

Por exemplo:

• regular as temperaturas utilizadas em projetos. A temperatura especifi cada para o aquecimento do ar no inverno pode ser mantida no mais baixo valor confortável (próximo de 20-21°C), e para o resfriamento do ar no verão pode ser mantida próximo do mais alto nível (aproximadamente 22-24°C). Também,

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Energia

251 a temperatura para água quente doméstica pode ser diminuída para mais ou menos 38ºC;

• desligar as luzes, aparelhos domésticos e outros equipamentos durante os períodos em que não estejam sendo utilizados;

• usar relógios para controle das horas de operação. Por exemplo, o tempo do termostato leva temperaturas internas a serem religadas nas noites de inverno;

• utilizar e armazenar a luz do dia para diminuir a necessidade de luz não natural durante o período da noite;

• utilizar correntes frias externas para resfriar o calor interno, em vez de ligar o ar-condicionado. Também há a possibilidade de uso de águas geladas profundas dos rios e lagos para resfriar o espaço via um resfriamento circular

(e ainda, algumas vezes, pode ser fonte de água potável);

• utilizar radiação solar para aquecer edifi cações através da exploração da capacidade de armazenagem da energia térmica em edifi cações, posicionando

árvores, janelas e brises, de modo a manter as edifi cações frias durante o verão e quentes no inverno.

Aos alunos:

Cheque quais desses métodos você já utiliza no seu dia-a-dia e analise sua postura em relação ao comprometimento com a redução no consumo de energia.

OPORTUNIDADES PARA MELHORIA EM EQUIPAMENTOS INDUSTRIAIS

Cada tipo de indústria possui equipamentos, processos e características que lhe são próprios. Uma visão pormenorizada de várias estratégias para a redução no consumo de energia para cada tipo de indústria foge ao escopo deste trabalho. Há uma série de referências bibliográfi cas que possuem tal fi nalidade, sendo algumas de caráter geral e outras específi cas para cada ramo de atividade (Manuais de Conservação de Energia, do IPT, por exemplo). Nesse texto são apresentadas apenas algumas sugestões de caráter geral sobre medidas de conservação em equipamentos ou sistemas que independem do tipo de atividade da indústria.

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252 Prevenção da Poluição

Deve-se frisar que as metas de conservação de energia estabelecidas por um dado grupo técnico, em uma dada planta industrial, devem ser bem ponderadas: metas por demais ambiciosas podem causar frustração e descrédito se não forem alcançadas, prejudicando a credibilidade do grupo técnico responsável; por outro lado, metas muito acanhadas podem comprometer a motivação da indústria em efetivá-las, dado o pequeno retorno esperado.

Geradores de Vapor

Manipulação de combustíveis e perdas na combustão:

• para combustíveis líquidos, garantir uma boa nebulização:

- controle da pressão de combustível;

- controle da viscosidade (temperatura do óleo);

- controle de depósitos indesejáveis (fi ltragem);

- controle da relação ar/combustível;.

• para combustíveis sólidos, evitar perdas pelas cinzas ou formação de fuligem:

- uso da granulometria adequada;

- velocidade de alimentação da fornalha;

- controle do teor de umidade do combustível;

- controle das vazões de ar primário e secundário;.

• para combustíveis gasosos:

- controle da pressão de alimentação;

- fi ltragem adequada de particulados ou licores.

Tratamento da água de alimentação:

• análise periódica da qualidade da água de make-up;

• avaliação da adequação dos reagentes adicionados;

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• eliminação de purgas desnecessárias;

• reaproveitamento sempre que possível do condensado.

Perdas pela chaminé – gases de exaustão:

• redução do excesso de ar – desde que não haja um aumento de emissões de particulados e de perdas por combustão incompleta;

• redução máxima da temperatura na chaminé, aproveitando gases quentes para pré-aquecimento de água ou de ar;

• eliminação das incrustações e fuligem excessivas das áreas de troca de calor, através de limpeza periódica.

Perdas por radiação e convecção para o ambiente:

• verifi car periodicamente o estado do material isolante;

• isolar termicamente as válvulas, se possível;

• isolar termicamente o tanque de condensado;

• isolar termicamente o tanque de combustível, se este for aquecido.

Distribuição de Vapor

• dimensionamento de tubulações adequado: superdimensionamento aumenta perdas por troca térmica com o meio e subdimensionamento aumenta perda de carga;

• medidas de instalação correta: inclinação da tubulação, drenagem de condensado em linhas muito longas, posição dos tubos em ramifi cações, etc.;

• verifi cação de vazamentos de vapor em fl anges, uniões e válvulas;

• conservação e manutenção adequada de purgadores de vapor;

• eliminação de perdas térmicas desnecessárias em linhas desativadas;

• isolamento térmico em mau estado ou inexistente, etc.;

• evitar mudanças de regime de operação que se traduzam em perdas térmicas por inércia térmica das tubulações ou equipamentos.

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Fornos

• empregar os gases de exaustão como fonte secundária de energia. A recuperação de boa parte da energia dos gases de escape de fornos é quase sempre viável;

• empregar isolante térmico adequado;

• verifi car o forno quanto a trincas e quebras de material refratário;

• manejar as portas de alimentação de forma a evitar fuga de gases do forno e perdas por radiação;

• em fornos contínuos, alimentar o produto em contracorrente aos gases pode ser muito interessante. As correias transportadoras devem retornar por dentro do forno, se possível.

Incineradores

• usar processo contínuo em um incinerador pode viabilizar a recuperação da energia dos gases de escape – seja para preaquecer o ar do incinerador, seja para produzir vapor ou água quente.

Condicionamento de Ar

• projeto arquitetônico favorável (clima quente ou clima frio) pode requerer cargas de resfriamento ou aquecimento muito menores;

• controle adequado da instalação, evitando sobreaquecimento ou subresfriamento de ambientes. Deve-se controlar não apenas a temperatura, mas também a umidade relativa do ar;

• manutenção adequada de fi ltros de ar e de superfícies aletadas de troca térmica.

Ar Comprimido

• manutenção adequada: reparar vazamentos, fi ltros, etc.;

• usar a água quente proveniente dos resfriadores da estação de compressão;

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• empregar um nível de pressão adequado e não superior ao necessário;

• lembrar que os compressores em geral consomem energia elétrica.

Torres de Resfriamento

• evitar o uso de torres de resfriamento. Sempre que for possível resfriar a água por meio de um trocador de calor para recuperação de energia;

• controlar as vazões de ar e de água de forma a buscar minimizar o consumo de energia elétrica em bombas e ventiladores.

Secadores em Geral

• sempre que possível empregar energia secundária, isto é, energia que seria descartada como perda;

• não secar demasiadamente o produto – que depois irá, na estocagem, reabsorver umidade.

Motores Elétricos de Acionamento

• não utilizar motores superdimensionados para as máquinas acionadas. A efi ciência de um motor subutilizado é bem menor do que a de catálogo;

• onde não se dispõe de um motor elétrico adequado, pode ser interessante adotar inversores e controladores de freqüência, para melhor adequação entre o motor e a carga.

Alguns equipamentos acionados por motores elétricos podem trabalhar com rotações variáveis para controle de carga. Nesse caso, controladores de freqüência podem ser mais interessantes do que válvulas ou outros dispositivos de controle dissipativos (by-pass ou recirculação).

Aos alunos:

Verifi que quais equipamentos da sua empresa constam na relação apresentada anteriormente e selecione as sugestões de medidas que você pode adotar visando à melhoria da efi ciência energética.

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256 Prevenção da Poluição

7.6 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E ENERGIA

Quando lembramos que o Projeto para o Meio Ambiente tem sempre como maior meta fazer parte de sistemas sustentáveis, fi ca claro que precisamos analisar o uso de energia à luz do desenvolvimento sustentável. Por exemplo, nas atividades de seleção de energia é fundamental escolher a forma mais apropriada e menos impactante de energia. Tanto as fontes quanto os meios de transferência merecem avaliação numa escala macro. No geral, o conceito de efi ciência tem que ser ampliado para incluir a matriz energética geral.

A discussão acerca dos impactos de energia transcende a simples questão de compra de um insumo ao menor custo. Variações no suprimento de energia e na efi ciência de energia claramente vão impactar mais, ou menos. Portanto, assim como todos os itens importantes para a produção em uma indústria, é fundamental que a energia seja analisada quanto aos aspectos da qualidade, da confi abilidade de abastecimento e dos vários aspectos relacionados ao meio ambiente, tanto na utilização como no armazenamento, no transporte, etc.

As decisões associadas ao uso de um insumo energético têm um período de maturação, determinado pela criação da infra-estrutura de aprovisionamento e pela adaptação do próprio sistema de consumo. Há também um prazo de amortização e vida útil não desprezíveis. Dessa forma todos os fatores considerados pertinentes não podem ser analisados de forma estática, sendo fundamental a compreensão da evolução verifi cada no passado e a realização de um exercício prospectivo dentro de um cenário de, no mínimo, médio prazo.

Aliado a isso, é importante manter-se ciente da evolução do cenário energético a longo prazo e, no caso, considerar como a demanda energética vai afetar a sociedade como um todo. Isto é, recursos de energia devem ser utilizados de forma que, ao longo do tempo, permaneçam disponíveis continuamente com um custo acessível e que possam ser utilizados para todos os tipos de tarefas sem causar impactos socioambientais negativos.

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SUPRIMENTO ENERGÉTICO

Primeiramente, precisamos lembrar que nas atividades de seleção de energia dois aspectos prioritários devem ser levados em consideração:

• a seleção das fontes de energia;

• a seleção dos meios de transferência de energia.

Sempre, para ambos os itens, existe mais de uma possibilidade de escolha, e normalmente as escolhas disponíveis podem ser melhoradas (por exemplo, em alguns países é possível que os consumidores selecionem a fonte de sua eletricidade).

Para a escolha da fonte e do meio de transferência, primeiro é necessário saber qual o serviço de energia que irá ser necessário. Esta escolha deve permitir que o tipo de serviço requerido possa de fato ser implementado sem interferir em outros aspectos do

Projeto para o Meio Ambiente.

Tecnicamente, deve ser considerado que alguns energéticos são mais bem-adaptados para determinados fi ns. Fornos e secadores para tratamento especial, por exemplo, devem utilizar, necessariamente, combustíveis líquidos ou gasosos (isentos de contaminantes como enxofre e alcatrão), ou ainda eletricidade. Já os geradores de vapor, por sua vez, dada a natureza do processo de conversão de energia e sua localização nas indústrias, podem empregar combustíveis como biomassa, carvão e óleos pesados.

Dentro de um programa de gestão do uso de energia é preciso que exista a clareza de que alguns energéticos são armazenáveis e, portanto, podem ser tratados, do ponto de vista da formação e do gerenciamento dos estoques, como outros itens da produção.

Outros energéticos, como eletricidade, gás natural, vapor e combustíveis, que são provenientes de recuperação, não são armazenáveis. O que é importante notar é que o consumo desses energéticos tem muitas vezes que ser quase totalmente adaptado à dinâmica da oferta.

Outro fator importante é que alguns energéticos são algumas vezes proibidos em determinados usos, como é o caso do óleo diesel e do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo), em certos usos térmicos industriais, por causa dos impactos gerados e subsídios governamentais. Em adição, existem regulamentações específi cas ao consumo de eletricidade e derivados de petróleo que precisam ser conhecidas por todos aqueles que participam dos trabalhos de gestão do uso de energia.

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Além disso, a seleção da fonte de energia e dos meios de transferência está também vinculada com a tecnologia de conversão de energia disponível. Algumas das seleções de energia envolvem também substituição de energia ou combustíveis, como, por exemplo, o uso preferencial de aquecedores a gás natural em lugar do uso da eletricidade. É também fundamental que sejam conhecidas as especifi cações dos combustíveis quanto

à sua composição elementar e propriedades, como poder calorífi co, viscosidade, ponto de fulgor, etc.

Estes dados são essenciais no acompanhamento do consumo da indústria e das medidas de controle de emissões, às quais a empresa pode estar sujeita. Enfim, somente com todos estes dados podemos chegar a utilizar a fonte mais adequada, levando em conta as necessidades do sistema produtivo e os possíveis impactos gerados.

Dentro desse contexto de requisitos para os processos industriais a idéia básica

é simplesmente escolher fontes e meios de transferência que sejam econômicos, seguros, transportáveis e, cada vez mais, de tipos “renováveis”. Nesse sentido, as fontes de energia são usualmente categorizadas em dois grupos:

• as que são geralmente reconhecidas por serem finitas e não renováveis, e, portanto, não sustentáveis ao longo do tempo (por exemplo: combustíveis fósseis, como carvão, óleo, gás natural, além de turfa e urânio);

• as que são geralmente reconhecidas como renováveis e sustentáveis por tempos bem mais longos (por exemplo: solar, eólica, gravitacional).

Resíduos conversíveis para formas de energia utilizáveis, como o uso da energia proveniente da incineração de resíduos e combustíveis de biomassa, são também muitas vezes vistos como fontes de energia sustentáveis.

Então, dentre os esforços para prevenção da poluição e minimização dos impactos ambientais na escolha de energia, deve-se geralmente seguir os seguintes passos:

• usar fontes renováveis de energia em lugar das não renováveis. A maior barreira para o uso de energia renovável se deve ao fato de que o seu custo

é freqüentemente maior do que o de fontes não renováveis, por causa das propensões do mercado de externalizar custos de combustíveis fósseis,

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259 etc. Apesar disso, em algumas aplicações bastante específicas, como, por exemplo, uso de energia solar fotovoltáica para produzir energia em locações remotas ou distantes, podem ter um custo menor do que a opção de instalar e manter cabos de transmissão elétrica ao longo de grandes distâncias, ou mesmo o uso de geradores a diesel com o transporte regular do combustível;

• usar fontes de energia que causem um impacto ambiental relativamente baixo. O uso de todos os combustíveis fósseis leva à emissão de gases de combustão, mesmo sendo os poluentes problemáticos geralmente menores para combustíveis que têm maior relação atômica de hidrogênio carbono.

Seguindo essa linha de raciocínio, temos que o gás natural é mais benigno do que o óleo, o qual, por sua vez, é mais benigno do que o carvão.

Não há emissões durante as operações normais de uma usina nuclear, exceto o consumo de combustível, que deixa radioatividade por muitos anos. Até a energia hidroelétrica proveniente das quedas-d’água (fonte indireta da energia solar) também gera impactos negativos, quando da construção da barragem, alterando todo ciclo natural existente no local.

As fontes de energia renováveis são geralmente derivadas da energia do Sol, ou de fontes derivadas do Sol (ventos, ondas, correnteza). O uso de energia renovável

é relativamente benigno, embora sejam necessários recursos para construir as tecnologias de conversão de energia, além de uma grande extensão de área (por exemplo, para coletores solares e geradores eólicos):

• integrar energeticamente sua produção, evitando desperdícios que poderiam ser aproveitados, como o esfriamento de correntes com água de refrigeração ao invés de transferir este calor para correntes que precisam de aquecimento;

• usar fontes de energia e meios de transferência que podem ser utilizados com maior ecoefi ciência com boas tecnologias de conversão de energia (sistemas de co-geração, caldeiras com baixas emissões de NO x

).

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260 Prevenção da Poluição

LIMITAÇÕES PRÁTICAS NA EFICIÊNCIA DE ENERGIA

Devido às considerações de ordem prática, a meta, quando se seleciona as fontes de energia e a utilização dos processos, não é apenas encontrar a efi ciência máxima, mas também encontrar o ponto ótimo de equilíbrio entre efi ciência energética e outros fatores, como:

• economia;

• sustentabilidade;

• impactos ambientais;

• segurança;

• aceitabilidade social e política.

Ao levar em consideração todos esses fatores, inevitavelmente ocorrem algumas limitações de ordem prática quanto ao uso efi ciente de energia.

Para que o incremento na efi ciência de energia leve ao desenvolvimento sustentável, ponto ótimo no meio de todos esses fatores, deve-se deslocar na direção de melhor utilização de efi ciência de energia (ao mesmo tempo em que se reconhece e se leva em consideração as limitações teóricas no incremento da efi ciência de energia). Esse ponto

ótimo é dependente de muitos fatores, que são controlados pela sociedade e, portanto, podem ser alterados. Governos podem, por exemplo:

• oferecer incentivos fi nanceiros que retribuam com tecnologias de alta efi ciência que sejam economicamente atrativos;

• aplicar taxas e regulamentações de modo a não incentivar o uso de tecnologia de baixa efi ciência.

LIMITAÇÕES TEÓRICAS NA EFICIÊNCIA DE ENERGIA

Para avaliar o potencial de incremento na efi ciência de energia como medida para promover o desenvolvimento sustentável, os limites impostos pela existência de uma efi ciência de energia teórica máxima devem ser claramente entendidos. A falta de transparência neste tópico, no passado, geralmente levava à falta de entendimento.

Parte da razão desse problema é que a análise de energia convencional geralmente não

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Energia

261 mede efi ciência como uma medida do quão próximo a performance de um processo está do ideal, ou do máximo possível.

As conseqüências dessa falta de entendimento podem ser signifi cantes:

• no passado, grandes esforços e recursos foram direcionados, por intermédio de pesquisas e outras medidas, para a melhoria de efi ciência de energia, até mesmo em processos e aparelhos já razoavelmente efi cientes, ainda que o potencial de melhoramento na efi ciência de energia fosse relativamente pequeno (mesmo atrelado a um limite máximo);

• processos intensivos de energia, em outras situações, não foram objetivados com o intuito de melhoramento da efi ciência. Isto em parte porque as medidas de efi ciência de energia eram feitas com métodos que permitiam enganos, apesar da grande diferença entre efi ciências máximas e reais. Por serem grandes as diferenças, da mesma forma o potencial de melhoramento é também grande.

As dificuldades inerentes às análises de energia são em parte atribuídas ao fato de que:

• considera-se apenas quantidades;

• ignora-se a qualidade da energia e o fato de que a qualidade de energia é continuamente degradada durante o processo real.

A análise de exergia, um conceito relativamente novo, será discutida em seguida. O método representa a proposta de uma técnica que resolve, se não todos, a maioria dos problemas associados à análise de energia.

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262 Prevenção da Poluição

7.7 O FUTURO: ANÁLISE DE EXERGIA

Existem muitas defi nições para Exergia, dentre elas citamos:

Exergia é a parte da energia que pode ser completamente convertida em qualquer

outra forma de energia.

A análise de energia é baseada na primeira lei da termodinâmica, uma lei que trata da conservação de energia. A análise de exergia é baseada na segunda lei da termodinâmica e tem algumas vantagens sobre a análise de energia. Elas não são concorrentes e sim complementares.

A energia não pode ser criada nem destruída, apenas é transformada, e sempre se conserva. A cada transformação haverá sempre um parte perdida. Rant, o mesmo que sugeriu a palavra Exergia, também propôs a palavra Anergia para denominar a parte da energia que não pode ser aproveitada, isto é:

Portanto, energia é a soma de tudo aquilo que pode ser aproveitado (exergia) com a parte que não se utiliza (anergia).

Podemos dizer também que exergia é a parte nobre da energia. Em outras palavras,

é a parcela que pode ser convertida em calor e/ou trabalho. Porém, apesar desse conhecimento, podemos ainda observar do ponto de vista microcósmico, e notaremos que existem subparcelas dentro desse fl uxo exergético.

Para calcular a exergia é necessário que se defi na qual é o estado de referência, para que se possa ter base sobre quais são os valores adotados.

Segundo Szargut (1988) e Kotas (1985), a exergia pode ser dividida em quatro partes: cinética, potencial, termomecânica e química.

As inefi ciências de um processo são mais bem verifi cadas numa análise de exergia do que numa análise de energia. Nela, os tipos, as causas e a localização das perdas são identifi cados e quantifi cados.

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Energia

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Muitos engenheiros e cientistas sugerem que a termodinâmica de um processo

é mais bem avaliada executando-se uma análise exergética adicional à análise de energia, ou mesmo substituindo-a, porque a análise de exergia dá a impressão de permitir a identificação de mais oportunidades de melhoria e ser mais útil no esforço para melhoria da eficiência do que a análise de energia (Moran, 1989; Szargut et al.,

1988; Kotas, 1995).

A exergia, também chamada de disponibilidade ou energia disponível, pode ser ainda defi nida como a quantidade máxima de trabalho que pode ser produzido por um fl uxo ou sistema, quando ele entra em equilíbrio com um ambiente de referência e pode ser considerado como uma medida da utilidade ou qualidade da energia.

A exergia é consumida durante o processo real e conservada durante o processo ideal. O consumo de exergia durante um processo é proporcional à entropia criada pela irreversibilidade associada ao processo.

Existem outras metodologias de análise baseadas na segunda lei da termodinâmica e, portanto, são geralmente referidas como análise da segunda lei, incluindo análise de perda de trabalho, análise de entropia e análise “pinch”. Numerosas investigações e aplicações de análise de exergia vêm sendo relatadas nos últimos anos.

Um exemplo deste tipo é a análise de diferentes tipos de aquecimento, como chuveiros elétricos. A eficiência energética de aquecimento (chuveiro elétrico) pode ser estimada em 99%. A implicação clara é que a máxima eficiência de energia possível para resistência elétrica é 100% e que esse valor corresponde ao sistema mais eficiente possível.

Esse entendimento é incorreto, pois as análises de energia ignoram o fato de que neste processo uma entrada de energia de alta qualidade (eletricidade) é usada para produzir um produto de relativamente baixa qualidade (água quente). A análise de exergia reconhece essa diferença na qualidade de energia e indica efi ciência baseada na exergia, do aquecimento, como sendo em torno de 5%.

Claramente, a análise de energia pode levar a um engano de otimização na análise do desempenho e não identifi ca as limitações práticas e teóricas no melhoramento da efi ciência. A análise da exergia não tem essas defi ciências e, portanto, clara e diretamente, identifi ca todas as limitações no melhoramento da efi ciência com relação a um verdadeiro ideal termodinâmico.

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264 Prevenção da Poluição

FECHAMENTO

Certamente, o desenvolvimento sustentável requer que os recursos de energia sejam utilizados eficientemente.

A sociedade pode maximizar os benefícios derivados dos recursos de energia diretamente com a utilização eficiente da energia, enquanto minimiza os impactos negativos associados a seu uso.

Sempre procuramos maximizar eficiências energéticas para reduzir os seguintes fatores:

• os impactos ambientais associados;

• requerimento de recursos (energia, material, etc.) para criar e manter sistemas para extrair energia.

Idealmente, uma sociedade que procura o desenvolvimento sustentável utilizará apenas recursos de energia que não causem nenhum impacto ambiental.

Como condição, pode-se ater, ou estar próximo de se ater, ao uso dos recursos energéticos das seguintes formas:

• emitir pouco ou nenhum resíduo para o ambiente;

• causar apenas emissões de resíduos que tenham um mínimo ou nenhum impacto negativo no ambiente.

Esta última condição é usualmente encontrada quando emissões são relativamente inertes e não reagem no ambiente, ou quando a emissão de resíduos está dentro, ou perto, do equilíbrio com o ambiente, isto é, ao “material” do ambiente em todos os aspectos, como temperatura, pressão, composição química, etc.

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Na realidade, entretanto, todos os recursos de energia utilizados levam, em algum grau, a um impacto ambiental, e existe uma relação direta entre eficiência de energia e impacto ambiental, de forma que se otimizarmos sua eficiência, certo nível fixo de serviços de energia pode ser cumprido, satisfeito, com menos recursos de energia, e, na maioria dos casos, ocorrerá redução dos níveis de emissão de resíduos provenientes dos recursos de energia.

Dessa forma, podemos entender que as imposições do desenvolvimento sustentável para as emissões e seus impactos negativos ao meio ambiente podem ser, em parte, sanadas pela eficiência no uso de energia.

Energia

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Tendências para o Futuro

267

CAPÍTULO 8

TENDÊNCIAS PARA O FUTURO

Asher Kiperstok Universidade Federal da Bahia • UFBA • TECLIM

Seja você a mudança que espera ver no mundo.

Mahatma Gandhi

OBJETIVO ESPECÍFICO

Conduzir a uma reflexão sobre as tendências futurísticas da ciência.

Você deve ter notado que todo o nosso movimento até agora tem sido no sentido de tentar responder à pergunta de como se pode atender à demanda do Fator 10 num horizonte temporal de 50 anos. Caberia perguntar, então, se a pergunta foi respondida. É possível, a partir das abordagens apresentadas de gestão e tecnologias, aumentar a ecoefi ciência dos nossos processos produtivos em 10 vezes nesse período?

A proposta deste módulo foi a de “retrojetar” um desafi o futuro para que as devidas providências possam ser tomadas, de forma a atingir o estado desejado. Esta mesma proposta foi utilizada pelo governo holandês em 1989, para elaborar o Plano Nacional de Políticas Ambientais. O compromisso desse país com o desenvolvimento sustentável proposto pela Comissão Brundtland exigiu a defi nição de objetivos extremamente ousados. Esse trabalho encontra-se publicado no livro Desenvolvimento de Tecnologias

Sustentáveis (Weaver, 2000). A discussão neste capítulo está embasada no referido livro, com o objetivo de ilustrar uma forma de vislumbrar o futuro a partir da ótica de um país que de certa forma já o vive.

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8.1 TENDÊNCIAS FUTURAS

Talvez algumas propostas apresentadas a você visando atingir o Fator 10 pareçam para alguns ousadias futurísticas, ou até mesmo utopias. Para outros, no entanto, que já as conheciam, talvez não tenha havido muitas novidades. Infelizmente, porém, o que podemos perceber é que poucos realmente colocam essas propostas em prática. O fato é que nosso país é de contrastes. Convivemos com realidades futurísticas e medievais em espaços contíguos, portanto, como não poderia deixar de ser, existem muitas diferenças também no modo de pensar e agir das pessoas.

Uma outra certeza que temos é que todo o esforço deve ser empreendido para atingir o Fator 10. Acreditamos, no entanto, que mesmo propondo uma visão bem mais avançada da predominante “Tecnologia Fim-de-tubo”, teremos muitas dificuldades para atingir esta meta.

De qualquer maneira, aprofundaremos um pouco mais esta discussão, tomando como referência as experiências obtidas em países desenvolvidos, a exemplo da Holanda.

O Programa de Desenvolvimento de Tecnologias Sustentáveis (DTS), proposto no

Plano Holandês de Políticas Ambientais, apresentou como uma de suas conclusões mais marcantes o fato de o atual padrão de inovação ser incapaz de modifi car o processo produtivo de forma a gerar Fator 10, sendo necessário para tal:

• inovar o próprio processo de inovação tecnológica;

• reconhecer que inovações seqüenciais/incrementais não são sufi cientes;

• promover grandes quebras de paradigmas.

A Comissão Holandesa para Políticas Ambientais de Longo Prazo ainda coloca: “As práticas habituais de inovação não oferecem qualquer perspectiva da tecnologia ter um papel, senão periférico, para se atingir o desenvolvimento sustentável.” (Weaver, 2000)

No livro Desenvolvimento de Tecnologias Sustentáveis (Weaver, 2000) são apresentados alguns estudos desenvolvidos na Holanda para identifi car o nível do desafi o tecnológico a ser enfrentado com o objetivo de atingir o Fator 10. Na verdade, a Holanda, um país opulento e com altíssimo padrão de renda e consumo, para manter

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Tendências para o Futuro

269 a taxa de crescimento atual e garantir um desenvolvimento sustentável a longo prazo, precisaria atingir o Fator 20, ou até mesmo 40, o que representaria um desafi o muito maior de inovar o processo de inovação relacionado com o Fator 10.

Vamos analisar, nesse momento, um dos objetos de estudo referidos acima, a função social: nutrição, num horizonte de 50 anos. Em seminários com participantes apresentando diferentes perfi s profi ssionais, procurou-se identifi car a visão + 50 anos, dando início ao processo de “retrojetar”.

Aos alunos:

Retrojetar (neologismo da língua portuguesa) signifi ca estabelecer objetivos desafi adores, considerados até mesmo impossíveis nas condições atuais, a serem atingidos a longo prazo, que impliquem uma melhoria dos padrões de ecoefi ciência. A partir daí então, volta-se à realidade atual, identifi cando os avanços necessários para o atingimento da meta estabelecida.

A seguir relacionamos os objetivos e os avanços propostos no processo de retrojetar referido:

• melhoria na gestão e uso da energia solar, obtido a partir de: aumento da quantidade de energia solar fi xada na forma de biomassa, uso de estufas solares (casas de vidro) e mecanismos para distribuir de forma mais balanceada a energia solar;

• adoção de sistemas de produção baseados em ciclos fechados. No caso de culturas a céu aberto, uso de resíduos de uma parte do ciclo, como, por exemplo, resíduos animais, servindo de nutrientes para plantas. No caso de culturas fechadas, uso de pesticidas e nutrientes em ciclos fechados

(hidroponia);

• melhor integração das culturas com os sistemas naturais;

• redução do uso de insumos, desde nutrientes e pesticidas até energia solar, a partir da modifi cação genética das plantas;

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270 Prevenção da Poluição

• melhor uso da biomassa, de forma que uma maior parcela da planta seja comestível;

• redução de perdas com armazenamento, transporte e com a conversão animal;

• maior integração entre oferta e demanda, assegurando que a produção ocorra mais próxima do mercado e mais alinhada com este;

• desenvolvimento de alimentos alternativos que possam, pelo menos parcialmente, substituir as tão ecoinefi cientes proteínas animais.

Questão para reflexão:

Você teria algum outro tema a ser considerado? Você acha que a modifi cação genética oferece segurança sufi ciente para ser considerada?

Com base nas propostas que foram identifi cadas anteriormente, discutiu-se a viabilidade dos avanços, científi cos e tecnológicos, bem como do processo evolutivo da cultura de consumo, à luz da necessidade de redução dos encargos ambientais decorrentes do sistema nutricional.

As principais rotas de inovação sistematizadas foram:

Uso multifuncional sustentável da terra;

Ambientes de produção fechados e controlados;

Uso completo de plantas e biomassa através da conversão integral;

Alimentos à base de novas proteínas;

Tecnologia de sensores.

USO MULTIFUNCIONAL DA TERRA

O uso atual da terra, hiperespecializado, exige uma série de cuidados que seriam naturalmente providos em sistemas mais equilibrados. Entre esses cuidados estão a inserção de insumos, a recuperação da qualidade das águas e a reserva de áreas de proteção ambiental.

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Tendências para o Futuro

271

O uso multifuncional considera a terra como provedora não apenas de produtos como hortaliças, legumes, cereais, madeiras e pecuária, mas também de serviços como gestão de recursos hídricos, captação de energia, regulação climática, lazer e recreação e proteção à biodiversidade.

Para poder se fazer uso multifuncional da terra, a visão de produção tem que mudar da atual exploração especializada para empreendimentos multifuncionais. A depender da vocação local, eles podem ter ênfases específi cas, sem contudo perder o caráter multifuncional.

Nesse sentido, alguns gargalos tecnológicos devem ser superados através da pesquisa: fechamento de ciclos de nutrientes; retorno de restos domiciliares na forma de nutrientes para a terra; sistemas avançados de rotação de culturas; captação e transformação de energia solar, eólica, hídrica.

O estudo dessa rota identifi cou possibilidades de aumento da ecoefi ciência, num fator na ordem de grandeza de 20 vezes, com as medidas anteriormente consideradas.

AMBIENTES DE PRODUÇÃO FECHADOS E CONTROLADOS

Levou-se em consideração a produção de frutas, fl ores e vegetais para saladas, em estufas de vidro. Entre as inefi ciências discutidas estão: elevado consumo de gás natural necessário para aquecimento e geração de ambientes internos com alto teor de CO

2

(este uso representa hoje 10% do gás natural consumido na Holanda) e perdas para o ambiente externo de energia solar, água e nutrientes nos modelos atuais de estufas.

Um dos maiores entraves para o aumento da ecoefi ciência neste setor é a distribuição irregular da energia solar, tanto em termos diários como sazonais. A este “problema” agrega-se a baixa transformação da energia solar em biomassa. Em outras palavras, os holandeses estão questionando o dia e a noite, o verão e o inverno e a fotossíntese.

Argumentam que mais da metade da radiação ocorre na forma de ondas, cujo comprimento não permite seu aproveitamento pelas plantas. O que fazer? Simples, instalar captadores solares semitransparentes que aproveitem, para a geração de energia elétrica, as ondas de radiação que as plantas ignoram. As plantas também podem ser educadas, através da biotecnologia, para não serem tão desperdiçadoras de energia!

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Mas para poder distribuir a energia de forma mais homogênea é necessário desenvolver mecanismos de armazenamento da energia captada. Para isso considerase o armazenamento da energia nas águas subterrâneas e sua recuperação através de bombas de calor. O uso de fi bras óticas para o transporte de radiação solar também representa uma possibilidade.

É interessante observar ainda que com as tecnologias apresentadas a questão do espaço para o plantio passa a ter importância marginal, abrindo-se espaço para considerar a relocação de algumas atividades agrícolas para os centros urbanos, não estão sendo cogitadas as periferias, mas sim os próprios centros urbanos!

Entre os desenvolvimentos tecnológicos apontados para enfrentar essas defi ciências, considerou-se necessário avanços na área de sensores e de recuperação e disponibilização efi ciente dos nutrientes originários de resíduos domésticos. São também indispensáveis avanços no que se refere à gestão de nutrientes e água em ciclo fechado, assim como no transporte de luz solar.

USO COMPLETO DE PLANTAS E BIOMASSA ATRAVÉS DA CONVERSÃO INTEGRAL

“O conceito de conversão integral de plantas e biomassa refere-se à completa extração de todos os ingredientes úteis contidos nas estruturas moleculares das plantas, formados durante a fotossíntese.”

Duas grandes inefi ciências da cadeia nutricional são apontadas quando consideramos esta opção:

• grande parcela da biomassa, apesar de conter grandes quantidades de proteínas, gorduras, vitaminas, saborizantes e corantes, não é aproveitada;

• a produção de carne e leite da pecuária convencional é uma forma inefi ciente de atender às demandas nutricionais e produz elevadas demandas ambientais.

Dessa forma, se for possível produzir substitutos para a carne e derivados, a partir da parcela de biomassa não aproveitada, ou melhor, desperdiçada hoje, um duplo ganho ambiental poderia ser atingido.

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Tendências para o Futuro

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Evidentemente que esta proposta tem um forte viés a ser considerado, além do tecnológico: o comportamento do consumidor, que ora busca alimentos mais saudáveis e ora mantém a opção tradicional por carne e derivados do leite. É certo, no entanto, que só serão realizados investimentos consideráveis nesta direção se as mudanças forem aceitas pelo mercado. Isso aponta, portanto, para uma linha de esforços adicionais aos meramente tecnológicos.

As mudanças necessárias nesta área indicam a necessidade de reestruturação da forma de se pensar o plantio, que atualmente é dirigida para a produção de um único produto e variados resíduos. Na verdade, o foco deveria ser na produção de vários produtos e nenhum resíduo. Para tal é preciso assumir algumas diretrizes:

• geração de tecnologia compacta que permita a extração de compostos valiosos dos resíduos, nos próprios locais de produção;

• minimização do transporte de imensas quantidades de biomassa, que só geram resíduo em nível do consumidor;

• maior ênfase em “economias de enfoque” do que em economias de escala, como é tradicionalmente considerado no processo de inovação;

• adoção de linhas de pesquisa que permitam transformações in situ, considerando equipamentos (“biorrefi narias”), materiais de suporte

(catalisadores) e uma logística para o transporte dos produtos para os centros de processamento.

ALIMENTOS À BASE DE NOVAS PROTEÍNAS

Este aspecto envolve uma polêmica muito grande e pode servir para exemplifi car algumas das principais difi culdades para se atingir o Fator 10. Como sempre, enquanto estamos mexendo com os outros, qualquer inovação é aceitável. Esta proposta, porém, considera a necessidade de mudança de hábitos alimentares, e isto atinge a todos nós, portanto a situação pode ser muito mais difícil do que parece.

Uma das maiores inefi ciências da cadeia nutricional está na transformação de proteínas vegetais em animais. Para atingir níveis sensivelmente maiores de ecoefi ciência, o consumo de proteínas de origem animal tem que ser reduzido. Pode-se apontar algumas

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274 Prevenção da Poluição alternativas, como o uso de substitutos: atualmente, verifi ca-se a existência de mais de

50 fontes de proteínas, a serem obtidas de plantas e bactérias, desde feijões e ervilhas geneticamente modifi cados até bactérias, como a Spirulina e a Fusarium, e combinações desses, que se agregariam aos já bastante utilizados soja e glúten.

A produção de muitas dessas proteínas pode representar uma melhoria no uso de recursos naturais da ordem de grandeza de Fator 20 a 40, além de grandes reduções de custo. Mas o público aceitaria esses substitutos?

Duas linhas de discussão parecem surgir a partir deste ponto. Uma, na direção da alimentação natural e vegetariana; outra, na direção da alimentação com substitutos da carne, desde que tenham gosto similar. Apesar de estar crescendo bastante, a alimentação sem carne ainda ocupa um tímido espaço na nossa sociedade e precisaria de fortes estímulos para se expandir. Por outro lado, a demanda de carne pelo seu gosto tem que ser considerada, e nesse sentido o altíssimo consumo da linha de hambúrgueres e salsichas, isto é, produtos de carne mecanicamente alterada, oferece a oportunidade de uma gradual introdução de alimentos à base de novas proteínas.

Os principais gargalos neste aspecto são socioculturais e econômicos, a exemplo de mudanças radicais que afetam um setor produtivo inteiro e que envolvem recursos humanos, empregos e capitais, além da questão dos hábitos alimentares, antes citada.

Assim sendo, é requerida uma intensa discussão com todos os parceiros desta cadeia produtiva e uma superação da desconfi ança que hoje é sentida na nossa sociedade com relação a alimentos com compostos geneticamente modifi cados, que por sua vez dependem de mudanças radicais nas atitudes de ambas as partes (consumidor e produtor).

TECNOLOGIAS DE SENSORES

Para se atingir os níveis de efi ciência de conversão de recursos naturais em alimentos, discutidos até o momento, é necessário contar com mecanismos de transferência de informação bem mais avançados do que os que dispomos atualmente. O comportamento dos recursos naturais – CO

2

, luz solar, água, solo, plantas, nutrientes e doenças – tem que ser minuciosamente controlado. Para seu monitoramento é necessário o desenvolvimento

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Tendências para o Futuro

275 de novos e mais efi cientes sensores, que permitam a captação da informação necessária de forma a ser processada em tempo real para gerar as devidas respostas.

Abre-se, então, um leque de novas oportunidades de desenvolvimento tecnológico em áreas diferentes das até aqui discutidas. Weaver e colaboradores apresentam uma lista de necessidades de informação e de tecnologias de sensores a ser considerada:

Biossensores, sensores elétricos e óptico-químicos, e sistemas de microanálise, para informar a composição química de meios complexos como solos, água, compostos orgânicos e biomassa;

Tecnologia nuclear e de alta energia, espectroscopia, radar e ultra-som, para obter informações sobre as condições e necessidades das plantas e animais;

Sensores físicos como de luz, ópticos, sensores eletrônicos de gases, para aquisição de informações ambientais e microclimáticas, tais como teor de CO

2 e luz;

Sensoramento remoto para localização e defi nição da forma e estrutura das plantas em relação ao seu meio.

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FECHAMENTO

A discussão sobre a experiência do governo holandês na definição de estratégias para alcançar o desafio do Fator

10 teve como objetivo dar uma idéia do nível de esforço e do grau de inovação que precisam ser atingidos.

Se temos plena convicção que a humanidade encontrará o caminho para um crescimento sustentável, é importante também reconhecer que para tal faz-se necessário promover uma mudança de mentalidade. A diretriz a ser adotada é a quebra de paradigmas e a adoção de práticas inovadoras de inovação.

Assumir desafios com base numa projeção do futuro, retrojetando os avanços necessários para se atingir objetivos, num horizonte cada vez maior, é a chave para o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis.

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SOBRE OS AUTORES

Asher Kiperstok

Engenheiro civil, mestre em Tecnologias Ambientais, PhD em Tecnologias Ambientais, professor adjunto do Departamento de Hidráulica e Saneamento da

Universidade Federal da Bahia – UFBA, coordenador da Rede de Tecnologias

Limpas – TECLIM/UFBA e do Programa de Pós-graduação em Produção Limpa

– UFBA. ([email protected])

Arlinda Coelho

Química industrial, especialista em Gerenciamento e Tecnologias Ambientais na

Indústria, mestranda em Gerenciamento Tecnologias Ambientais no Processo

Produtivo e coordenadora Técnica do Núcleo de Produção mais Limpa – NPL/

BA, sediado no SENAI da Bahia. ([email protected])

Ednildo Andrade Torres

Engenheiro mecânico, mestre em Engenharia Mecânica/Térmica, doutor em Engenharia Mecânica/Energia, professor adjunto do Departamento de Engenharia

Química da Universidade Federal da Bahia – UFBA. ([email protected])

Clarissa Campos Meira

Engenheira civil, especialista em Gerenciamento e Tecnologias Ambientais na

Indústria e mestranda em Engenharia Ambiental Urbana.

([email protected])

Sean Patrick Bradley

Arquiteto paisagístico, especialista em Gerenciamento e Tecnologias

Ambientais na Indústria e mestrando em Engenharia Ambiental Urbana.

([email protected])

Marc Rosen

Engenheiro mecânico, mestre em Engenharia Mecânica, PhD em Engenharia

Mecânica e professor da Ryerson Polytechnic University, Canadá, e, atualmente, diretor da School of Manufacturing Engineering, University of Ontario Institute of Technology. ([email protected])

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SENAI/DN

COTED – Unidade de Conhecimento Tecnologia da Educação

Alberto Borges de Araújo

Coordenador

Elaboração

Arlinda Coelho SENAI/BA

Orientação Pedagógica

Valquíria de Aleluia Nunes SENAI/BA

Dulcinéia Maria Sabino Silva SENAI/BA

Lilian Soares Delfino SENAI/BA

Revisão Técnica da Área Ambiental

Rosângela Mitiyo Handa SENAI/PR

Tadeu Pabis Jr. SENAI/PR

Acompanhamento Editorial

Luis Fernando de Meira Fontes SENAI/DN

Paula Martini SENAI/DN

COTIN – Unidade de Conhecimento Tecnologia Industrial

Marcus Carvalho Fonseca

Coordenador

COINF – Unidade de Conhecimento Informação Tecnológica

Fernando Ouriques

Normalização Bibliográfica

Elaboração

Asher Kiperstok

Consultor

Ednildo Andrade Torres

Consultor

Clarissa Campos Meira

Bolsista do PROCES (Programa de Capacitação para Ensino Superior da

Universidade Federal da Bahia – UFBA/CAPES/CADCT)

Sean Patrick Bradley

Bolsista do PROCES (Programa de Capacitação para Ensino Superior da

Universidade Federal da Bahia – UFBA/CAPES/CADCT)

Marc Rosen

Consultor

Ilustração

Lídia Pitta

Figura 1.2 - Nordestino retirante

Colaboração

Syomara Barreto Santiago

Consultora

Roberto Azul

Revisão Gramatical

Giselle Maria Paula, Silvia Soffiatti e Maria Edvirgem Zeny

Tradução inglês-português

Ana Monteleone/Sylvio Nogueira • Prisma

Projeto Gráfico e Editoração

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Prevenção da Poluição - Referências.indd 294 5/2/2003, 15:25:33

SENAI/DN

PROJETO ESTRATÉGICO NACIONAL

Desenvolvimento Integrado de Cursos para Educação a Distância com Recursos Multimídia via Internet

COTED – Unidade de Conhecimento Tecnologia da Educação

Alberto Borges de Araújo

Coordenador

Grupo Gestor do Projeto

Alexandre Magno Leão dos Santos

Carlos Roberto Oliveira de Souza

Paulo Fernando Presser

Marco Antonio Areias Secco

Mônica Machado Cavalcanti

Walter Vicioni Gonçalves

Equipe Técnica do Projeto

Cibele Reis Bittencourt

Clóvis Leopoldo Reichert

Consuelo Fernandez

Eduardo Gonçalves Filho

Fernando Schirmbeck

Genilson Alves de Araújo

Hiure Robson Betônico Araújo

Ivete Palange

Leury Giacomeli

Liliam Maria Orquiza

Luis Fernando de Meira Fontes

Márcia Donegá Ferreira

Marcos Antônio Santos

Margarete Kleis Pereira

Maria das Graças Barreto

Maria de Fátima Neves

Maria Eliane Monteiro

Maria Elisa Moreno

Marina Vergílio Moreira

Paula Martini

Rosane Celi Ferreira

Tânia Regina R. Virmond

Valquíria Nunes

Vera Regina Costa Abreu

Xênia Ferreira da Silva

SENAI/MG

SENAI/BA

SENAI/RS

SENAI/PR

SENAI/CE

SENAI/SP

SENAI/BA

SENAI/RS

SENAI/SP

SENAI/SC

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Prevenção da Poluição - Referências.indd 295 5/2/2003, 15:25:33

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