Fragmentos remanescentes da bacia do ribeirão das Anhumas

Fragmentos remanescentes da bacia do ribeirão das Anhumas
i
ii
iii
iv
v
Políticas Públicas
FAPESP no 01/02952-1
Ser humano é ter a possibilidade da canalização da luz em nosso mundo, contribuindo
para as transformações necessárias ao aprendizado, felicidade e libertação humanas.
Dedico todo meu trabalho, este, os que já foram e os que virão, aos que fazem jus e
aos que propiciam essa ação, maior graça que poderíamos almejar.
vi
vii
AGRADECIMENTOS
O agradecimento vai a todos e tudo o que já foi, afinal não poderia ser diferente, por ser meu
passado que me trouxe até aqui. Entretanto, como o mundo pede objetividade e palavras, lembremos
daqueles mais diretamente envolvidos neste processo....
Ao meu orientador prof. Carlos Alfredo Joly, pela confiança, carinho, amizade e pertinente
olhar e agir no mundo, personagem já importantíssimo durante minha graduação que possibilitou este
frutífero reencontro no mestrado;
À pré banca e banca, Olga Kotchetkoff-Henriques, Flávio Nunes Ramos e Roseli Buzanelli
Torres e André Victor Lucci Freitas, pela atenção dispensada e valiosíssimas contribuições;
À Fundação MB, que financiou parte desta dissertação, tornando possível maior envolvimento
com a pesquisa;
Ao Prof. Thomas Michael Lewinsohn, existência importante durante meus dois mestrados,
luz nas encruzilhadas que criei em meu caminho; pela música, pelo carinho, pela confiança e pela
desconfiança, pelo riso maroto. E também à toda comunidade LIIPiana: Adriana, Mário, Kubota,
Rafael, André, Tehra, Marina, Ricardinho, Paulo Inácio, Soraia, pelos inúmeros conhecimentos, pela
irreverência e pelo aprendizado de trabalho em grupo. Um agradecimento especial a Paulo Inácio
Prado, pela doçura, atenção e olhar crítico sempre disposto a contribuir e Soraia, mineira querida, que
irradia luz e sentido à vida mesmo sem seus okyomes.
Aos professores envolvidos mais diretamente no processo desta dissertação, pelo
profissionalismo, carinho e aprendizado: Flavião, Sérgio Reis, Benson, Baku, Trigo, Brown e ao
adorável e carinhoso carequinha, Tamashiro, o ranzinza.
Aos funcionários da Secretaria de Pós Graduação, presentes em cada etapa, conquista e
dificuldade, especialmente Célia, Sílvia e Rafael, que realizam suas funções com eficiência e carinho
incomum. Muito obrigada!
À esquadrilha-resgate-para-qualquer-hora, que além da amizade e carinho compartilham da
experiência e dos apertos proporcionados por uma pós graduação: Marina e Gui, Cau, João Paulo,
Natália, Paulo Henrique, Pedro Castelo Branco, Carmem, Dri e Marcos Virgílio;
Aos demais alunos do curso, pelo companheirismo e troca de experiências;
À toda a equipe do Projeto Anhumas: Recuperação ambiental, participação e poder público uma experiência em Campinas (FAPESP Processo nº 01/02952-1), pelo trabalho árduo e sedento de
viii
transformações, especialmente a Ricardo Coelho (IAC), Samuel Adami (IAC), Salvador Carpi Júnior
(Unicamp), João Paulo (IAC), Marílis (PMC) e à querida Roseli (IAC), pelo envolvimento,
profissionalismo e dedicação carinhosa com que se relacionam com seu trabalho e com as pessoas;
Ao profissionalismo com amor e à atenção dispensada por Rozely Ferreira dos Santos
(Unicamp), Elson Roney Servilha (PMC/Unicamp), Márcia Corrêa (PROESP) e Laura Jane Gomes
(Universidade Federal de Sergipe);
A todos os funcionários da Prefeitura Municipal de Campinas sem cujas ricas contribuições
esta dissertação seria impossível, especialmente a Ricardo (DU), Claudia Esmeris e Maura (GDR),
Mara, Estela e Maria Eugênia (DMA), Deisy, Soraia, Paulo e Quincas (CSPC), Thiago (RMSG),
Adriana Campos (DMA), Márcio e Gomes (DIDC), Rodrigo (gabinete);
A todos os chefes de bosque, funcionários das áreas públicas e proprietários de fragmentos e
moradores da vizinhança que me receberam e permitiram melhor compreensão das questões
pertinentes a esta dissertação, compartilhando da história de Campinas e tantas vezes da história de sua
própria família, especialmente a Gilberto (Fazenda Boa Esperança), Irandaia (Vila Holândia), Agrimal
e Eugênio (Condomínio Rio das Pedras) e Julie (Fazenda Pau D Alho), por nosso mergulho no
passado, possibilidades e sonhos.
Ao Alex, encontro de luz e conhecimento, pela indispensável contribuição no caminhar, por
me ajudar a identificar e nomear meus fantasmas. Por ajudar em meu reencontro e dele fazermos algo
incomensuravelmente alegre, amado, harmonioso e repleto de responsabilidades. A ele e todos os
outros irmãos de luz, aprendizado, acolhimento e trabalho: Ricardo, Laura, Lurdes, Luci, Helena,
Neusa, Conceição, Rosana, Kléber, Fernanda e Bruno, Márcia e Cilica, Bel, Larissa, Célia e Simone,
Idelma, Eusébio, Marilice, Carla e Pedro, Gilberto e Aparecida e à doce Júlia.
Às irmãs de morada, café e noites de trabalho adentro: Virna, irmã imersa no radiante poder de
meu guia Sol, encontro que me fez compreender muito de mim mesma e meus anseios. Elo de origem,
resgatado no compartilhar do reencontro diário, aprendizado intenso com luz e sombras. Daphne, a
boneca de pano, o mais belo elo entre o humano e a fantasia, possibilidade de compreensão simples de
minhas dificuldades mais excêntricas, existência alegre e firme que alicerça difíceis momentos. Fôsse o
mundo como você o faz
e não como o pensa - que alegre e musical seria!
Aos amigos, que me fortaleceram e acompanharam neste longo processo: Érica, Natasha,
Gábor, Flora, Fabiana, André estrela caminhante , Ana Paula, Zé Perequeté, Allan, Victor, Rê Nitta,
Shauzinha, Ana Bastos, Rossano, Zé Vicente, música e poesia, Shanti, com sua lúcida loucura,
Serginho, com sua doce alegria, Douglas e Tati, irmandade incondicional, André Murrer. A Duda, luz
em forma de som e música, por nosso amor tão belo, bruto e lapidado. Às crianças que proporcionam
ix
luz e significado, diminuindo a intensidade de nossas sombras: a princesa Violeta, o galanteador Caio,
o musical Francisco, a decidida Iara, Laura e Luana, nossos anjinhos, a bela Laura D Oro, o amigo
Iago, o inquisitivo João, Lui Vicente, meu pequenino raio de sol. E a todos os outros, indispensáveis no
alimentar de meus questionamentos e crenças em relação à vida, à Unicamp, aos sonhos, à Biologia;
companheiros sedentos de que a maior compreensão do mundo seja para semear luz e cores: Pedro
Castelo Branco, pelo que crê e faz, além do carinho tímido e dos empréstimos de livros; Alik, luz que
irradia amor e compreensão, vontade de compartilhar a vida e comemorar cada vitória diária; Rafael,
por tudo o que se diz e pelo silêncio, irmão amado cujo olhar para o mundo e para mim enriquece o
viver; Raquel, pela sóbria malandragem; Teresa, pelo carinho presente-distante que sei existir; Mari,
pelo interesse, disposição em ajudar, aceitação e riso alegre e puro que alegra o caminhar; Maíra,
irmandade que floresce no silêncio e pelas dúvidas que fortalecem minhas certezas; Araca, pequenos
olhos brilhantes, o silêncio amigo e o amor que há tanto nos acompanha, e por compartilharmos deste
entender e caminhar que é um mestrado e um viver coerente e simples; Syl, pela amizade presente,
alegre e disposição em ajudar; Marina Braun pelos momentos de descontração, alegria e amizade, por
compartilhar tantas transformações e, principalmente, por simplesmente crer em mim.
Agradeço a Carla, Criva, Araketo, Marcelo, Paula, Mi, e Marina, pela companhia atenta,
próxima e amorosa, pelo entender e por torcer a cada etapa. Por compreenderem a importância deste
trabalho em si, por compreenderem a importância deste trabalho em mim. Carlota, pelo carinho e
verdadeira amizade, pela sensibilidade, por saber ouvir e trilhar o caminho junto, ainda que distante.
Pelo incondicional amor aos meus pequenos Mateus e Mafu. Araketo & Criva, por tudo, do gengibre à
sincera amizade sem questionamentos, a Araketo, obrigada pelo carinho e apadrinhamento do
Mafuzêra, Criva, pelo carinho, alegria e praticidade de se viver
e, é claro, pela paciência e pronto
socorro intermunicipal com o ArcView. Agradeço a Marcelo, pelos momentos profundos e sinceros de
descoberta e construção de um sempre-novo-amor, por me abrir os portões de seu castelo de sonhos,
luz e sombra e por sempre acreditar no semear; Paulinha, irmandade conquistada ao longo de tantos
anos de risos e lágrimas mútuos, presença indispensável no mar de loucura em que nos arremessamos.
Carinho, lucidez, descontração, companhia... Alicerce nesta tempestuosa trajetória do mestrado. Ah, e
por ensinar a formatação de layout de figuras! Mi, olhar que explica parte de minha origem e mesmo
assim, avesso de minha existência. Aprendizado na presença e na ausência: por me olhar, pelas mãos
entrelaçadas ao caminhar, e mesmo que nada disso houvesse, por existir onde quer que fosse; isso já
seria norteador em minha jornada.
Agradeço infinitamente Marina B.R.Biju pelo esteio em meus momentos mais difíceis na
jornada do mestrado e por acreditar em minha vitória em cada um deles. Temperada Estrela Amarela
x
radiante de carinho; encontro repleto de aprendizado, amor e transformações que me ajudou a ver
quem sou e quem posso ser. Pela bela significação dos pequenos momentos diários. Pelas ardorosas
discussões bio-geográficas ; diferenças que enriquecem a concepção de mundo, ciência e trabalho.
Gratidão eterna e alegre pela companhia no desbravar os caminhos de luz desta intensa longa-breve
jornada da vida, ao som da cortante voz de Edith Piaf.
À toda família pela torcida espontânea, mesmo distante, principalmente aos titios Olza, Maura,
Elias e aos sempre priminhos Karina, Cauê e Caio, pelo interesse e carinho; ao Mafu, por me
acompanhar há tanto tempo e nos momentos mais alegres e difíceis, doação e lealdade e
principalmente, por sempre acreditar na possibilidade de acerto do passo seguinte, sem para isso
rememorar os erros que já se foram.
Um agradecimento emocionado aos pais e irmãos, indispensáveis pelo apoio que são, só de
sabê-los, pela alegria de tê-los, pelo aprendizado da convivência, por me ensinarem que não basta o
amor mais intenso e protetor para que brote a felicidade e harmonia, mas que através dele e com
dedicação, tudo é possível. Ao meu pai, Hermínio, fonte de meu amor e simplicidade e minha mãe
Olga, origem de minha força e questionamento, agradeço por todo o suporte, por me permitirem buscar
e encontrar. À minha irmãzinha Paula, agradeço pelo carinho e preocupação, pela florida companhia
em minha vida, ao irmãozão Fipe por me lembrar de onde vim e para onde olhar, pelas simples e boas
lembranças e ao sempre pequeno-irmãozinho Mateus, valioso presente de Deus. Determinação, força,
discernimento e alegria, o mais amado artista, um lindo ator-malabarista-palhaço-percussionistadançarino. Presença que trouxe como significado da vida o aprendizado e a superação das dificuldades
com os mais fortes aliados: fé, ingenuidade e um nariz de palhaço.
xi
SUMÁRIO
RESUMO ............................................................................................................................. xv
ABSTRACT ........................................................................................................................ xvii
Índice de Siglas ..................................................................................................................... xix
Índice de Tabelas .................................................................................................................. xxi
Índice de Figuras ................................................................................................................ xxiii
Índice de Anexos .................................................................................................................. xxv
INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 1
Objetivos gerais ........................................................................................................ 3
CAPÍTULO 1: A FRAGMENTAÇÃO NA CIDADE DE CAMPINAS ............................. 5
1.1 A Fragmentação de Habitats .......................................................................................... 6
1.1.1 Delineamento Teórico............................................................................................ 7
1.1.2 A Paisagem Fragmentada ..................................................................................... 8
Componentes e Atributos da Paisagem Fragmentada .............................................. 9
Outras Consequências da Fragmentação ............................................................... 13
1.1.3 Ressalvas ao Delineamento da Fragmentação ................................................... 15
1.1.4 Distúrbios Causadores da Fragmentação ........................................................... 16
1.2 A Expansão de Campinas e a Fragmentação de Habitats
1.2.1 O Município de Campinas ................................................................................. 21
1.2.2 Campinas e a Fragmentação de Habitats ........................................................... 31
O Açúcar, o Café e a Indústria .............................................................................. 32
Ideais e Práticas Urbanistas ................................................................................... 37
xii
CAPÍTULO 2: OS FRAGMENTOS DA BACIA DO RIBEIRÃO DAS ANHUMAS ... 43
2.1 A Bacia do Ribeirão das Anhumas ............................................................................. 44
Características Politico
Administrativas ............................................................ 45
O Projeto Anhumas ................................................................................................ 47
Objetivos específicos.............................................................................................. 48
2.2 Metodologia ................................................................................................................ 48
2.2.1 Evolução dos Fragmentos da Bacia do Ribeirão das Anhumas ......................... 49
Fotointerpretação ................................................................................................... 50
Fragmentos Remanescentes de Campinas ............................................................. 51
2.2.2 Entrevistas .......................................................................................................... 52
2.2.3 Análises de Documentos e da Bibliografia ......................................................... 54
2.3 Resultados e Discussão ................................................................................................ 55
2.3.1 Evolução dos Fragmentos e Uso do Entorno ...................................................... 55
2.3.2 Fragmentos: História, Manejo e Pressões ........................................................... 82
Bosque Chico Mendes ............................................................................................ 84
Bosque São José - Praça Francisco Vivaldi ........................................................... 87
Bosque dos Italianos - Praça Samuel Wainer ........................................................ 89
Bosque dos Alemães - Praça João Lech Júnior ...................................................... 91
Bosque dos Jequitibás ............................................................................................ 93
Bosque da Paz - Bosque Yitzhak Rabin ................................................................. 96
Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim ................................................... 98
Fazenda Rio das Pedras ......................................................................................... 106
Parque Ecológico Hermógenes de Freitas Leitão Filho ......................................... 110
Condomínio Residencial Parque Rio das Pedras .................................................... 113
Reserva Municipal Mata de Santa Genebra ............................................................. 115
Santa Genebrinha ..................................................................................................... 124
Mata do Chico Brinco (Mata do Boi Falô) ............................................................... 125
Recanto Yara ............................................................................................................. 127
Residencial Ibirapuera (Cooperativa Habitacional Chapadão) ................................. 130
Fazenda Boa Esperança (Loteamento Engenho do Barão) ....................................... 131
xiii
Vila Holândia ............................................................................................................ 134
Sítio San Martinho/Centro Médico Boldrini ............................................................. 135
Fazenda Argentina .................................................................................................... 136
Fazenda Anhumas (Fazenda Nanandiba) .................................................................. 137
Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) ..................................................... 138
Sítio São Francisco (Fazenda Pau D Alho) .............................................................. 140
Loteamento Condomínio Estância Paraíso ............................................................... 143
Fazenda Tozan (Fazenda Monte d'Este) ................................................................... 146
Fazenda São Bento .................................................................................................... 148
Parque Xangrilá ......................................................................................................... 149
Jardim Miriam Moreira da Costa .............................................................................. 151
Sociedade Residencial Alphaville Campinas ............................................................ 152
2.3.3 Eixos de Análises dos Fragmentos ............................................................................. 163
Pressões ..................................................................................................................... 163
O Tombamento dos Fragmentos ............................................................................... 170
Da Posse dos Fragmentos ......................................................................................... 177
Fragmentos Privados ................................................................................................. 180
Fragmentos Públicos ................................................................................................. 185
Plano de Diagnóstico e Manejo de Áreas Verdes Naturais do
Município de Campinas ........................................................................................... 189
Outros Atores: os Fragmentos, a Academia e o Cidadão ......................................... 191
A Paisagem Fragmentada na Bacia do Ribeirão das Anhumas ................................ 195
CONCLUSÕES .................................................................................................................... 199
BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................. 201
ANEXOS ............................................................................................................................. 217
xiv
xv
RESUMO
O ambiente é um complexo espaço-temporal resultante de fatores abióticos e bióticos,
também definido pela história e anseios humanos. A fragmentação de habitats está dentre as
principais ameaças à biodiversidade global e é desencadeada por distúrbios como expansões
urbana e da agropecuária, bem como a exploração de recursos naturais. Para compreender os
efeitos da fragmentação de habitats é indispensável aliar bases ecológicas a valores e práticas
humanos. Este trabalho buscou compreender a fragmentação na bacia do ribeirão das
Anhumas (Campinas, SP) aliando a análise da evolução dos fragmentos a informações
históricas de cada um deles. Além disso, buscou compreender os diferentes contextos nos
quais os fragmentos estão inseridos e de que forma essas informações obtidas poderiam
contribuir para promover práticas de conservação efetivas. Foram utilizados SIG para análise
de fotos aéreas multitemporais (1962, 1972 e 2002), realizadas visitas aos fragmentos,
entrevistas com proprietários ou responsáveis, e analisados documentos da Prefeitura
Municipal de Campinas e de hemerotecas. A área total dos fragmentos decaiu de 615,34ha
(1962) para 451,62ha (1972) e então para 422,72ha (2002), correspondendo hoje a 2,82% da
área total da bacia. Atualmente existem 34 fragmentos na bacia, dos quais 11 são áreas
públicas e 23 estão localizados em propriedades privadas. Sete dos fragmentos estão tombados
e 27 em estudo de tombamento. Os fragmentos estão sujeitos a diferentes pressões, como
incêndio, corte de árvores, espécies invasoras e exóticas, poluição e especulação imobiliária. A
condição geral dos fragmentos da bacia é desentusiasmante, mas a articulação e o
esclarecimento do poder público, da sociedade civil organizada e dos proprietários dos
fragmentos podem ser capazes de alterar essa situação.
Palvras chave: Fragmentação Florestal, Ecologia Urbana (Biologia), Políticas Públicas
Brasil
Aspectos Ambientais
xvi
xvii
ABSTRACT
The environment is a spacial-temporal complex resultant from not only abiotic and
biotic factors, but also from human history and aspirations. The habitat fragmentation is one of
the major threats to the world s biodiversity, and it is due to urban and agribusiness
expansions, as well as exploitation of natural resources. In order to understand habitat
fragmentation s effects, it is essencial to couple ecological foundations to human values. This
study aimed to understand the Anhumas river hydrographic basin (Campinas, SP)
fragmentation, analysing the remnants evolution in relationship to their historical aspects.
Moreover, this work intented to comprehend in which way the different remnants contexts
could contribute to effective conservation practices. The methods used were: multitemporal
(1962, 1972, 2002) aerial photographies analysis (GIS); remnants inspection; interviews with
the owners or people responsible for the remnants; and analysis of documentation from the
government of Campinas and from libraries. The total remnants area has decreased from
615.34ha (1962) to 451.62ha (1972) and to 422.72ha (2002). Currently, the total area of the
Anhumas river basin corresponds to 2.82% of the original area. There are 34 remnants in the
basin, 11 of them public areas and 23 private properties. Seven of the remnants are spot listed
and 27 are under assessment to be spot listed. Timbering, burning, the presence of exotic and
invasive species, pollution and real estate development are some of the variables that make the
conservation of the remnants more complex. The present status of the Anhumas river basin s
remnants is worrisome. However, the articulation and elucidation of public governments, nongovernment organizations, and the owners of the remnants might be able to counter this
situation.
Palvras chave: Forest Fragmentation, Urban Ecology (Biology), Public Policy
Environmental Aspects
Brazil
xviii
xix
SIGLAS
ABTLuS - Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron
APP
Área de Proteção Permanente
ARIE- Área de Relevante Interesse Ecológico
CEASA
CIATEC
Central de Abastecimento Agrícola S/A
Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Tecnologia de Campinas
CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
COMDEMA - Conselho Municipal de Meio Ambiente
CONDEPACC - Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas
CONDEPHAAT - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do
Estado de São Paulo
CPFL - Companhia Paulista de Luz e Força
CPqD - Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás
CSPC - Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CONDEPACC)
DEPRN - Departamento Estadual de Proteção aos Recursos Naturais (Governo do Estado de
São Paulo)
DIDC - Departamento de Informação, Documentação e Cadastro (Prefeitura Municipal de
Campinas)
DMA - Departamento de Meio Ambiente (Prefeitura Municipal de Campinas)
DPJ
Departamento de Parques e Jardins (Prefeitura Municipal de Campinas)
DUOS - Departamento de Uso e Ocupação do Solo (Prefeitura Municipal de Campinas)
EMBRAPA
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
ENEB - Encontro Nacional dos Estudantes de Biologia
ESALQ - Escola Superior de Agronomia Luís de Queirós (Universidade de São Paulo)
ETE
Estação de Tratamento de Esgoto
FJPO - Fundação José Pedro de Oliveira (Reserva Municipal da mata de Santa Genebra Prefeitura Municipal de Campinas)
GARRA - Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos
xx
GDR - Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Segurança Alimentar (Prefeitura
Municipal de Campinas)
IAC - Instituto Agronômico de Campinas
IBAMA
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis
IBGE
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INPE
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
LNLS - Laboratório Nacional de Luz Síncrotron
MCT - Ministério da Ciência e Tecnologia
PMC
Prefeitura Municipal de Campinas
PROESP
Associação Protetora da Diversidade das Espécies
PUCCAMP
RMC
Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Região Metropolitana de Campinas
RMSG - Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra
SANASA
Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A.
SEPLAMA - Secretaria Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio
Ambiente (Prefeitura Municipal de Campinas)
SIG
Sistemas de Informação Geográfica
SMA/SEMA
Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Estado de São Paulo
SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação
UC - Unidade de Conservação
UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais
UNESP - Universidade Estadual de São Paulo Júlio de Mesquita Filho
UNICAMP
Universidade Estadual de Campinas
USP - Universidade de São Paulo
xxi
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1 - Folhas topográficas cedidas pelo Instituto Geológico e Cartográfico (IGC) que
originaram a base cartográfica de 2002 utilizada no Projeto Anhumas
Tabela 2 Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, sua fisionomia, ponto central de
localização geográfica e área de cada um em 1962, 1972 e 2002 (ha)
Tabela 3 - Contribuição percentual de cada fragmento para a área total de fragmentos da bacia
do ribeirão das Anhumas em cada um dos anos (1962, 1972 e 2002)
Tabela 4 - Porcentagem de incremento e decréscimo da área dos maiores fragmentos da bacia
do ribeirão Anhumas, tanto os excluídos como os incluídos desta categoria, em dois intervalos
de tempo (1962-1972 e 1972-2002)
Tabela 5 Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas e porcentagem da classificação
relativa à leitura de uso do solo realizada por Adami et al. (2006), para cada um dos
fragmentos em 1962, 1972 e 2002
Tabela 6 - Visitação no Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim em algumas datas e a
expectativa no aumento da visitação após firmada a gestão compartilhada
Tabela 7 - Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas e distúrbios associados a cada um
Tabela 8 - Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, situação referente ao tombamento
da área, número dos processos e classificação quanto à propriedade de cada um
xxii
xxiii
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1
Reconstituição da evolução da cobertura florestal do estado de São Paulo
Figura 2 O município de Campinas, sua localização na Região Metropoliatana de Campinas
(RMC) e a inserção desta no estado de São Paulo. Em destaque, a bacia hidrográfica do
ribeirão das Anhumas.
Figura 3
(1972)
Vegetação original do município de Campinas segundo Christofoletti & Federici
Figura 4 - Vegetação original do município de Campinas segundo Santin (1999)
Figura 5 Bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas, em destaque os fragmentos, que
podem ser identificados a partir da numeração na Tabela 2. Imagem elaborada a partir do
mosaico de ortofotos de 1962
Figura 6 Bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas, em destaque os fragmentos, que
podem ser identificados a partir da numeração na Tabela 2. Imagem elaborada a partir do
mosaico de ortofotos de 1972
Figura 7 Bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas, em destaque os fragmentos, que
podem ser identificados a partir da numeração na Tabela 2. Imagem elaborada a partir do
mosaico de ortofotos de 2002
Figura 8
Mosaico de ortofotos da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas
1962
Figura 9
Mosaico de ortofotos da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas
1972
Figura 10
Mosaico de ortofotos da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas
2002
Figura 11 - Porcentagem da área total dos fragmentos em relação à área da bacia hidrográfica
do ribeirão das Anhumas em 1962, 1972 e 2002 e taxa de desflorestamento
Figura 12 - Contribuição percentual dos fragmentos para a área total de fragmentos da bacia
do ribeirão das Anhumas (1962). Em destaque, os 6 maiores fragmentos (82,03% do total)
Figura 13 Contribuição percentual dos fragmentos para a área total de fragmentos da bacia
do ribeirão das Anhumas (1972). Em destaque, os 9 maiores fragmentos (81,46% do total)
Figura 14 Contribuição percentual dos fragmentos para a área total de fragmentos da bacia
do ribeirão das Anhumas (2002). Em destaque, os 8 maiores fragmentos (81,16% do total)
xxiv
Figura 15 - Evolução do entorno dos fragmentos da bacia hidrográfica do ribeirão das
Anhumas por classes de uso do solo em 1962, 1972 e 2002 (ha).
Figura 16 - Bosque dos Jequitibás
2002
Figura 17 - Fazenda Rio das Pedras, distrito de Barão Geraldo
1962
Figura 18 - Fazenda Rio das Pedras, distrito de Barão Geraldo
1972
Figura 19 - Mata do Chico Brinco (Mata do Boi Falô)
1962
Figura 20
1972
Mata do Chico Brinco (Mata do Boi Falô)
Figura 21 - Mata do Chico Brinco (Mata do Boi Falô)
2002
Figura 22
Foto aérea de sobrevôo da região da Fazenda Pau D Alho, fim da década de
1960. Vê-se a rodovia Adhemar de Barros e do outro lado o morro reflorestado pelos Dutilh
Figura 23
Sítio São Francisco
1962
Figura 24
Sítio São Francisco
2002
Figura 25
1962
Fazenda Santa Teresinha, atual Sociedade Residencial Alphaville Campinas
Figura 26
1972
Fazenda Santa Teresinha, atual Sociedade Residencial Alphaville Campinas
Figura 27 - Fazenda Santa Teresinha, atual Sociedade Residencial Alphaville Campinas 2002
Figura 28
Anhumas
Situação de tombamento dos fragmentos públicos da bacia do ribeirão das
Figura 29
Anhumas
Situação de tombamento dos fragmentos privados da bacia do ribeirão das
Figura 30 - Organograma simplificado da estrutura da administração pública municipal de
Campinas
xxv
ÍNDICE DE ANEXOS
Anexo I - Roteiro das entrevistas realizadas
Anexo II
CD com imagens para melhor visualização
INTRODUÇÃO
Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?
Depende de para onde quer ir respondeu o Gato
Não me importa muito para onde, disse Alice
Então não importa que caminho toma
Lewis Carroll 1
Se não sabes para onde vai, qualquer caminho te levará lá
Talmude
O ambiente não é somente um complexo espaço-temporal resultante de fatores
abióticos e bióticos sensu stricto, mas também um complexo definido política e
economicamente pela história, ações e anseios humanos. A degradação e desequilíbrio
ambientais que enfrentamos, em parte responsáveis pela nossa baixa qualidade de vida, não
são causados pelo funcionamento dos ecossistemas, mas sim pelo funcionamento de nosso
sistema ético. São fruto da injustiça social, do desequilibrado acesso aos recursos naturais
bens públicos - e da ausência de políticas que estabeleçam uma relação justa e efetiva entre a
comunidade e o poder público.
Questões polêmicas como a conservação dos recursos naturais, conservação de
espécies ameaçadas e a mudança climática mundial não são exclusivamente ecológicos ou
científicos. Eles envolvem muitas disciplinas acadêmicas tradicionais que não podem ser
separadas de valores como equidade e justiça (Ludwig et al. 2001). Lidar com esses problemas
envolve muito mais do que ecologia e ciência: requer uma compreensão de como fatores
econômicos e sociais interagem com a ciência ecológica e evolutiva (Ludwig et al. 2001).
Mais do que qualquer outra geração anterior, os ecólogos atuais têm como desafio a
aplicação de seu trabalho nas emergentes questões sociais, dada a triste realidade na qual
estamos imersos. E para os efeitos de sua pesquisa e ciência serem realmente efetivos, devem
considerar os aspectos sociais e éticos da conservação. De alguma forma, o conhecimento
científico deve estar integrado com a clareza política, econômica, social, ética e religiosa, e
temperado com o respeito pela dignidade humana e a biosfera (Ludwig et al. 2001).
1
Carroll, L. 2002. Aventuras de Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho - edição comentada. John
Tenniel: introdução e notas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
1
Hoje não se discute degradação ambiental e conservação de recursos naturais, sem
adentrar no tema fragmentação de habitats. A fragmentação é o processo no qual uma grande
extensão de habitat, é subdividida em um número de fragmentos menores, que apresentam
menor área total e estão isolados um do outro (Wilcove et al. 1986). A destruição e a
fragmentação de habitats são tidos como as principais ameaças à biodiversidade global
(Burgess & Sharpe 1981, Noss 1983, Harris 1984, Wilcox & Murphy 1985, Wilcove et al.
1986, Quinn & Harrison 1988, Noss & Cooperrider 1994, Baur & Erhardt 1995), por causar
mudanças drásticas na geometria e atributos da paisagem que alteram o microclima do habitat,
expondo organismos à insolação, ventos e dessecação (Lovejoy et al. 1986), alterando também
a dinâmica, composição, estrutura e interações da comunidade.
Estas drásticas alterações das condições ambientais também influenciam diretamente
nossa saúde e qualidade de vida, não sendo apenas questões para jornalismo sensacionalista de
florestas distantes , tantas vezes utilizado para preencher as manhãs vazias de domingo. A
função hidrológica das matas ciliares, por exemplo, está ligada à uma série de fatores
importantes para a manutenção do ecossistema, como o escoamento das águas da chuva,
atenuação do pico dos períodos de cheia, dissipação da energia do escoamento superficial,
estabilidade das margens e barrancos de corpos d água e equilíbrio térmico das águas
(Barbosa 2000). Mesmo as áreas verdes localizadas na malha urbana, tantas vezes
subvalorizadas por seu tamanho e grau de perturbação, têm importância relacionada ao
conforto ambiental, pois amenizam a árida paisagem de concreto das cidades, auxiliam na
redução da temperatura do ar e na absorção de poluentes e de ruídos na atmosfera. No caso de
áreas muito urbanizadas, nas quais o solo encontra-se quase totalmente impermeabilizado, são
importantes ainda como áreas com maior permeabilidade, agindo como tampões no
escoamento de água para os cursos d água, reduzindo os efeitos de grandes enchentes. Além
disso, as áreas verdes urbanas tem o potencial de redução do estresse e de sensibilização dos
cidadãos, sendo um elemento importante na configuração da cidade.
Sendo a fragmentação originária de distúrbios antrópicos, como o processo de
ocupação do solo, com a implantação de sistemas agropastoris, exploração de recursos
naturais, industrialização, explosão demográfica e expansão urbana, é importante que
consideremos a inserção histórica dos fragmentos para compreender de que forma as
diferentes pressões exercidas sobre eles podem contribuir para suas condições ecológicas
2
atuais.
Enquanto
na
Mata
Atlântica,
por
exemplo,
os
fragmentos
localizam-se
predominantemente em locais mais íngremes, nos terrenos alagados ou topos de morro, onde
qualquer tipo de exploração agrícola é praticamente impossível ou economicamente inviável
(Santin 1999), na Amazônia o desflorestamento também não é aleatório espacialmente, uma
vez que o desenvolvimento de núcleos urbanos e de extração de recursos tem se concentrado
ao longo dos rios, os responsáveis pelo fluxo na região (Desouza 2001). Thompson et al.
(2002) afirmam que a união de informações históricas a respeito do uso dos ecossistemas, com
informações ambientais como solo e topografia, para compreender o estado atual dos
ecossistemas tem sido uma abordagem muito bem sucedida para florestas temperadas e
boreais. Entretanto, há poucos estudos tropicais que sintetizem características ambientais e o
uso da terra para explicar padrões atuais (Thompson et al. 2002) e a história tem sido
frequentemente ignorada em pesquisas com florestas tropicais (Clark 1996, Whitmore &
Burslem 1998).
Assim sendo, os objetivos gerais desta dissertação foram:
Inventariar os fragmentos atuais da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas e
acompanhar sua evolução;
Apreender as dimensões dos processos que contribuíram para a fragmentação da
bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas;
Identificar o contexto a que está submetido cada um dos fragmentos;
Compreender de que forma as diferentes conjunturas influenciam cada um dos
fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas.
Apreender a realidade da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas sob a
perspectiva do processo de fragmentação de habitats
Esta dissertação está dividida da seguinte forma:
A Introdução, que apresenta a problemática ambiental atual como uma questão
intimamente relacionada aos aspectos sociais e político-econômicos e a fragmentação
como um importante processo ecológico associado à essa problemática. Neste tópico
são delimitados os objetivos gerais da dissertação.
3
O Capítulo 1, subdividido em dois eixos: o primeiro aborda a fragmentação de
habitats, seu delineamento teórico e as consequências da fragmentação e o segundo
traz um breve histórico da cidade de Campinas, relacionando a fragmentação com a
expansão da cidade e seus ciclos.
O Capítulo 2, que trata propriamente dos fragmentos da bacia hidrográfica do
ribeirão das Anhumas a partir dos objetivos específicos desta dissertação: sua
evolução (1962 - 2002), sua história e contexto.
As Conclusões.
4
CAPÍTULO I
A FRAGMENTAÇÃO NA CIDADE DE CAMPINAS (SP)
Vocês franceses são uns grandes idiotas; precisam sofrer tanto para cruzar o mar,
no qual (como você nos contou) suportaram tantas privações, apenas para
ajuntar riquezas para seus filhos ou para aqueles que vão sucedê-los?
A terra que alimenta vocês não será suficiente para alimentá-los?
Um tupi.2
Nos meses frios de maio a junho, turmas de lenhadores itinerantes eram contratadas para executar a
tarefa da derrubada segundo um sistema chamado picarias . Trabalhando de baixo para cima a partir
da base da montanha, brandiam os machados sucessivamente contra cada árvore, talhando
até que o tronco, ainda inteiro, gemesse com a iminência de sua queda. Um capataz experiente
observava cuidadosamente a rampa da montanha, a posição de cada árvore e os cipós
abundantes nesse setor da Mata Atlântica -, que prendiam cada uma a sua vizinha,
e dirigia o corte de forma a cada árvore ficar posicionada para cair em uma direção
precisa. Os lenhadores iam subindo, talhando em um e depois em outro tronco,
cada vez mais acima, até que se chegava ao cume.
Então, a tarefa do capataz era decidir qual a árvore mestra, a gigante que seria cortada até o fim,
carregando consigo todas as outras. Se fosse bem-sucedido, o sopé inteiro desabava com uma tremenda
explosão, levantando uma nuvem de fragmentos, bandos de papagaios, tucanos, aves canoras, e, da
parte dos lenhadores, um grito de alegria e alívio.
Warren Dean 3
Campinas é relatada por Saint-Hilaire (1953), no início do século XIX, como uma
cidade cuja vegetação cobria a maior parte do município, sendo formada por florestas altas e
densas, com grandes árvores de troncos retilíneos; entremeadas de formações não florestais
abertas e mais altas, onde predominavam árvores de médio e grande porte, de troncos
tortuosos e suberosos ou árvores esparsas de pequeno porte. Segundo ele ainda, as fisionomias
florestais não se localizavam muito distantes da sede da cidade. Com a fragmentação de
habitats, que consiste na ruptura de um habitat contínuo em menores e desconectados pedaços
(Turner et al. 2001), segundo Santin (1999) o município possui hoje aproximadamente 2,55%
de seu território cobertos por vegetação nativa, o que compreende aproximadamente 2.033,6ha
2
Léry, J. 1999. History of a voyage to the land of Brazil, otherwise called America. Berkley, CA. 102p.
Dean, W. 1996. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Compania das
Letras. 484 p.
3
5
distribuídos em 197 fragmentos. O Inventário Florestal da Vegetação Natural do Estado de
São Paulo (São Paulo 2005) baseado em imagens orbitais dos satélites LANDSAT 5 e 7
(2000-2001; escala 1:50.000) e fotografias aéreas (2000-2001; escala 1:35.000) aponta para
Campinas uma área total de 2.294ha de vegetação natural, o que corresponderia a 2,6% do
território do município. O isolamento dos fragmentos, bem como o padrão espacial da
paisagem, que se refere ao número, tamanho e justaposição deste e dos outros elementos
gerados pelo processo de fragmentação, alteram a composição e a estrutura da comunidade.
Em Campinas, a fragmentação é um processo iniciado há muito, podendo ser relacionada à
infra-estrutura necessária aos pousos das expedições de bandeirantes e, posteriormente, aos
grandes ciclos econômicos que tiveram importante participação na história do Brasil: o açúcar
e o café. Entretanto, associar a fragmentação apenas com seus distúrbios é desprezar que a
história e opções humanas, além de criar e modelar os fragmentos, também podem preserválos.
Este capítulo apresenta a fragmentação de habitats, seus distúrbios causadores e as
alterações que ela causa na estrutura, dinâmica e composição do ecossistema, e um pouco da
história de Campinas e seus processos relacionados à fragmentação e à preservação dos
fragmentos.
1.1 A Fragmentação de Habitats
Alguns cientistas acreditam que a terra está passando pela maior extinção em massa em
65x106 anos (Wilson 1992). A destruição de habitats e a fragmentação são tidas como as
principais ameaças à biodiversidade global (Burgess & Sharpe 1981, Noss 1983, Harris 1984,
Wilcox & Murphy 1985, Wilcove et al. 1986, Quinn & Harrison 1988, Noss & Cooperrider
1994, Baur & Erhardt 1995), pois enquanto a primeira causa extinção de habitats e espécies, a
segunda altera drasticamente a composição, estrutura e padrões espaciais dos ecossistemas,
gerando efeitos mais complexos dos que os oriundos da simples destruição de habitats.
Segundo Whitmore (1997) a taxa de desflorestamento tropical excede 15x106ha anualmente,
resultando em extensas paisagens florestais fragmentadas. A realidade brasileira não é menos
assustadora: a partir de imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE), Fearnside (2005) aponta que a taxa de desflorestamento da Amazônia Brasileira
chegou a 23,8x103 km2 em 2003.
6
A fragmentação de habitats consiste na ruptura de um habitat, ecossistema ou paisagem
em pedaços menores e desconectados (Turner et al. 2001), ou seja, é o processo no qual, após
dado distúrbio, uma grande extensão de habitat é subdividida em um número de fragmentos
menores, que apresentam menor área total do que o habitat inicial e estão isolados um do outro
por uma matriz de habitat diferente do original (Wilcove et al. 1986). Assim, um habitat
contínuo, a partir do processo de fragmentação, torna-se uma paisagem com elementos antes
inexistentes, e as características desses elementos e a forma como eles interagem entre si
promovem respostas abióticas e bióticas que alterarão a composição e a estrutura da
comunidade, bem como o padrão espacial da paisagem, que se refere ao número, tamanho e
justaposição dos elementos.
Um dos princípios centrais da ecologia de paisagens é o de que todos os ecossistemas
estão inter-relacionados (Forman 1998),
e que
a estrutura da paisagem influencia e é
influenciada pelos processos ecológicos (Forman & Godron 1986). Então, de que maneira as
possíveis combinações das características dos elementos oriundos da fragmentação
proporcionam as alterações referidas acima? É mais fácil compreender de que forma a
fragmentação altera um habitat se entendermos qual o delineamento teórico da fragmentação.
1.1.1 Delineamento Teórico
A Teoria da Fragmentação de Habitats é sustentada pela Teoria do Equilíbrio da
Biogeografia de Ilhas (1967), estruturada por MacArthur & Wilson e pela Teoria de
Metapopulações (Gilpin & Hanski 1991).
A Teoria da Biogeografia de Ilhas sugere que o número de espécies em uma ilha
oceânica seja explicado através do equilíbrio dinâmico decorrente dos processos de imigração
e extinção na ilha. Esses processos, por sua vez, seriam regulados pela combinação de duas
variáveis preditivas principais: o tamanho da ilha e a distância da ilha em relação à fonte
doadora de espécies (por exemplo, o continente). Dessa forma, o número de espécies seria
diretamente proporcional ao tamanho da ilha, uma vez que esta seria fonte de mais recursos,
habitats de diferentes qualidades e apresentaria uma maior capacidade suporte,
proporcionando o estabelecimento de mais espécies. Por outro lado, o número de espécies
também seria inversamente proporcional à distância da ilha em relação à fonte doadora de
espécies, pois quanto maior a distância para se colonizar uma ilha, menos seriam as espécies
7
hábeis em vencê-la e estabelecerem-se na ilha em questão. Assim sendo, as taxas de imigração
de espécies seriam maiores em ilhas próximas do que em ilhas distantes; enquanto as taxas de
extinção seriam maiores em ilhas pequenas do que em ilhas grandes. A combinação das
categorias possíveis (pequena/próxima, pequena/distante, grande/próxima, grande/distante)
sugere que as ilhas que apresentariam um maior número de espécies seriam as ilhas grandes e
próximas da fonte doadora, enquanto as ilhas pequenas e distantes apresentariam um menor
número de espécies.
Por sua vez, a Teoria de Metapopulações sugere que a dinâmica populacional seja o
resultado de uma série de extinções e recolonizações nos fragmentos de habitat, e que esta
dinâmica deve ser estudada sob a perspectiva das populações locais, pois o equilíbrio, mais do
que ocorrer em uma só população, seria o resultado de um número de subpopulações
interconectadas e distribuídas em uma região (Husband & Barrett 1996). Assim, caso a sub
população de um fragmento seja extinta, este pode ser eventualmente recolonizado por
propágulos de outra subpopulação da vizinhança (Husband & Barrett 1996), gerando o
denominado efeito resgate .
É neste cenário teórico que a Teoria de Fragmentação de Habitats passa a ser aplicada
em ambientes terrestres. Segundo Wilcox (1980), entre 1970 e 1980, com a crescente
percepção da destruição de habitats, o modelo de biogeografia de ilhas passou a ser transferido
e aplicado a fragmentos de habitats terrestres
processo também conhecido por insularização,
ou seja, tomar como ilha o que não é ilha por natureza . Os primeiros estudos sobre
fragmentação de habitats tinham por objetivo propor princípios gerais de delineamento de
refúgios, como formato, tamanho e conectividade, com o intuito de reduzir as taxas de
extinção nessas isoladas áreas de proteção (Simberloff 1988). Com o passar dos anos, a
aplicação da Teoria de Fragmentação de Habitats extrapolou o delineamento de refúgios,
passando a ser uma forma de compreender as alterações num habitat após este ter sofrido um
distúrbio.
1.1.2 A Paisagem Fragmentada
Compreendidas as origens da Teoria de Fragmentação de Habitats, fica-nos agora mais
fácil entender de que forma a estrutura e composição da comunidade e os processos ecológicos
são alterados pela fragmentação. Além da redução de habitat causada pelo desflorestamento e
8
dos distúrbios proporcionados por este evento, a fragmentação torna o habitat antes contínuo
uma paisagem subdividida em um número de fragmentos menores, que apresentam menor
área total do que o habitat inicial e estão isolados um do outro por uma matriz de habitat
diferente do original (Wilcove et al. 1986), alterando completamente a estrutura espacial da
paisagem. Essas mudanças drásticas na geometria e atributos da paisagem alteram o
microclima do habitat, expondo organismos à insolação, ventos e dessecação (Lovejoy et al.
1986), alterando a composição e estrutura da comunidade, uma vez que algumas espécies são
extremamente dependentes de condições abióticas ideais para germinação, crescimento,
estabelecimento, florescimento e polinização. A fragmentação influencia
também nas
interações entre plantas e animais, consequentemente afetando a densidade populacional de
polinizadores e dispersores e a demografia e o recrutamento das plantas (Aizen 1994).
Componentes e Atributos da Paisagem Fragmentada
Dada então a fragmentação, os novos componentes da paisagem oriundos deste
processo são denominados: matriz, componente mais extenso da paisagem, altamente
conectado, que controla a dinâmica regional (Forman 1998); fragmentos, remanescentes do
habitat original, agora reorganizado espacialmente em manchas menores e de menor área total,
que apresentam certo grau de isolamento entre si; e os corredores, que vêm a ser estreitas
faixas que diferem da matriz circundante e conectam manchas com características vegetais
similares (Forman & Godron 1986).
A matriz vem a ser o elemento mais novo da paisagem, diretamente relacionada com o
distúrbio que provocou a fragmentação. Metzger (2001) apresenta duas perspectivas possíveis
para reconhecer a matriz numa paisagem: a unidade que recobre a maior parte da paisagem e o
conjunto de unidades não-habitat para uma determinada comunidade ou espécie estudada, ou
seja, uma unidade hostil a organismos previamente estabelecidos no local. Usualmente, na
maioria dos estudos realizados, estas duas características estão associadas. Como a matriz é
um elemento oriundo diretamente do distúrbio que provocou a fragmentação, ela pode
apresentar diferentes composições, sendo de natureza agrícola, pastoril, urbana, industrial,
entre outras, ou seja, estando diretamente relacionada ao uso do solo no entorno do fragmento.
Borgmann & Rodewald (2004) afirmam que a natureza da matriz influencia fortemente a
predação de ninhos, uma das primeiras forças modeladoras de comunidades de aves. Além da
9
vulnerabilidade da comunidade de aves causada diretamente pela urbanização e degradação
ambiental (Mills et al. 1989, Germaine et al. 1998, Remes 2003), resultados comuns do
processo de fragmentação, Borgmann & Rodewald (2004) sugerem que esta correlação entre
matriz e predação de ninhos deva-se ao fato das matrizes urbanas facilitarem a infestação de
arbustos exóticos nas florestas riparias de Ohio, Estados Unidos da América. Nessas espécies
exóticas arbustivas (Lonicera maackii (Rupr.) Herder e Lonicera tatarica L.), a distribuição
dos ninhos da comunidade de aves tende a ser 1,5
2m mais próxima do solo do que nos
arbustos nativos, diferença suficiente para aumentar a eficiência de mamíferos predadores, os
principais predadores de ninhos no local de estudo.
A composição da matriz também é uma das variáveis que altera a conectividade da
paisagem. Metzger (2001) atribui conectividade à capacidade da paisagem em facilitar os
fluxos biológicos, ou seja, conectividade refere-se à continuidade espacial do habitat original
(Forman 1988). Portanto, em uma paisagem cuja matriz possui baixa permeabilidade, a
mobilidade dos organismos e sua consequente dispersão e colonização de novos fragmentos é
comprometida.
A conectividade da paisagem depende da proporção da paisagem que os fragmentos
ocupam, característica diretamente relacionada ao tamanho dos fragmentos, ao grau de
isolamento entre os fragmentos (barreiras espacial ou ecológicas) e à existência de corredores
que os conectem. Fragmentos maiores e com maior diversidade de habitats, segundo a
extrapolação da Teoria da Biogeografia de Ilhas, têm mais condições de manter os processos
ecológicos e um maior número de espécies e populações viáveis. Muitos estudos apontam que
a sensibilidade à diminuição de área é um fator extremamente determinante na dinâmica de
muitas espécies. Robbins et al. (1989), em um estudo com pássaros migratórios neotropicais,
apontam a "área" como sendo um dos mais significantes aspectos do habitat para a maioria das
espécies analisadas. Num estudo sobre o efeito da fragmentação na ecologia reprodutiva de
espécies vegetais, Cunningham (2000) encontrou uma correlação positiva entre o tamanho do
fragmento e a proporção de frutos por inflorescência de Acacia brachybotrya Benth.
(Fabaceae), uma leguminosa arbustiva, sugerindo que em fragmentos menores a diminuição
da produção de frutos seja devida à escassez de insetos polinizadores.
A importância do tamanho dos fragmentos e de sua proximidade na restauração e
recolonização de uma população foi analisada por Schultz & Crone (2005) para a espécie de
10
borboleta Icaricia icarioides fenderi Macy (Lycaenidae), natural das pradarias norte
americanas. Através de regras simples baseadas no comportamento de dispersão e demografia
da espécie e de dois modelos complexos, o modelo de incidência funcional e o modelo de
dispersão randômica, este último uma simulação espacial de comportamento individual de
dispersão e demografia, os autores obtiveram respostas fortemente concordantes. De acordo
com os resultados obtido nos três modelos, são os fragmentos maiores e mais conectados que
apresentam melhores condições para a viabilidade populacional desta espécie de borboleta.
A conectividade da paisagem também está intimamente relacionada com a existência
dos corredores, outro elemento oriundo da fragmentação. Além da capacidade de conectar
fragmentos, facilitando a sobrevivência dos organismos durante seu fluxo entre as manchas,
eles podem apresentar as condições necessárias de habitat temporário ou permanente para
algumas populações. Entretanto a efetividade dos corredores para a restauração e manutenção
dos atributos necessário em uma paisagem preservada é polêmica, pois eles também podem
apresentar o inconveniente de facilitar a propagação de algumas perturbações, como fogo ou
doenças (Metzger 2003). Segundo Haddad (2000), desde o surgimento da proposta dos
corredores como importante elemento na conectividade da paisagem, muitos estudos têm
mostrado seus efeitos positivos no movimento das espécies. Taylor (1993) afirma que muitas
vezes a recolonização de fragmentos não se dá devido à inospicidade do habitat, mas sim
devido à impossibilidade das espécies colonizadoras chegarem às manchas, muitas vezes pela
ausência de corredores.
Outro importante atributo dos fragmentos é sua forma. A forma do fragmento tem
efeito crítico nos desempenhos ecológicos dos mesmos: segundo Forman (1998), formas
compactas são mais efetivas em conservar recursos, pois quanto menor a razão perímetro/área,
mais reduzida é a troca entre o interior do fragmento e a matriz. Do mesmo modo, formas
convolutas e com longas fronteiras entre fragmento e matriz são efetivas em aumentar
interações entre ambos, como o fluxo de animais, de matéria e energia, de forma a
descaracterizar os habitats remanescentes.
Essa descaracterização provém principalmente do que chamamos efeito de borda .
Cunhado por Leopold (1933 apud Harper et al. 2005), esse conceito vem a ser o efeito das
respostas bióticas e abióticas da fragmentação na borda dos fragmentos, que resultam em
diferenças na composição, estrutura ou funcionamento do ecossistema próximo à fronteira em
11
relação a ambos os elementos adjacentes, fragmento e matriz (Harper et al. 2005).
Contrariamente a bordas naturais ou ecótonos, onde duas diferentes comunidades vegetais ou
estágios sucessionais se encontram e influenciam gradativamente, as bordas oriundas da
fragmentação são originárias de uma brusca mudança ambiental entre os remanescentes de
habitat e a matriz. Murcia (1995) afirma que a formação de bordas florestais causa mudanças
abióticas, mudanças bióticas diretas, e mudanças bióticas indiretas, tudo isso numa escala de
tempo extremamante reduzida. O efeito de borda é mais estudado e conhecido em formações
florestais, por ser extremamente mais perceptível e impactante, devido às grandes diferenças
fitofisionômicas das florestas e das matrizes que normalmente estão envolvidas no processo de
fragmentação, de caráter agropastoril ou urbano.
As mudanças abióticas seriam as respostas primárias após a fragmentação,
caracterizando-se por alterações microclimáticas na temperatura, umidade, luminosidade e
ventos, a redistribuição de nutrientes e a alteração dos fluxos de material e energia, devido à
exposição de uma porção do habitat antes característico de interior da formação florestal, o
que pode afetar negativamente espécies, interações e processos ecológicos dependentes de
condições associadas ao interior. Em relação a matrizes de vegetação aberta, Murcia (1995)
afirma que comparadas às florestas, as pastagens e plantações permitem que maiores
quantidades de radiação solar alcancem o solo durante o dia e também promovam maior
irradiação para a atmosfera à noite, consequentemente, a temperatura nas pastagens e
plantações tendem a apresentar máximas mais altas, bem como amplas flutuações. Essas
características contrastantes causam alterações microclimáticas no fragmento e em sua borda,
principalmente.
As mudanças bióticas diretas podem ser causadas pelas alterações microclimáticas no
fragmento, uma vez que o crescimento, a mortalidade, a abundância e a distribuição das
plantas nesse novo ambiente podem ser afetadas pelas mudanças abióticas (Murcia 1995).
Uma das alterações mais comuns relacionadas à composição da comunidade, é o surgimento
de espécies exóticas e lianas, muitas vezes típicas de ambientes com distúrbio, que podem se
tornar extremamente abundante e acabar suprimindo as espécies naturais do local. Por sua vez,
as alterações de vários aspectos da história de vida de plantas e animais na borda dos
fragmentos podem resultar em mudanças bióticas indiretas (Murcia 1995), que viriam a ser as
interações entre as espécies: predação, herbivora, polinização e dispersão. Em um estudo sobre
12
a influência da fragmentação de florestas tropicais em comunidades de besouros, Didham et
al. (1998) afirmam que a proximidade da borda e o tamanho do fragmento influenciaram
significativamente a composição das espécies de besouros.
Uma das grandes questões em relação ao efeito de borda é até qual distância para o
interior do fragmento seus efeitos podem ser percebidos. Harper et al. (2005), compilando
estudos realizados em paisagens florestais fragmentadas, sugerem que dependendo do tipo da
resposta ao efeito de borda, a distância pode chegar até a 500m. Segundo Desouza et al.
(2001), no desenho experimental de fragmentação na Amazônia acompanhado há 29 anos, o
efeito de borda é o componente mais importante em fragmentos até 900 ha.
Outras Consequências da Fragmentação
Conforme já foi apresentado, a fragmentação tem a capacidade de alterar fortemente a
composição e estrutura da comunidade, além do funcionamento dos ecossistemas. Klein
(1989), em um estudo sobre o efeito da fragmentação na comunidade de besouros da
Amazônia Central, encontrou uma correlação positiva entre a diversidade e equitabilidade de
espécies e o grau de integridade do habitat, sendo eles floresta contínua, fragmentos grandes,
fragmentos pequenos e matriz de extração madeireira. Além disso, a floresta contínua foi a
área que apresentou, para as mesmas espécies de besouros, indivíduos de maior tamanho, e as
poucas espécies presentes na matriz pertenciam majoritariamente (98%) a um único gênero,
característico de ambientes alterados. Este é um estudo que exemplifica claramente algumas
possíveis consequências da fragmentação: a matriz e os fragmentos seriam os habitats mais
inóspitos para a maioria das espécies, sendo que na primeira a composição da comunidade
caracteriza-se por espécies típicas de ambientes com distúrbio. Isso pode ocorrer devido às
alterações microclimáticas oriundas do processo de fragmentação e, no caso dos fragmentos,
da expansão do efeito de borda, principalmente nas manchas menores.
O fato dos maiores indivíduos de uma mesma espécie serem da área de floresta
contínua, sugere que ela tenha uma capacidade de suporte maior, e que lhes proporcione
melhores condições. Klein (1989) sugere que isto também possa estar relacionado a efeitos
indiretos, pois na mesma área de estudo já havia sido detectada maior escassez de primatas e
aves na matriz e nos fragmentos do que em relação à floresta contínua, e algumas das espécies
de besouros são coprófagos desses grupos.
13
A fragmentação também aumenta o risco de extinção das populações locais e das
metapopulações (Hanski & Ovaskainen 2000). Lennartsson (2002), num estudo experimental
com acompanhamento demográfico de 5 anos sobre o limiar de extinção e a ruptura da
interação planta-polinizador em populações fragmentadas, notou que populações com pouca
capacidade de auto-polinização apresentaram uma viabilidade populacional fortemente
reduzida, tanto devido à depressão por endocruzamento como pela reduzida produção de
sementes causada pelo déficit de polinizadores no ambiente fragmentado.
Assim, podemos afirmar como sendo consequências da fragmentação, a endogamia e a
perda da integridade e variabilidade genética das populações; a diminuição de polinizadores e
de dispersores; a invasão por espécies generalistas, nativas ou exóticas, que podem alterar
expressivamente a composição e a estrutura da comunidade, e a alteração no recrutamento das
espécies, principalmente das características do interior das formações florestais. Entretanto, é
necessário lembrar que dependendo do ecossistema e do histórico da área, a situação pode ter
uma realidade muito específica: comparando a Mata Atlântica com a Amazônia, por exemplo,
temos que nesta a fragmentação intensa é muito mais recente. Segundo Fearnside (2005), o
desflorestamento moderno da Amazônia brasileira pode ser considerado datando da década de
1970, com a construção da transamazônica enquanto na Mata Atlântica a fragmentação data de
mais de 500 anos. Devido a isso, os fragmentos da Amazônia não passaram pelo longo e
intensivo histórico de perturbação antrópica de caça, corte seletivo e fogo, tão ordinários na
Mata Atlântica. Estas diferentes realidades alteram as respostas oriundas do processo de
fragmentação.
Outro ponto importante de ser lembrado é o de que os resultados obtidos da análise da
fragmentação podem variar dependendo do momento em que ela se encontra. Isso se dá
principalmente por duas razões: a primeira é que a fragmentação é um processo, ou seja,
embora possa ser identificada no início do distúrbio que a causa, como processo, ela apresenta
diferentes momentos, cada qual com diferentes tendências. A partir da fragmentação inicial,
por exemplo, pode haver a continuidade da perda de habitat, o que levaria os fragmentos a se
tornarem menores e seu grau de isolamento maior. Com a alteração das variávais abióticas do
ecossistema, as respostas dos organismos também tendem a variar ao longo do tempo. A
segunda razão é a que os efeitos da fragmentação continuam se manifestando após
consideráveis períodos de tempo, pois as espécies envolvidas processam as informações e as
14
respondem em diferentes intervalos de tempos. Enquanto o efeito da fragmentação pode ser
quase que instantaneamente notado em populações de plantas anuais, através do recrutamento,
por exemplo, árvores de ciclo longo podem responder tardiamente ao distúrbio.
O Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (BDFFP), o projeto mais
antigo para a compreensão de efeitos da fragmentação de habitats em florestas tropicais,
realizado há 29 anos na Amazônia, possui um desenho experimental baseado na comparação
de uma série de réplicas de fragmentos florestais de diferentes tamanhos e diferentes
intervalos de tempo de isolamento. Após todos esses anos de estudo com diversos grupos de
plantas e animais, segundo Desouza et al. (2001), a única afirmação generalizada que pode
ser feita é a de que nenhum processo demonstrado em campo tem sido válido para todos os
grupos taxonômicos. O relatório final do projeto Fragmentação de Ecossistemas: causas,
efeitos sobre a biodiversidade e recomendações de políticas públicas (Colli et al. 2005),
projeto do Ministério do Meio Ambiente (Brasil) que financiou 15 projetos em diferentes
ecossistemas brasileiros e com diferentes grupos taxonômicos, também apontou que as
generalizações feitas para as respostas da vegetação à fragmentação podem ser mais maléficas
do que benéficas, uma vez que não foi encontrado nenhum padrão entre elas (Colli et al.
2005). Isso é compreensível, afinal, tudo irá depender da espécie em questão e de suas
características biológicas e ecológicas, como seu tamanho, ciclo de vida e tempo de geração,
pois mesmo uma barreira aparentemente intransponível para uma espécie pode ser facilmente
transitável para outra.
1.1.3 Ressalvas ao Delineamento da Fragmentação
Algumas ressalvas a respeito da Teoria de Fragmentação de Habitats, seu delineamento
e limitações, serão apresentadas aqui, com o intuito de proporcionar ao leitor uma visão mais
crítica da Teoria.
Em relação à suposição de que fragmentos maiores seriam sempre um habitat de maior
valor ecológico do que fragmentos menores, Tscharntke et al. (2002) afirmam que, sob a
perspectiva de paisagens, fragmentos pequenos nem sempre são simplesmente uma
amostragem aleatória de fragmentos maiores. Aspectos abióticos de fragmentos de habitat,
como os relacionados à geologia e hidrologia, juntamente com a permeabilidade da matriz dos
fragmentos em questão, diferem numa escala geográfica. Ainda segundo Tscharntke et al.
15
(2002), usualmente um grupo de fragmentos pequenos ou médios apresentam habitats muito
melhores e uma heterogeneidade ambiental maior do que um grande e único fragmento; ou
seja, a combinação de espécies encontrada em fragmentos pequenos não é simplesmente uma
subamostragem das espécies encontradas em fragmentos grandes.
Outra pertinente ressalva é a da real natureza insular dos fragmentos. Alguns exemplos
já apresentados neste capítulo (Borgmann & Rodewald 2004, Harper et al. 2005), comprovam
a influência da matriz na dinâmica do fragmento, indicando que não seria adequado traçar um
paralelo entre a matriz oriunda de fragmentação terrestre e o oceano da Teoria da Biogeografia
de Ilhas. Essa indevida insularização também estaria comprometida devido à história
evolutiva das ilhas e dos fragmentos: ilhas são naturalmente isoladas, desde sua existência, e
por isso apresentam uma história evolutiva mais independente do que fragmentos terrestres
que se apresentavam interconectados e até interdependentes entre si e às outras unidades do
habitat original.
Segundo Haila (2002) e Fahrig (2003), além da natureza insular dos fragmentos
terrestres, todo o delineamento da Teoria da Fragmentação é questionável. Isso se daria
principalmente porque a fragmentação não existiria como um processo por si só, mas seria a
forma de reconhecermos quatro diferentes processos ecológicos concomitantes: a redução de
habitat, a diminuição do tamanho das manchas, o aumento do número de manchas de habitats
e o aumento do isolamento das manchas. O fato de não diferenciarmos esses processos seria
responsável em grande parte pela ausência de padrões gerais nos estudos de fragmentação.
1.1.4 Distúrbios Causadores da Fragmentação
Já vista a intensa alteração proporcionada pela fragmentação de habitats, resta-nos
compreender melhor quais são os distúrbios que a causam. Todas as atividades humanas
relacionadas à degradação ambiental são distúrbios potenciais à fragmentação: exploração
madeireira, expansão urbana e agropecuária, sistema viário, sistemas de infraestrutura como
rede de água, esgoto, gás e energia elétrica, dentre outras atividades humanas que causam
distúrbios no ambiente como, principalmente, o desflorestamento.
Entretanto, a ação antrópica não é determinante somente do início do processo de
fragmentação. Mesmo após a fragmentação, a ação antrópica continua, e a sucessão,
restauração e dinâmica da comunidade, segundo Pickett & Ostfeld (1995) e Pickett et al.
16
(1997) não são processos determinísticos, mas sim estocástico, sendo influenciados por
histórias específicas e fatores externos ao ecossistema. Logo, compreender estes processos e
seus principais fatores condicionantes é pré-requisito para o desenvolvimento de iniciativas
voltadas para conservação, manejo e restauração de ecossistemas (Dobson et. al. 1997, Ashton
et al. 2001).
Uma das constatações gerais do projeto Fragmentação de Ecossistemas: causas,
efeitos sobre a biodiversidade e recomendações de políticas públicas (Colli et al. 2005),
apresentado no ítem 1.1.3, foi o de que uma das principais pressões nos fragmentos após a
fragmentação está relacionada à prática inadequada na matriz, como a utilização de fogo e
agrotóxicos, que se alastram pelos fragmentos (Colli et al. 2005). Tscharntke et al. (2002)
também afirmam que a intensificação da produção agrícola, incluindo fertilização e aplicação
de pesticidas, comprometeu os campos com alta riqueza de espécies da Europa Central.
Segundo Rozza (2003) quanto mais longo e intensivo for o uso histórico da área (por ex:
produção agrícola manual x mecanizada, pastoreio leve x intensivo; cultivo sem utilização de
fogo x com utilização de fogo), e quanto maior o tamanho da área afetada, aumentando a
distância a ser superada por propágulos alóctones, menor será o potencial de regeneração
natural do ecossistema degradado e maior o tempo necessário para que ocorra sua restauração
(Westman 1985, Uhl et al. 1990, Finegan 1996, Cochrane & Schulze 1999, Aide et al. 2000,
Ashton et al. 2001).
Segundo Rozza (2003), as florestas tropicais encontram-se entre os principais
ecossistemas ameaçados pela ocupação humana. A ocupação humana tem a característica de
ser extremamente rápida e devastadora: segundo o sumário Mata Atlântica (MMA 2000), a
Mata Atlântica e os Campos Sulinos enfrentam grandes desafios, pois apesar de serem biomas
que apresentam altos índices de biodiversidade e de endemismo, encontram-se em situação
crítica de alteração de seus ecossistemas naturais: seus domínios abrigam 70% da população,
além das maiores cidades e os mais importantes pólos industriais do Brasil. O resultado dessa
concentração pode ser evidenciado, por exemplo, pelo fato de a Mata Atlântica estar reduzida
a 8% de sua cobertura original no país (MMA 2000). Em relação à evolução da cobertura
florestal do estado de São Paulo, o inventário florestal (São Paulo 2005) afirma que 81,8% do
território do estado era coberto por fitofisionomias florestais em 1500 (Figura 1), sendo que
em 2000 apenas 7,3% do território ainda possuia remanescentes dessa formação original
17
(Secretaria de Estado do Meio Ambiente http://www.ambiente.sp.gov.br/ppma/resbios1.htm
acesso em 25/01/2007).
O estado de São Paulo caracteriza-se pela paisagem fortemente modificada, dominada
por áreas agrícolas e urbanas, onde a vegetação remanescente encontra-se em sua maior parte
pulverizada em manchas isoladas. Os fragmentos localizados próximos a grandes municípios,
se não forem protegidos, manejados e fiscalizados intensamente, tendem a desaparecer por
completo, devido à maior pressão urbana e especulação imobiliária que vêem a receber.
Segundo Petenusci (2004), além da expansão urbana, a expansão da fronteira agrícola no
Brasil à partir da década de 1970, ocorrida sem um planejamento ambiental prévio,
principalmente através de incentivos dados pelo governo ao cultivo da cana-de-açúcar,
também acelerou a devastação das vegetações das margens dos rios ou de mananciais, devido
à proximidade da água e fertilidade elevada do solo, preservando-se apenas trechos de difícil
acesso, como depressões ou encostas íngremes (Rodrigues 1989; Rodrigues & Gandolfi 2000).
Fearnside
(2005)
relaciona
o
desflorestamento
na
Amazônia com fatores
macroeconômicos: segundo ele, em anos de retração econômica o Estado não teria verbas para
investir em projetos de rodovias e assentamentos na região Norte, e os grandes fazendeiros,
com maior facilidade em obter benefícios estatais e acompanhar as mudanças econômicas
como taxas, retornos financeiros e créditos agrícolas subsidiados pelo governo, não seriam
capazes de expandir a fronteira agropastoril. Como a concentração de terras no Brasil é
extremamente alta, esta retração econômica estaria diretamente relacionada à diminuição do
desflorestamento.
Thompson et al. (2002) afirmam que a união de informações históricas a respeito do
uso dos ecossistemas com informações ambientais, como solo e topografia, para compreender
o estado atual dos ecossistemas, tem sido uma abordagem muito bem sucedida para florestas
temperadas e boreais. Entretanto, há poucos estudos tropicais que sintetizem características
ambientais e o uso da terra para explicar padrões atuais (Thompson et al. 2002) e a história
tem sido frequentemente ignorada em pesquisas com florestas tropicais (Clark 1996,
Whitmore & Burslem 1998).
18
Figura 1
Reconstituição da evolução da cobertura florestal do estado de São Paulo realizada por Victor (1979).
Atentar à reconstituição de 2000, que foi projetada com as taxas de desflorestamento anteriores, não
correspondendo
à
realidade
dos
7,3%
atuais
(Secretaria
de
Estado
do
Meio
Ambiente
http://www.ambiente.sp.gov.br/ppma/resbios1.htm acesso em 25/01/2007)
Fonte: São Paulo 2005
19
20
1.2 A Expansão de Campinas e a Fragmentação de Habitats
Como um ser vivo, as cidades crescem à custa do que as rodeia.
O grande alimento das cidades é a terra, que,
tomada no seu imediato sentido de superfície limitada,
ganha o nome de terreno, no qual, feita esta operação lingüística,
passa a ser possível construir.
E enquanto nós vamos ali comprar o jornal,
o terreno desaparece, e em seu lugar surge o imóvel.
José Saramago 4
1.2.1 O Município de Campinas
O município de Campinas situa-se no interior do estado de São Paulo, a
aproximadamente 100 km da capital na direção noroeste, entre as latitudes 22º45 00
e
23º02 30 S e as longitudes de 46º50 00 e 47º15 00 W, com uma área de aproximadamente
887km2 (SEADE http://www.seade.sp.gov.br acesso em 20/11/2006).
Campinas localiza-se no entroncamento de grandes e importante rodovias estaduais,
como a Rodovia dos Bandeirantes (SP348), Rodovia Anhanguera (SP330), Rodovia D. Pedro
I (SP065) e a Rodovia Adhemar de Barros (SP340), e faz divisas com os municípios de
Jaguariúna (norte), Pedreira (nordeste), Morungaba (leste), Itatiba e Valinhos (sudeste),
Indaiatuba e Itupeva (sul/sudoeste), Monte Mor e Hortolândia (oeste) e Sumaré e Paulínia
(noroeste), apresentando extensa conurbação com os municípios de Vinhedo, Valinhos, Monte
Mor, Hortolândia, Sumaré, Nova Odessa, Americana, Santa Bárbara d Oeste e Paulínia. Hoje
Campinas constitui o centro da Região Metropolitana de Campinas (Figura 2),
intitucionalizada pela Lei Complementar Estadual nº 870/2000 e constituída por 19
municípios, que abriga uma população de mais de 5 milhões de habitantes, dos quais
aproximadamente 90% moram em áreas urbanas (Miranda 2002).
4
Saramago, J. 1986. A bagagem do viajante - As terras. 2ª Ed., Lisboa: Editorial Caminho. 244p.
21
Figura 2
O estado de São Paulo, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) e o município de Campinas.
Em destaque, a bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas.
22
Ab Saber (1977 apud Ab Saber 2003) situa Campinas no Domínio dos Mares de
Morros Florestados, característico por suas florestas tropicais biodiversas, dotadas de
diferentes biotas. Campinas encontra-se entre dois grandes compartimentos geomorfológicos:
o Planalto Atlântico, originário da província cristalina, e a Depressão Periférica, originária da
província sedimentar. Segundo Christofoletti & Federici (1972), a transição entre essas
províncias litológicas não é prontamente perceptível e a diferenciação entre as províncias
somente pode ser vista gradualmente em Campinas, o que corresponde a dizer que Campinas
apresenta um relevo que vai das formas mais suaves para as mais movimentadas. Em função
disso, o município apresenta altitudes que variam de 560-580m nos pontos mais baixos, junto
aos cursos dos rios Capivari e Atibaia, a 1030-1081m, na Serra das Cabras, extremo leste do
município (Frischenbruder 2001), estando sua sede a uma altitude de 680m.
Segundo Christofoletti & Federici (1972) o fato da Depressão Periférica caracterizar-se
por relevo pouco movimentado, colinoso, de vertentes suaves e declives que não fazem ângulo
de mais de 10º foi uma das razões que teria facilitado a circulação dos bandeirantes nessa área,
se comparada com o Planalto Atlântico: assim, foi essa a área que os bandeirantes
palmilharam ao norte, em busca das minas de Goiás, fato profundamente relacionado às
origens de Campinas.
De acordo com a classificação de Köppen, o clima do município de Campinas é do tipo
Cwa, ou clima mesotérmico com verões quentes e estação seca de inverno. Segundo dados do
Instituto Agronômico de Campinas (IAC), coletados entre 1890 e 1964, a temperatura média
no município é de 20,6ºC, variando de 16,6ºC nos meses de inverno a 22,8ºC no verão (IAC
apud Christofoletti & Federici 1972). Ortolani et al. (1995) apresentam Campinas dotada de
uma estação quente e chuvosa de outubro a março, com temperaturas médias de 22° a 24°C e
precipitação em torno de 1.057 mm; e uma estação seca de abril a setembro, com temperaturas
variando entre 18° e 22ºC e precipitação de cerca de 325 mm. Ainda por estes mesmos
autores, a umidade relativa média anual é de 72%, variando em torno de 65% e 77% nos
meses mais secos.
O território de Campinas está compreendido pela bacia hidrográfica do rio Capivari,
localizada na faixa sul, e a bacia do rio Atibaia, formadora do rio Piracicaba, na porção nortenordeste do município (Christofoletti & Federici 1972), ambas integrantes da bacia
hidrográfica do rio Tietê. O rio Atibaia é o grande rio do território municipal, pois corta o
23
município numa grande extensão na direção sudeste - norte, recebendo as águas do ribeirão
das Cabras, em Souzas e do ribeirão das Anhumas, em Paulínia (Christofoletti & Federici
1972).
Saint-Hilaire (1953) relata que a vegetação que cobria o município de Campinas no
início do século XIX era formada por um mosaico de formações constituído
predominantemente por florestas altas e densas, com grandes árvores de troncos retilíneos,
entremeadas de formações não florestais abertas e mais altas, onde predominavam árvores de
médio e grande porte, de troncos tortuosos e suberosos ou árvores esparsas de pequeno porte.
Christofoletti & Federici (1972) afirmam que a cobertura vegetal de Campinas era
originalmente constituída por florestas, cerrados e campos. Esses autores caracterizam as
florestas existentes que recobriam a maior porção das terras do município e estavam associada
com solos provenientes de rochas cristalinas ou intrusivas básicas, como Floresta Latifoliada
Perene; o cerrado como um tipo de vegetação menos densa que a floresta, dotado de arbustos e
pequenas árvores, e relacionado a solos arenosos; e os campos como uma formação que
ocupava áreas pequenas e descontínuas do município, com fisionomia de gramíneas e arvores
e arbustos esparsos (Figura 3).
Segundo Santin (1999), a partir de recobrimento e interligação das áreas com
fragmentos de formação semelhantes, as formações vegetais originalmente predominantes no
município eram (Figura 4):
Floresta Estacional Semidecidual (FES)
definida também como floresta
semidecídua de planalto, floresta latifoliada semicaducifolia, floresta tropical subcaducifolia e
floresta mesófila semidecídual e florestas ou matas de planalto (Leitão-Filho 1982, 1987).
Segundo IBGE (1991) o conceito ecológico deste tipo de vegetação está condicionado pela
dupla estacionalidade climática, uma tropical com época de intensas chuvas de verão, seguida
por estiagem acentuada, e outra subtropical sem período seco, mas com seca fisiológica. Em
Campinas, esta é a fisionomia predominante, formando um contínuo na região leste, onde as
diferentes condições de solo em função da geologia e relevo determinavam variações tanto na
estrutura como na composição florística desta vegetação. Este contínuo estendia-se para a
região noroeste, abrangendo grande parte do Distrito de Barão Geraldo, no qual havia uma
zona de transição para o cerrado, e também na região central da cidade. Esta formação
compreenderia três subgrupos: florestas de transição em áreas ecotonais, florestas de altitude
24
ou florestas montanas (acima de 800m), e florestas ciliares, localizadas ao longo dos cursos
d água (Santin 1999);
Vegetação Rupestre dos Lajedos Rochosos afloramentos restritos a rochedos, em
meio às florestas de altitude, com desenvolvimento de flora muito particular, composta por
número pequeno de espécies rupículas, de famílias específicas. Os lajedos rochosos
encontram-se cravados na região nordeste de Campinas (Santin 1999);
Florestas Higrófilas ou Paludosas (FP)
formações em áreas permanentemente
encharcadas, em Campinas representada por fragmentos muito pequenos e isolados. Segundo
a autora esta formação ocorreria tanto em locais específicos nas florestas estacionais
semideciduais quanto nos cerrados, restritos a áreas de nascente ou de planície de inundação e
em pontos específicos na beira de lagos. Em função da seletividade do ambiente, essas
florestas são naturalmente pequenas e disjuntas (Santin 1999);
Cerrados ou Savana (C)
vegetação tipicamente xeromórfica, esparsa, de porte
baixo, com árvores de troncos tortuosos, ocorrem em locais de solos mais pobres. Em
Campinas, essa formação que ocorria na região noroeste, em manchas mais ou menos
determinadas, das proximidades com a Rodovia Adhemar de Barros (SP340), passando pelo
bairro do Guará e indo até a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O cerrado
ocorria ainda no extremo oeste da região, na região centro-oeste, que incluía parte da Fazenda
Santa Elisa, pertencente ao IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e numa porção mais
central, entendendo-se desde parte da Fazenda Mato Dentro até o entroncamento das rodovias
D. Pedro I (SP 065) e Adhemar de Barros (SP340). Na região oeste e sul, os cerrados ocorriam
desde as proximidades do entroncamento das Rodovias Anhanguera (SP330) e Bandeirantes
(SP348), estendendo-se em direção ao bairro Campo Grande e ao Aeroporto Internacional de
Campinas, o Viracopos. Ainda segundo Santin (1999), existem apenas sete fragmentos de
cerrado em todo o município, o que corresponderia a irrisórios 3,3% da vegetação
remanescente;
Campinas
originariamente distribuídas em pequenas manchas, situadas no extremo
norte da região noroeste do município, próximas ao bairro Vale das Garças, na região oeste,
em área correspondente ao Jardim Santa Rosa, e na região sul, em faixa marginal ao córrego
da Brita e outras duas manchas. Esta formação foi considerada extinta no município por Santin
(1999).
25
Segundo diagnóstico detalhado da cobertura vegetal atual de Campinas, realizado por
Santin (1999), o município possui aproximadamente 2,55% de seu território cobertos por
vegetação nativa, o que compreende aproximadamente 2.033,6ha distribuídos em 197
fragmentos. Estes fragmentos encontram-se isolados e distantes entre si, apresentando
diferentes estados de conservação, predominando os estados muito a extremamente
perturbados (62%). Segundo Santin (1999), dos 2,55%, 2,42% da vegetação nativa
remanescente de Campinas é constituída pelas florestas estacionais semideciduais; 0,08%
pelos cerrados, e 0,05% pelas florestas paludosas. Esse valores corresponderiam,
respectivamente, a 1.927,22ha, 65,49ha e 40,89ha. O Inventário Florestal realizado pelo
Governo do Estado de São Paulo (São Paulo 2005) por sua vez, indica que os 2.294ha de
vegetação nativa remanescente estão distribuídos em 315 fragmentos, divididos nas seguintes
classes de tamanho: 266 seriam inferiores a 10ha, 34 à classe entre 10ha - 20ha, 10 à classe de
20ha
50ha, 3 à classe de 50ha
território do município.
26
100ha e apenas dois maiores que 200ha, perfazendo 2,6% do
Figura 3
Vegetação original do município de Campinas segundo Christofoletti & Federici (1972)
27
28
Figura 4 - Vegetação original do município de Campinas segundo Santin (1999)
29
30
1.2.2 Campinas e a Fragmentação de Habitats
O surgimento de Campinas está relacionado às expedições de bandeirantes saídos de
Piratininga em direção ao oeste paulista, rumo às minas de ouro e diamante de Goiás, Minas
Gerais e Mato Grosso (Santos 2002): assim como muitas outras cidades, Campinas nasceu de
pousos à beira do caminho dos Goiases. Segundo Pupo (1969) a estrada dos Goiases, vinda de
Mogi, seguia os caminhos mais favoráveis aos percursos a pé, passando pelo atual centro de
Campinas. Esta foi uma rota secundária e tardia do ciclo de mineração aberta em 1722 pelos
paulistas, que evitava as Minas Gerais, palco ainda de diversos conflitos remanescentes da
Guerra dos Emboabas (Badaró 1996) . Esta maior facilidade de trânsito corrobora a
observação de Christofoletti & Federici (1972) apresentada no item 1.2.1, de que o relevo da
região de Campinas teria favorecido a circulação dos bandeirantes nessa área, se comparada
com o Planalto Atlântico.
Segundo Santos (2002) o Caminho dos Goyazes teve importância na obra política de
osupação do território paulista: a fim de assegurar fronteiras, desenhou-se
um arco de
ocupação composto por cinco vilas paulistas (...) exatamente no centro localizava-se a
Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso de Jundiaí, a única
criada sobre a épica estrada goiana.
Pupo (1983) associa estes locais de descanso denominados Paragens das Campinas do
Mato Grosso , aos campos cerrados localizados entre as florestas virgens mais densas e altas.
Embora os pontos de pousadas fossem apenas um degrau para a exploração das minas mais
adiante, seu estabelecimento trouxe alterações aos recursos locais: construídos e mantidos com
abundantes recursos vindos das matas que cobriam a região, era comum o corte de madeiras
para serem utilizadas na construção de habitações ou como lenha. Como não havia como
transportá-las para o litoral, Serrão (2002) acredita que apenas a introdução da agricultura em
larga escala, inicialmente com o açúcar e depois com o café, tenha trazido um
desflorestamento mais intenso das florestas da região.
Com o declínio da mineração as expedições foram diminuindo e os pousos tiveram
alterados seus propósitos de descanso e reabastecimento, e passaram a estimular paradas
perenes. E foi assim que surgiu o Bairro do Mato Grosso das Campinas, bairro rural que
compunha a Vila de Jundiaí, que em 1745 era um ajuntamento de pequenas propriedades
agrícolas nas quais os chefes com suas famílias e poucos escravos cultivavam itens de
31
subsistência, principalmente milho, feijão e arroz (Badaró 1996), estando localizado na atual
bacia do ribeirão das Anhumas. Menos de 30 anos depois, em 1774, Francisco Barreto Leme
fundou a povoação de Campinas do Mato Grosso, mesmo ano em que a Igreja Matriz foi
construída, passando a denominar o arraial de Freguesia de Nossa Senhora da Conceição
(Campos Jr. 1952).
Após passar à Vila de São Carlos em 1797, Campinas tornou-se finalmente cidade sede
em 1842, e é atualmente uma maiores cidades do estado de São Paulo, com 887km2 de
extensão, aproximadamente 1.029.898 habitantes e um PIB per capita maior do que o PIB
médio do estado (SEADE http://www.seade.sp.gov.br acesso em 20/11/2006).
Entretanto, até chegarmos à situação de hoje, um longo caminho de histórias,
conquistas, poder, devastação das matas e exploração dos recursos e proteção e conservação
de áreas foi percorrido. Para compreendermos melhor a relação das fases históricas e de sua
influência na fragmentação da paisagem em Campinas, esta análise foi realizada através de
alguns eixos: os ciclos econômicos, como as principais práticas agrícolas de Campinas e sua
industrialização, e ideais e práticas urbanistas.
O Açúcar, o Café e a Indústria
Segundo fontes da Prefeitura Municipal de Campinas (Campinas 1991), a elevação de
Campinas à Freguesia e Bairro em 1745, devia-se já ao projeto de implantação de fazendas de
produção de açúcar, pois a elevação dos preços do açúcar na Europa justificava esta
modificação de atividades e hábitos (Badaró 1996). Fundada na monocultura de larga escala, a
cana de açúcar promoveu a reunião das pequenas propriedades rurais para o surgimento dos
latifúndios, os famosos engenhos. Segundo Petrone (1968 apud Semeghini 1988) de três
engenhos em 1775, Campinas passou a sediar 93, em 1836.
O cultivo da cana-de-açúcar era realizado da mesma maneira que a lavoura de
subsistência, com derrubada e queimada: a floresta primária era queimada e derrubada onde
ocorresse, pois recobria solos mais férteis; e a cana, plantada sobre as cinzas da vegetação, era
colhida após um ano e deixada a rebrotar por mais duas colheitas, para depois ser queimada e
replantada (Dean 1996).
O impacto da cana-de-açúcar foi intenso devido aos seus dois desdobramentos: o
primeiro, resultante da necessidade de área para produção, levou ao corte da floresta para
32
abrigar o plantio da cana e de outras culturas para alimentar os novos habitantes. O segundo
foi o corte da floresta para fornecer lenha na alimentação das caldeiras para a produção do
açúcar e da pinga (Dean 1996). Além disso, não podemos nos esquecer da necessidade de
pastos que suportassem o gado e os cavalos trazidos para a colônia, e que as madeiras para
construção das casas, móveis, lenha, carros-de-boi, ferramentas e moendas eram todas
extraídas das florestas vizinhas. Logo, os cultivos agrícolas, uma vez que estavam
relacionados ao aumento populacional e estabelecimento de núcleos habitacionais,
significavam um grande impacto direto em relação ao desflorestamento, devido à abertura de
áreas agrícolas e um impacto indireto em relação à exploração de madeiras devido à
infraestrutura necessária para manter os núcleos habitacionais. A monocultura da cana-deaçúcar permaneceu até meados do século XIX e, segundo Serrão (2002), atingiu seu auge na
região de Campinas em 1836, sendo que durante esse período a população campineira saltou
de 185 habitantes, em 1767, para 31.397 habitantes, em 1874.
Dean (1996) afirma que as exportações brasileiras de açúcar podem ter atingido em
média 16 mil toneladas por ano durante todo o século XVIII, aumentando talvez para 30 mil
toneladas em 1850, especulando que se os fazendeiros cultivassem seus campos por cerca de
20 anos, então a derrubada durante um século e meio, totalizaria 7500km2, dentre florestas
primárias, secundárias e áreas abertas naturais ou criadas pelos indígenas.
Segundo Christofoletti & Federici (1972), em Campinas, a cana-de-açúcar ocupou
originariamente a região oeste do município, localizada predominantemente na depressão
periférica que adentra até o sudoeste do estado de São Paulo. Com a introdução do café, a área
de plantio foi expandida além das áreas cristalinas, que originaram a terra roxa, localizadas a
leste e norte do município.
O uso do café na Europa generaliza-se entre 1800 e 1830, ano em que o Brasil se torna
o maior produtor mundial deste gênero. A produção do café para exportação torna-se
significativa em Campinas por volta de 1835, quando os preços internacionais, a menor força
de trabalho requerida e as geadas que se abateram sobre a província, comprometendo a
produtividade de açúcar, indicam o café como melhor investimento agrícola (Badaró 1996).
Embora em alguns lugares do mundo o café fosse cultivado na sombra, aqui no Brasil,
ao invés de se preservar o dossel nativo, a floresta inteira era destruída, derrubada e queimada,
talvez por ser a maneira mais barata de iniciar a produção (Dean 1996). Ab Sáber (2001)
33
afirma que durante o ciclo do café, fazendeiros e trabalhadores sabiam identificar
empiricamente os diferentes tipos de matas existentes nos planaltos interiores e através de
alguns componentes arbóreos, indicar fertilidade e adequações dos solos que serviam de
suporte ecológico a determinados tipos de mata. Ou seja, a expansão das propriedades
agrícolas não ocorria aleatoriamente, mas a partir da aptidão agrícola devido às características
do solo
espigões divisores e manchas de oxisolos roxos - e clima. A pressão inicial foi sobre
as florestas: nos cerrados iniciou-se bem posteriormente, por volta de 1970, porém de maneira
muito agressiva devido aos incentivos governamentais de produção do álcool (KotchetkoffHenriques 2003).
No início da década de 60 do século XIX, Campinas já era um dos principais
produtores de café da Província de São Paulo (Semeghini 1988) e em 1870, graças ao
desenvolvimento da agricultura cafeeira e da industrialização, era considerado o município
mais rico do Oeste paulista. Segundo Bittencourt (1990), foi aí que se deu a verdadeira
explosão urbana em Campinas, de 1870 a 1893, quando, em 23 anos, teriam sido construídas
2.237 casas, representando mais que o dobro do construído em 73 anos desde a
institucionalização da Vila de São Carlos.
Entretanto, como qualquer evento modifica a realidade mais do que se pode perceber
diretamente, o advento do café como gênero agrícola também contribuiu para o fortalecimento
de um importante fator no desenvolvimento da cidade: as linhas ferroviárias. Embora em 1840
o sistema viário regional já fosse considerado importante, e centralizasse a parte agrícola e o
transporte da parte mais importante do quadrilátero do açúcar (Semeghini 1988), o transporte
do café ainda era realizado por tropas de burros. Assim, as estradas de ferro, em implantação
desde 1865, foram a eficiente resposta dos fazendeiros às dificuldades de transporte do café
das lavouras, cada vez localizadas mais para o interior, até o porto de Santos (Badaró 1996).
Ab Sáber (2001) afirma que a seleção de eixos rodoviários se fez para a extensão progressiva
das pontas de trilhos em arcos e setores de rentabilidade agrária e urbana mais garantidas. A
construção da Estrada de Ferro Mogiana, partindo de Campinas em direção ao norte,
representa mais uma confirmação desse condicionamento natural exercido pelo relevo pouco
movimentado da Depressão Periférica: às trilhas indígenas seguiram-se os caminhos dos
bandeirantes e tropeiros, aos quais sucederam as modernas rodovias e ferrovias (Christofoletti
& Federici 1972).
34
Além dessa revolução no transporte e comunicação impulsionar o crescimento urbano
e estimular o aumento e fluxo populacional e o setor de comércio de Campinas, o que por si só
já podem ser traduzidos como um desflorestamento de maior impacto e uma maior exploração
de recursos, as próprias linhas ferroviárias trouxeram uma nova necessidade: o abastecimento
dos trens.
O abastecimento dos trens foi suprido de duas formas principais: o corte das florestas e
o plantio de Pinus spp. e Eucaliptus spp., espécies arbóreas exóticas amplamente difundidas
pelo país a partir de então. Dean (1996) afirma que, embora a Estrada de Ferro Paulista e o
Serviço Florestal do Estado criassem suas próprias reservas de lenha de Eucaliptus spp., essa
produção era muito inferior à produção de lenha necessária para manter o abastecimento dos
trens. A Companhia Mogiana, atuante em Campinas, também estabeleceu reservas para
fornecimento de madeira, mas nenhuma muito grande (Dean 1996).
Em 1950, logo que as locomotivas elétricas e a diesel começaram a substituir a frota a
vapor, as ferrovias paulistas consumiam anualmente cerca de 12,4 milhões de m3 de lenha, o
equivalente a aproximadamente 620km2 de floresta (Souza 1947 apud Dean 1996).
Com o acúmulo de capital oriundo do café e toda a infraestrutura e desenvolvimento
das cidades e do comércio, o fomento do setor industrial ocorreu rapidamente. Segundo
Badaró (1996) o surgimento das primeiras indústrias em Campinas coincidiu com a expansão
da lavoura cafeeira e com a conseqüente vinda dos primeiros imigrantes europeus, valendo-se
da experiência da colônia alemã. Segundo Pupo (1983), as primeiras indústrias de Campinas
foram as de chapéus, fábricas de cerveja e licor, serralherias e tijolos. A crise de 1929,
produzindo grande abalo financeiro nos setores vinculados ao café, deu novo impulso à
industrialização no Brasil e Campinas tornou-se uma cidade de economia predominantemente
industrial (Badaró 1996).
Como o Brasil estreou seu ciclo industrial sem estoque de combustíveis fósseis e seu
potencial hidrelétrico só começou a ser explorado na virada do século, a indústria brasileira
continuou a depender primordialmente de seu enorme estoque de recursos vegetais nativos
para combustível (Dean 1987 apud Dean 1996).
Na década de 1860 em Campinas, os bairro de Santa Cruz e Bonfim alojaram
fundições e pequenas indústrias, na maioria voltadas para a produção cafeeira e para um
incipiente mercado urbano (Badaró 1996). Segundo um ex diretor da Diretoria do Meio
35
Ambiente da Secretaria Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio
Ambiente de Campinas (SEPLAMA), houve concentração das indústrias mais poluidoras na
bacia do ribeirão Piçarrão e das vilas operárias - a Vila Industrial, o Parque Industrial, o São
Bernardo - do outro lado da cidade. Assim como a estrada de ferro já reforçara a tendência
industrial e operária dos bairros Ponte Preta e Bonfim, ela também determinou o surgimento
da Vila Industrial. Isso fez com que os bairros do Cambuí e do Guanabara ficassem reservados
com diversas chácaras e pastagens (Badaró 1996), o que, posteriormente, determinou estes
bairros como região fértil para o desenvolvimento da atividade imobiliária. Isto contribuiu
para a conservação de alguns fragmentos que posteriormente tomaram a forma de bosques
municipais, fato que será retomado durante o histórico dos fragmentos.
Dentre os macrodeterminantes fundamentais à atual configuração socio-espacial de
Campinas listados por Hogan et al. (2001), um deles é a construção da rede rodo-ferroviária
ligando as principais regiões econômicas do estado de São Paulo ao resto do país,
consolidando e intensificando a economia regional ao longo desses corredores. A localização
privilegiada de Campinas no estado teria sido um fator importante para a sua configuração,
como ponto de conexão entre várias vias de transporte.
Essas vias de transporte que cruzam o município tornaram-se vetores determinantes do
valor e do uso da terra. Outros dois macrodeterminantes são: as decisões sobre a localização
dos investimentos públicos e a concentração da população na região de Campinas, na bacia do
Rio Piracicaba. Este fator é visto como resultado da especulação imobiliária
interesses políticos locais
associada aos
e dinamismo do crescimento do pólo de Campinas atraindo a
população para a parte mais comprometida da bacia e acentuando os problemas hídricos. A ele
uniu-se o fato de, a partir de 1922, os terrenos municipais estarem já escassos, fato que abriu o
mercado para a constituição de empresas de loteamentos como protagonistas do novo desenho
da cidade (Badaró 1996). Já a localização dos investimentos públicos resultou em uma
distribuição horizontal e descontinuada da malha residencial. A expansão dos serviços
públicos em direção às áreas ocupadas acabou valorizando os vazios urbanos intermediários,
resultando numa distribuição descontínua e desigual de serviços públicos.
Serrão (2002) afirma que durante a primeira metade do século XX, os proprietários de
terra em Campinas eram obrigados por lei a manter 10% da área total de sua propriedade com
36
cobertura vegetal, entretanto, com a fragmentação das propriedades, cedendo à pressão da
expansão da urbanização, essa área acabava sendo diminuída (Lapa 1996).
A partir de então, desde a década de 40, a mancha urbana de Campinas vem crescendo
significativamente. Também segundo Bernardo (2002), a infra-estrutura e localização da
cidade tiveram importante papel neste crescimento: o Aeroporto de Viracopos, as linhas
férreas e rodovias, além dos sistemas estruturais urbanos instalados na periferia da cidade
(água, luz, esgotos e galerias) foram atrativos para instalação da indústria e crescimento
desordenado e desconectado da mancha urbana.
Muitos dos vazios urbanos gerados por esse crescimento desordenado localizam-se na
bacia do ribeirão das Anhumas, que tem sofrido com uma veemente e contínua pressão com as
propostas de alteração do perímetro da cidade, o que permitiria a intensificação do loteamento
e impermeabilização do solo da região, devido ao valor imobiliário que atingiram atualmente.
Segundo Carvalho et al. (2006), em 1981 foram destacadas áreas das fazendas Anhumas,
Argentina e Pau D Alho, localizadas na região da Rodovia Adhemar de Barros (SP340),
quando foi aprovada a Lei de Expansão Urbana do Município (1981). Desde então esta área
foi destinada para instituições de alta tecnologia, surgindo empresas estatais e particulares, e a
área para a CIATEC (Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Tecnologia de Campinas).
Restaram, então, algumas poucas pequenas propriedades agrícolas produtivas, esmagadas
pelo progresso . A urbanização intensa, causando a substituição de áreas vegetadas por
pavimentação e impermeabilização da superfície do solo, aliada à destruição da vegetação
ciliar e ao assoreamento dos corpos de água, são fatores que contribuem para intensificar os
impactos das freqüentes inundações que ocorrem no município (FECAMP 1994).
Ideais e Práticas Urbanistas
Conforme já demonstrado, os valores e práticas sócio econômicos são grandes
definidores da fragmentação, orientando tanto o desflorestamento e a exploração de recursos
como a localização, tamanho e condições dos fragmentos. Serrão (2002) afirma que na
maioria das propriedades rurais em Campinas, uma parte da mata era poupada, provavelmente,
por causa da dificuldade de eliminá-la, quer devido à sua densidade, quer devido à declividade
do terreno, ou para garantir constante suprimento de madeiras para as atividades diárias. Além
disso, elas também eram vistas como as próximas áreas destinadas ao cultivo de novos pés de
37
café (Bacellar 1996). Monbeig (1984) atribui a sobrevivência de alguns fragmentos de mata
em meio a plantações à questão jurídica de títulos de propriedade de terra. Assim, ao
manterem-se áreas cobertas por florestas, possíveis dúvidas sobre divisas geográficas não
poderiam ser verificadas. Uma medida que favorecia o proprietário, pois este acabava ficando
com toda a área que, mesmo sendo coberta por mata, poderia ser posteriormente explorada ou
apenas suprimida, dando lugar para novos plantios.
Todavia, algumas outras forças também contribuem para essa orientação. Neste item,
serão ressaltadas as contribuições dos ideais e práticas urbanistas que atuaram na cidade de
Campinas, tanto devido à tradição do ordenamento urbano e planejamento por questões
estéticas, quanto por saneamento, no fim do século XIX.
A partir de 1889, três surtos consecutivos de febre amarela assolaram a cidade de
Campinas, interrompendo a longa fase de prosperidade que a colocara como principal força
econômica da província (Badaró 1996): a população sofreu enorme queda demográfica, tanto
devido aos falecimentos quanto ao êxodo oriundo do horror à peste. Segundo Bergó (1944), de
20.000 habitantes em 1888, a população passou, em 1897, para 5.000 habitantes.
A obra Du Climat et des Maladies du Brèsil (1844), do higienista francês Xavier
Sigaud, segundo Ferreira (1999) é considerada uma síntese do pensamento higienista da
primeira metade do século XIX: as chamadas doenças tropicais são questão obrigatória da
saúde pública brasileira. Entretanto, mesmo partilhando da crença de que a implementação de
medidas higiênicas pudesse produzir melhorias na qualidade de vida nas cidades, Sigaud
advertia que tais ações nada poderiam contra os fatores patogênicos de ordem climática. Ou
seja, segundo Silva (2005), a idéia era de que certas condições ambientais alteradas
propiciavam o aumento da concentração de miasmas e, conseqüentemente, a corrupção do ar
atmosférico, e tanto a febre amarela como o cólera eram importantes personagens desta
discussão. Assim, embora a febre amarela possa ser relacionada à insalubridade da cidade,
deficiente estrutura de saneamento e coleta de
lixo, ela foi rapidamente associada à
abundância de áreas úmidas.
As medidas saneadoras são inflingidas sobre a cidade com tamanho ímpeto que deixam
cicatrizes tão profundas quanto a devastação causada pela febre amarela. Uma ordinária forma
de lidar com o desconhecido que nos atemoriza: a destruição por completo do que pode ser a
origem de nosso mal. Encontramos um bom exemplo desta herança em Hollanda (1948),
38
reportando-nos uma citação do Diário de Navegação de Lopes de Souza, sobre o
comportamento de uma expedição portuguesa na costa brasileira:
Martim Afonso de Souza chegou então a uma ilha coberta de ninhos de fragatas e
mergulhões. Ordenou que se lançasse um esquife para que ele e alguns de seus oficiais
pudessem aportar e caçar. Mataram inúmeras aves, com as quais encheram o esquife.
Satisfeitos, arremeteram de volta para os navios, mas então sentiram, soprando sobre eles da
crista da ilha, um súbito vento quente, que parecia nada além de fogo . Notando que as
bandeiras no mastro principal estavam ondulando em uma direção contrária, foram tomados
pelo temor de que o vento pernicioso pudesse infligir-lhes uma febre. Assim relatou o
cronista: Tão logo devolvi o capitão ao seu navio, voltei à ilha e ateei fogo nela .
Em Campinas, as medidas para a erradicação da epidemia, levaram à implantação dos
serviços de água e esgoto na cidade, cogitados desde 1880 e inaugurados em 1891 e 1892,
respectivamente (Santos Filho & Novaes 1996). Todavia, mesmo assim a febre amarela
permanecera sob forma endêmica e epidêmica e só viria a desaparecer depois das obras de
saneamento efetuadas na cidade sob a supervisão do engenheiro Saturnino Rodrigues de Brito
(Santos 1999), que realizou canalização e retificação de cursos d àgua, principalmente os que
passavam no centro da cidade, como o córrego do Proença, Tanquinho e o córrego do Serafim,
paralelo à avenida Orozimbo Maia, em
frente à atual prefeitura. Além disso, eliminou
também áreas das várzeas e alagadiças dos brejos, determinando seu aterramento, drenagem
das nascentes, canalização dos cursos d águas e a destruição das matas ciliares (Servilha
2003), apresentando-se também como um impacto aos fragmentos ainda localizados na área
central da cidade.
Segundo Bittencourt (1990) a epidemia introduz na cidade uma profunda intervenção
na urbanização do período, e é partir dela que aumentam os investimentos em água potável,
esgotos, captação de águas pluviais, calçamento de ruas, drenagem de alagadiços, nomeação
de fiscais de higiene e elaboração do primeiro Código de Obras da cidade (1895), que legisla
sobre o controle das condições sanitárias das novas construções (Frischenbruder 2001).
A presença dos jardins em Campinas também está relacionada às questões higienistas.
A prática do jardim no Brasil teve início no final do século XVIII, com a construção do
Passeio Público do Rio de Janeiro, em 1783, persistindo durante todo o século XIX (Lima
2000). Os jardins surgem como elemento necessário no novo modelo de cidade: um elemento
39
de caráter estético e higiênico, que promova contato salubre da população com a natureza, e
desenvolva atividades de lazer e cultura (Lima 2000), importante contribuição ao sentido de
identidade campineira necessário para a reconstrução da cidade após a destruição e estagnação
conseqüente à epidemia.
No contexto da política sanitarista ou urbanismo sanitarista , de caráter técnico e
cientificista, os jardins se tornam um elemento saneador de espaços degradados, em resposta a
uma problemática urbana de higiene e saúde (Lima 2000). Combinando a questão técnica de
drenagem natural do solo ao embelezamento urbano, coordenados à dinâmica maior da cidade,
os jardins implantados constróem a imagem citadina da salubridade, simbolizada pelo
elemento verde como purificador dos ares, pela água corrente dos chafarizes em contraponto
às águas estagnadas, pelos canais arborizados como objeto de passeio e deleite (Lima 2000). A
importância dos jardins, consolidada através das reformas no Passeio Público, no Largo do
Rosário e no Largo do Pará, entre tantos outros, desencadeou uma maior atenção a outro
importante local de Campinas, na época ainda uma propriedade particular: o Bosque dos
Jequitibás (vide item 2.3.2 para maiores detalhes).
Do final do século XIX e início do século XX, influenciados por ideais culturais
europeus, principalmente franceses e ingleses (Petenusci 2003), é retirado o foco dos pequenos
jardins e introduzido o conceito de parques (Lima 2000). Segundo Macedo & Sakata (2002),
os parques urbanos são concebidos sob os parâmetros ecléticos e possuem uma configuração
morfológica estruturada por grandes maciços arbóreos, extensos relvados e águas sinuosas, à
semelhança dos parques europeus, sendo os espaços de lazer contemplativos por excelência,
não apenas no que se refere a observar a natureza, mas principalmente ao ato de ver e ser
visto. O parque possui então caminhos sinuosos que conduzem a pontos focais ou recantos que
abrigam elementos pitorescos; a água está sempre presente, em fontes, chafarizes, lagos ou
espelhos d água, e o uso da vegetação é bastante elaborado, combinando espécies de origem
européia e nativa (Petenusci 2003).
É nesse momento que são criados alguns dos mais antigos parques urbanos de
Campinas: o Bosque dos Italianos e o Bosque dos Alemães (vide item 2.3.2 para maiores
detalhes). Para a população, o conceito de bosques ficou incorporado na cultura social como
uma opção de urbanização das áreas verdes, estimulando a criação e a manutenção de
remanescentes de vegetação nativa dentro da cidade (Torres et al. 2003). Delimitados a partir
40
de fragmentos de vegetação nativa ele passam a simbolizar a institucionalização da paisagem
selvagem; ou a dominação da natureza pela cultura .
Se a derrubada de florestas e o extermínio de qualquer desconhecido mal que o meio
natural possa causar, como por exemplo a possibilidade da febre amarela, torna a paisagem
mais segura, a reinserção da natureza através dos parques, segundo Serrão (2002), é orientada
conforme critérios estabelecidos pelo conhecimento científico e apreciação estética humana,
que garantem que nessa reconstrução o resultado seja uma floresta que pode ser controlada e
monitorada, isenta de riscos para a população: o ser humano escolhe quais serão seus
habitantes e os governa.
É importante ressaltar que nas últimas décadas, no Brasil, os mecanismos legais de
proteção aos recursos naturais e ao dito meio ambiente diversificaram-se bastante e a política
de fiscalização também tornou-se mais exigente. Segundo Machado (2002), a constituição de
1988 insere no Brasil o tema meio ambiente em sua concepção unitária, postulando o direito
dos cidadãos a um ambiente ecologicamente equilibrado, conceituando-o como bem de uso
comum do povo. Assim, foram criadas diversas normas de restrição de uso e degradação que
contribuíram para a proteção de muitos fragmentos.
41
42
CAPÍTULO II
OS FRAGMENTOS DA BACIA DO RIBEIRÃO DAS ANHUMAS
Este segundo capítulo compreende mais especificamente o trabalho realizado e os
resultados obtidos nesta dissertação. Apresento primeiramente aspectos da formação vegetal,
geografia e hidrografia da bacia do ribeirão das Anhumas, a fim de situar o leitor na área de
estudo. Posteriormente, na segunda seção, apresento a metodologia utilizada nesta dissertação,
a obtenção e tratamento das imagens em sistemas de informações geográficas (SIG); as visitas
realizadas aos fragmentos; as entrevistas e a pesquisa realizada em acervos de documentos
municipais e institucionais, e em outras fontes bibliográficas.
A terceira parte deste capítulo compreende os resultados e a discussão oriundos de todo
este processo, e foi subdividida da seguinte forma: evolução dos fragmentos e de seu entorno,
dentre outros aspectos importantes relacionados com os resultados obtidos do SIG; síntese do
histórico dos fragmentos, com considerações a respeito das pressões e manejo de cada um
deles; e por último, uma análise conjunta a partir de eixos estabelecidos sobre algumas
características dos fragmentos.
43
2.1 A Bacia do Ribeirão das Anhumas
A bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas está circunscrita pelas coordenadas
UTM, Zona 23, de 7.462.827 a 7.482.500 N e de 282.500 a 296.870 E, correspondendo a uma
superfície de 15.011,26ha, aproximadamente 150 km2 (Figura 1). Esta bacia está
majoritariamente inserida no município de Campinas (SP), cortando-o no sentido sul-norte e
constitui-se na maior bacia do município dentre as contribuintes do rio Atibaia. Em termos de
gerenciamento de recursos hídricos, a área localiza-se dentro da Unidade de Gerenciamento
(UGHI) 5, composta das bacias hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O
ribeirão Anhumas é considerado o maior curso de água integralmente campineiro, pois suas
cabeceiras encontram-se na própria área urbana de Campinas (Christofoletti & Federici 1972).
As nascentes do ribeirão das Anhumas estão em áreas altamente urbanizadas, devido à
tendência herdada do período colonial, em que as ocupações e explorações territoriais eram
feitas margeando rios, o que fez com que os grandes centros urbanos brasileiros nascessem e
se expandissem ao longo destes (Campinas 1995). Uma pequena parte da bacia encontra-se no
município de Paulínia (SP), onde o ribeirão desemboca no rio Atibaia.
Aproximadamente 46% da área da bacia são considerados urbanizados (Briguenti
2005), havendo muita pressão em toda sua extensão, que compreende desde o centro histórico
de fundação da cidade, até trechos de áreas rurais e áreas de uso rural dentro do perímetro
urbano, passando por áreas de recente urbanização, como o distrito de Barão Geraldo.
Segundo Gomes et al. (2004) e Coelho et al. (2006) os solos da bacia do ribeirão das
Anhumas podem ser caracterizados em cinco das ordens do Sistema Brasileiro de
Classificação de Solos (EMBRAPA 1999): latossolos, argissolos, gleissolos, nitossolos e
neossolos. Latossolos e argissolos ocupam proporções equivalentes caracterizando mais de
90% da bacia: enquanto estes predominam no sul e leste da bacia, os latossolos predominam
no norte e oeste. Gleissolos ocorrem nas restritas planícies aluvionais, que têm maiores
extensões nos trechos mais a jusante (mais ao norte da bacia). Nitossolos e Neossolos ocorrem
de maneira restrita, em associações com outras classes de solo.
A região da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas, conforme o Instituto
Geológico (1993), está a oeste sobre aluviões do período quaternário, diabásios de idade
jurássico-cretácea que ocorrem sob a forma de sills, gnaisses do período proterozóico médio
(complexo Itapira), arenitos e ritmitos compostos de siltitos, argilitos e arenitos finos que
44
constituem áreas restritas do Subgrupo Itararé dentro do domínio de rochas metamórficas do
complexo Itapira, e hornblenda-biotita granitos porfiríticos da suite granítica Jaguariúna. A
leste da bacia encontram-se diabásios de idade jurássico-cretácea, aluviões do período
quaternário, gnaisses do período proterozóico médio (complexo Itapira) e protomilonito de
idade proterozóica superior/cambro-ordoviciana; e, ao sul da bacia, há aluviões do período
quaternário, gnaisses bandados e xistosos do proterozóico médio (complexo Itapira).
A bacia do ribeirão das Anhumas situa-se em área de transição entre o Planalto
Atlântico e a Depressão Periférica Paulista (Instituto Geológico 1993). A norte e nordeste da
bacia ocorre, predominantemente, o relevo de colinas amplas, com inclinação em direção ao
rio Atibaia. A leste encontram-se colinas médias e amplas; e a oeste colinas pequenas e
morrotes; além de colinas e morrotes que apresentam blocos rochosos esparsos por todo o
terreno.
Características Politico
Administrativas
O Plano Diretor do Município de Campinas (Campinas 1995) dividiu o município em 7
macrozonas de acordo com suas particularidades e propensões com o intuito do planejamento
municipal. De acordo com essa divisão, a bacia localiza-se predominantemente nas
Macrozonas 2, 3 e 4, respectivamente classificadas como área com restrição à urbanização,
área de urbanização controlada do norte e área de urbanização consolidada. A porção da bacia
classificada como Macrozona 2, abrangência bem mais reduzida do que as demais, é uma
região predominantemente rural, localizada nas proximidades da Rodovia Adhemar de Barros
(SP340), que liga Campinas a Mogi Mirim. Mesmo as áreas localizadas no perímetro urbano
estão circundadas pela zona rural, distante das áreas urbanas consolidadas e, segundo o Plano
Diretor, devem ser mantidas as características rurais.
Na Macrozona 3 encontra-se a região do distrito de Barão Geraldo e da Rodovia D.
Pedro I (SP065). Esta é a região onde prevalece o crescimento nas áreas tecnológica e
industrial, situando-se importantes hospitais e centros de saúde, a Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) e a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp), grandes
instituições comerciais atacadistas da região (CEASA
Central de Abastecimento Agrícola
S/A) e instituições de pesquisa e tecnologia (Pólo I e II da CIATEC). As áreas urbanas aqui
existentes encontram-se geralmente isoladas, conectando-se apenas pelos eixos rodoviários
45
(Campinas 1995). Esse isolamento relativo é facilitado pelo fato desta região deter a maior
área de glebas não parceladas dentro do perímetro urbano do município (Campinas 1995),
predominando os estabelecimentos rurais, como fazendas e chácaras.
Por sua vez, a Macrozona 4 corresponde a 50% da área da bacia e compreende área de
urbanização consolidada, onde se inclui a região central da cidade e, segundo o Plano Diretor,
concentra o maior número de atividades urbanas típicas como comércios e serviços,
abrangendo toda a área central e bairros residenciais de classes média e alta, caracterizada por
ser a região mais verticalizada da cidade. Devido à presença de diversos núcleos de baixa
renda e favelas nas áreas de entorno de córregos, canais e rios, apresenta também sérios
problemas de enchentes (FECAMP 1994).
A infra estrutura viária toma um aspecto muito característico na bacia: suas principais
vias - Rodovia D. Pedro I (SP065), Rodovia Adhemar de Barros (SP340), Rodovia General
Milton Tavares de Lima (SP332), Rodovia Heitor Penteado e Estrada da Rhodia, via que
atravessa o distrito de Barão Geraldo levando até a indústria da Rhodia, às margens do rio
Atibaia- formam um sistema complexo muito competente no sentido de fomentar o
crescimento de serviços, escoamento de produtos e comunicação e mobilidade de pessoas.
Segundos dados da SANASA (1992 apud Sevá Filho 2001) e do DAEE (1990 apud
Sevá Filho 2001), o ribeirão das Anhumas deságua no rio Atibaia trazendo cerca de 40% dos
esgotos não tratados de Campinas. Sevá Filho (2001), afirma que o ribeirão das Anhumas é
um dos rios mais poluídos do país, pelo fato de atravessar quase metade da área urbana de
Campinas e de trazer também quase metade do esgoto da cidade (o equivalente a mais de
400.000 habitantes), além das descargas de algumas indústrias e serviços com grande volume
de águas pluviais e esgotos, como shoppings, grandes lojas, clubes, estacionamentos, garagens
e oficinas. Na época da elaboração desta dissertação encontrava-se em andamento a
construção da ETE Anhumas, próxima à Rodovia D. Pedro I, cuja ativação somará ao
município 62% de esgoto tratado.
Durante a etapa final desta dissertação, a revisão do Plano Diretor do Município
Campinas estava em andamento, pois de acordo com o Estatuto da Cidade, todo município
com mais de 20 mil habitantes, sede de Região Metropolitana e que não tenha seu Plano
Diretor, ou o tenha aprovado há mais de 10 anos teria que elaborar novo Plano ou revisar o
existente (Campinas 2006). Assim, como a realidade de Campinas corresponde a todos esses
46
requisitos, foi necessária a revisão do Plano, sua adequação à situação atual da cidade e às
metas desejadas para os próximos anos. Assim, as informações apresentadas com base no
Plano Diretor original (Campinas 1995) podem, em breve, ficar defasadas.
O Projeto Anhumas
O projeto Recuperação Ambiental, participação e poder público: uma experiência em
Campinas , mais conhecido como Projeto Anhumas, cujo relatório final está disponível no
sítio www.iac.sp.gov.br/projetoanhumas, foi um projeto temático na área de políticas públicas
(Fapesp no 01/02952-1), realizado com a participação de diversas instituições de ensino,
pesquisa e da administração municipal de Campinas. Este projeto, iniciado em 2003, teve por
objetivo o detalhamento do uso e ocupação das terras na bacia do ribeirão das Anhumas e o
aprofundamento do diagnóstico ambiental e sócio-econômico participativo, a fim de dar
suporte a planejamentos de melhoria ambiental e implementação de políticas públicas, com o
objetivo de conservar e/ou recuperar o ambiente e integrar a população.
Foi a partir do conhecimento do Projeto Anhumas, que vinha de encontro com meus
anseios e questionamentos, que se originou esta dissertação. Como nos identificamos e
identificamos a paisagem atual a partir de nossa história e valores, e como concebemos as
condições deste presente e as trabalhamos para tanger o futuro desejado? É instigante avistar
diariamente alguns fragmentos incrustrados em meio à pressa e valores do dia-a-dia e notar
como é desarpecebida sua importância na participação dos processos ecológicos, como
exemplares de biodiversidade e atenuantes da artificialidade dos ambientes urbanos.
Além disso, como elementos da paisagem pode-se atribuir a eles grande importância
social e histórica, que certamente influencia as pressões, proteção e o manejo desses
fragmentos. Os lugares, segundo Leite (2004), podem ser tomados como uma demarcação
física ou simbólica no espaço, cujos usos os qualificam e lhes atribuem sentidos diferenciados,
orientando ações sociais e sendo por estas delimitados. Sejam física ou simbolicamente
demarcados, essas demarcações são construídas socialmente de acordo com pressupostos,
valores e princípios da época de sua formação. Vinha-me, então, a questão que norteou esta
dissertação: se, conforme nos traz Santos (2002), o espaço apropriado e consumido representa
o resultado concreto do embate de forças politicamente contrapostas e onipresentes, tendo
como pano de fundo a disputa da terra, de que forma esta disputa e a sucessão de diferentes
47
ciclos do crescimento econômico teriam contribuído para a constituição dos fragmentos
remanescentes atuais? O intuito inicial era abranger todos os fragmentos de Campinas, não
privilegiando o recorte por bacia. Entretanto, esta meta foi se tornando cada vez mais
impossível: se o tempo de um mestrado já é limitador, este o foi ainda mais, tanto devido ao
meu extraordinário percurso, como às dificuldades de acesso e comunicação com as diversas
áreas da Prefeitura Municipal de Campinas.
Assim sendo, os objetivos específicos desta dissertação foram:
Identificar quais são os fragmentos atuais da bacia e acompanhar sua alteração de
tamanho através da interpretação de fotos aéreas multitemporais (1962, 1972, 2002)
e saídas a campo;
Apreender as dimensões dos processos que contribuíram para a fragmentação da
vegetação, analisando o histórico do município e interpretando o uso do solo na bacia
a partir das fotos aéreas multitemporais (1962, 1972, 2002);
Identificar o contexto municipal dos fragmentos e como as diferentes conjunturas
influenciam cada um deles. Há diferença entre a posse pública ou privada dos
fragmentos? De que forma as políticas municipais ambientais atuam na conservação
e manejo dos fragmentos?
Após inventariar os fragmentos, sua evolução e contexto, compreender de que forma
as diretrizes da Teoria da Fragmentação de Habitats podem ser aplicadas na bacia
hidrográfica do ribeirão das Anhumas de modo a propiciar uma paisagem
ecologicamente mais estável e conectada.
2.2 Metodologia
A metodologia aplicada nesta dissertação foi estruturada em três eixos principais: no
primeiro, foi utilizada a combinação de fotointerpretação de imagens multitemporais (1962,
1972, 2002) com dados de um levantamento de fragmentos remanescentes realizado
anteriormente em Campinas e a atualização e conferência destas informações, através de
saídas a campo. No segundo eixo, foram realizadas entrevistas com pessoas relacionadas
diretamente aos fragmentos ou à questão ambiental do município e, por fim, no terceiro eixo
foi realizada extensa pesquisa bibliográfica e documental. Assim, buscou-se inventariar os
48
fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, compreender de que forma deu-se sua
evolução, quais os fatores que contribuíram na dinâmica de cada fragmento e como estes ou
outros fatores contribuem para o manejo, preservação e pressões em cada um dos fragmentos.
2.2.1 Evolução dos Fragmentos da Bacia do Ribeirão das Anhumas
Os Sistemas de Informações Geográficas (SIG s) são conjuntos de ferramentas
utilizadas em estudos ambientais que, segundo Câmara (1995), possibilitam a coleta,
armazenamento, verificação, integração, manipulação, análise, modelagem e visualização de
dados referenciados. A utilização de aerofotos e SIG para medir magnitude, ritmo e padrão das
alterações no uso e cobertura da superfície terrestre, tem se tornado recurso cada vez mais
frequente e dotado de possibilidades antes inexistentes em estudos ambientais. Entretanto,
embora esta ferramenta apresente-se adequada para a obtenção de dados quantitativos com
precisão, no caso dos fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, é restrita no que concerne
à análise qualitativa dos mesmos, como por exemplo sua estrutura e composição. Por isso,
para atingir os objetivos dessa dissertação e melhor compreender os aspectos sociais que
interferem no processo de fragmentação, fez-se necessária, inicialmente, a integração dos
dados advindos de SIG com o mapeamento já existente da vegetação remanescente, realizado
por Santin (1999), e posteriormente o resultado desta combinação foi conferido e atualizado
através de saídas a campo.
Os mosaicos utilizados nesta dissertação, bem como a leitura de usos e ocupações das
terras são parte dos resultados oriundos do Projeto Anhumas e foram produzidos no Centro de
Pesquisa e Desenvolvimento de Solos e Recursos Ambientais do Instituto Agronômico de
Campinas (IAC) (Adami et al. 2006). Aos dados obtidos a partir da fotointerpretação foram
integrados os resultados de Santin (1999), que realizou o mapeamento da vegetação de
Campinas, levantamento florístico arbóreo expedito, caracterização fisionômica das formações
e a diagnose dos fragmentos, com estimativa dos estados de conservação. Todavia, mesmo
realizando a integração de ambas as fontes também se fizeram necessárias idas a campo para a
conferência e atualização das informações.
49
Fotointerpretação
Os mosaicos de 1962, 1972 e 2002 foram produzidos pela equipe de cartografia,
sensoriamento remoto e sistemas de informações geográficas do Projeto Anhumas, no Centro
de Pesquisa e Desenvolvimento de Solos e Recursos Ambientais do IAC (Adami et al. 2006).
A base cartográfica de 2002 foi cedida pelo Instituto Geológico e Cartográfico
(Secretaria de Estado de Economia e Planejamento), órgão responsável pelo mapeamento
sistemático do estado de São Paulo. Os dados digitais, com a escala 1:10.000 cujo datum
horizontal é SAD-69 e o sistema de projeção UTM provém das folhas listadas na Tabela 1.
Tabela 1 - Folhas topográficas cedidas pelo Instituto Geológico e Cartográfico (IGC) que originaram a base
cartográfica de 2002 utilizada no Projeto Anhumas
Nome da Folha
Sistema Cartográfico Nacional
Vila Lutécia
SF-23-Y-A-V-4-NE-A
Bairro Bananal
SF-23-Y-A-V-4-NE-B
Barão Geraldo
SF-23-Y-A-V-4-NE-C
Parque Xangri-lá
SF-23-Y-A-V-4-NE-A
Campinas I
SF-23-Y-A-V-4-NE-E
Campinas II
SF-23-Y-A-V-4-NE-F
Souzas I
SF-23-Y-A-V-4-NO-E
Campinas III
SF-23-Y-A-V-4-SE-A
Campinas IV
SF-23-Y-A-V-4-SE-B
Souzas II
SF-23-Y-A-V-4-SO-A
Campinas VI
SF-23-Y-A-V-4-SE-C
Campinas VII
SF-23-Y-A-V-4-SE-D
Esta base cartográfica foi introduzida no sistema de informação geográfica onde foi
realizado o georeferenciamento, para transferência de coordenadas, além da geocodificação
(Jensen 1996), que é a reamostragem da imagem e da montagem dos mosaicos para que esta
fique orientada em direção ao norte. Durante a geocodificação das aerofotos foi também
corrigida a distorção do relevo, tornando-as ortofotos com as mesmas propriedades de um
mapa. Todos estes procedimentos foram desenvolvidos no SIG Ilwis (ITC 1997).
Após os procedimentos de georeferenciamento e geocodificação, procedeu-se à
seleção das grandes áreas úteis das aerofotos para geração dos mosaicos da bacia do ribeirão
50
das Anhumas, com resolução espacial de 0,8m para o mosaico de 2002 e de 1,5m para os
mosaicos de 1962 e 1972.
Também foi utilizada a leitura de usos e ocupações das terras da bacia hidrográfica do
ribeirão das Anhumas realizada por Adami et al. (2006), sendo que as classes de uso das terras
identificam os tipos de atividades antrópicas, enquanto aquelas das ocupações estão
relacionadas ao modo e ao material com que determinada atividade recobre a superfície do
terreno (Anderson et al. 1976). Assim, além de cursos e reservatórios d água, foram
identificadas três classes de uso das terras:
Urbano: Áreas residenciais, comerciais, industriais, sistemas de transporte, estruturas de
comunicação e energia elétrica, áreas em urbanização, instituições de educação e pesquisa,
cemitérios, áreas de lazer e praças; isto é, as áreas do território que são utilizadas diretamente
pela urbanidade ou que servem como corredores entre núcleos urbanos, estas são englobadas
pela classe de uso urbano.
Rural: cultura arbórea, cultura herbácea, pasto, pasto sujo, solo exposto, horticultura, misto,
agroindústria, áreas de reflorestamento e silvicultura.
Vegetação (IBGE 1991): sistemas primários - fragmentos florestais ou fragmentos de cerradoou sistemas secundários
capoeirinha, capoeira ou áreas reflorestadas.
Fragmentos Remanescentes de Campinas
Dos 197 fragmentos remanescentes do município de Campinas identificados por Santin
(1999) (ver item 1.2.1), 38 foram listados como ocorrendo na bacia do ribeirão das Anhumas.
Em conjunto, os fragmentos de vegetação nativa ocupam uma área muito reduzida, apenas
2,82% do território da bacia do ribeirão das Anhumas. Essa porcentagem é próxima à que
encontramos para o município como um todo, onde a vegetação nativa cobre uma área de
apenas 2,55%, segundo os dados de Santin (1999). Ainda segundo Santin (1999), apenas
7,04% da extensão de rios, córregos e ribeirões da Campinas estão cobertos com vegetação
ciliar, sendo que o ribeirão das Anhumas possui irrisórios 1,12% de proteção em suas
margens.
Através de saídas de campo essas informações foram atualizadas, mantendo-se apenas
como foco deste estudo os fragmentos de vegetação nativa. O maior montante de informações
51
a respeito dos fragmentos foi coletado a partir de visitas realizadas durante junho/2005 e
agosto/2006.
As visitas aos fragmentos tinham o intuito de conhecer cada uma das realidades
dificuldades enfrentadas, pressões, relação com a comunidade do entorno, proteção,
investimento no manejo, entre outras - explorá-las e, de certa forma, padronizar as
informações obtidas oriundas das entrevistas. Isso porque se somente as informações brutas
fornecidas pelos administradores e proprietários fossem ser consideradas, não seria possível
analisar as realidades sob uma só perpectiva integradora e robusta, pois esta análise seria
refém de múltiplas percepções e diferentes critérios dos entrevistados. Dessa forma, fez-se
imprescindível a visita aos fragmentos e as impressões tomadas, acrescidas das informações
fornecidas pelos entrevistados: assim, ao invés de refém das múltiplas percepções e diferentes
critérios, esta análise foi enriquecida por eles.
Em alguns casos, a visitação dos fragmentos com acompanhamento de proprietário ou
responsável por cada uma das áreas fez-se impossível, dada a dificuldade de interlocução com
os mesmos. Alguns se negaram a manter um canal de comunicação, enquanto outros, apesar
de inicialmente aceitarem o contato, depois não fizeram dele algo efetivo. Muitos dos
responsáveis pelas áreas particulares reagem desconfiadamente e não são amigáveis quando
abordados a respeito dos fragmentos e de suas condições de preservação, por temerem se
comprometer com algum tipo de fiscalização, sendo comum perguntarem a respeito da
possível associação das visitas e das perguntas com órgãos da Prefeitura, o DEPRN, ou
mesmo o IBAMA.
Utilizando o SIG ARCGIS 3.2 e com base na leitura do mapa de usos e ocupações das
terras da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas (Adami et al. 2006), foram produzidos
mapas para 1962, 1972 e 2002 que ilustram a evolução dos fragmentos e o padrão de
crescimento urbano da cidade de Campinas. Foram ainda calculadas, para cada fragmento, as
alterações do entorno num raio de 300m entre as classes urbano e não urbano, para cada uma
das datas (1962, 1972, 2002).
2.2.2 Entrevistas
A fim de aprofundar o conhecimento a respeito da história, manejo e impactos nos
fragmentos e das questões administrativas a eles relacionadas, foram realizadas entrevistas no
52
intervalo de tempo entre junho/2005 e agosto/2006. Embora as entrevistas pudessem ter sido
realizadas através do envio de questionário por correio tradicional, correio eletrônico ou feitas
pelo telefone, optou-se conscientemente pela entrevista face-a-face sempre que possível, pois
embora mais trabalhosa, ela possibilita maior intimidade com o entrevistado e, por
conseguinte, com o objeto de estudo, aprofundando as questões abordadas. Inicialmente as
entrevistas foram elaboradas como questionários semi-estruturados, ou seja, formados por
questões padronizadas mas abertas, de modo que a resposta fica a critério do entrevistado, o
qual não precisa limitar-se à gama de respostas previamente definida. Entretanto, após alguns
testes, ela não se mostrou muito eficaz, tendo sido então adotada a utilização de um roteiro
norteador. Um roteiro de entrevistas relaciona os tópicos a serem cobertos, a fim de orientar o
pesquisador. Segundo Alencar (1999), o momento e o modo como os tópicos são
transformados em questão decorrerão do desenrolar da entrevista, não havendo restrição
quanto ao aprofundamento dos tópicos por meio de questões que emergem durante a conversa.
Além de requerer habilidade do entrevistador e conhecimento e segurança a respeito do
tema abordado, a entrevista realizada com auxílio de roteiro exige extrema atenção e cuidado
para que não se impeça a manifestação do entrevistado, para que ele não se afaste muito do
foco proposto e, concomitantemente, para que as respostas não sejam induzidas por
comentários ou expressões do entrevistador. Ou seja, é necessário que haja uma postura atenta
e madura do entrevistador, para que ele saiba dosar sua interferência. Esta foi a meta ao longo
de todas as entrevistas. A proposta era ainda utilizar gravador de voz portátil em todas as
entrevistas, após a permissão dos envolvidos, de forma que a posterior transcrição permitisse
uma análise detalhada das informações
Os roteiros (Anexo I) foram elaborados para entrevistas realizadas basicamente com
dois grupos de pessoas:
- Grupo I: Pessoas relacionadas diretamente aos fragmentos em questão. Este grupo
congrega os funcionários dos bosques e parques, proprietários e funcionários de propriedades
particulares na qual haja um ou mais fragmentos, e moradores vizinhos da área nas quais se
encontra um ou mais fragmentos. No caso da entrevista com moradores, optou-se pelos
moradores com uma relação mais íntima com o fragmento, fôsse pelo tempo em que residiam
na área ou por sua conduta.
53
- Grupo II: Pessoas relacionadas a mais de um dos fragmentos ao mesmo tempo, com
uma abordagem idealmente mais integradora e administrativa. Este grupo reúne funcionários e
técnicos de diferentes áreas da PMC, inclusive o diretor do DPJ (Departamento de Parques e
Jardins).
A diferença essencial que norteou as entrevistas foi o foco de abordagem. Embora em
ambos os casos o pano de fundo fosse os fragmentos de vegetação nativa, enquanto a
experiência de membros do Grupo I era enriquecida pela intimidade histórica e cotidiana com
cada um dos fragmentos, o Grupo II era formado majoritariamente por pessoas envolvidas na
administração da questão ambiental de Campinas, na qual se incluíam também os fragmentos.
É preciso deixar claro que esses grupos não são excludentes, e sim apenas uma simplificação
da realidade. Há muitos membros do Grupo I, por exemplo, que também têm uma boa visão
geral desta questão no município, seja por já terem ocupado cargos desses setores ou pela
sagacidade e amplitude de seu olhar.
Todos os nomes dos entrevistados foram omitidos, apenas seus cargos são citados
quando essa informação é imprescindível para a compreensão da narração.
2.2.3 Análises de Documentos e de Bibliografia
Foram utilizadas diversas fontes para encontrar as informações necessárias. A maioria
das leis municipais, bem como informações disponíveis a respeito de alguns fragmentos,
foram
obtidas
através
do
site
oficial
da
Prefeitura
Municipal
de
Campinas
(www.campinas.sp.gov.br).
No Setor de Informações Cartográficas da Secretaria Municipal de Planejamento,
Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SEPLAMA) foi possível identificar proprietários
de algumas das áreas com fragmentos e, no Departamento de Uso e Ocupação do Solo (DUOS
Secretaria Municipal de Urbanismo), obter informações a respeito dos loteamentos
residenciais de Campinas. No Centro de Documentação da Coordenadoria Setorial do
Patrimônio Cultural (Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Lazer), foram acessadas
informações riquíssimas e detalhadas a respeito dos processos de estudo de tombamento dos
fragmentos pelo CONDEPACC (Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de
Campinas), indispensáveis para a realização desta dissertação. Esta foi das fontes mais
importantes na compreensão da dinâmica municipal de proteção dos fragmentos, pois através
54
dela é possível acessar todos os ofícios, pareceres e atas pertinentes a cada processo de
tombamento em questão.
Outras informações não disponíveis em nenhuma dessas fontes, a respeito da estrutura
administrativa da Prefeitura, de leis específicas, projetos ou programas foram obtidas
diretamente com funcionários ou (ex) funcionários da área administrativa da PMC, mais
propriamente através do Departamento de Meio Ambiente (DMA) e Departamento de
Informação, Documentação e Cadastro (DIDC), ligados à SEPLAMA; do DUOS; do
Departamento de Parques e Jardins (DPJ), ligado à Secretaria Municipal de Infraestrutura e da
Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO).
A hemeroteca do Centro de Memória da Unicamp e o acervo da Associação Protetora
da Diversidade das Espécies (PROESP)
das mais tradicionais organizações não
governamentais de Campinas, fundada em 1977 - foram analisados para se obter informações
históricas a respeito dos fragmentos propriamente ditos e da tal questão ambiental na cidade,
que por sua vez abarca diversos aspectos, desde medidas administrativas da PMC ou
momentos de mobilização de diferentes setores da sociedade.
2.3 Resultados e Discussão
2.3.1 Evolução dos Fragmentos e Uso do Entorno
A situação dos fragmentos e do uso do solo da bacia do ribeirão das Anhumas foi
fortemente alterada no intervalo de tempo analisado. Nas figuras elaboradas a partir dos
mosaicos de 1962, 1972 e 2002, é visível o aumento da mancha urbana na bacia, estendendose para a região norte da mesma (Figuras 5, 6 e 7 respectivamente). Através dos mosaicos de
ortofotos das três datas pode-se acompanhar a evolução dos fragmentos bem como do uso do
solo na bacia (Figuras 8, 9 e 10). Para melhor compreensão da evolução em cada um dos
fragmentos, as figuras devem ser analisadas conjuntamente com a Tabela 2, que apresenta a
lista dos fragmentos, sua localização geográfica e fisionomia, e também a área de cada um dos
fragmentos, nas três datas (1962, 1972, 2002). A mudança mais fácil de se notar é a grande
perda de uma área adjacente à Reserva Municipal de Santa Genebra (fragmento 6).
Foram inventariados um total de 34 fragmentos remanescentes. Como a numeração foi
sequencial respeitando a propriedade de cada fragmento, nas tabelas e nas figuras ela vai
somente até 28, sendo que os números 5, 10, 15, 16 e 28 têm sub-itens, ficando numerados
55
em: 5a, 5b e 5c, 10a e 10b, 15a e 15b, 16a, 16b e 16c e 28 a e 28b. Esta organização teve o
intuito de evidenciar fragmentos submetidos à condições mais similares entre si do que entre
quaisquer outros da bacia. Em relação ao inventário anterior realizado por Santin (1999), este
apresentou três fragmentos a menos devido ao fato de Santin (1999) ter incluído áreas de
reflorestamento, enquanto nesta dissertação foram inventariados apenas os fragmentos
remanescentes nativos, e devido à perda integral de um fragmento de cerrado localizado no
Sítio Yamaguti.
De acordo com o levantamento realizado, entre a primeira (1962) e a última (2002)
data analisada, houve uma perda de mais de 30% do total das áreas remanescentes na bacia do
ribeirão das Anhumas. Os fragmentos da bacia, cujas áreas somadas passavam pouco mais do
que 615ha em 1962, em 2002 diminuiram para 451,62ha e hoje representam apenas 2,82% da
área total da bacia (Figura 11). Embora essa perda possa não parecer muito significativa, uma
vez que na data inicial (1962) a soma dos fragmentos não representava mais do que 4,10% da
área total da bacia, devemos lembrar que a bacia do ribeirão das Anhumas está relacionada
com o embrião da cidade de Campinas. Isto faz com que esta região apresente uma história
longa e íntima com o processo de fragmentação, intensificado em meados do século XVIII,
quando o declínio da mineração nas Minas Gerais levou ao assentamento nos arredores e
posterior introdução da agricultura em larga escala, inicialmente com o açúcar e mais tarde
com o café. Assim, na década de 60 já eram poucos e pequenos os fragmentos da bacia
resistentes às décadas de exploração madeireira, desflorestamento para culturas agropastoris e
urbanização.
56
Figura 5 Bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas, em destaque os fragmentos numerados, que podem
ser identificados a partir da numeração na Tabela 2. Imagem elaborada a partir do mosaico de ortofotos 1962.
57
.
58
Figura 6 - Bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas, em destaque os fragmentos numerados, que podem ser
identificados a partir da numeração na Tabela 2. Imagem elaborada a partir do mosaico de ortofotos de 1972.
59
60
Figura 7 - Bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas, em destaque os fragmentos numerados, que podem ser
identificados a partir da numeração na Tabela 2. Imagem elaborada a partir do mosaico de ortofotos de 2002.
61
62
Figura 8
Mosaico de ortofotos da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas (1962).
Fonte: Adami et al. 2006.
Figura 8
Mosaico da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas (1962).
Fonte: Adami et al. 2006.
63
64
Figura 9
Mosaico da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas (1972).
Fonte: Adami et al. 2006.
Figura 10
Mosaico da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas (2002).
Fonte: Adami et al. 2006.
Figura 9
Mosaico da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas (1972).
Fonte: Adami et al. 2006.
65
66
Figura 10
Mosaico da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas (2002).
Fonte: Adami et al. 2006.
67
68
Tabela 2 - Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, sua fisionomia, ponto central de localização geográfica e área
de cada um em 1962, 1972 e 2002 (ha). A numeração dos fragmentos corresponde à apresentada nas imagens 5, 6 e 7
Nº
FRAGMENTO
AMBIENTE *
COORDENADAS
(UTM)
ÁREA
1962
(ha)
ÁREA
1972
(ha)
ÁREA
2002
(ha)
20,97
24,17
32,51
FES/C
Eixo x
285800
Eixo y
7480800
FES
285150
7479700
2,73
2,61
2,77
FES
286150
7478260
1,00
1,00
1,12
FES
286750
7476900
-
-
2,79
5a Fazenda Rio das Pedras
FES
286650
7476650
5,39
7,67
6,18
5b Fazenda Rio das Pedras
FES
285000
7476250
4,23
5,82
5c Fazenda Rio das Pedras
FES
285400
7476400
6,91
8,10
FES
283400
7474800
389,15
239,56
234,22
7 Recanto Yara
FP
285850
7474170
1,59
1,59
1,27
8 Santa Genebrinha
FES
287750
7473720
22,18
23,57
22,89
9 Fazenda Anhumas
FES
289550
7473850
10,32
10,32
5,19
10a Fazenda Argentina
FES
289100
7475360
2,12
3,43
3,64
10b Fazenda Argentina
FP
289950
7475200
2,90
2,90
2,99
FP
288300
7476250
2,31
2,31
2,17
FP
287670
7475860
0,79
0,79
0,88
C
289600
7476850
7,02
13,78
10,26
FES/FP
291160
7476820
2,66+0,46 7
3,51
5,12
15a Condomínio Estância Paraíso
FES
290370
7477400
0,86
1,43
0,56
15b Condomínio Estância Paraíso
1 Vila Holândia
2 Fazenda Boa Esperança
3 Residencial Ibirapuera
4 Cond. Parque Rio das Pedras
6 RMSG
1
3
11 San Martinho/Boldrini
12 P.E. Hermógenes de F. L. Filho
13 LNLS
4
5
14 F. Pau D Alho - S. São Francisco 6
26,02 2
FES
290400
7477100
1,69
0,46
0,46
16a Fazenda Monte D´Este
8
FP
291450
7479400
2,09
2,87
4,34
16b Fazenda Monte D´Este
8
FP
290950
7478950
3,15
3,63
16c Fazenda Monte D´Este
8
FP
290800
7479100
1,81
2,12
17 Fazenda São Bento
FES
292750
7478330
18,43
17,79
18,15
18 Parque Xangrilá
FES
292860
7477540
7,65
6,83
5,52
19 Jardim Miriam Moreira da Costa
FES
291350
7475960
2,68
2,46
0,76
20 Alphaville Campinas
FES
291680
7474860
3,75
3,64
4,02
FES
292400
7465400
5,79
5,73
5,02
FES
289860
7465200
10,31
10,31
10,78
21 P. E. Mons. Emílio José Salim
22 Bosque dos Jequitibás
23 Bosque São José
11
10
5,05 9
FES
290200
7463750
2,81
2,81
3,25
24 Bosque dos Alemães
12
FES
289860
7467200
2,24
2,24
2,15
25 Bosque dos Italianos
13
FES
287350
7467550
1,65
1,65
1,65
69
Continuação da Tabela 2...
Nº
FRAGMENTO
AMBIENTE *
COORDENADAS
(UTM)
FES
Eixo x
291900
Eixo y
7469500
27 Bosque Chico Mendes
FES
291500
7471200
28a Mata do Chico Brinco (Boi Falô) 15
FES
288800
7472300
28b Mata do Chico Brinco (Boi Falô)
TOTAL (ha)
FES
288600
7472200
26 Bosque da Paz
14
ÁREA
1962
(ha)
ÁREA
1972
(ha)
ÁREA
2002
(ha)
6,28
4,75
4,19
27,70
20,41
3,10
7,99
0,43+4,65
6,93
451,62
422,72
18,73
615,34
* FES: floresta estacional semidecidual, C: cerrado, FP: floresta paludosa
1
Condomínio Residencial Parque Rio das Pedras. Consta somente na listagem de 2002, pois antes do loteamento do condomínio formava um contínuo
com o fragmento 5a
2
Os fragmentos 5b e 5c formavam um único fragmento, que foi fracionado para uso agrícola entre 1962-1972
3
A área da Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra foi considerada integralmente, embora ela seja o único fragmento que não se encontra
completamente inserida nos limites da bacia.
4
Parque Ecológico Hermógenes de Freitas Leitão Filho
5
Laboratório Nacional de Luz Síncroton
6
Fazenda Pau D Alho - Sítio São Francisco
7
Em 1962 o Sítio São Francisco possuía dois fragmentos, os quais em 1972 já formavam um só contínuo
8
Tozan
9
Os fragmentos 16b e 16c formavam um único fragmento, que foi fracionado entre 1962-1972
10
Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim
11
Ou Praça Francisco Vivaldi
12
Ou Praça João Lech Júnior
13
Ou Praça Samuel Wainer
14
Ou Bosque Yitzhak Rabin
15
Os fragmentos 28a e 28b formavam um único fragmento, que foi atravessado pela rodovia D. Pedro I (SP065) entre 1962-1972. Atualmente o fragmento
28a é composto por duas manchas extremamente próximas, sendo que para qualquer manejo eles devem ser analisados conjuntamente, pois o menor deve
ser ecologicamente dependente do maior
70
% da área total dos fragmentos
taxa de desflorestamento
5,0
4,10
4,0
3,01
2,82
1,00
0,27
0,06
1962
1972
2002
3,0
%
2,0
1,0
0,0
Anos
Figura 11 - Porcentagem da área total dos fragmentos em relação à área da bacia hidrográfica do
ribeirão das Anhumas em 1962, 1972 e 2002 e taxa de desflorestamento. A taxa de desflorestamento de cada ano
foi calculada a partir do ano imediatamente anterior, com exceção de 1962, que foi considerado como data inicial.
Em relação à taxa de desflorestamento, o primeiro intervalo de tempo (1962 1972)
apresentou uma taxa maior (0,27) do que o segundo (0,06), mesmo sendo este um maior
intervalo (Figura 11). Isso aponta que até a década de 1970 a ocupação e uso da bacia do
ribeirão das Anhumas já se encontravam fortemente consolidados, tendo sido até então que o
desflorestamento portou-se como um agente de pressão mais intenso nos fragmentos. Segundo
Jóia (2000), a partir dos anos 50, houve uma verdadeira renovação do parque industrial de
Campinas e de alguns município vizinhos, passando-se de uma situação de predomínio de
indústrias tradicionais para outra de domínio das indústrias dinâmicas principalmente de
capitais estrangeiros: começaram então a se instalar grandes empresas industriais de bens
intermediários, principalmente químicas, ao longo da Rodovia Anhanguera e próximas às
cidades de Campinas e Jundiaí, antecipando o movimento típico da industrialização pesada no
Brasil, especialmente no estado de São Paulo. Estes eventos, associados ao crescimento
populacional e ao predomínio da expansão horizontal no processo de expansão urbana de
Campinas, que produziu uma mancha contínua e espraiada (Miranda 2002), estão relacionados
ao desflorestamento deste período.
Todavia, embora a considerável redução da área de vegetação tenha sido o padrão para
a bacia do ribeirão das Anhumas neste intervalo de tempo (1962 2002), não foram todos os
fragmentos que apresentaram o mesmo comportamento: observando a evolução individual dos
71
fragmentos (Tabela 2), notamos que alguns apresentaram um aumento de área, como por
exemplo o fragmento da Vila Holândia (nº1), cuja área passou de 20,97ha para 32,51ha, um
aumento de aproximadamente 55%.
Como cada fragmento apresentou uma dinâmica própria em relação à evolução ao
longo dos anos analisados, a contribuição de cada um para a área total de fragmentos da bacia
do ribeirão das Anhumas foi alterada ao longo dos anos. A Tabela 3 apresenta a contribuição
individual do tamanho de cada fragmento para a área total dos fragmentos da bacia nos três
anos, 1962, 1972 e 2002.
Tabela 3 - Contribuição percentual de cada fragmento para a área total de fragmentos da bacia do ribeirão das
Anhumas em cada um dos anos (1962, 1972 e 2002) *
Nº
FRAGMENTO
1972
2002
1
Vila Holândia
3,41
5,35
7,69
2
Fazenda Boa Esperança
0,44
0,58
0,65
3
Residencial Ibirapuera
0,16
0,22
0,26
4
Cond. Res. Parque Rio das Pedras
-
-
0,66
0,88
1,70
1,46
0,94
1,38
1,53
1,92
5a Fazenda Rio das Pedras
5b Fazenda Rio das Pedras
5c Fazenda Rio das Pedras
4,23
6
RMSG
63,24
53,04
55,41
7
Recanto Yara
0,26
0,35
0,30
8
Santa Genebrinha
3,61
5,22
5,41
9
Fazenda Anhumas
1,68
2,28
1,23
10a Fazenda Argentina
0,34
0,76
0,86
10b Fazenda Argentina
0,47
0,64
0,71
11
0,38
0,51
0,51
12 P.E. Hermógenes de F. L. Filho
0,13
0,18
0,21
13 LNLS
1,14
3,05
2,43
0,43+0,08
0,78
1,21
15a Condomínio Estância Paraíso
0,14
0,32
0,13
15b Condomínio Estância Paraíso
0,27
0,10
0,11
16a Fazenda Monte D´Este
0,34
0,64
1,03
0,70
0,86
0,40
0,50
San Martinho/Boldrini
14 Faz. Pau D Alho - S. São Francisco
16b Fazenda Monte D´Este
16c Fazenda Monte D´Este
72
1962
0,82
17 Fazenda São Bento
2,99
3,94
4,29
18 Parque Xangrilá
1,24
1,51
1,31
19 Jardim Miriam Moreira da Costa
0,44
0,54
0,18
Continuação da Tabela 3...
Nº
FRAGMENTO
1962
1972
2002
20 Alphaville Campinas
0,61
0,81
0,95
21 P. E. Monsenhor Emílio José Salim
0,94
1,27
1,19
22 Bosque dos Jequitibás
1,68
2,28
2,55
23 Bosque São José
0,46
0,62
0,77
24 Bosque dos Alemães
0,36
0,49
0,51
25 Bosque dos Italianos
0,27
0,37
0,39
26 Bosque da Paz
1,02
1,05
0,99
27 Bosque Chico Mendes
4,50
4,52
0,73
1,77
0,10+1,10
1,53
-
100%
100%
28a Mata do Chico Brinco (Boi Falô)
3,04
28b Mata do Chico Brinco (Boi Falô)
100%
TOTAL
* Os motivos das células em branco e da mesclagem de dados de mais de um fragmento são os mesmos já explicitados na Tabela 2
Como a bacia do ribeirão das Anhumas é caracterizada por diversos pequenos
fragmentos, com algumas exceções pode-se dizer que a contribuição individual para a área
total da bacia é reduzida. Assim, os fragmentos foram hierarquizados decrescentemente de
acordo com sua contribuição para a área da bacia em cada um dos anos, sendo destacados os
maiores fragmentos cuja somatória perfaz ao menos 80% da área total dos fragmentos da bacia
(Figuras 12, 13 e 14).
Bosque Chico
Mendes 4,5%
Fazenda Rio
das Pedras (5c)
4,2%
Santa Genebrinha
3,6%
RMSG 63,2%
Vila Holândia
3,4%
Mata do Chico Brinco
3%
Outros
18%
Figura 12 - Contribuição dos fragmentos para a área total de fragmentos da bacia do ribeirão das
Anhumas (1962). Em destaque, os 6 maiores fragmentos (82,03% do total).
73
Vila Holândia 5,4%
Santa Genebrinha 5,2%
Bosque Chico Mendes
4,5%
RMSG 53%
Fazenda São Bento 3,9%
LNLS 3,1%
Fazenda Anhumas
2,3%
Bosque dos Jequitibás
2,3%
Mata do Chico
Brinco (28a)
1,8%
Outros 18,5%
Figura 13 - Contribuição dos fragmentos para a área total de fragmentos da bacia do ribeirão das
Anhumas (1972). Em destaque, os 9 maiores fragmentos (81,46% do total).
Vila Holândia 7,7%
Santa Genebrinha 5,4%
Fazenda São Bento 4,3%
RMSG 55,4%
Bosque dos Jequitibás
2,6%
LNLS 2,4%
Fazenda Rio
das Pedras (5c)
Fazenda Rio
1,9%
das Pedras (5a)
1,5%
Outros
18,8%
Figura 14 - Contribuição dos fragmentos para a área total de fragmentos da bacia do ribeirão das
Anhumas (2002). Em destaque, os 8 maiores fragmentos (81,16% do total).
74
É possível perceber que, com exceção do fragmento que originou a Reserva Municipal
da Mata de Santa Genebra (RMSG), nas três datas o maior fragmento da bacia, nenhum dos
outros fragmentos manteve-se na mesma posição em relação à sua contribuição percentual
para a área total dos fragmentos. Embora a RMSG tenha apresentado uma perda de mais de
40% de área no intervalo de tempo de 1962 a 1972, continuou sendo o maior fragmento da
bacia do ribeirão das Anhumas, com aproximadamente 235ha. É necessário relembrar que
mesmo a RMSG sendo um fragmento que se encontra apenas parcialmente na bacia do
ribeirão das Anhumas, para fins de caracterização de sua área foi considerada também a
porção do fragmento que se extende além dos limites da bacia.
No ano de 1962, os seis maiores fragmentos da bacia foram suficientes para perfazer
82,03% da área total de fragmentos da bacia. Em 1972, entretanto, para um percentual
aproximado (81,46%) o número passou para nove fragmentos. Como sabemos que a área total
da bacia do ribeirão das Anhumas ocupada por fragmentos remanescentes decaiu (Figura 11),
podemos inferir que a contribuição individual dos fragmentos diminuiu, tendo sido por isso
necessária a inclusão de um maior número de fragmentos para completar uma porcentagem
similar da área da bacia. No ano de 2002, o número de fragmentos necessários para completar
aproximadamente 81,16% da área de fragmentos da bacia tornou a decair, atingindo o total de
oito fragmentos. Como dentre estes oito fragmentos estão incluídos os fragmentos da Vila
Holândia, da Fazenda São Bento e o fragmento próximo ao lago da Fazenda Rio das Pedras,
todos eles fragmentos que apresentaram incremento de área nesse período (Tabela 2), é
provável que a tendência comum a estes três fragmentos, aliada à redução da área de outros
fragmentos destacados no ano de 1972, tenha sido suficiente para alterar a significância destes
últimos.
As alterações das áreas dos fragmentos destacados nas Figuras 12, 13 e 14, podem ser
melhor visualizadas na Tabela 4. Nela podemos acompanhar as porcentagens de incremento e
decréscimo da área dos maiores fragmentos da bacia do ribeirão Anhumas que foram
excluídos ou incluídos nesta categoria, nos dois intervalos de tempo (1962-1972 e 1972-2002).
Os fragmentos que permaneceram dentre os mais significativos em relação à sua contribuição
para a área total dos fragmentos, como é o caso da Reserva Municipal da Mata de Santa
Genebra, por exemplo, não foram representados agora. É possível notar que em ambos os
intervalos de tempo, todos os fragmentos que foram excluídos da categoria dos maiores
75
fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas passaram por um processo de redução de área,
como era de se esperar. O único fragmento excluído da categoria no primeiro intervalo de
tempo, ou seja, que 1962 constava dentre aqueles que perfaziam 82,03% da área dos
fragmentos da bacia, ausentando-se deste grupo em 1972, foi o fragmento localizado próximo
ao lago da Fazenda Rio das Pedras, que nesse intervalo de tempo perdeu 73,44% de sua área.
Já no segundo intervalo de tempo (1972-2002), foram os fragmentos da Fazenda
Anhumas, Bosque Chico Mendes e Mata do Chico Brinco que foram excluídos desta
categoria, tendo perdido, respectivamente, 5,13ha, 17,31ha e 2,91ha. A Tabela 4 apresenta
essas perdas e ganhos em porcentagem.
Tabela 4 - Porcentagem de incremento e decréscimo da área dos maiores fragmentos da bacia
do ribeirão Anhumas, tanto os excluídos como os incluídos desta categoria, em dois intervalos
de tempo (1962-1972 e 1972-2002).
Fragmentos Excluídos
Nº
1962-1972
1972-2002
-73,44
-
9 Fazenda Anhumas
-
-49,68
27 Bosque Chico Mendes
-
-84,80
28 Mata do Chico Brinco
-
-41,82
-
-19,45
-
17,21
0
-
13 LNLS
96,20
-
17 Fazenda São Bento
-3,45
-
5
Fragmentos
Fazenda Rio das Pedras
(localizado próximo ao lago)
Fazenda Rio das Pedras
(localizado próximo ao frag4)
Fazenda Rio das Pedras
5
(localizado próximo ao lago)
Fragmentos Incluídos
5
9 Fazenda Anhumas
Ao contrário dos fragmentos excluídos, a dinâmica dos fragmentos incluídos dentre os
que mais contribuem para a área total de vegetação remanescente não se apresentam de forma
tão clara. Embora seja instintivo imaginar que para ser incluído dentre esses fragmentos
bastaria ter um acréscimo de tamanho, esta relação não é assim tão simples, uma vez que é
76
estabelecida em função da contribuição de cada um dos fragmentos e da área total de
fragmentos da bacia. Tomemos o primeiro intervalo de tempo (1962-1972): dentre os
fragmentos que foram incluídos nessa categoria, temos tanto fragmentos que apresentaram um
acréscimo de tamanho (LNLS), chegando quase a dobrar em área, como fragmentos que não
tiveram alteração de área (Fazenda Anhumas) ou que apresentaram uma redução de tamanho
(Fazenda São Bento).
Compreender por que o fragmento do LNLS passa a ser incluído nesta categoria é
simples, vai de encontro às expectativas: quanto maior a área do fragmento, maior sua
contribuição para a totalidade dos fragmentos. Todavia, a inclusão dos outros dois fragmentos
na categoria apresentada deve-se mais às alterações sofridas pela totalidade dos fragmentos:
entre os anos de 1962 e 1972, a bacia do ribeirão das Anhumas apresenta a maior taxa de
desflorestamento, passando de 4,10% para 3,01% de cobertura remanescente. A própria
redução da RMSG, que significou perda de aproximadamente 150ha, ocorreu nesse período, e
a inclusão do fragmento da Fazenda Rio das Pedras (5a), ocorrida no segundo período de
tempo, também pode ser explicada através dessa tendência geral da bacia (Tabela 4).
Entretanto, embora este padrão geral da diminuição de já escassos exemplares de
fragmentos nativos devesse favorecer a proteção aos mesmos devido à sua biodiversidade e
sua contribuição para melhorar condições ambientais, como escoamento das águas da chuva,
dissipação da energia do escoamento superficial, estabilidade das margens e barrancos de
corpos d água e equilíbrio térmico das águas (Barbosa 2000), além do maior conforto
proporcionado por amenizarem a paisagem de concreto e auxiliarem na redução da
temperatura do ar e na emissão de poluentes e ruídos sonoros na atmosfera, ou seja, condições
que interferem diretamente na segurança pública, saúde e qualidade de vida dos cidadãos, não
foi isso que ocorreu na bacia. Conforme representado nas Figuras 5, 6 e 7, o crescimento de
Campinas ao longo desses anos levou a uma forte pressão nos fragmentos da bacia, parte dela
percebida através do aumento do uso do solo com atividades urbanas, que atingiu também o
entorno dos fragmentos. A evolução do entorno de cada fragmento em relação ao uso do solo
consta na Tabela 5. Nela podemos ver que dos 20 fragmentos cujos entornos (300m) em 1962
eram exclusivamente rurais, restaram apenas dois em 2002, os quais ainda assim encontram-se
cravados em uma área onde sofrem grande pressão por parte do mercado imobiliário.
77
O uso urbano do solo no entorno de 300m de cada fragmento totalizou
aproximadamente 14,73% em 1962, 22% em 1972 e 47,94% em 2002. A Figura 15 apresenta
a área total do entorno dos fragmentos da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas por
classes de uso do solo em 1962, 1972 e 2002. Uma vez que o uso urbano foi tido como as
áreas do território que são utilizadas diretamente pela urbanidade ou que servem como
corredores entre núcleos urbanos, nestas sendo incluídas áreas residenciais, comerciais,
industriais, estruturas de comunicação e energia elétrica, entre as outras já especificadas no
item 2.2.1, podemos perceber que o tipo de pressão nos fragmentos teve sua natureza alterada
ao longo desses 40 anos. Na classe urbana de uso do solo, uma importante característica é a
impermeabilização do solo, que ocorre numa intensidade extremamente alta. O aumento da
impermeabilização do solo traz sérios agravantes para o escoamento das águas pluviais,
agravando as enchentes e comprometendo a recarga do lençol freático. Segundo Pereira &
Chiarelli (2006), o consumo de água subterrânea na bacia do ribeirão das Anhumas bem como
na RMC, está em alto grau de criticidade, pois se acredita que o balanço atual entre a
disponibilidade e o consumo seja negativo. Segundo as autoras, a estimativa do consumo de
água subterrânea na RMC baseada no número de poços é de 1,73 m3/s ou 54,6 milhões de
metros cúbicos, o que corresponde a uma elevadíssima taxa de exploração - 79% da reserva
ativa natural, ou 54% da reserva total. Na bacia do ribeirão das Anhumas, o maior usuário das
águas subterrâneas é atribuído ao saneamento (39,3%), seguido das indústrias (31,5%) e
comércio (15,0%) (Pereira & Chiarelli 2006).
Deu-se preferência à análise da evolução do uso do solo em detrimento das alterações
legais do perímetro urbano de Campinas por ela representar as modificações efetivas na
organização espacial do município, por conseguinte, sendo mais realista em relação às
pressões exercidas sobre os fragmentos. O perímetro urbano delimita áreas potenciais para
usos específicos, mas a mudança efetiva do uso e ocupação do solo ocorre apenas após um
intervalo de tempo desta alteração.
78
Tabela 5 Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas e porcentagem da classificação relativa à leitura de uso do solo
realizada por Adami et al. (2006), para cada um dos fragmentos em 1962, 1972 e 2002 *
1962**
Nº
1
2
3
4
5a
5b
5c
6
7
8
9
10a
10b
11
12
13
14
15a
15b
16a
16b
16c
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28a
28b
Fragmento
Vila Holândia
Fazenda Boa Esperança
Residencial Ibirapuera
Cond. Res. Parque Rio das Pedras
Fazenda Rio das Pedras
Fazenda Rio das Pedras
Fazenda Rio das Pedras
RMSG
Recanto Yara
Santa Genebrinha
Fazenda Anhumas
Fazenda Argentina
Fazenda Argentina
San Martinho/Boldrini
P.E. Hermógenes de F. L. Filho
LNLS
Faz. Pau D Alho - S. São Francisco
Condomínio Estância Paraíso
Condomínio Estância Paraíso
Fazenda Monte D´Este
Fazenda Monte D´Este
Fazenda Monte D´Este
Fazenda São Bento
Parque Xangrilá
Jardim Miriam Moreira da Costa
Alphaville Campinas
P. E. Monsenhor Emílio José Salim
Bosque dos Jequitibás
Bosque São José
Bosque dos Alemães
Bosque dos Italianos
Bosque da Paz
Bosque Chico Mendes
Mata do Chico Brinco (Boi Falô)
Mata do Chico Brinco (Boi Falô)
1972
% uso não % uso % uso não
urbano
urbano
urbano
100
100
95,42
100
100
100
66,06
100
100
100
100
100
100
83,52
98,47
1,53
97,20
100
74,24
100
100
100
100
100
70,92
100
53,39
100
100
100
93,49
97,29+97,9 2,71+2,0
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
91,49
97,10
2,90
100
100
93,89
97,72
2,28
0,70
99,11
0,89
0,10
99,42
0,58
0,22
99,63
0,37
99,67
0,33
39,70
72,04
27,96
26,13
41,05
58,95
82,25
100
71,12
2002
% uso
urbano
4,58
33,94
16,48
2,80
25,76
29,08
46,61
6,51
8,51
6,11
99,30
99,90
99,78
100
60,30
73,87
17,75
28,88
% uso não % uso
urbano
urbano
87,58
93,46
29,06
21,29
29,04
100,00
100,00
53,31
17,85
79,55
72,01
93,75
76,21
54,98
20,59
85,11
81,72
70,61
57,81
97,04
10,48
73,85
36,70
48,59
18,30
6,95
0,70
0,19
0,01
0,03
1,00
3,03
17,25
-
12,42
6,54
70,94
78,71
70,96
46,69
82,15
20,45
27,99
6,25
23,79
45,02
79,41
14,89
18,28
29,39
42,19
100,00
2,96
89,52
26,15
63,30
51,41
81,70
93,05
99,30
99,81
99,99
99,97
99,00
96,97
82,75
-
* O motivo da mesclagem de dados de mais de um fragmento é o mesmo já explicitado na Tabela 2
** Como urbano entendem-se as áreas do território que são utilizadas diretamente pela urbanidade ou que servem como
corredores entre núcleos urbanos: áreas residenciais, comerciais, industriais, sistemas de transporte, estruturas de
comunicação e energia elétrica, áreas em urbanização, instituições de educação e pesquisa, cemitérios, áreas de lazer e
praças.
79
2000
1600
273,9
425,1
895,8
ha
1200
Uso urbano (ha)
Uso não urbano (ha)
800
1586,0
1510,4
972,9
400
0
1962
1972
2002
Anos
Figura 15 - Evolução do uso do solo no entorno dos fragmentos da bacia hidrográfica do ribeirão
das Anhumas por classes de urbano e não urbano, em 1962, 1972 e 2002 (ha).
Além das alterações causadas pelo próprio processo de fragmentação, como mudanças na
geometria e atributos da paisagem, alteração do microclima, maior exposição à insolação, ventos
e dessecação, e outras condições abióticas ideais para germinação, florescimento e reprodução de
espécies nativas, já aprofundadas no item 1.1.2, a fragmentação com predominância de matrizes
de uso urbano apresenta ainda alguns aspectos complicadores. A velocidade dos fluxos e as
alterações na matriz urbana normalmente ocorrem mais rapidamente do que estas mesmas
características em matrizes de uso predominantemente rural. Matthes (1980) afirma que no caso
do Bosque dos Jequitibás (Figura 16), por exemplo, as fundações dos prédios que o circundam,
em forma de cinturão, alteram o curso d água no subsolo, e que as construções fizeram com que
fosse reduzido o número de horas de luz solar que a mata precisa. Além disso, o paredão de
edifícios no entorno faz com que haja a formação de uma corrente de ventos que pode eliminar
água das plantas e até derrubar árvores.
80
Usualmente as matrizes urbanas congregam um maior número de pessoas, que transitam
entre maiores distâncias e apresentam comportamentos diferenciados em relação aos fragmentos
e mesmo à dita questão ambiental, o que muitas vezes pode intensificar a dispersão de patógenos
e espécies invasoras e exóticas. Características da arborização urbana, por exemplo, como
composição, diversidade taxonômica e genética, e condições fitossanitárias, trazem aspectos
intimamente relacionados à propagação de patógenos e espécies invasoras e exóticas nos
fragmentos, uma vez que os indivíduos utilizados na arborização podem servir como fonte latente
de patógenos ou apresentarem maior habilidade competitiva em relação às espécies nativas.
Outro fator que diferencia as matrizes predominantemente urbanas, é a maior presença de vias
expressas e automóveis, que dificulta a permeabilidade da matriz e expõe os animais aos
frequentes atropelamentos.
Entretanto, apesar de todas essas ressalvas, os fragmentos localizados em matrizes
predominantemente urbanas são ainda valiosas áreas de preservação e deveriam ser como tal
consideradas, não somente pelos recursos naturais que podem apresentar como pela capacidade
de servir de trampolins ecológicos (stepping stones), abrigo e alimentação para a fauna, e por
seus atributos de qualidade ambiental como moderar temperatura, estabilizar ribanceiras, auxiliar
a infiltração das águas através das raízes e do solo não impermeabilizado, reduzindo a erosão
laminar e proporcionando a recarga do lençol freático e proteger as margens dos cursos dágua
contra o desbarrancamento e assoreamento. Além disso, os fragmentos localizados próximos à
mancha urbana trazem em si a possibilidade única de sensibilização e lazer da população, aspecto
que será aprofundado adiante.
No intervalo de tempo entre 1962
2002, houve um aumento de 5 para 18 fragmentos
que passaram a ser delimitados ao menos em algum de seus lados por uma matriz de uso urbano
(Tabela 5). Isso comprova que a maioria dos fragmentos teve uma alteração em relação às
pressões sofridas ao longo do tempo.
A evolução de cada fragmento, sua contribuição para a totalidade dos fragmentos da bacia
do ribeirão das Anhumas, e as diferentes formas de cada fragmento responder às pressões
sofridas podem ser melhor compreendidas a partir do detalhamento histórico de cada fragmento,
aprofundado no próximo item (2.3.2).
81
2.3.2 Fragmentos: História, Manejo e Pressões
A partir do levantamento bibliográfico, das visitas e entrevistas realizadas e das
informações oriundas da análise de evolução dos fragmentos e do uso do entorno, foi redigido um
histórico para cada um dos fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas. Neste histórico, foram
abordados as origens de cada um dos fragmentos, os principais usos da área propriamente dita ou
de seu entorno e as pressões sofridas ao longo de sua existência recente. Além disso, as práticas
de manejo dos fragmentos também foram averiguadas, a fim de compreender de que forma a
administração pública ou os proprietários contornam os impactos causados pela fragmentação. Os
fragmentos podem ser localizados na bacia a partir da numeração na Tabela 2 (Figuras 5, 6 e 7).
Foram apresentadas também as espécies vegetais mais comuns para cada fragmento de acordo
com o levantamento de Santin (1999) e o levantamento realizado entre 2005-2006 pela equipe de
vegetação do Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo).
As entrevistas que inicialmente haviam sido concebidas como questionários semiestruturados, foram alteradas para entrevistas norteadas por um roteiro. Questionários semiestruturados são formados por questões padronizadas mas abertas, de modo que a resposta fica a
critério do entrevistado, o qual não precisa limitar-se à gama de respostas previamente definida.
Contudo, logo no início de sua aplicação, esta metodologia confrontou-se com o fato de muitos
dos entrevistados serem pessoas simples e da abordagem das perguntas ter a propriedade de
revelar ações ilegais ou ineficientes, inclusive de setores da PMC, o que trouxe certo desconforto
por parte dos entrevistados. Assim, optou-se pela realização de entrevistas a partir de um roteiro
norteador. A vantagem deste tipo de entrevista, segundo Alencar (1999), é justamente a de
permitir que o entrevistado manifeste suas opiniões, seus pontos de vista e seus argumentos com
o desenrolar da entrevista.
A utilização de gravador de voz também foi abandonada. Esta prática apresentou-se como
ato inibidor e poderia levar à não obtenção de grande parte das informações desejadas, além de
um estranhamento e mal estar por parte do entrevistado. Apenas em duas entrevistas foi utilizado
gravador de voz, após consentimento dos entrevistados. Essas foram as entrevistas realizadas
com o diretor do Departamento de Parques e Jardins (DPJ) e com um ex-técnico da PMC
(Prefeitura Municipal de Campinas). Em ambos os casos, como havia um conhecimento prévio
82
dos entrevistados, considerou-se que a perda da naturalidade devido à utilização do gravador
seria ínfima, o que justificaria seu uso devido a riqueza e detalhes das entrevistas, que não
poderiam ser integralmente documentadas não fosse desta forma.
As informações disponíveis na SEPLAMA, a respeito das propriedades nas quais os
fragmentos se encontram, e dos loteamentos residenciais de Campinas, não estavam
disponibilizadas como dados informatizados da PMC e nem mesmo em papel de forma integral e
fácil acesso. Não há sistema informatizado de uso e ocupação do solo na PMC. Todos os
processos de HMH (Habitações Multifamiliares Horizontais) averiguados diziam respeito a
aprovação sub-normativo (alterações nas instalações do loteamento com necessidade de
aprovação legal), correspondendo a aproximadamente 70% dos loteamentos totais do município.
Esta pesquisa demandou tempo e dedicação que, ao final, não foram justificados pela utilização
que delas se fez na dissertação, mas certamente ela enriqueceu o conhecimento acerca de mais
este aspecto da cidade: os empreendimentos imobiliários e sua fiscalização
Todavia, se por um lado a organização da PMC deixou a desejar, a análise dos diários de
ampla circulação excedeu as expectativas. Embora este tipo de fonte seja muito diferente das
fontes bibliográficas normalmente utilizadas em dissertações e teses em Ecologia, nesta
dissertação, sua importância foi una. Recorrer às hemerotecas foi compreender questões
históricas da cidade, principalmente de notar o impacto e importância de alguns fatos de acordo
com a perspectiva da época e dar a possibilidade de acompanhar, com informações diárias, o
desenrolar de alguns acontecimentos. Este tipo de fonte bibliográfica é, ainda, um meio de obter
informações mais precisas e já amortecidas na memória das pessoas. Todavia, embora tenha sido
muito importante para o propósito desta pesquisa, a utilização de artigos de jornais e revistas
também apresenta algumas limitações. Em primeiro lugar, a própria característica de ser uma
informação diária para rápida circulação e público amplo, traz a possibilidade de ser superficial e
leviana. Superficial devido à rapidez com que deve ser elaborada e veiculada, muitas vezes por
autores que não têm tempo para conferir a autenticidade das informações e nem suficiente
conhecimento técnico para abordar de forma competente o que lhes cabe. Leviana, pois o diários
são ainda dos meios de comunicação mais efetivos e é comum notarmos sua utilização para
manobras políticas.
83
Em Campinas, há uma grande centralização da mídia local: a Rede Anhanguera de
Comunicação é não só detentora da Agência Anhanguera de Notícias, como editora do Correio
Popular e do Diário do Povo, maiores jornais locais, o que empobrece o fórum de discussão
municipal. Todas essas restrições fizeram com que essa fonte fosse considerada com alegria
pelas possibilidades de detalhamento e riqueza que traz -, mas sem euforia, muitas vezes
obrigando a confirmação das informações em outras fontes que a corroborassem, ou a supressão
de informações de caráter duvidoso.
Os históricos dos fragmentos foram ordenados por similaridade de realidade, sendo
apresentados primeiramente os fragmentos públicos, em sua maioria bosques municipais, e
depois os privados. Esta sequência foi alterada apenas quando à similaridade da realidade atual se
sobrepôs uma história comum dos fragmentos, importante para a compreensão da evolução e
contexto dos mesmos.
Bosque Chico Mendes (nº27)
Rua Moscou s/n - Pq. São Quirino
Área: 27,70ha (1962); 20,40ha (1972); 3,10ha (2002)
A área onde hoje se localiza o Bosque Chico Mendes pertencia à antiga fazenda São
Quirino, de posse dos irmãos José Bonifácio Coutinho Nogueira e Paulo Nogueira Neto e foi
doada ao município para construção de uma praça e sistema recreativo na época em que se
formou o loteamento Chácaras São Quirino, no início da década de 70 (Folha de São Paulo
15/09/1978). A área ficou aberta e abandonada durante vários anos, durante os quais era comum
o corte de árvores para abastecimento de lenha entre os moradores da região e a utilização da área
do Bosque como depósito de lixo, ações talvez responsáveis pela desestruturação da mata que
vemos hoje, evidenciada na ausência dos três estratos e com dossel extremamente aberto e
indivíduos arbóreos isolados.
Santin (1999) relata a presença de Lonchocarpus muehlbergianus Hassl. (Fabaceae) e
Aspidosperma ramiflorum Müll.Arg. (Apocynaceae ). De acordo com o levantamento realizado
pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo) , as espécies mais
84
frequentes foram Aloysia virgata Juss. (Verbenaceae) e Centrolobium tomentosum Guillemin ex
Benth. (Fabaceae).
Mesmo a Administração Regional foi acusada de promover corte das árvores para retirar
cascalho destinado ao combate à erosão em ruas não pavimentadas (Correio popular 20/09/78):
nessa época, segundo o mesmo diário, o bosque era maciço e sem nenhuma clareira.
Como podemos notar (Figura 12), este fragmento estava entre os 6 maiores em 1962, e foi
um dos fragmentos que sofreu maior redução de área total, passando de 27,70ha em 1962 para
3,10ha em 2002. Esta perda foi majoritariamente causada pelo parcelamento do solo do entorno,
principalmente pelo loteamento fechado residencial Chácaras São Quirino, hoje isolado do
Bosque Chico Mendes apenas por um grande muro alto, visível no mosaico de 2002 (Figura 10).
O entorno deste fragmento também sofreu grande alteração no intervalo de tempo analisado,
passando de uma proporção similar entre urbano e não urbano em 1962 para um uso
majoritariamente urbano em 2002 (96,97%), como nos mostra a Tabela 5.
Segundo os diários da época (Correio Popular 13/01/1995), embora a área tenha sido
prometida com muito furor às vésperas de eleição, o Bosque não foi efetivado com o mesmo
engajamento, tanto que sua inauguração oficial tardou alguns anos a acontecer, ocorrendo apenas
em maio de 1995. Até então, a área ainda não havia sido cercada e havia registro de queda de
árvores. No momento da inauguração oficial, o projeto paisagístico do Bosque conciliou a
proteção da mata nativa remanescente com a colocação de grama, canteiros de plantas
ornamentais e plantio de espécies comuns em arborização urbana, tanto nativas como exóticas,
totalizando aproximadamente 3.000 mudas. Apesar do estágio de degradação em que se
encontrava, a criação do Bosque, com a recuperação do fragmento, mostrou-se uma necessidade
por constituir-se na única alternativa de lazer para a população do entorno (Diário do Povo
12/12/1994).
O manejo realizado é mínimo: os funcionários varrem apenas as folhas do passeio, e as
acumulam entre as árvores, para que estas virem adubo para as árvores e não interferem no
fragmento através de podas. Entretanto, mesmo assim anos de distúrbio e manejo inadequado
influenciaram extremamente na composição e estrutura do fragmento: este é um dos fragmentos
da bacia cujo sub-bosque é mais escasso, quase ausente. Segundo relato de técnicos da PMC,
85
durante anos houve o corte do sob bosque como meio de segurança, para evitar abrigo de
criminosos e uso de tóxicos ilegais. O Condomínio São Quirino, loteamento de alto padrão e
fronteiriço ao Bosque, abriga alguns animais que anteriormente encontraríamos na mata: os
sagüis, por exemplo, que parecem preferir o condomínio, afinal 'do lado de lá do muro são muito
bem cuidados , como diz um funcionário do Bosque. Os funcionários do Bosque tem algumas
iniciativas para acostumar os sagüis a permanecerem no Bosque, dando-lhes frutas, mas quando
não há mais voltam para o condomínio, que possui densa arborização.
Atualmente o uso do Bosque é feito em grande parte pelo público infantil, que utiliza as
quadras poliesportivas e o gramado para jogos. Há também alguns brinquedos no parquinho,
entretanto, como esses exigem manutenção freqüente, muitas vezes ficam inutilizados. O Bosque
possui ainda equipamento para ginástica. O uso pelo público adulto praticamente restringe-se ao
Bosque como via de acesso. Até hoje o Bosque tem o caráter de possibilitar o deslocamento de
forma mais rápida para um grande número de moradores dos bairros próximos, uma vez que tem
um portão voltado à rua Moscou e dois às ruas de cima. A quantidade de transeuntes é
especialmente maior logo de manhã, quando da abertura do Bosque, devido ao horário de entrada
de trabalhadores da equipe de limpeza do Carrefour, situado nas proximidades.
O encarregado entrevistado afirma que tanto a participação quanto críticas da comunidade
são praticamente ausentes. Como participação citou apenas "quando eles pedem luz nas quadras".
Os conflitos entre o Bosque e a comunidade também foram listados de forma sucinta: ao cercar a
área com o alambrado, a Polícia Militar teve que retirar um homem que morava em um barraco
justamente onde hoje é a entrada do Bosque. Embora esse acontecimento pudesse gerar muita
polêmica, como foi oferecido ao homem uma outra área para que morasse, ali mesmo na rua
Moscou, a questão foi rapidamente resolvida.
Em relação às dificuldades no manejo do Bosque e a interlocução com a administração do
DPJ e da prefeitura, o entrevistado mostrou-se paciente e sem grandes críticas: Às vezes as
crianças quebram as luzes, mas é só pedir que eles vêm repor. Quando não podem vir logo vêm
assim que podem".
No momento da realização deste projeto, estava em andamento o "Projeto de
Revitalização do Entorno do Ribeirão Anhumas", coordenado pela Secretaria Municipal de
86
Habitação, cuja meta é a reurbanização e revitalização da rua Moscou, incluindo a retirada das
famílias e remoção das casas em situação de risco da margem esquerda do ribeirão das Anhumas.
Até agosto de 2006, um total de 420 famílias havia sido removido, finalizando a primeira etapa
do Projeto (Fernando Pupo, Secretário da Habitação da PMC, com. pess.). Ainda faria parte do
Projeto a remoção de mais 130 famílias, o plantio em área de mata ciliar, o calçamento de acesso
a pedestres, a construção de pista de caminhada, quadras poliesportivas e colocação de
equipamentos urbanos, como luminárias, bancos e aparelhos de ginástica. Certamente toda essa
alteração deve ser considerada quando avaliado o uso e impactos futuros no Bosque, pois alterará
fortemente a relação dos moradores do entorno com o Bosque Chico Mendes.
Este fragmento encontra-se em estudo de processo de tombamento (CONDEPACC
04/2001).
Bosque São José - Praça Francisco Vivaldi (nº23)
Rua Capistrano de Abreu, s/nº, Vila Lemos
Área: 2,81ha (1962); 2,81ha (1972); 3,25ha (2002)
Inaugurado em 13/11/1972, embora sua iluminação date apenas de setembro de 1975, o
Bosque é utilizado de diferentes formas, principalmente pela comunidade do bairro.
Semanalmente há visitação da associação de deficientes visuais e esporadicamente das crianças
da creche infantil do bairro, além das caminhadas diárias, principalmente de manhã cedo e no fim
da tarde, e grupo de Tai-Chi-Chuan aos sábados. Há área de recreação para adultos e crianças, e
calçada para passeio.
O Bosque tem um histórico diferente da maioria das outras áreas, e o funcionário
entrevistado afirma que não há histórico de corte de madeira da mata. Talvez esse seja um dos
motivos que contribuam para o fato deste fragmento ter tido o mais alto índice de diversidade de
Shannon & Weaver (H = 3,67), segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do
Projeto Anhumas (Torres et al. 2006) mesmo sendo um fragmento urbano, relativamente
pequeno e com a substituição da vegetação nativa por espécies herbáceas exóticas potencialmente
invasoras em trechos que margeiam o caminho para visitantes, como é o caso do hisbisco
87
(Hibiscus spp. Malvaceae). Ainda de acordo com este levantamento, as espécies mais comuns
foram Nectandra megapotamica (Spreng.) Mez. (Lauraceae), Cabralea canjerana (Vell.) Mart.
(Meliaceae) e Colubrina glandulosa Perkins (Rhamnaceae ) (Torres et al. no prelo).
A construção da cerca que delimita o Bosque ocorreu na década de 80, por pedido dos
moradores, que alegavam que a área estava sendo utilizada para uso de drogas, principalmente de
noite, e gerava temor por ser foco de violência. Santin et al. (1996 apud Santin 1999) apontam
como espécies mais abundantes Nectandra megapotamica (Spreng.) Mez. (Lauraceae),
Centrolobium tomentosum Guillemin ex Benth. (Fabaceae) e
Trichilia claussenii C.DC.
(Meliaceae). O uso do entorno do Bosque São José foi drasticamente alterado, passando de
0,58% de uso urbano em 1962 para 99,81% em 2002 (Tabela 5).
O entrevistado não considera o DPJ ou a PMC omissos; ele garante que muitos recursos
têm sido disponibilizados, e até então têm tido facilidade para executar os projetos propostos:
manutenção do calçamento, instalação de corrimãos nas escadas e de rampas de acesso. Por
acreditar que o Bosque é sub-utilizado, pretende realizar a construção de um viveiro de pequenos
pássaros, para atrair mais a população: "As crianças gostam, né?". Também afirmou que já
houve, no passado, placas de identificação de árvores, hoje inexistentes.
Como principais dificuldades, ressalta duas questões: a insuficiência de guardas e a
grande freqüência e volume de fezes de cães na calçada externa que circunda o Bosque, motivo
das maiores reclamações dos usuários. Em agosto de 2005, houve um início de fogo, que foi
controlado graças à presença do guarda: "Uns moleques, atearam fogo e saíram correndo".
Entretanto, como o Bosque é razoavelmente grande, devido à insuficiência de guardas, mesmo
com a ronda noturna é possível acontecerem acidentes.
Há uma nascente dentro do Bosque, mas devido a uma proposta para construção do
parquinho para crianças, agora a nascente corre direto pela galeria de águas pluviais. Há algum
tempo foi encontrado por "um pessoal da área da saúde" o Aedes aegypti (Culicidae), mosquito
transmissor da dengue, em um dos parquinhos do Bosque, motivo que obrigou a drenagem da
área. O entorno é majoritariamente residencial, e o entrevistado garante que só não há muita
degradação da vegetação do Bosque pois os funcionários impedem a população de retirá-la e
88
alterá-la, mas que esse trabalho é diário, uma vez que as tentativas não cessam: a cada passeio ou
caminhada, não faltam visitantes que querem levar mudas de plantas do Bosque para casa.
Este fragmento também consta no processo de estudo de tombamento CONDEPACC
nº04/2003.
Bosque dos Italianos - Pça Samuel Wainer (nº25)
Dr. Miguel Penteado, s/nº - Guanabara
Área: 1,65ha (1962); 1,65ha (1972); 1,65ha (2002)
O Bosque dos Italianos, assim como o Bosque dos Alemães é um dos mais consagrados
pela população campineira, e também está no processo de estudo de tombamento CONDEPACC
nº04/2003.
A área onde hoje se situa o Bosque fazia parte da fazenda Chapadão, de propriedade do
Sr. Otaviano Alves de Lima. No coração do bairro Guanabara, segundo a Prefeitura Municipal de
Campinas (www.campinas.sp.gov.br acesso em 22/05/2005), a área do Bosque dos Italianos
surgiu dos planos de loteamento do Jardim Chapadão, aprovados pela municipalidade em 1927.
O loteamento foi dividido em várias partes e comercializado, e a parte que continha o Bosque foi
adquirida pela São Paulo Land Company. A doação deste terreno à municipalidade ocorreu em
1960, denominando-se na ocasião de Parque I do loteamento Jardim Chapadão. Durante muitos
anos, esta área coberta de densa vegetação arbórea, arbustiva e forrageira prestou-se a abrigar o
Recanto Infantil nº1 que, por dificuldades diversas, foi extinto em 1977. A partir de então, coube
ao Departamento de Parques e Jardins propor um projeto de reurbanização do Bosque,
pretendendo-se associar, à semelhança do Bosque dos Alemães, a criação de um novo espaço de
lazer com a preservação e manutenção integral da mata nativa.
Foi no final da década de 1970, que o Bosque dos Italianos recebeu equipamentos de
recreação infantil, os quais ainda possui, uma biblioteca e a construção de novo sistema de
drenagem. A esses bens, foram somados a casa do Tarzan , área para festas, área coberta para
atividades, e a Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, inaugurada em outubro de 1985, que
89
chega a ter 11.000 visitantes por ano. Atualmente o uso do Bosque é muito diverso: diversão
infantil, dois grupos de Tai-Chi-Chuan, caminhada, lazer e descanso.
Segundo um antigo funcionário do Bosque, que está há 27 anos na prefeitura, o Bosque
dos Italianos, bem como o dos Alemães, já tiveram uma época melhor, mais gloriosa , onde a
visitação era muito maior. Ele associa o desinteresse da comunidade ao valor e dedicação
atribuído pela prefeitura, e relembra que a época mais
gloriosa
dos Bosques foi na
administração do prefeito Magalhães Teixeira, cujo primeiro mandato foi de 1983 a 1988. Muitas
das ações e implementações realizadas no Bosque, como a reforma e construção de prédios, por
exemplo, têm participação da Associação Amigos do Bosque dos Italianos, fundada por
moradores do bairro. Em agosto de 2004, por exemplo, segundo ata da reunião ordinária do
CONDEPACC (CONDEPACC Processo de estudo de tombamento nº04/2003), é aprovado,
conforme pedido da Associação, a execução de melhorias no Bosque, neste caso reforma do
alambrado e plantio de espécies nativas.
Como algumas dificuldades do dia a dia do Bosque, foram apresentadas o consumo de
drogas por alguns jovens ( Entram para fumar maconha, mas logo já vão embora ) e os gatos
abandonados, ainda filhotes, que acabam sendo alimentados pela população, como no Bosque
dos Jequitibás. Os gatos não são os únicos animais introduzidos: há também dois lagartos,
deixados no Bosque há aproximadamente 8 e 3,5 anos, respectivamente. A principal crítica
entretanto, fica ao corpo responsável: com a intensa redução do número de funcionários, a
administração dos Bosques fica muito comprometida.
O bairro onde se situa o Bosque dos Italianos, é um bairro tradicional de classe média,
caracterizando-se o entorno como de uso absolutamente urbano, com residências, pequenos
estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, próximos a duas das mais movimentadas
avenidas de Campinas: a Avenida Brasil e a Avenida Andrade Neves.
Santin (1999) relatou para o fragmento deste Bosque, a predominância de Copaifera
langsdorffii Desf. (Fabaceae) e Centrolobium tomentosum Guillemin ex Benth. (Fabaceae) no
estrato arbóreo e a presença de Hybanthus atropurpureus (A. St.-Hil.)Taub. (Violaceae). De
acordo com o levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et al.
90
no prelo), as espécies mais frequentes foram Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr.
(Fabaceae) e Maytenus salicifolia Reissek (Celastraceae).
Bosque dos Alemães - Praça João Lech Júnior (nº24)
Albano de Almeida Lima - Guanabara
Área: 2,24ha (1962); 2,24ha (1972); 2,15ha (2002)
Segundo a Prefeitura Municipal de Campinas (www.campinas.sp.gov.br acesso em
22/05/2005), a área em que atualmente se encontra o Bosque dos Alemães foi doada à Prefeitura
de Campinas em 1928 pela São Paulo Land Company Limited, nas proximidades da então Vila
Mac Hardy. O Bosque passava nesta ocasião a integrar o Jardim Guanabara, em formação. No
curso das décadas seguintes, a ausência de cercas ou alambrados de proteção, os cortes de
algumas árvores e o acúmulo de detritos urbanos danificaram a vegetação criando-se dificuldades
de preservação e renovação da cobertura vegetal. Cielo Filho & Santim (2002) afirmam que
segundo relatos de moradores antigos, a área era alvo constante de incêndios e chegou a sofrer
corte raso da vegetação, sendo mantidas algumas árvores maiores e alguns eucaliptos. Entretanto,
não foi possível comparar esta informação com a fotointerpretação deste fragmento, e como a
informação não foi datada, fica a suposição de que estes intensos distúrbios tenham ocorrido há
muito.
Em 1978, no entanto, o Bosque dos Alemães foi alvo de um novo projeto, mais atento aos
processos de destruição e à urgência de se instalar mecanismos de controle e preservação da mata
que, ainda neste período, mantinha cerca de 80% de sua flora nativa (www.campinas.sp.gov.br
acesso em 22/05/2005). Foi nessa reinauguração que houve o adensamento do Bosque, com
plantio de várias espécies arbóreas, nativas e exóticas, como Triplaris americana L.
(Polygonaceae)
(pau-de-formiga),
Senna
spectabilis
(DC.)
H.S.Irwin
&
Barneby
(Caesalpinaceae) (cássia-carnaval), Caesalpinia echinata Lam. (Caesalpinaceae) (pau-brasil),
Bombacopsis glabra (Pasq.) A.Robyns (Bombacaeae)
(castanha-do-maranhão) e Jacaranda
mimosaefolia D. Don (Bignoniaceae) (jacarandá-mimoso), Copaifera langsdorffii Desf.
(Fabaceae) (copaíba), Cariniana legalis (Mart.) Kuntze (Lecythidaceae) (jequitibá-rosa), Cedrela
91
fissilis Vell. (Meliaceae) (cedro-rosa), Esenbeckia leiocarpa Engl. (Rutaceae) (guarantã), Syagrus
romanzoffiana (Cham.) Glassman (Arecaceae) (jerivá) e Aspidosperma polyneuron Müll. Arg.
(Apocynaceae) (peroba-rosa) (Cielo Filho & Santim 2002). O Bosque foi cercado por alambrados
e controlado por quatro portões de acesso, sendo instalados em seu interior equipamentos de lazer
e os passeios traçados com a intenção de reforçar a percepção da flora.
Curiosamente, por mais que estejam distanciados apenas por algumas dezenas de metros,
os Bosques dos Alemães e dos Italianos não apresentam apenas semelhanças, como gatos
abandonados e alimentados pela população e o baixíssimo número de funcionários. Conforme
relatado para o Bosque dos Italianos, ambos os Bosques já tiveram, somados, 88 funcionários, e
hoje eles não passam de 13. Eles apresentam várias diferenças também, relativas ao uso,
manutenção e relação com a comunidade. No caso do Bosque dos Alemães, por exemplo, o
roubo da fiação elétrica já ocorreu algumas vezes. Aqui também, segundo um antigo funcionário,
há mais de 20 ligado a ambos os Bosques, há anualmente concentração de católicos para a Missa
de Ramos, que depois vão em peregrinação até a Igreja Nossa Senhora de Lourdes. Para ele
também ficam marcados na memória dois casamentos ocorridos no Bosque dos Alemães,
em1994: um católico e outro protestante.
O Jardim Guanabara, bairro onde se situa o Bosque dos Alemães, é hoje um bairro
tradicional de classe média, caracterizando-se o uso do entorno como absolutamente urbano, com
residências e pequenos estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços. Hoje ele está no
coração de malha viária com grande fluxo de diário de veículos, próximo a duas das mais
movimentadas avenidas de Campinas: a Avenida Brasil e a Avenida Andrade Neves. Entretanto,
há algumas décadas atrás essa situação era muito diferente: em 1962, apenas 0,37% do entorno
do Bosque dos Alemães era considerado de uso urbano (Tabela 5), sendo que no intervalo de
tempo de 1972 a 2002 o fragmento sofreu uma pequena redução (Tabela 2).
De acordo com o levantamento realizado em 2005-2006 pela equipe de vegetação do
Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), as espécies mais frequentes foram Ocotea corymbosa
(Meisn.) Mez (Lauraceae), Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr. (Fabaceae).
O Bosque dos Alemães consta no processo de estudo de tombamento do conjunto de
áreas verdes de Campinas (CONDEPACC nº04/2003)
92
Bosque dos Jequitibás (nº22)
Coronel Quirino, 2
Cambuí
Área: 10,31ha (1962); 10,31ha (1972); 10,78ha (2002)
Em outubro de 1880 foi publicada no jornal diário de Campinas a informação sobre a
reforma que Francisco Bueno de Miranda acordava para sua propriedade: O Bosque dos
Jequitibás vai ficar magnificamente preparado, conforme a planta que é feita pelo ilustrado
engenheiro Dr. Ramos de Azevedo. (Gazeta de Campinas 19/9/1880). No ano seguinte, já
inaugurados o lago artificial, o Chalé Restaurante e sanitários - chamados na época de casa de
banhos -, o Bosque era visitado com grande freqüência, principalmente aos domingos, por
pessoas autorizadas pelo proprietário (Lima 2000). Em 1886, o Bosque recebe a visita de D.
Pedro II que, impressionado com a beleza do local, sugere que seja aberto ao público mediante
pagamento de entrada ou convite por parte do proprietário. Mas, segundo Lima (2000), é somente
dali a quase 20 anos que o Bosque passa para a administração pública municipal: em 1915, na
gestão do prefeito Heitor Penteado, transforma-se na principal área de lazer de Campinas:
Esta prefeitura, autorizada pela resolução municipal nº 472, de 4 de Maio de 1915, adquiriu do
cidadão Francisco Bueno de Miranda o parque denominado Bosque dos Jequitibás, de
tradicional memória nesta cidade. Esta aquisição foi feita em boas condições, como os srs.
Vereadores sabem: pela quantia de Rs 100:000$000, sendo 50:000$000 à vista e 50:000$000 em
cinco letras de cambio, do valor de 10:000$000 cada uma, vencíveis annualmente e sem juros
(Lima 2000).
O Bosque dos Jequitibás (Figura 16) é não somente o mais antigo como também dos mais
populares e visitados bosques de Campinas. De acordo com a PMC, a estimativa de visitantes no
parque é de 18 mil pessoas nos finais de semana e 1 milhão de pessoas ao ano, incluindo públicos
de lazer recreativo, contemplativo e didático (Conforti & Dechoum 2003). Ele possui uma
diversificada infra estrutura: área de alimentação, com diversas lanchonetes; área de recreação,
com brinquedos infantis; fontes e um trenzinho; o Teatro Carlos Maia; o Museu de História
Natural, o Aquário e o Zoológico Municipal. Há também algumas atividades para a população
93
que já estão embutidas na rotina do Bosque, como o curso de férias de ecologia, oficinas para
professores e alunos e programa de educação ambiental.
O zoológico do Bosque é das grandes atrações da cidade e embora também apresente
deficiências por falta de funcionários, recebe muita dedicação de alguns funcionários
inclusive
da administradora, há 16 anos na PMC, em 1986 estagiária no Bosque e atualmente bióloga do
zoológico desde 1991. Todas as instalações do zoológico e os aspectos de alimentação e
tratamento dos animais estão atualmente adequados às normas do IBAMA. Há uma quantidade
razoável de animais, como arara azul, cão vinagre, lobo guará, felinos, hipopótamos, primatas,
que se tornam objeto de grande número de pesquisas na área de animais em cativeiro, como
estudo de esperma, fecundação e anestesia. Segundo uma pesquisadora profundamente ciente da
questão ambiental de Campinas, a adequação das jaulas do zoológico foi feita à custa da
vegetação nativa.
Um grande problema no Bosque é a quantidade de gatos soltos. É comum que sejam
abandonadas crias de gatos domésticos, que acabam sendo alimentados pela população e
causando um grande impacto no Bosque. A Associação de Moradores do entorno do Bosque,
existente há muitos anos, não participa efetivamente da gestão, mas contribui na divulgação do
que lhes é comunicado pela administração através de jornaizinhos e cartazes, a fim de esclarecer
e educar os visitantes. Outro polêmico debate que envolve o Bosque é a presença de diversas
cotias soltas, cuja presença é apontada como uma agressão às espécies arbóreas, uma vez que
seriam vítimas de anelamentos em seus troncos.
Outra questão pertinente é a influência direta das construções no entorno do Bosque, que
alteram a características de sombreamento, nível do lençol freático e radiação solar no
remanescente. Embora na administração do prefeito Francisco Amaral uma lei tenha proibido a
construção de prédios com mais de dois pavimentos num raio de 100m do Bosque (Lei municipal
nº 5138 de 24/09/81), isso não pôs um ponto final à questão. Segundo especialistas, as
fundações dos prédios que circundam o Bosque, em forma de cinturão, alteram o curso d água no
subsolo, e as construções fizeram com que fosse reduzido o número de horas de luz solar que a
mata precisa. Além disso o paredão de edificações no entorno faz com que a haja a formação de
94
uma corrente de ventos que pode eliminar água dos plantas e até derrubar árvores (Heuri et al.
1993).
No Bosque dos Jequitibás a vegetação nativa vem sofrendo com a pressão exercida sobre
o fragmento e podemos chegar a essa constatação após uma rápida caminhada: são comuns áreas
ocupadas por lianas, ervas, arbustos e árvores exóticos, troncos de árvores de grande porte secos,
e árvores jovens mortas.
Objetivando analisar a dinâmica deste remanescente, um pesquisador vinculado ao
Projeto Anhumas refez o levantamento do estrato arbóreo, utilizando o mesmo critério de
inclusão do estudo realizado por Matthes et al. (1988). Como resultado, Gomes et al. (2006)
obteve 37 novas ocorrências de espécies em relação ao trabalho anterior e
48 espécies não
reamostradas, sendo que ainda assim as famílias mais ricas mantiveram-se; Fabaceae, Myrtaceae,
Lauraceae, Euphorbiaceae e Rutaceae, como no trabalho de Matthes et al. (1988), que também
havia identificado como espécies dominantes Trichilia claussenii C.DC. (Meliaceae),
Machaerium nictitans (Vell.) Benth. (Fabaceae) e Centrolobium tomentosum Guillemin ex
Benth. (Fabaceae). Além disso, observou-se um aumento de 6,76% na densidade das árvores
mortas, e também um aumento das espécies exóticas (de 9 para 38 indivíduos).
Segundo Conforti & Dechoum (2003), num relatório técnico que propõe um plano de
manejo para o fragmento, as perturbações antrópicas mais prováveis de serem causas de
degradação da vegetação nativa do Bosque dos Jequitibás são:
- o pisoteio dos visitantes na vegetação nativa em crescimento, prejudicando o estabelecimento
de plântulas e o recrutamento de jovens, reduzindo o potencial de regeneração natural da floresta;
- a presença de lixo no interior da mata;
- o número excessivo de trilhas cortando a mata, possibilitando o acesso do visitante à floresta,
sem nenhum tipo de orientação;
- a alta densidade de animais como cotias e gatos domésticos, que atuam como predadores da
flora e da fauna, respectivamente;.
- a presença de espécies exóticas arbóreas, arbustivas e herbáceas, ocupando expressivas áreas e
descaracterizando a vegetação nativa e;
95
- a rápida expansão de lianas em alguns pontos da borda da mata e no seu interior, em locais nos
quais foram observadas quedas de indivíduos arbóreos adultos.
Infelizmente esta proposta não se manteve na nova administração municipal. Pesquisando
nos documentos do Centro de Documentação (CD) da CSPC (Coordenadoria Setorial do
Patrimônio Cultural), constata-se o grande número de pedidos e autorizações isoladas para podas
de árvores no Bosque dos Jequitibás, sem que estivessem relacionadas a um plano de manejo. A
execução desses serviços de forma dispersa, embora seja necessidade premente no dia a dia dos
administradores e visitantes do Bosque, não contribui para manejo do fragmento a longo prazo,
dificultando sua viabilização e persistência.
Outro importantíssimo desequilíbrio sofrido pelo Bosque, são as doenças vasculares
causadas por fungos que colonizam o sistema vascular da planta, causando um colapso no
sistema de transporte de seiva bruta e, em muitos casos, causando a morte. Segundo Conforti
(2005) em Campinas, além presentes na arborização urbana, as doenças vasculares foram
observadas no interior do Bosque, naquela época já em estado avançado. Foram detectados cerca
de 30 pontos de incidência, distribuídos por toda a área do Bosque. Diversas árvores de diferentes
espécies já morreram, e foram observados mais de 10 indivíduos arbóreos doentes de jequitibá
(Cariniana estrellensis (Raddi) Kuntze e Cariniana legalis (Mart.) Kuntze, Lecythidaceae)
(Conforti 2005).
O entorno do Bosque dos Jequitibás também sofreu uma drástica alteração no intervalo de
tempo estudado, passando de majoritariamente não urbano (0,89% em 1962) para, na prática,
integralmente urbano (99,30%).
Bosque da Paz - Bosque Yitzhak Rabin (nº26)
Prof. Ary Monteiro Galvão - Jardim Madalena
Área: 6,28ha (1962); 4,75ha (1972); 4,19ha (2002)
O Bosque da Paz oferece aos freqüentadores pista de caminhada, equipamentos para
ginástica, quadras esportivas, mesas de dama e xadrez, área de recreação infantil com brinquedos.
96
Sua área, originada da antiga fazenda São Quirino, manteve-se relativamente abandonada até
1995, quando foi transformada em Bosque. Antes de se fechar a área e ser criado o Bosque, um
morador do bairro se apropriava do espaço e criava porcos. Foi necessária muita persistência da
Associação de Moradores, que para conseguir a criação do Bosque junto à PMC tiveram que
enfrentar diversos obstáculos. De acordo com a declaração de um antigo morador atuante no
processo de criação do Bosque, mesmo os que eram contra a sua criação, hoje freqüentam-no
com seus netos.
O Bosque encontra-se em uma área de desnível acentuado, e possui uma nascente com
bastante vazão, cujas águas, somadas às outras que para lá escoam com a chuva e nascentes mais
acima, formam um lago. O lago, com queda d água, está repleto de carpas
lá depositadas por
um morador do bairro - e tilápias. A pista de caminhada foi construída beirando a mata, que é
bem fechada, embora apresente áreas com muitas trepadeiras. A vegetação protege a nascente de
um afluente do ribeirão das Anhumas.
As capivaras não foram apontadas como um problema no Bosque e, segundo o
funcionário entrevistado, elas permanecem durante todo o dia no interior da mata, saindo apenas
de noite, quando não há nenhum visitante. Sabe-se entretanto que os visitantes deste fragmento
são constantemente vitimizados por carrapatos, principalmente na estação seca.
O entrevistado não apontou insuficiência no número de funcionários, como foi apontado
na maioria dos outros Bosques, e diz que os três funcionários são suficientes para a manutenção
do dia-a-dia, principalmente por que na época de chuvas contam com o mutirão do DPJ, que
ajuda com as podas, manutenção da grama e remoção do material produzido.
Não há um manejo rotineiro do fragmento, embora uma contenção de trepadeiras tenha
sido realizada na última administração, em 2002. Em dezembro de 2003 houve um plantio
realizado pelo DPJ, atividade integrante do Projeto Manejo de Áreas Verdes Naturais do
Município de Campinas. De acordo com Conforti & Dechoum (2004), houve o plantio de 63
mudas de 10 espécies arbóreas nativas ocorrentes no Bosque, num trecho que começava a sofrer
erosão, no talude da margem esquerda do curso d água. Santin (1999) indica Croton priscus
Croizat (Euphorbiaceae) e Heliocarpus americanus L. (Tiliaceae). como espécies dominantes do
fragmento. De acordo com o levantamento realizado em 2005-2006 pela equipe de vegetação do
97
Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), a espécie mais frequente foi Trichilia claussenii C.DC.
(Meliaceae).
Embora o loteamento residencial da face norte do fragmento tenha ocorrido apenas entre
1972
2002, foi no primeiro intervalo de tempo (1962 1972) que o fragmento apresentou maior
retração (Tabela 2), talvez porque já houvesse planos para seu estabelecimento, fazendo-se
necessária a liberação do terreno. Hoje o entorno do Bosque da Paz já está completamente
estabelecido, podendo ser caracterizado como urbano (Tabela 5).
Segundo alguns técnicos da Prefeitura, a relação com o condomínio vizinho é delicada: já
foi registrado algumas vezes que gambás que passaram pelo muro foram mortos a pauladas e
atirados de volta ao bosque. Além disso, foram instalados holofotes de alta potência apontados
para dentro do bosque, para evitar que marginais pulassem o altíssimo muro e entrassem no
condomínio.
Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim (nº21)
Rodovia Heitor Penteado, Km 3,2 - Jardim das Palmeiras
Área: 5,79ha (1962); 5,73ha (1972); 5,02ha (2002)
No fim da década de 80, os jornais campineiros divulgaram orgulhosamente um
empreendimento ímpar a ser realizado na cidade: o Parque Ecológico Monsenhor Emílio José
Salim. A promessa era entregar 110ha para a população de Campinas e arredores, criando o
maior parque da região, suplantando até mesmo o Parque do Ibirapuera, em São Paulo (Correio
Popular 23/10/1988) - numa propriedade pertencente ao governo do Estado, cuja área total
chegava a 285ha. O projeto do Parque Ecológico consistia em três carros chefes: lazer para a
população, recuperação ambiental e atividades de educação ambiental. Para tanto, fariam parte de
sua infra-estrutura, lagos e cascatas, anfiteatro ao ar livre, mirante, quadra poliesportivas, parque
com brinquedos infantis, campo de futebol, sanitários e vestiários, área para piquenique com
churrasqueira, lanchonetes e restaurantes, e dois estacionamentos, um com capacidade para 400 e
outro para 600 veículos, além do plantio de espécies nativas e projeto paisagístico de autoria de
98
Roberto Burle Marx e Haruyoshi Ono. Criado pelo governo do estado de São Paulo na época de
administração de Orestes Quércia, em junho de 1987, através do decreto nº 27.071, e idealizado
pelo Departamento de Projetos da Paisagem da Secretaria do Meio Ambiente, o projeto chamou
muita atenção devido a sua grandiosidade e pela estratégia de unir história, cultura e, segundo o
verbete mais usual, meio ambiente . Segundo a arquiteta diretora do Departamento na época, o
Parque
servirá para o entrosamento do homem com a natureza, desenvolver métodos de
recuperação de áreas degradadas e mostrar às pessoas a importância de uma boa convivência com
o meio ambiente (Diário do Povo 25/10/90)
O Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, situado no quilômetro 3,2 da Rodovia
Heitor Penteado, principal via de acesso ao distrito de Sousas, ocupa parte da antiga Fazenda
Mato Dentro. Fundada em 1806 pelo Tenente-Coronel Joaquim Aranha Barreto de Camargo,
então com 1.515 alqueires, a fazenda foi batizada com o nome do bairro rural em alusão às matas
que cresciam nas terras, e foi originalmente produtora de açúcar. Por volta de 1820, sob
administração da então futura Viscondessa de Campinas, Maria Luiza de Souza Aranha, a
produção de açúcar aumenta e reativa-se o plantio e beneficiamento do café. Quando da morte da
Viscondessa, aproximadamente sessenta anos depois, a Mato Dentro era uma fazenda de grande
porte, das mais prósperas da região e detentora de mais de 200 escravos. A família proprietária
era ligada à alta nobreza: Joaquim Aranha Barreto de Camargo foi dos principais assessores de D.
Pedro I, e a Princesa Isabel, o Conde D Eu e D. Pedro II e sua esposa, D. Teresa Cristina, foram
acolhidos e ciceroneados por membros da família quando em Campinas, entre os anos 1874 e
1886.
Após anos de glória e riqueza, a crise do café em 1929 atinge duramente as finanças da
fazenda, e em 1937 ela é comprada pelo governo do Estado (Decreto Estadual nº2.903 de
15/01/1937), para implantação do Instituto Biológico, sob jurisdição da Secretaria da Agricultura
e Abastecimento. Devido a anterior fracionamento por herança, agora sua área total é de 117
alqueires.
Em março de 1991 o Parque Ecológico foi inaugurado, batizado com o nome de
Monsenhor Emílio José Salim, fundador da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC
Campinas). A casa sede, construída entre 1840 e 1850, exemplar da arquitetura rural paulista em
99
taipa de pilão e pau-a-pique, já havia sido tombada pelo CONDEPHAAT (Resolução nº34 de
10/05/1982), por suas características arquitetônicas. A expectativa de visitantes era de
aproximadamente 30.000 pessoas por fim de semana, o dobro do que o Parque Portugal (Lagoa
do Taquaral) arrebatava (Correio Popular 07/03/1991). A Lagoa do Taquaral, juntamente com o
Bosque dos Jequitibás, forma a dupla dos parques mais populares na cidade de Campinas. As
atividades de educação ambiental levaram cerca de 240 mil visitantes ao Parque Ecológico entre
sua inauguração até maio de 1992, sendo que 30 mil foram estudantes que participaram da
programação do CIPAM
Centro Integrado de Percepção Ambiental (Correio Popular 11/07/92).
Segundo a funcionária entrevistada, a equipe de educação ambiental realizava muitos trabalhos,
principalmente com a comunidade carente da Vila Brandina. Assim, além de complementar a
educação, buscavam ampliar o reconhecimento e a valorização das pessoas com o Parque e com
seu próprio bairro .
Na área de recuperação ambiental e paisagismo, o conceito de flora nativa é notavelmente
tangido, embora com outra nomenclatura e sem aprofundamento a respeito dos argumentos
técnicos. O próprio Burle Marx afirmou que em seu projeto incluiria a flora autóctone da região
campineira, porque muitas árvores do estado de São Paulo ou desapareceram ou não têm sido
suficientemente plantadas (Correio Popular 27/11/87). Em outro momento, um profissional
pertencente à Concremat Engenharia e Tecnologia - uma das empresas contratadas para a
realização do projeto de recuperação
afirma que todas as plantas utilizadas serão nativas, como
o flamboyant (Delonix regia (Bojer) Raf., Fabaceae) , a sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides
Benth., Caesalpiniaceae) e o pau brasil (Caesalpinia echinata Lam., Caesalpiniaceae) (Folha de
São Paulo 29/12/1990), demonstrando falta de esclarecimento técnico para realização de projetos
desse âmbito, uma vez que o flamboyant é uma espécie oriunda da África, e não uma espécie
nativa do Brasil.
Entretanto, a promessa de ser um divisor de águas na história do estado durou
pouquíssimos anos. Em 1994, apenas três anos após a inauguração do Parque Ecológico, a
Fundação Florestal, órgão responsável pela administração do Parque Ecológico, e vinculado à
Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), anunciou seu fechamento.
100
Daí em diante, nos próximos anos, inicia-se uma corrida de tentativas, projetos, palavras e
palavras. A administração municipal de José Roberto Magalhães Teixeira cogita a
municipalização do Parque que, entretanto, parece não ter sido bem aceita nem pelo secretário
estadual do meio ambiente, Fábio Feldmann, nem pelo diretor da Fundação Florestal da época,
Marcos Egídio Martins (Correio Popular 23/02/1995). Até então, desde a criação do Parque
Ecológico, o acordo realizado entre o Governo do Estado e a PMC não exigia participação
financeira da Prefeitura, e os gastos mensais apresentados pela Fundação alcançavam
mensalmente de R$ 383.000,00 (Correio Popular 01/09/1995) a R$ 580.000,00 (Correio Popular
28/10/1995). Alegando altos gastos com a manutenção do Parque, a Fundação Florestal anuncia
seu fechamento temporário com o intuito de redução de gastos em 80% e busca de parcerias
privadas. Iniciam-se as demissões em massa: ao menos 100 dos 200 funcionários já estão
desligados em 1995 (Correio Popular 02/09/1995).
Durante algum tempo, a proposta de municipalização foi esporadicamente reapresentada
aos cidadãos como única salvação do Parque, tendo sido descartada somente na administração da
prefeita Izalene Tiene (2001-2004), sob alegação de que a existência de terrenos do Estado
anexos à gleba impunha que o Estado continuasse participando da administração do local
(Correio Popular 30/10/2002). Entretanto, antes dessa decisão, por algum tempo a PMC afirmava
que seria possível fazer a manutenção da área com R$ 60.000,00 mensais (Correio Popular
04/09/1995), realizando também o remanejamento de funcionários de manutenção, como
eletricistas, encanadores e pintores e de vigilantes de outros Bosques municipais. Contrariando o
que havia sido planejado na fase de inauguração do Parque Ecológico, quando foi divulgada a
alocação de 30 guardas diurnos e 30 noturnos, em revezamento, o Secretário de Serviços
Públicos da PMC afirmava que 10 guardas seriam suficientes, já que na Lagoa do Taquaral havia
apenas seis. (Correio Popular 04/09/1995)
É gritante a diferença dos investimentos realizados pela Fundação Florestal e o
planejamento de gastos apresentado pela PMC. Entretanto, se era exacerbadamente simples a
manutenção que a PMC propunha-se a dedicar ao Parque Ecológico
explicitada na designação
de suficiente uma equipe de 10 guardas para uma área de 110ha - pareciam também
exacerbados os gastos da Fundação Florestal. Portanto, não foi muita surpresa quando surgiram
101
as acusações de superfaturamento de contratos: a equipe de vigilância de 20 guardas do Parque
custava R$100.000,00 mensais, enquanto a PMC despendia mensalmente R$40.000,00 por um
contrato que incluía 56 homens e 3 viaturas (Correio Popular 04/09/1995). Os gastos do Governo
do Estado com o Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim já haviam sido questionados
anteriormente: teriam sido alocados mais recursos para a construção do Parque do que para
manutenção de todas as unidades de conservação do Estado na mesma administração (Folha de
São Paulo 08/07/90). Enquanto membros do governo defendiam o gasto como necessário para a
implementação de um projeto estratégico, e alegavam que a implementação de um parque é mais
dispendiosa do que a manutenção, outros acusavam o empreendimento de eleitoreiro: o parque
foi acusado de ser das principais peças de propaganda de campanha das eleições de 1991 para
governador do Estado (Correio Popular 09/04/1998) do então candidato pelo PMDB Luiz
Antônio Fleury Filho (mandato: 03/1991 a 01/1995), do partido de Orestes Quércia (mandato:
03/1987 - 03/1991).
Durante os anos em que a decisão a respeito do Parque era sempre postergada, surgiram
inúmeras possibilidades para a provisão de fundos ao Parque: sua transformação em Parque
Zoobotânico, em mais uma unidade do grupo Playcenter, em redes de fast-food e até mesmo na
construção de um posto de combustível ecológico cujos lucros beneficiassem o Parque. Além
disso, outros pequenos convênios foram se firmando às duras penas e sempre por breve
momento, mas serviam para alimentar a esperança dos adeptos à sobrevivência do Parque: o
Projeto Viva Parque em 1998, apoiado pela rede Anhanguera de Comunicação, a Escola Técnica
do Meio Ambiente do Brasil, criada por lei municipal (Lei nº 8.424 de 10/07/1995) mas nunca
efetivada, convênios com empresas privadas que financiaram algumas atividades específicas do
Parque. Além disso, surgiram também outros conflituosos momentos que dividiram a população
e os formadores de opinião, como a proposta de instalação de uma base do Grupo Armado de
Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), da Polícia Civil, em 2002, barrada em audiência pública
na Câmara dos Vereadores de Campinas, e a venda de área do Parque (cerca de 74ha) como
parte de um conjunto de medidas destinadas ao saneamento financeiro do Estado (Projeto de Lei
Estadual nº 238 de 22/04/1999).
102
Finalmente, em novembro de 2004, a PMC e a SEMA firmam o Sistema de Gestão
Compartilhada, no qual comprometem-se a unir forças para elaborar e efetivar o Plano de
Recuperação, Manutenção, Manejo e Desenvolvimento do Parque (SMA 2004). O governo do
Estado fica responsável pela coordenação geral do Parque, mas a gestão será compartilhada entre
os dois poderes. Fica explícita também a celebração de parcerias com entidades públicas ou
privadas. Quando acordada a Gestão Compartilhada, já haviam sido fechados alguns convênios
com as empresas Shell do Brasil, Petrobrás e Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL),
totalizando R$4.000.000,00 revertidos na recuperação das edificações existentes e instalação de
novos equipamentos, conforme apontado no Projeto de Revitalização do Parque (SMA 2004).
Com o passar dos anos, o descaso administrativo, os roubos e vandalismos contra o
patrimônio, o minguar da programação e a falta de identidade da população, provocaram um
elevado grau de deterioração do Parque, comprometendo significativamente o índice de visitação
pública e, conseqüentemente, os projetos de educação ambiental (Tabela 6).
Tabela 6 - Visitação no Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim em algumas datas e a expectativa no
aumento da visitação após firmada a gestão compartilhada.
DISCRIMINAÇÃO
1994
2001
2003
2004 *
2005 **
Visitantes Espontâneos
960.000
4.000
96.000
96.000
950.000
Visitantes em Projetos de Educação Ambiental
36.000
0
6.358
901
30.000
Visitantes em Projetos de Cultura
9.323
0
36.029
14.788
75.000
Projetos de Educação Técnica ***
0
1 curso
0
0
3 cursos
1.005.323
4.030
138.387
111.689
1.000. 145
TOTAL
*
Dados levantados até agosto de 2004
** Dados estimativos
*** Projeto Jovem Viveirista com capacidade para 30 alunos e escola técnica
Fonte: SMA (2004)
Durante o ano de 2005, a reinauguração do Parque Ecológico foi adiada por três vezes, e
as visitas escolares dos alunos da rede pública ficaram muito comprometidas devido aos casos de
103
febre maculosa na cidade: novamente a existência de capivaras torna-se determinante na
dinâmica de visitação de um parque campineiro.
A entrevista realizada foi riquíssima em detalhes e comparações, pois a funcionária
participou da equipe de Educação Ambiental entre 1991 e 1995, até sua dissolução pelo governo
do Estado, retornando em 2002 como voluntária na mesma área. Hoje, ela mantém as antigas
atividades da equipe e busca captar interessados em monitorar essas atividades, após receberem
sua instrução. Sua experiência permeia toda a história do Parque; ela participou dos conflitos e
dificuldade que os demais acompanhamos através de jornais.
Uma grande dificuldade que ela encontra na administração é ainda a questão da
segurança. Hoje a equipe de segurança divide-se em dois turnos de 8 funcionários, somados de
rondas matutinas e vespertinas da Polícia Militar e da Guarda Municipal, e não lhe parece
suficiente para resolver os problemas de segurança apresentados pelo Parque. Os roubos de
equipamentos do parque, como pias, vasos sanitários e placas indicativas, e a depredação de
alambrados e das quadras esportivas ocorrem com freqüência. Além disso, preservativos
masculinos (camisinhas) e seringas são comumente encontradas nas rondas realizadas. A
localização do Parque Ecológico é muito interessante; limítrofe a bairros de características muito
diferentes. Os funcionários dizem serem capazes de saber para qual bairro as peças de construção
do Parque estão sendo levadas pelo trajeto percorrido dentro do Parque: muitas vezes encontram
as peças escondidas dentro da mata ou entre as árvores, e acreditam que tenham sido lá deixadas
para serem buscadas posteriormente, porque ou a aproximação da ronda pode ter afugentado os
contraventores ou eles não teriam conseguido carregar tudo. Apresenta também como entrave as
dificuldades geradas da gestão compartilhada: ao invés dos esforços municipais e estaduais se
aliarem na realização dos projetos do Parque, ele fica à mercê da disposição de duas esferas
políticas e da harmonia entre ambas.
A área da fazenda Mato Dentro, com sua vegetação e nascentes, encontra-se na microbacia do riacho Mato Dentro, afluente do ribeirão das Anhumas e conseqüentemente uma sub
bacia do Piracicaba. Sua grande área de solo permeável contribui para a captação de água de
chuva, diminuindo a possibilidade de inundações nos bairros vizinhos.
104
Em relação ao fragmento propriamente dito, tombado pelo CONDEPACC (resolução nº
37 de 22/10/2002), não podemos dizer que haja algum manejo frequente: a administração não
interfere na estrutura da mata, nem com podas, nem com varrição ou supressão do sub-bosque.
Em 1999, o XX Encontro Nacional dos Estudantes de Biologia (XX ENEB), realizado pelos
estudantes do curso de Ciências Biológicas do Instituto de Biologia-Unicamp sob o tema O que
fazer com o conhecimento? , promoveram, inserido nas atividades do Encontro, um plantio de
árvores nativas, com intuito de enriquecer e adensar o remanescente. Essa atividade foi semente
vigorosa na decisão de se criar no Instituto de Biologia o Viveiro de Mudas Nativas,
posteriormente denominado Viveiro Guapuruvu , através do qual os interessados, em consenso
com professores responsáveis, sistematizavam a coleta de sementes, produção de mudas e plantio
em áreas específicas, sempre seguindo diretrizes da área de recuperação de áreas degradadas.
O fragmento sofreu pouca alteração de área no intervalo de tempo analisado,
apresentando um decréscimo de 0,77ha entre 1962 e 2002. Atualmente uma das ameaças ao
fragmento são os incêndios que devoram áreas do Parque, muito comuns em estações secas: 70ha
em 2002 (Correio Popular 12/10/2002) e mais de 20ha em 2003 (Correio Popular 05/09/2003),
dentre outros muitos não documentados. Embora normalmente atinjam apenas as áreas de
pastagem, não atingindo o fragmento, os focos de incêndio são risco iminente ao fragmento e aos
animais do Parque. Segundo a diretora do Parque, Noventa e nove por cento dos casos de
incêndio no Parque são de origem criminosa (Correio Popular 05/09/2003). De acordo com o
levantamento realizado em 2005-2006 pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et
al. no prelo), a espécie mais frequente foi Casearia sylvestris Sw. (Flacourtiaceae), a qual só
perdeu em posição para a amostragem de árvores mortas.
105
Fazenda Rio das Pedras (nº5a, 5b e 5c)
Estrada da Rhodia, km 12 - Barão Geraldo
Área: 5,39ha + 26,02ha (1962); 7,67ha + 6,91ha + 4,23ha (1972); 6,18ha + 8,10ha + 5,82ha
(2002)
A Fazenda Rio das Pedras foi uma importante e produtiva fazenda de Campinas fundada
em 1863, e chegou a produzir 30.000kg de açúcar e possuir 150.000 pés de café em 1885
(Ribeiro 2000), quando ainda nas mãos da família Albino de Oliveira. Segundo Serrão (2002) a
fazenda proveio diretamente da última sesmaria da região, que foi concedida em 1799 ao
Brigadeiro Luís Antonio de Sousa Queiroz e posteriormente dividida em 2 fazendas: Morro
Grande
dividida em várias outras, dentre as quais a Fazenda Santa Genebra - e Morro Alto
depois denominada Fazenda Rio das Pedras. A Fazenda foi representativa da elite de dois dos
maiores ciclos históricos do Brasil, a cana-de-açúcar e o café, e teve entre seus visitantes ilustres
nomes da sociedade, como Rui Barbosa, a rainha da Inglaterra, Elisabeth II, Juscelino
Kubitscheck e o general Castelo Branco.
A integridade da área da fazenda não perdurou ao longo dos anos, e parece ter sido
comum, desde a primeira metade do século XX, a divisão das glebas em bairros de pequenas
propriedades agrícolas, que posteriormente vieram a se tornar os bairros hoje conhecidos por Vila
Independência, Jardim América e Vila Santa Isabel (Ribeiro 2000).
Em 1959, a Fazenda passa para posse de João Adhemar de Almeida Prado, presidente e
proprietário do então Banco de São Paulo, junto ao qual os proprietários tinham grande dívida
devido a empréstimos (Ribeiro 2000). O novo proprietário investiu tanto na infra-estrutura da
fazenda, com reformas e ampliações da área residencial propriamente dita, quanto nos projetos
agropecuários. Essa reforma na casa sede veio a ser, posteriormente, argumento contra o processo
de tombamento do conjunto arquitetônico da fazenda. Segundo o processo, arquivado no centro
de documentação da CSPC (Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural), os advogados dos
proprietários alegaram que A reforma da sede principal em 1960 fez com que ela perdesse
muitas características originais. Esta descaracterização foi feita não somente por acrescentar
elementos arquitetônicos de épocas posteriores, mas com uma profunda mudança na sua estrutura
106
e traçado arquitetônico original, tanto interna quanto externamente . Mesmo assim, o
tombamento foi decretado no ano de 2003 (CONDEPACC resolução nº43 de 13/11/2003).
Em meados da década de 60, entretanto, a situação se modificou. Almeida Prado decide
investir no ramo imobiliário, e criando as condições propícias para tal investimento, dá uma
cartada de mestre: disponibiliza inicialmente uma gleba de 20 alqueires para o estabelecimento da
Unicamp, em 1966, e logo em seguida doa outra área para a instalação do Centro Médico de
Campinas. Para Zeferino Vaz, idealizador da Unicamp, o lugar era perfeito: um terreno plano e
fértil, de fácil acesso por estradas pavimentadas (Rodovia D. Pedro I - SP065 - e Rodovia
Adhemar de Barros - SP340). Este ato foi divisor de águas na história do Distrito de Barão
Geraldo, pois impulsionou uma grande necessidade de áreas residenciais e de serviços nas
proximidades da nova universidade. É nessa fase que o fracionamento da Fazenda continua, mas
agora com um outro intuito: o de oferecer morada segura e atraente, principalmente aos
intelectuais atraídos ao longo do crescimento da Unicamp e do distrito de Barão Geraldo.
Eis então que sob responsabilidade da Adalpra Agrícola Comercial Ltda, sociedade civil
de direito privado, inicia-se o loteamento de algumas áreas, com a criação da Cidade
Universitária, Residencial Rio das Pedras e Residencial Barão do Café. O núcleo principal da
Fazenda ainda envolve-se com a produção agropecuária, e em 1998, segundo ofício da própria
Adalpra encaminhado ao CONDEPACC, as atividades econômicas da fazenda eram criação de
gado Nelore, Santa Gertrudis e Pardo Suíço, produção de leite, milho e fardos, e administração de
haras de eqüinos, o Centro Hípico Rio das Pedras. Este núcleo restante está delimitado pelos
loteamentos residenciais unifamiliares horizontais de alto padrão e média a alta densidade de
ocupação, Residencial Barão do Café e Residencial Rio das Pedras, ao norte; pelo loteamento
Cidade Universitária ao sul, também um residencial unifamiliar horizontal de alto padrão e alta
densidade de ocupação, sendo a rua Maria Teresa Dias da Silva, localizada mais próxima à
Fazenda de uso misto comercial e residencial; pela Vila São João, Vila Santa Isabel ao sul,
loteamentos unifamiliares horizontais de baixo a médio padrão e média a alta densidade de
ocupação; e a oeste pelas propriedades agrícolas Fazenda Figuron e Fazenda Campal.
É nessa área restante que se localizam dois dos fragmentos tombados (5b e 5c) pelo
CONDEPACC (resolução nº 41 de 13/11/2003) após longos seis anos de processo corrido e a
107
área brejosa e maciço arbóreo em estudo de tombamento (CONDEPACC processo de estudo de
tombamento nº 05/2003). O pedido para tombamento solicitado pela Associação Protetora da
Diversidade das Espécies (PROESP), após visita realizada na Fazenda com representantes da
Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO), SANASA, CONDEPACC, da sub-prefeitura do
Distrito e Conselho Distrital de Barão Geraldo, arquivado junto ao processo de tombamento,
ressaltou que a área
vem sofrendo pressão imobiliária, o que deprime ainda mais os
remanescentes de refúgio natural das espécies de animais nativos . A pressão imobiliária citada,
parte também da própria Adalpra, num planejamento perfeitamente coerente com as decisões até
então: segundo parecer técnico realizado por profissional contratado pela empresa durante o
estudo de tombamento da propriedade, o uso agropecuário não é economicamente autosustentável e o potencial e vocação da propriedade seria o parcelamento ou loteamento, inclusive
já haveria elaboração de um macro-projeto para construção de diversos loteamentos e
implantação de áreas comerciais e residenciais. Estes dois fragmentos da Fazenda Rio das Pedras
estão protegidos pelos limites da Fazenda. O acesso a eles é dificultado através de placas de
proibição, cercas e portarias. Entretanto, não é impossível acessá-los, dada a extensão da margem
e os diversos possíveis acessos existentes. Esses dois fragmentos, como pode ser observado
através das fotos aéreas de 1962 e 1672 (Figuras 17 e 18, respectivamente), antes eram apenas
um, de aproximadamente 26ha (Tabela 2), sendo que nesse intervalo de tempo ele foi fracionado
para que uma área fosse destinada a cultivo agrícola, gerando os dois fragmentos vizinhos atuais.
Hoje os fragmentos têm, respectivamente, 5,82ha e 8,10ha (Tabela 2). Embora a Tabela 5
apresente ambos os fragmentos com seus entornos absolutamente não urbanos, é importante que
este dado seja considerado no contexto da Fazenda Rio das Pedras. Como já foi apresentado na
metodologia, foi considerado como entorno os 300m imediatamente adjacentes a cada fragmento.
Mesmo os fragmentos 5b e 5c estando sob forte pressão imobiliária, como ambos estão no
interior da Fazenda Rio das Pedras, a observação de seu entorno fora de seu contexto oculta a
realidade.
O terceiro fragmento (5a) pertencente à Fazenda Rio das Pedras constituía um só
juntamente com o fragmento hoje pertencente ao Condomínio Parque Rio das Pedras. Ainda hoje
eles são contíguos, embora separados pelo muro do Condomínio. O acesso a esse fragmento é
108
irrestrito, sem cercas ou placas e, assim como no Recanto Yara, é possível a qualquer transeunte
adentrar no fragmento. O que talvez diminua seu acesso, se comparado ao Recanto Yara, seja sua
vizinhança: ele é limítrofe a dois loteamentos residenciais (Condomínio Parque Rio das Pedras e
Condomínio Barão do Café), uma via de acesso a um deles (Condomínio Barão do Café) e uma
via expressa do distrito, a estrada da Rhodia. Este fragmento, na época de grande extensão da
Fazenda, era vizinho a um eucaliptal, e ainda hoje podem ser encontrados indivíduos desta
espécie em seu interior.
O fragmento 5a mostra um tendência ao incremento de área em ambos os intervalos de
tempo, desvirtuada pela criação do Condomínio Residencial Rio das Pedras, que fracionou o
fragmento, criando o fragmento 4.
Um dos argumento dos proprietários contra o tombamento foi de que nossa legislação já
é farta em regulamentar meios específicos para a proteção ambiental (Contestação Adalpra
29/12/97 in processo de estudo de tombamento CONDEPACC nº 05/2003), e de que
a
preocupação com o meio ambiente sempre fora um valor indiscutível para eles, e que sua
atuação privilegiara a segurança, proteção e manutenção da fauna e flora. E para firmar tal
posição, citavam os loteamentos Cidade Universitária, Rio das Pedras e Barão do Café como
exemplares na preservação do meio ambiente (Comunicação Adalpra 03/1998 in processo de
estudo de tombamento CONDEPACC nº 05/2003) e a criação de áreas de mata onde antes
havia apenas pastagens e canaviais, desde a aquisição da propriedade em 1959.
Realmente, esta criação de áreas de mata pode ser comprovada nas imagens aéreas, e
trata-se de um plantio realizado à margem nordeste do lago da Fazenda: na imagem de 1962 ele
surge como alguns indivíduos arbóreos esparsos, em 1972 já é possível visualizar um
adensamento arbóreo rarefeito e, finalmente, em 2002 notamos uma relativamente grande e
contínua formação vegetal.
Os novos loteamentos e a sua característica de transformação local através do aumento
populacional, saturação da malha viária e da rede de serviços, crescimento local e alteração de
valores e padrões, entre outros, têm sido questões muito discutidas em Barão Geraldo, local de
importância prima para a indústria imobiliária, e no município de Campinas como um todo. No
cerne desta discussão está o posicionamento da manutenção de áreas rurais na cidade. A intenção
109
do Grupo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Segurança Alimentar (GDR) da PMC,
segundo um conselheiro do CONDEPACC (CONDEPACC ata reunião ordinária 259 de
09/08/2001) era de que a área da Fazenda Rio das Pedras se mantivesse como produção rural. Ele
acrescenta ainda que uma importante discussão interna na PMC ocorria na época, que era que a
cidade de Campinas não comportava mais que 600.000 habitantes, e já possuía mais de 1 milhão,
e que o GDR tinha grande importância como participante na questão de crescimento da cidade.
É importante atestar que os proprietários da Fazenda Rio das Pedras não permitiram o
acesso da equipe de vegetação do Projeto Anhumas aos fragmentos, por mais veementes e
frequentes que tenham sido os pedidos.
Parque Ecológico Hermógenes de Freitas Leitão Filho (nº12)
Av. Luiz de Tella s/nº, Cidade Universitária
Área: 0,79ha (1962); 0,79ha (1972); 0,88ha (2002)
A área onde hoje situa-se o Parque Ecológico também pertencia à fazenda Rio das Pedras,
propriedade da família Albino de Oliveira e, posteriormente de João Adhemar de Almeida Prado,
sendo o lago hoje existente uma obra da administração da Fazenda. Ali funcionou o viveiro
municipal de 1970 a 1988, sendo então nesse ano transferido para o Parque Xangrilá, localizado
na Rodovia Adhemar de Barros (SP340).
O embrião do Parque data de 1990, e aparece em um documento encaminhado para a
Prefeitura do campus da Unicamp pelo Prof. Hermógenes de Freitas Leitão Filho, relatando
reuniões técnicas com o DPJ. Na verdade, nessa primeira proposta o Parque denominava-se
Parque Comunitário, e sua implantação partira do Parque Ecológico da Unicamp, na época o
órgão responsável pela manutenção e implantação de áreas verdes do campus. No ano seguinte,
em 1991, é assinado um Convênio de Cooperação (Termo Aditivo 003/91) entre a Unicamp e a
PMC para a implantação do Parque Comunitário na beira do lago. A partir de então, o município
passou a responsabilizar-se pelos serviços de manutenção, limpeza e fiscalização do Parque.
Em 1996, pouco tempo após o falecimento do Prof. Hermógenes, o Parque é inaugurado
com o nome de Parque Ecológico Hermógenes de Freitas Leitão Filho, homenageando o
110
idealizador de sua criação, que houvera despertado atenção para a transformação da área em lazer
ecológico e conservação, e trazendo o termo ecológico , embora fosse implantado nos moldes de
um parque comum.
Grande parte da sua estrutura e diversidade vegetal atual devem-se diretamente ao fato da
área ter sido antes ocupada pelo Viveiro Municipal: segundo o entrevistado, muitas das árvores
adultas hoje no Parque são resquícios da produção do viveiro: como parte das mudas eram
alocadas diretamente em sacos no chão, acabaram por enraizar e se estabelecerem ali mesmo
sem uma interferência ou planejamento. Isso esclarece o fato do grupo de vegetação do Projeto
Anhumas (Torres et al. 2006) ter documentado as espécies Spathodea nilotica Seem
(Bignoniaceae) e Erythrina speciosa Andrews (Fabaceae) como as mais frequentes neste
fragmento, mesmo sendo esta de planície litorânea (Lorenzi 1992): uma vez que ambas as
espécies foram utilizadas na arborização urbana, seu cultivo no então Viveiro Municipal de
Campinas e sua persistência e propagação a partir dele podem ser facilmente compreendidas.
Santin (1999) havia detectado a presença de Schinus terebinthifolius Raddi. (Anacardiaceae) e
Cecropia pachystachya Trécul. (Cecropiaceae).
Ao longo do período de tempo analisado, o fragmento do Parque Ecológico Hermógenes
de Freitas Leitão Filho teve um pequeno incremento de área, passando de 0,79ha em 1962 e 1972
para 0,88ha em 2002 (Tabela 2).
O Parque oferece hoje aos visitantes, média mensal de 5.600 pessoas, pista de caminhada,
mesas, parquinho e equipamento para ginástica. Grande parte de seu público é de moradores de
bairros de classe média alta/alta, como Cidade Universitária, Guará, com alguma ligação com a
Unicamp
professores, familiares de professores, que caminham no início da manhã e ao fim do
dia. Recentemente, em 2005, iniciou-se o Projeto Parque Amigo , parceria da PMC e Unicamp,
na qual foi apresentada uma proposta com medidas de curto, médio e longo prazo e permanentes,
visando a sua revitalização.
As maiores dificuldades da administração são similares às das outras áreas públicas: falta
de verbas, manutenção, material necessário e colaboração da comunidade. Casos particularmente
pertinentes e polêmicos são os carrapatos e os animais de estimação. Os primeiros deve-se à
presença das capivaras, que acabam contribuindo para a manutenção e aumento da população de
111
carrapatos na área. Este foi o alvo de uma polêmica municipal há alguns anos, dado o número de
casos de febre maculosa na cidade. Muitos cidadãos que participaram da questão tomaram
partido pronunciando-se favoráveis ao extermínio dos transmissores dos carrapatos. Em relação
aos animais de estimação, ocorre aqui algo semelhante ao Bosque dos Jequitibás, dos Italianos e
dos Alemães em relação aos gatos doméstico: há uma grande abundância de coelhos e tartarugas
tigre-d água, que são soltos pela comunidade.
Outra questão polêmica diz respeito diretamente à relação entre a Unicamp e o Parque: há
muitos anos, a universidade é acusada de lançar efluentes químicos e de esgoto na lagoa do
Parque Ecológico. Entre 2003-2004, alguns moradores de Barão, mobilizaram-se para reivindicar
melhorias das condições do Parque. Cerca de um ano depois, uma parceria entre a SANASA e a
Prefeitura do Campus da Unicamp levou à construção de um emissário para o esgoto desta
última. Segundo a revista local Semana 3 (08/205), este emissário desviou o esgoto que era
direcionado à lagoa para a rede da SANASA, que o despeja mais adiante, na confluência do
ribeirão das Pedras com o ribeirão das Anhumas.
O funcionário entrevistado alega que sente muita falta de interesse de todos os lados: falta
de determinação, projeto, planejamento e continuidade das políticas, por parte da PMC, e falta de
participação da comunidade. Particularmente referente a esta, alega que ela deixa muito a desejar,
mesmo sendo um ícone de referência, por ser em sua maioria altamente instruída e de boas
condições sociais. Não há procura pela administração do Parque, e muitas vezes ele sabe de
acontecimentos relacionados ao Parque ou é questionado pelos meios de comunicação, mas
nunca diretamente pela comunidade. "As pessoas vêm caminhar, correr. Entram vazias e saem
vazias".
Encontramos neste Parque uma crítica muito bem elaborada em relação à postura dos
usuários: segundo o entrevistado, eles tentam encontrar no Parque o "natural de shopping". "É
claro que se entrar no mato pega carrapato, pode até ser picado por cobra. Isso é natural".
Certamente essa crítica também questiona o conceito de Parque Ecológico, e da identificação das
pessoas com o lugar. "Quando as pessoas vêm aqui, o que pedem é para pôr mais um brinquedo
para os filhos. Isso tem em qualquer lugar. Um Parque Ecológico é para você vir e se relacionar
com a natureza.".
112
O fragmento situado no Parque Ecológico está listado no processo de tombamento do
conjunto de áreas verdes naturais - fragmentos de matas remanescentes, incluídos os parques e
bosques, que contêm áreas de vegetação nativa, áreas de floresta estacional semidecidual, áreas
de floresta paludosa (matas brejosas) e áreas de cerrado no município de Campinas
(CONDEPACC nº 04/03).
Condomínio Residencial Parque Rio das Pedras (nº4)
Estrada da Rhodia, Km 13
Cidade Universitária
Área: 0ha (1962); 0ha (1972); 2,79ha (2002)
O loteamento residencial Condomínio Rio das Pedras iniciou sua história como um
loteamento de chácaras de fim de semana desmembrado da então Fazenda Rio das Pedras (ver
histórico da Fazenda para maiores detalhes). Com o crescimento da Unicamp e do Distrito de
Barão Geraldo, que geraram o aumento da oferta de serviços e empregos especializados, o
número de moradores, principalmente professores da Unicamp, cresceu.
O Condomínio Rio das Pedras é rico em histórias e interessante por ilustrar muito bem,
em menor escala, questões pertinentes à cidade de Campinas: possui minas d'água, um lago, o
fragmento remanescente, animais nativos e introduzidos, a questão de arborização urbana e
moradores de classe média alta intelectualizados, muitos dos quais formadores de opinião local e
nacional. Tudo isso gera questões pertinentes e conflitos relacionados ao uso do local e destino
dos recursos, e traz dentre as diversas possibilidades, a de uma realidade bem estruturada e
resolvida. Um antigo funcionário, há mais de 14 anos envolvido com a manutenção do
condomínio, responsável por grande parte da arborização e conhecedor da história do loteamento,
tenta há 5 anos convencer os condôminos a adquirir um triturador vegetal, para transformar em
composto a sobra de poda e varreção. Eles tiram, mensalmente, 10-15 caçambas desse material, e
a responsabilidade pela sua destinação correta é do condomínio. Uma certa quantidade é
despejada na área de um vizinho sitiante, para seu posterior uso e uso do próprio condomínio,
mas grande parte do material tem que ser retirada por empresa especializada, gerando grande
gasto aos moradores. A aquisição do triturador traria um destino adequado às sobras de poda e
113
varrição, gerando composto para ser utilizado no viveiro - projeto da administração - na
arborização e nas residências.
O fragmento propriamente dito, que Santin (1999) relata como área muito perturbada com
ocorrência de corte seletivo, e fisionomia marcada por Aspidosperma polyneuron Müll.Arg.
(Apocynaceae), Nectandra megapotâmica (Spreng.) Mez. (Lauraceae) e Nectandra oppositifolia
Nees & Mart. (Lauraceae), sendo esta última predominante no fragmento atualmente é cercado
por um alambrado e o acesso é restrito por um portão, cuja chave pode ser requisitada pelos
moradores. De acordo com o levantamento realizado em 2005-2006 pela equipe de vegetação do
Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), as espécies mais frequentes foram Piptadenia
gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr. (Fabaceae), as árvores mortas e Urera baccifera (L.) Gaudich.
ex Wedd. (Urticaceae). Entretanto, como ele está na delimitação do condomínio, já foi outrora
liberado para acesso às residências. Hoje é um foco que demanda especial atenção em relação à
segurança e já houve caso de quadrilhas que utilizaram o fragmento como acesso ao condomínio
para assaltarem algumas residências. Há a intenção de se elaborar projeto de manejo para o
remanescente e os próprios funcionários são capazes de ressaltar diversos pontos que crêem
importantes, como corte de trepadeiras, aumento de diversidade através de plantios, barreira
contra poluição de automóveis da estrada da Rhodia, e outros que julgam demanda dos
condôminos, como trilhas de educação ambiental e placas de informação. É possível encontrar no
fragmento algumas árvores frutíferas exóticas, como mangueiras (Mangifera indica L.,
Anacardiaceae), e certamente isso se deve ao fato dela ter histórico íntimo com moradores e até
hoje ser permitido o acesso deles ao fragmento.
Por volta de 2002 o loteamento recebeu doação da Unicamp de 150 mudas arbóreas, que
foram plantadas no fragmento. Coube a um antigo funcionário a decisão de onde plantá-las, e ele
buscou fazê-lo nas clareiras. No fragmento há uma entrada de cerca de 30x40cm para o curso
d água que, segundo o encarregado, também é utilizado para fluxo de animais. Embora esse
fragmento esteja delimitado por um muro, construído pelo condomínio na APP, ele constituia um
fragmento maior, datado ainda da época da Fazenda Rio das Pedras. A porção do fragmento que
não pertence ao Condomínio é ainda hoje propriedade da Fazenda.
114
A evolução do tamanho deste fragmento deve ser analisada no conjuntamente com o
fragmento 5a, uma vez que ambos formavam um contínuo.
A opinião de um dos moradores, pesquisador da Embrapa, tem um peso especial nas
decisões ambientais do Condomínio, conforme colocado pelo entrevistado. Esta realidade
também cabou interferindo no andamente do Projeto Anhumas: após interferência deste morador,
os pesquisadores encontraram maior dificuldade para realizar amostragem no fragmento.
O fragmento encontra-se em processo de estudo de tombamento (CONDEPACC
nº04/2003).
Reserva Municipal Mata de Santa Genebra (nº6)
Mata Atlântica s/n - Bosque de Barão
Área: 389,15ha (1962); 239,56ha (1972); 234,22ha (2002)
A Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra foi tombada como patrimônio natural do
município pelo CONDEPACC (resolução nº 11 de 29/09/1992), tendo antes sido tombada pelo
CONDEPHAAT (resolução nº 03 de 03/02/1983) e classificada como Área de Relevante
Interesse Ecológico (ARIE), pelo Governo Federal (Decreto nº 91.885 de 05/11/1985),
atualmente regulamentada pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - Lei nº
9.985 de 18.07.00). Entretanto, é provável que nada disso ocorresse se antes, em 14 de julho de
1981, no aniversário de 207 anos de Campinas, Dona Jandyra Pamplona de Oliveira, então
proprietária da Fazenda Santa Genebra, não tivesse formalizado a doação da mata ao município.
A Fazenda Santa Genebra e a Fazenda Rio das Pedras compartilham parte de sua história.
Segundo Serrão (2002), ambas vieram diretamente da última sesmaria da região, que foi
concedida em 1799 ao Brigadeiro Luís Antonio de Sousa Queiroz e posteriormente dividida em
duas fazendas: Morro Grande
Genebra - e Morro Alto
dividida em várias outras, dentre as quais a Fazenda Santa
depois denominada Fazenda Rio das Pedras. A fazenda Morro Grande
era produtora de cana-de-açúcar, seguindo o padrão existente no restante da região, e era
administrada pelo casal Genebra Miquelina e Luís de Sousa Rezende. Com o falecimento de
115
Genebra, em 1855, a fazenda foi comprada pelo Marquês de Valença, seu sogro, que lhe mudou o
nome para Fazenda Santa Genebra.
Foi em 1870 que a administração da Fazenda passou para Geraldo Ribeiro de Sousa
Rezende, o outro filho do Marquês de Valença, comendador e amigo pessoal de D. Pedro II, que
viria a se tornar o célebre Barão Geraldo de Rezende em 1889, nomeando o Distrito de
Campinas.
A Fazenda Santa Genebra destacou-se não apenas por ser uma das maiores da região e por
hospedar ilustres membros da corte, como o Conde D Eu e Campos Salles, entre outros; mas
segundo Ribeiro (2000) também por seu pioneirismo, marcado por constantes inovações no
campo da agricultura, podendo ser considerada um modelo internacional. Com o tempo, a
produção da fazenda iria se tornar modelo de eficiência para o restante da província: como
exemplo, temos que desde o início do século XX lá havia plantadoras americanas de tração
animal, enquanto que o restante do Brasil conheceu essas máquinas apenas no fim da década de
40 (Ribeiro 2000).
Entretanto, o dispendioso custo de vida do Barão Geraldo de Rezende
e de toda sua
família, residentes na corte do Rio de Janeiro, fizeram com que suas economias entrassem em
crise, levando-o à falência. Portanto, em 1907, assolada economicamente, a fazenda hipotecada
passou a ser propriedade do Comendador Luiz de Oliveira Lins de Vasconcelos, que a manteve
como produtora de café até vendê-la para Cristiano Osório em 1914 (Jornal de Barão março
1993). Desde então, a fazenda Santa Genebra manteve-se sob administração de um de seus filhos,
José Pedro de Oliveira, sendo que apenas com seu falecimento sua esposa, Jandyra Pamplona de
Oliveira passaria a administrá-la. Ela herdaria então a Fazenda ainda com três fragmentos
remanescentes: o maior, hoje Reserva Municipal Mata de Santa Genebra e outros dois,
denominados Santa Genebrinha e Mata do Chico Brinco.
A doação da Mata à PMC ocorreu não sem antes muita hesitação do então prefeito de
Campinas, Francisco Amaral. Mesmo ante clamores da importância da preservação da mata
como forma de proteger a biodiversidade local, inclusive devido às possíveis plantas medicinais
que lá estariam, cura para muitas doenças (Jornal de Hoje 12/04/1981), argumentos do uso da
mata para fins de pesquisa e ensino (Jornal de Hoje 22/03/1980), o prefeito alegava que o
116
município não disponibilizava de verba suficiente para proteger e gerir a Mata, e, segundo suas
próprias palavras, Se eu tiver que escolher entre cercar a Mata de Santa Genebra e dar
iluminação à população, prefiro gastar dinheiro com a luz (Jornal de Hoje 12/04/1981).
Entretanto, após meses de incerteza, ajustes políticos e pressão da sociedade civil, de
entidades ambientalistas e de instituições de pesquisa, a mata foi doada através da criação, pelo
Poder Executivo Municipal, da Fundação José Pedro de Oliveira, com o intuito de administrar e
preservar este fragmento florestal (Lei Municipal nº.5118 de 4 de julho de 1981). O ato da
doação foi formalizado com apresentação de algumas peças pela Orquestra Sinfônica Municipal,
com 84 membros (Diário do Povo 16/07/1982). Por mais incrível que pareça, dado o grau de
perturbação sonora e de número de visitantes que esse evento teve, ele foi realizado no interior da
mata (Correio Popular 15/07/1981).
A regulamentação da doação da Mata tem aspectos muito interessantes, em sua maioria
condições exigidas por D. Jandyra. Um deles legitima o costume de dizermos que não houve
doação da Mata, e sim da sombra da Mata. Isto porque segundo essa lei, o desaparecimento da
mata objeto de doação, implica no retorno do solo onde esta se situa ao uso da primeira doadora
ou seus sucessores
(Lei Municipal nº5118, art. 11), sendo o mesmo aplicável ao
desaparecimento parcial da mata. Ou seja, é realmente apenas a Mata de Santa Genebra que
pertence ao poder público, e não o solo no qual ela se encontra. Havendo incêndios, derrubada de
árvores, ou mesmo qualquer outro tipo de supressão vegetal quantitativamente significativa, a
propriedade volta às mãos da família de José Pedro de Oliveira.
Este direito esteve próximo de ser exigido poucos meses após a doação da Mata, quando
ocorreu um grande incêndio que engoliu aproximadamente 10ha da reserva. Segundo ata da
primeira reunião do conselho de administração da Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO
04/11/1981), o advogado e o representante da família Pamplona de Oliveira alegaram que de
acordo com o estatuto, o solo correspondente à área da mata queimada passaria ao uso e gozo da
família doadora e que esta tinha a intenção de fazer cumprir o estipulado no referido parágrafo .
Somente após apelos veementes do presidente da Fundação em exercício, José Roberto
Magalhães Teixeira, do representante da PROESP, Arnaldo Guido de Souza Coelho, de
Hermógenes Freitas Leitão Filho, professor da Unicamp, e do representante da Câmara
117
Municipal de Campinas, Sérgio Barros Barreto e explanações de que a Fundação ainda não
estava efetivamente em exercício e logo poderia ser isenta de qualquer responsabilidade, é que os
representantes se prontificaram a consultar os membros da família a respeito do não cumprimento
desta cláusula do termo de doação. Um importante argumento do professor Hermógenes Freitas
Leitão Filho foi o de que sob o aspecto de pesquisa e estudo do comportamento da vegetação a
área continuava muito interessante. Curiosamente ilustrando o argumento, foram defendidas
algumas teses na Unicamp a esse repeito, intituladas Dinâmica da sucessão secundária em mata,
após a ocorrência de fogo: Santa Genebra (Campinas/SP)
(Matthes 1992),
Manejo e
regeneração de trecho degradado de floresta estacional semidecidual: reserva municipal de Santa
Genebra, Campinas, SP (Rozza 2003), dentre outras.. Em 1998, o 7º Grupo de Incêndio do
Corpo de Bombeiros doou à fundação da Mata o caminhão de salvamento AC-21, com
capacidade para mil litros de água, próprio para pequenos incêndios (Diário do Povo
25/07/1998).
As atribuição administrativas da Fundação José Pedro de Oliveira também são em grande
parte norteadas por condições impostas no ato de doação. A Mata atualmente tem um grande rol
de atividades de caráter científico e de educação ambiental, mas não é aberta à visitação livre. A
limitação de acesso à mata e seu uso como passeio público, e seu estreito vínculo com
conservação e pesquisa também já haviam sido explicitados no momento da doação, e o não
cumprimento dos mesmos ou desvio de finalidade importará em revogação da doação e retorno
da mata à família (Lei Municipal nº 5118, art. 12).
A RMSG é definida como floresta mesófila semidecídua, e está assentada sobre relevo
levemente ondulado com três regiões mais baixas e úmidas e duas discretas elevações (Leitão
Filho 1995), sendo que nas baixadas a floresta semidecídua é substituída pelas florestas
higrófilas. Talvez os principais fatores que contribuam para que a Reserva Florestal Mata de
Santa Genebra seja um dos fragmentos da bacia do ribeirão Anhumas com maior número de
pesquisas realizadas, totalizando 118 estudos dentre Iniciações Científicas, Mestrados,
Doutorados, Pós-doutorados e Aperfeiçoamentos, de 1997, ano em que se iniciou a
sistematização dessas informações até 2005 (Patrícia Lia Santarosa, Departamento Técnico
Científico RMSG com. pess.), sejam a disponibilidade para execução de pesquisas de caráter
118
científico, proximidade com centros de pesquisa e ensino de importância nacional, como a
Unicamp, o IAC e a Embrapa Monitoramento por Satélite e sua fácil acessibilidade, por estar
inserida em contexto urbano. Segundo outra fonte (Serrão 2002) havia quase 300 pesquisas
realizadas na Mata até 2001. Embora as instituições acima citadas mantenham vínculo estreito
com a Mata, muitas outras podem ser listadas, como a ESALQ (Escola Superior de Agronomia
Luís de Queirós), a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de São Paulo Júlio
de Mesquita Filho (UNESP), a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e a Universidade
São Francisco.
Pesquisas de diversas áreas são realizadas na Mata de Santa Genebra: polinização (Arruda
& Sazima 1988, Sigrist & Sazima 2004), ecologia vegetal (Fonseca et al. 2004, Martins et al.
2004, Morellato 2004, Grombone-Guarantini & Rodrigues 2002, Santos & Válio 2002, Válio &
Scarpa 2001, Salis et al. 1995), genética (Ananina et al. 2004), ecologia animal (Avelino &
Vielliard 2004, Brown Jr. & Freitas 2002, Figueiredo 1996, Galetti 1993), ecologia de interações
e processo de preservação associado à educação ambiental (Serrão 2002), sendo esses apenas
alguns exemplos da extensa lista existente. Há ainda na RMSG o Borboletário, que contribui para
a realização de pesquisas na Mata, um complexo composto por um viveiro de borboletas, uma
casa de criação, um jardim e um pequeno viveiro de plantas utilizadas para a alimentação das
lagartas.
A Mata de Santa Genebra localiza-se na transição entre a área urbana/rural de Barão
Geraldo, e é limítrofe a loteamentos residenciais, à CEASA, o maior entreposto de agroindústria
do interior do estado do São Paulo, e a cultivos de monocultura (milho, cana, soja). Embora não
seja visível nos mosaicos por estar além da limitação da bacia do ribeirão das Anhumas, o
fragmento que se tornou a RMSG, passou de 389,15ha em 1962 para 234,22ha em 2002 (Tabela
2). É possível ver a projeção deste fragmento para além dos limites da bacia do ribeirão das
Anhumas nas imagens elaboradas a partir dos mosaicos (Figura 5 e 6). Sua supressão, ocorreu
mais intensificamente no intervalo entre 1962
1972, sendo a área oriunda do desflorestmento
destinada a empreendimento agrícola. De acordo com o levantamento realizado em 2005-2006
pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), as espécies mais
frequentes foram Croton floribundus Spreng. (Euphorbiaceae) e Croton piptocalyx Müll.Arg.
119
(Euphorbiaceae), Astronium graveolens Jacq. (Anacardiaceae) e Actinostemon concepcionis
(Chodat & Hassl.) Hochr. (Euphorbiaceae).
Os impactos aos quais a RMSG está sujeita são os mesmos comuns a alguns dos outros
remanescentes: contaminação pelas áreas de cultivo que utilizam aplicação de fertilizantes
químicos, herbicidas, inseticidas e diversas outras substâncias denominadas
defensivos
agrícolas ; a proximidade e facilidade de acesso de moradores e transeuntes provocando caçadas,
abertura de trilhas e a introdução de outras espécies, principalmente domésticas; ocupação urbana
irregular, incluindo residências com cerca elétrica, ameaça constante aos animais silvestres;
visitação de áreas vizinhas de cultivo por animais silvestres, que se tornam mais suscetíveis à
exposição de agrotóxicos, acidentes e apreensão e que muitas vezes podem retornar à Mata
dispersando espécies exóticas e invasoras e o fogo, oriundo de limpezas de terrenos baldios e
áreas de cultivo agrícola, principalmente cana de açúcar. Além de todos esses impactos, a mata
também já havia sofrido com a extração de madeiras de lei e corte de árvores para lenha (LeitãoFilho 1995), na época em que compunha terras da Fazenda Santa Genebra, levando à formação
de várias clareiras de diferentes tamanhos. Galetti (1993), em um projeto de conservação e
manejo dos arredores da Mata, também propõe que o uso para lazer e caça tenha sido intenso
quando o fragmento ainda pertencia à Fazenda Santa Genebra, o que justificaria a inexistência de
várias espécies-alvo de caçadores.
Para lidar da forma adequada com tais impactos, bem como para definir o manejo e ações
específicas da Unidade de Conservação (UC) e estabelecer integração com a comunidade do
entorno, foi estabelecido no Capítulo I, Art. 2º - XVII da Lei nº 9985 de 18/07/2000 (SNUC), que
o plano de manejo de uma UC é o documento técnico mediante o qual, com fundamento nos
objetivos gerais de uma Unidade de Conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas
que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das
estruturas físicas necessárias à gestão da Unidade . Ou seja, documento imprescindível para o
estabelecimento de diretrizes a médio e longo prazo e a avaliação de seu cumprimento.
Entretanto, embora tenha havido algumas tentativas, uma inclusive em andamento nos anos de
2005-2006 e da qual participei, até este momento a Reserva Florestal Mata de Santa Genebra não
possui um plano de manejo.
120
O que existe na RMSG é uma tradicional postura de âmbito interno, que pode sofrer
algumas alterações de acordo com quem estiver na Diretoria Técnica Científica e na Presidência
da Fundação, e leis e normas municipais que buscam regulamentar o entorno da Mata. Há ainda
diversas recomendações provenientes de grupos de trabalho, como as do Projeto de Urbanização
e Manejo dos Arredores da Mata de Santa Genebra (Galetti 1993), Proposta de Recuperação,
Manejo e Conservação da Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra (CONDEPHAAT 1995),
do Plano Participativo de Manejo do Entorno da Mata de Santa Genebra (FJPO 2003), do
Seminário Barra Vento (FJPO 2003a), entre outros, algumas elaboradas por pesquisadores de
outras instituições, com participação principal de pesquisadores e professores da UNICAMP,
outras pelo próprio departamento técnico-científico da Mata. Entretanto esses planos de gestão
podem ou não ser aceitos e implementados, ficando ainda à mercê do tempo e disposição da
disputa política municipal. Mesmo assim, a Reserva Municipal de Santa Genebra é um fragmento
muito diferenciado dos outros no que se refere ao manejo e atividades realizadas, e um corpo de
colaboradores muito mais esclarecido técnica e politicamente acaba influenciando nas diretrizes
da Reserva.
O fato do uso do entorno ser tão diferenciado, podendo ser caracterizado como residencial
de classe média (Bairro Bosque de Barão) a ocupações residenciais clandestinas (Bairro Recanto
dos Pássaros) e grandes propriedades agrícolas, torna necessária uma abordagem ampla quanto às
recomendações e restrições. Em 1992, a resolução de tombamento do CONDEPACC limitou os
cultivos e práticas agrícolas no entorno da Mata, proibindo o uso de agrotóxicos, grandes
movimentações de solo e queimadas adjacentes (CONDEPACC resolução nº 11 de 29/09/1992).
Um processo ainda mais polêmico é o de regulamentação dos bairros residenciais do
entorno. A expansão e o crescimento populacional do distrito, bem como o atrativo de se ter uma
mata preservada na porta da própria casa, proporcionou uma crescente demanda para
construções residenciais, principalmente no setor leste da Mata. De acordo com o estudo
preliminar da Regulamentação da Área Envoltória da Mata de Santa Genebra (CONDEPHAAT
1994), até meados de 1993 o CONDEPHAAT vinha aprovando os pedidos de construção nos
loteamentos (36 no total). A partir daí, identificada a necessidade de regulamentação do entorno,
levando em conta os critérios de áreas naturais, os processos posteriores foram sobrestados,
121
aguardando-se proposta final para o setor . A situação é delicada, pois as construções devem
estar de acordo com as resoluções do CONDEPHAAT e do CONDEPACC, com a Lei de Uso e
Ocupação do Solo de Campinas (Lei nº 6.031 de 29/12/1988), com o Plano Local de Gestão
Urbana de Barão Geraldo (Lei nº 9.199 de 27/12/1996) e demais legislações municipais, além das
regulamentações propostas pela administração da Mata.
Uma das grandes questões prejudiciais à Mata causada pelas residências do entorno é a
rede de esgotos. Embora a maioria das residências do Bosque de Barão, possuam fossas sépticas,
alguns moradores fazem ligações clandestinas na rede de drenagem pluvial. Segundo o Plano
Participativo de Manejo do Entorno da Mata de Santa Genebra (FJPO 2003), como duas ruas que
margeiam a Mata não possuíam bocas de lobo funcionais, algumas águas empoçavam na frente
da UC, enquanto outras eram levadas até o interior do fragmento, contaminando o solo, a fauna e
a flora.
Mesmo com todas essas pressões, a RMSG é dos fragmentos com maior índice de
diversidade (Shannon & Weaver H = 3,66) (Torres et. al. 2006). É importante relembrar que
embora a RMSG não se encontre inteiramente na bacia do ribeirão das Anhumas, conforme pode
ser visto nas Figuras 5, 6 e 7, na metodologia desta dissertação foi considerada sua área integral a
fim de analisar a evolução, histórico e pressões no fragmento e não apenas a área contida na
bacia. Entretanto, o índice de diversidade de Shannon & Weaver deste fragmento, obtido pela
equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et. al. 2006), corresponde à amostragem
realizada apenas na porção do fragmento pertencente à bacia. Mesmo assim, o fato da RMSG ter
apresentado um dos maiores índices de diversidade, pode ser devido ao fato deste fragmento ser
um grande contínuo, sob proteção especial, o que contribui para a manutenção das condições
originais do habitat.
Na Tabela 5 é possível acompanhar a evolução do uso do solo do entorno da RMSG.
Conforme se vê, foi no intervalo de tempo entre 1972-2002 que o uso urbano do solo aumentou
de zero para 46,69%, o que comprova a alteração das pressões a que este fragmento está
submetido.
Em 1992 o CONDEPACC determinou o levantamento dos bens naturais situados no
entorno (300m) da Reserva de Santa Genebra, tendo sido sugerida manutenção, conservação e
122
recuperação de todas as áreas de vegetação natural e mananciais com relação direta com a
Reserva. Como resultado, após um longo processo e muitos pareceres técnicos e contestações, em
2004 os áreas conhecidas como bens C e D foram tombados pelo CONDEPACC (resolução
nº 47 de 21/10/2004). Ambas encontram-se ao sul da Reserva, sendo que o fragmento C é
margeado por canaviais arrendados à Usina Açucareira Ester S.A e o D é um conjunto de
pequenas matas, limítrofe ao Centro de Pesquisa Agrícola da Monsanto, cultivo de cana-deaçúcar e área de lazer, com clubes, chácaras e pequenas hortas, estendendo-se até os fundos da
CEASA.
De acordo com o relatório para o tombamento dos bens naturais C e D, localizados na
área envoltória da Mata de Santa Genebra (Corrêa 2000), entregue ao Conselho do
CONDEPACC durante o processo de estudo de tombamento, muitos foram os pareceres técnicos
necessários neste caso, de técnicos da PMC, professores e pesquisadores de universidades
federais, estaduais e institutod de pesquisa. Em sua maioria os pareceres alegavam a importância
dos fragmentos como exemplar de matas higrófilas com espécies vegetais específicas e
especializadas às particulares condições locais, importância para refúgio e alimentação de
diversas espécies encontradas na Mata, entre elas invertebrados (principalmente borboletas) e
outros vertebrados de pequeno e médio porte
gambá (Didelphis sp., Didelphidae), cuíca
(Lutreolina crassicaudata (Desmarest, 1804) Didelphidae , preá (Cavia aperea Erxleben, 1777)
Caviidae e pequenos roedores (Oryzomys sp., Muridae e Bolomys sp., Muridae), gato mourisco
(Herpailurus yagouaroundi (Lacépède, 1809) Felidae, ratão-do-banhado (Myocastor coypus
(Molina, 1782) Myocastoridae)
e de grande porte, como o veado mateiro (Mazama americana
(Erxleben, 1777) Cervidae. Outros importantes argumentos de proteção das áreas foi o de que os
mananciais contribuíam para as bacias dos rios Atibaia e Piracicaba; e o de que a proteção desses
remanescentes, seguida de manejo adequado e integrado entre os fragmentos do complexo,
ampliaria as dimensões da Reserva.
As áreas em questão sofrem impactos muito semelhantes aos já citados para a Reserva
Municipal da Mata de Santa Genebra: caça, corte seletivo e risco de queimada por rituais
religiosos e cultivo vizinho de cana, drenagem da área de brejo.
123
Santa Genebrinha (nº8)
Fazenda Santa Genebra
Cidade Universitária
Área: 22,18ha (1962); 23,57ha (1972);22,89ha (2002)
O fragmento denominado Santa Genebrinha também compunha, assim como o fragmento
denominado Mata do Chico Brinco, a Fazenda Santa Genebra. Para maiores detalhes do histórico
destes dois fragmentos sugiro leitura do relato da Reserva Municipal Mata de Santa Genebra.
Este foi mais um dos fragmentos incorporados ao processo de estudo de tombamento
CONDEPACC nº04/2003.
Hoje, o fragmento Santa Genebrinha localiza-se no Distrito de Barão Geraldo em meio a
uma área de soja, podendo ser avistado da área médica da Unicamp, no trajeto para a PUC /
Rodovia D. Pedro I (SP065). Pelo fragmento passa o ribeirão das Pedras, recém chegado no
Distrito após cruzar a Rodovia D. Pedro I, para depois de passar por parte de Barão Geraldo,
encontrar-se com o ribeirão das Anhumas mais à frente. Onde hoje há plantio de soja, segundo o
entrevistado, era plantado algodão até 1985 e depois cana-de-açúcar até 2002.
A Santa Genebrinha, encontra-se muito tomada por lianas e sem nenhuma proteção aos
ventos fortes que por ali passam. Embora não haja histórico de incêndio, a integridade do
fragmento é ameaçada pelo risco de fogo
devido à presença de capim
aumentado na época seca do ano, principalmente
e pela invasão de pessoas. Segundo o responsável o aceiro não é
uma prática permitida pela PMC, devido ao fragmento estar em processo de tombamento. Ele
afirma ainda que o fragmento é usualmente invadido por frequentadores da Unicamp, sendo
usuais os vestígios de uso de drogas na área e estragos nos plantios da Fazenda, contíguos ao
fragmento. Deve-se ressaltar que a Fazenda é limítrofe à área hospitalar e médica da Unicamp,
caracterizada por um fluxo de visitação intenso e de origem diversa, devido à referência nacional
do Hospital das Clínicas da Unicamp na área da saúde. A alta incidência de bambus deve-se ao
fato desses terem sido ali cultivados para utilização dos moradores da Fazenda, há muito tempo.
Nesse fragmento mesmo a certa distância, pode-se notar um jequitibá (Cariniana sp.
Lecythidaceae) dentre outras árvores emergentes, o qual, segundo o entrevistado, tem mais de
150 anos. De acordo com o levantamento realizado em 2005-2006 pela equipe de vegetação do
124
Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), as espécies mais frequentes foram Esenbeckia
leiocarpa Engl. (Rutaceae) e Galipea jasminiflora (A.St.-Hil.) Engl. (Rutaceae). Não há nenhum
tipo de manejo na área, como contenção de trepadeiras, adensamento ou enriquecimento de
arbóreas, ou mesmo proteção ao fogo. O baixo índice de diversidade de Shannon & Weaver (H =
2,79) encontrado no estudo desenvolvido pelo Projeto Anhumas evidencia uma homogeneidade
de espécies umbrófilas arbustivas e arbóreas de sub-bosque (Torres 2006 et al.). Santin (1999)
identificou Talauma ovata A.St.-Hil. (Magnoliaceae), Protium heptaphyllum Aubl. March.
(Burseraceae) como espécies predominantes neste fragmento.
A alteração do tamnho deste fragmento foi muito reduzida no intervalo de tempo estudado
(Tabela 2) e a alteração do uso do solo no entorno foi maior entre 1972-2002 (Tabela 5).
Quando questionado a respeito de planos para o futuro da área ou para o próprio
fragmento, o entrevistado deu a entender que não há porque haver planos: a mata fica lá e vai
acabar entrando como doação num futuro empreendimento residencial .
Mata do Chico Brinco (Mata do Boi Falô) (nº28a e 28b)
Rodovia D. Pedro I km 137 - Jd. Nilópolis
Área: 18,73ha (1962); 7,99ha + 6,63ha (1972); 0,44ha + 4,65ha (2002)
Este fragmento, embora seja hoje por muitos conhecido por Mata do Boi Falô, sempre foi
denominado Mata do Chico Brinco pela família e funcionários da Fazenda Santa Genebra, ao
qual era integrado. Para histórico mais rico a respeito da propriedade, recomendo leitura do
fragmento Reserva Municipal Mata de Santa Genebra.
Com exceção das áreas doadas por Barão Geraldo de Rezende ao IAC em 1896 (Lobo
1977) e aos Padres Salesianos para a instauração do Liceu e Colégio, a Fazenda não havia sofrido
fracionamento até a década de 70, quando se deram os loteamentos dos bairros Santa Genebra I e
II, Vila Costa e Silva e a construção da CEASA (Ribeiro 2000). Entretanto, após o falecimento
de D. Jandyra Pamplona de Oliveira, iniciou-se a partilha dos bens da família, e a Fazenda de
Santa Genebra foi subdividida em diversas outras propriedades. Há poucos anos uma área ao
longo da rodovia D. Pedro I foi comercializada para se instalar o empreendimento Shopping D.
125
Pedro, o maior da América Latina nesse gênero. Os empreendedores do Shopping D. Pedro
adquiriram um passivo ambiental devido a inadequações no momento de sua construção, e
através deste tomaram a responsabilidade por aproximadamente 159.000m2 do Parque Linear
Ribeirão das Pedras, que se estende da área contígua ao Shopping até o distrito de Barão Geraldo.
Embora a tutela desta área do Parque Linear fosse devida a um passivo ambiental, não é
dessa forma que os empreendedores utilizam-se do fato: o Shopping optou pela etiqueta de
ecologicamente correto e socialmente justo , e divulga abertamente que a questão ambiental é
uma das principais preocupações dos empreendedores (www.shoppingdompedro.com.br acesso
em 25/03/2006). Para comprová-la, apresenta o seu programa de economia de energia, através do
aproveitamento de iluminação natural e do manejo inteligente de temperaturas internas; o
programa de reaproveitamento da água, com estação própria de tratamento e reutilização para
fins de limpeza e irrigação, e também seu projeto de reflorestamento doado ao município,
caracterizado pelo plantio de 25 mil mudas em trecho adotado do Parque Linear Ribeirão das
Pedras (www.shoppingdompedro.com.br 25/03/2006). Tudo isso sob a denominação
Meio
Ambiente como Parceiro . Este empreendimento foi muito criticado por ter sido executado com
ausência de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA), procedimento comum e necessário a
empreendimentos desse porte (Roseli B. Torres, com. pess.). Na época deste empreendimento,
também não houve um estudo de impacto sócio-econômico, dada sua possibilidade de influenciar
no comércio de pequeno e médio porte e no fluxo viário dos bairros vizinhos.
A Mata do Chico Brinco é contígua ao Shopping. Ela foi assim batizada devido ao nome
do funcionário que lá morava e cuidava desta área da fazenda, há muito tempo atrás, perdeu cerca
de metade de seu tamanho quando da desapropriação para a construção da Rodovia D. Pedro I,
fato que podemos comprovar quando comparamos os mosaicos das três datas (Figuras 19, 20 e
21). Segundo o entrevistado, nas imediações deste fragmento, onde hoje há plantação de soja, era
plantado algodão até 1985, e Santin (1999) há alguns anos já relatara indícios de fogo e corte
seletivo. Jacaratia spinosa (Aubl.) A.DC. (Caricaceae) foi a espécie dominante do inventário de
Santin (1999). De acordo com o levantamento realizado em 2005-2006 pela equipe de vegetação
do Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), a espécie mais frequente foi Gallesia integrifolia
(Spreng.) Harms (Phytolaccaceae).
126
Hoje, devido ao fácil acesso por estar encostado na Rodovia D. Pedro I, os proprietários já
tiveram problemas com pessoas que invadem o fragmento, por isso determinaram o cercamento
da área. No fim da década de 90, uma empresa de reciclagem de baterias, localizada nos
arredores, foi autuada por conduzir produtos tóxicos para dentro do fragmento.
Atualmente, o uso urbano do solo no entorno é muito alto (aproximadamente 85%, vide
Tabela 5), o que aumentou a sua impermeabilização. Assim, o fragmento é muito impactado
pelas águas pluviais do entorno, que escoam para dentro da mata causando desagregação do
banco de sementes, danos físicos aos indivíduos já estabelecidos e erosão do solo.
O responsável se lembra vagamente de algumas pesquisas realizadas no fragmento, mas
nunca obteve retorno de nenhuma. Este fragmento também se encontra listado no processo de
estudo de tombamento CONDEPACC nº04/2003.
Recanto Yara (nº7)
Av. Santa Isabel s/n Residencial Burato
Área: 1,59ha (1962); 1,59ha (1972); 1,27ha (2002)
Ao passar pela Avenida Santa Isabel, no Distrito de Barão Geraldo, no sentido dos bairros
Vila Santa Isabel, Burato ou Jardim América em direção ao centro, invariavelmente passa-se pelo
Recanto Yara, na baixada, logo na altura da ponte. Protegido pelo código florestal (Lei Federal nº
4.771 de 1965), o Recanto Yara teve aberto o estudo de tombamento de seus maciços arbóreos
em 1992, a pedido da PROESP. Este é um fragmento cuja extensão toma mais de uma
propriedade, o que, somado ao fato de ser de fácil acesso à população local, configura impactos
de diversos tipos e proporções. Em 1993, por exemplo, o estabelecimento vizinho, localizado na
Av. Santa Isabel, um comércio de materiais de construção, foi acusado de aterrar o brejo para
aumentar a área do pátio (Laudo da vistoria nº63 de 08/03/93 in CONDEPACC resolução nº 25
de 09/05/1996).
Após o início do estudo de tombamento, desenvolveu-se um longo processo de pareceres
favoráveis ao tombamento da área e contestações. São comuns os argumentos de que o processo
127
de tombamento como instrumento de interesse coletivo tem efeitos sobre a propriedade
individual, e embora seja emblemática a proteção de um bem comum a responsabilidade e custos
do bem tombado caibam aos proprietários. Este assunto será aprofundado posteriormente.
Entretanto, apesar de todas as contestações, em 1996 saiu a resolução favorável ao tombamento
(CONDEPACC resolução nº25 de 9/5/1996). Entre os pareceres favoráveis encontramos um do
professor Hermógenes de Freitas Leitão Filho, que foi de grande importância para a decisão final:
este tipo de formação vegetal é raro e pouco representado no estado de São Paulo.
Especialmente no município de Campinas estas matas estão quase extintas e a preservação de
seus remanescentes é condição essencial (CONDEPACC resolução nº25 de 9/5/1996). Foi neste
fragmento que foi atestada a primeira citação de Rollinia fruticosa (Annonaceae), um
araticunzinho, em Campinas (Santin 1999). De acordo com o levantamento realizado em 20052006 pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), as espécies mais
frequentes foram Cestrum schlechtendalii G.Don (Solanaceae), Calophyllum brasiliense
Cambess. (Clusiaceae) e Spathodea nilotica Seem. (Bignoniaceae).
O fragmento do Recanto Yara é uma floresta paludícula que apresentou redução de área
no intervalo de tempo de 1972-2002 (Tabela 2). O uso urbano de seu entorno tem aumentado nas
últimas décadas, passando de 16,48% em 1972 para 82,15% em 2002 (Tabela 5).
Afirma a lei municipal de nº9.199 de 27/12/1996, que institui o Plano Local de Gestão
Urbana de Barão Geraldo, que o projeto especial do Parque Recanto Yara visa à recuperação da
mata tombada, a preservação de seu ecossistema, a manutenção da qualidade paisagística do
conjunto formado pelo vale do córrego que deságua na lagoa da Fazenda Rio das Pedras, bem
como sua incorporação como área de acesso público e interligação ao sistema de parques lineares
e ciclovias propostos para Barão Geraldo .
Alguns anos depois, em março de 1998, um proprietário de parte da área em questão
envia ao CONDEPACC - responsável pela aprovação na alteração de bens tombados e a
regulamentação de seu entorno
e à então Secretaria Municipal de Planejamento e
Desenvolvimento Urbano, seu projeto para um empreendimento local. Já lhe havia sido negada
em 1987 a autorização para que construísse um hotel em outro local de Barão Geraldo,
caracterizado por zoneamento residencial singular. Entretanto, dessa vez o empreendimento é
128
maior: um Centro de Convenções com atrativos turísticos, salas comerciais, restaurante e
pousada, totalizando 3.650m2 de área construída em um terreno de 21.250m2 (ofício de
23/03/1998
in
processo
tombamento
CONDEPACC
resolução
nº25
de
9/5/1996).
Inquestionavelmente, se um empreendimento como esse vingasse, atingiria o sucesso em pouco
tempo, dado o acelerado crescimento e a elitização que ocorre no distrito de Barão Geraldo.
Todavia isto não ocorreu, e em julho de 1998 foi negada a licença devido às restrições legais.
Além das questões da pertinência do tombamento e de uso de área particular propriamente
dita, durante todos esses anos uma outra questão conflituosa e degradante do remanescente foi a
presença de esgoto a céu aberto despejado no córrego Burato, que corre dali em direção à
Fazenda Rio das Pedras para mais adiante desaguar no rideirão das Pedras. Além de correr a céu
aberto, em dias de chuva o córrego transbordava, invadindo algumas propriedades e o fragmento,
chegando até a inviabilizar o tráfego pela Avenida Santa Isabel. Já havia sido deflagrada a
necessidade de redimensionamento da galeria de água que passava pela Av. Santa Isabel e
elaborada uma proposta de drenagem pela SANASA, e segundo relatório técnico de 2001, o
esgoto local estaria deteriorando e contaminando o bem tombado (relatório técnico da CSPC de
10/05/2001 in processo tombamento CONDEPACC resolução nº25 de 9/5/1996).
As obras de conserto do emissário de esgoto foram inauguradas em novembro de 2002, e
embora o córrego Burato não transborde mais em dias de forte chuva, tornando-se essa questão
um problema invisível para a maioria da população de Barão, a situação ainda não está resolvida.
Em maio do ano passado, por exemplo, uma moradora do bairro encaminhou denúncia ao
CONDEPACC de que, embora após as obras da rede coletora a situação tivesse melhorado, ela
temia que houvesse retrocesso, pois algumas chácaras e organizações religiosas estariam
promovendo o lançamento clandestino de esgoto no local, deteriorando a área brejosa (Denúncia
de 17/05/2005 anexo ao processo tombamento CONDEPACC resolução nº25 de 9/5/1996).
O Plano Local de Gestão Urbana de Barão Geraldo (lei nº9.199 de 17 dezembro de 1996),
instituiu o Projeto Especial Parque do Recanto Yara (Título III, Capítulo I, Seção III), que visava
não apenas a recuperação do fragmento, como sua incorporação como área de acesso público e
interligação ao sistema de parques lineares e ciclovias proposto para Barão Geraldo. Entretanto,
após quase 10 anos de sua redação, nenhuma medida foi ainda tomada nessa direção.
129
Residencial Ibirapuera (Cooperativa Habitacional Chapadão) (nº 3)
Av. Albino J.B. de Oliveira, 5555
Área: 1ha (1962); 1ha (1972); 1,12ha (2002)
O Residencial Ibirapuera situa-se em área antes constituinte do Sítio Vicentim, ou 'Sítio
da Pontinha', como era mais conhecido pelos moradores locais, no distrito de Barão Geraldo. Em
1991 houve o desmembramento das terras e deu-se o início do empreendimento. A aquisição do
remanescente em questão coincide com a aquisição da área. O Termo de Acordo e Compromisso
firmado entre a PMC e a Cooperativa Habitacional Chapadão (PMC 1995), declara que ao
término das obras planejadas pelo empreendimento, haverá a doação da mata à PMC, mas que até
ela se concretizar, está sob responsabilidade da empreendedora. Este fragmento também está
listado no processo de tombamento CONDEPACC nº04/2003.
O fragmento é parcialmente cercado por um alambrado, e não há manejo da área, a não
ser a poda de cipós quando saem do cercamento . Ainda que o acesso não seja permitido, a
presença do fragmento agrega valor ao condomínio: os moradores preferem caminhar ao seu
redor, e alegam o frescor, a beleza e a possibilidade de verem animais, como sagui, teiú e
capivara. Outra fato que comprova esse valor é que os primeiros lotes a serem adquiridos por
condôminos foram os logo defronte à mata.
A administração, todavia, não vê a presença do fragmento com simpatia e está ansiosa
para concretizar a doação à PMC: "É o nosso maior calo". Isso porque a responsabilidade legal
do fragmento demanda vigilância constante: durante a primeira etapa do empreendimento eles já
foram autuados e multados por adentrarem com cabos de utilização temporária alguns metros na
área protegida, ao invés de passá-los por fora da mata.
Como o fragmento delimita o condomínio e o sítio, a empreendedora não isolou o
fragmento por todas as suas faces: a porção voltada para o sítio não é cercada, sendo não somente
contígua à plantação de abacates (Persea americana Mill.., Lauraceae), mas com acesso
facilitado através desta propriedade. De acordo com o levantamento realizado em 2005-2006 pela
equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), a espécie mais frequente foi
Trichilia pallida Sw. (Meliaceae).
130
O aumento do uso urbano do solo no entorno deste fragmento está intimamente
relacionado com a expansão urbana no distrito de Barão Geraldo. Até 1972 com entorno
integralmente não urbano, atualmente mais de 70% do entorno do fragmento do Residencial
Ibirapuera já pode ser considerado de uso urbano (Tabela 5).
Fazenda Boa Esperança (Loteamento Engenho do Barão) (nº2)
Av. Albino J.B. de Oliveira, 1.885 (Estrada da Rhodia)
Vila Holândia
Área: 2,73ha (1962); 2,61ha (1972); 2,77ha (2002)
Este caso foi muito interessante, pois foi o único exemplar que pude acompanhar num
momento de conversão de propriedade rural particular para loteamento residencial fechado de
médio/alto padrão. O entrevistado foi um dos próprios proprietários da Fazenda Boa Esperança,
que está nas mãos da família há 40 anos. Entretanto, como ele nunca residiu na Fazenda, seu
envolvimento com esta propriedade é mais de caráter comercial do que afetiva. A Fazenda
produziu cana-de-açúcar durante muitos anos: o plantio da cana era inicialmente destinado ao
alambique da Fazenda, posteriormente as terras foram arrendadas para produção de cana-deaçúcar da Usina Açucareira Ester S.A, contrato que durava até a decisão pelo loteamento.
Consta no parecer n°02 da deliberação COMDEMA nº05/02 (COMDEMA nº05/02 de
27/08/2002) que foi entre 1999 e 2000 que se aprovou o loteamento "Terras do Barão", em gleba
desmembrada da Fazenda Boa Esperança, cujo número de moradores especulava-se em torno de
2.700.
Segundo o mesmo parecer, no próprio ano de 2000, foram protocolados mais três
solicitações para novos loteamentos em glebas contíguas, perfazendo juntos um total de
908.423,5707m2. De acordo com a SANASA, com os quatro lotamentos juntos ocupariam
aproximadamente 1.170.000m2, havendo um incremento populacional de cerca de 10.000 novos
moradores no distrito de Barão Geraldo. Todos os empreendimentos são da mesma
empreendedora, aberta e gerenciada pelos próprios membros da família: Quando decidimos
lotear resolvemos nós mesmos fazer; por que passar para outro? , colocou o proprietário em
entrevista.
131
Isto significaria, além de um incremento em torno de 22% da população fixa do distrito,
um enorme impacto no sistema viário, hídrico e na rede de serviços e esgoto de Barão Geraldo. A
fazenda está na divisa de Campinas e Paulínia. Portanto, ela é dotada de uma estrada municipal
não pavimentada, via de acesso mais rápida deste extremo de Barão Geraldo à Rodovia Estadual
General Milton Tavares de Lima (SP332). Para desafogar o impacto do sistema viário que os
novos loteamentos trariam, o parecer técnico da Coordenadoria Setorial de Uso e Ocupação do
Solo, então ligada à Secretaria de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente
(SEPLAMA) (CSU 23/08/01 in COMDEMA nº05/02 de 27/08/2002), ressalta a necessidade de
estruturação de outra via de acesso alternativa, e que, para tanto, deveria-se cruzar toda a zona
rural de Barão Geraldo, medida que acabaria por induzir indesejável urbanização dessa área.
Indesejável urbanização já apontada anteriormente no Plano Local de Gestão Urbana de Barão
Geraldo (Lei nº9.199 de 27/12/1996), a fim de impedir a conurbação com a área do município de
Paulínia, onde se encontram empresas químicas de grande porte e devido à necessidade de um
estudo viário e sócio-ambiental detalhado, que identificasse e avaliasse os riscos, impactos e
conseqüências que a aprovação de tais empreendimentos trariam para a preservação de áreas
rurais do distrito.
A própria Rhodia S/A, empresa do ramo químico e com grande número de poluentes
como produto final, próxima das glebas em questão, manifestara-se junto à PMC a respeito de
instalações residenciais próximas: a preocupação face aos riscos potenciais e inerentes das
unidades de processamento químico existentes no Site Industrial ... que certamente trará como
conseqüência futura, fortes conflitos entre indústria e comunidade. É responsabilidade do serviço
público evitar tal situação, preservando no planejamento urbano a separação/distanciamento entre
áreas industriais das estritamente residenciais (Rhodia S/A 1997 in deliberação COMDEMA
nº05/02 de 27/08/2002).
A grande crítica das associações de moradores, ambientalistas e do próprio COMDEMA
foi a de que os projetos de loteamento não foram tratados da forma devida: embora eles
dissessem respeito ao parcelamento de mais de 1.000.000m2 de uma mesma fazenda, os
empreendimentos foram analisados separadamente, sem se levar em consideração os impactos
provocados pelo seu conjunto.
132
O fragmento em questão está localizado na porção destinada ao loteamento Engenho do
Barão. Um dos projetos da empreendedora para o local é o Parque Linear Fazenda Boa
Esperança. O projeto é realizar plantios recuperando toda a área do entorno da lagoa e conectar o
fragmento de mata nativa com a mata da APP. Em uma das margens já se iniciou o plantio. O
Parque Linear fica na área de união dos três loteamentos, e por toda sua extensão está planejada
uma ciclovia, com exceção do fragmento remanescente, que será protegido por um alambrado.
Segundo Santin (1999) Matayba elaeagnoides Radlk. (Sapindaceae) foi a espécie predominante
no fragmento. Segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas
(Torres et al. no prelo), a espécie mais frequente foi Chrysophyllum gonocarpum Engl.
(Sapotaceae).
A presença da estrada, mesmo não pavimentada, dá um caráter de passagem ao local,
facilitando o acesso de usuários de drogas - normalmente maconha, segundo o entrevistado - e a
ocorrência de focos de incêndios acidentais e criminosos. Em meados de março de 2006, houve
mais um início de incêndio criminoso, com testemunhas. Embora a maioria desses focos ocorram
no canavial adjacente, eles ameaçam o fragmento. A Usina Açucareira Ester S.A, por ainda
arrendar algumas terras, mantém um caminhão pipa rondando a área, que costuma ser ativado em
caso de necessidade.
Segundo o entrevistado, desde a aquisição das terras da família, não há nenhuma
interferência direta sobre o fragmento. Entretanto, devido à grande quantidade de saúvas que se
concentram na área do fragmento em algumas épocas, eles aplicam formicida no entorno da
mata. Em agosto de 2006 o CONDEPACC recebeu uma denúncia de que o fragmento estaria
sendo utilizado como local para despejo de restos de material de construção, e também de que
estaria sendo utilizado indevidamente pelos trabalhadores envolvidos na construção do
loteamento.
Como a mais recente foto aérea data de 2002, o uso urbano do solo no entorno apresentase defasado: embora a leitura indique 6,54% de uso urbano do solo (Tabela 5), atualmente esta
porcentagem é maior.
133
Vila Holândia (nº1)
Fonte das Flores s/n - Vila Florida
Área: 20,97ha (1962); 24,17ha + 4,23ha (1972); 32,51ha (2002)
A Vila Holândia localiza-se na área limítrofe do distrito de Barão Geraldo e Paulínia. Os
moradores são na sua grande maioria idosos e representantes de famílias antigas em Barão
Geraldo, que testemunharam, participaram e sofreram muitas mudanças que ocorreram no local,
podendo contribuir ricamente na reconstrução da história local. Uma das antigas moradoras
entrevistadas, lá nascida e hoje com mais de 75 anos, tem como forte lembrança de sua infância
os banhos e pescarias no ribeirão das Anhumas. Hoje ela testemunha com rico relato a alteração
da dinâmica do ribeirão e a invasão das capivaras em sua plantação.
O fragmento fica em área denominada de 'Terras do Tonão', propriedade de família
estrangeira atualmente residente em São Paulo. O pedido de tombamento do remanescente data
de 2002, não havendo ainda um posicionamento final do CONDEPACC. O pedido de abertura do
tombamento do fragmento foi iniciativa dos moradores do bairro, mobilizados por uma
proprietária que, desde de que adquiriu uma chácara na Vila Holândia, há aproximadamente 8
anos, tem investido bastante em algumas mudanças locais, como melhorias no transporte público
e infra-estrutura do bairro, alteração de seu nome, antes bairro Quilombo, e na mobilização da
comunidade e parceiros para seus projetos. Ela tem muitos projetos para o local, inclusive o de
criar um Centro de Estudos em parceria com a Unicamp, que vise a preservação e manejo do
fragmento e a educação para a população local. No pedido de tombamento da área um dos
objetivos apresentados foi o de promover a educação ambiental. Entretanto, ela encontra muitas
dificuldades para realizá-los, desde a pouca articulação e participação, até colaboração da PMC,
em suas diversas instâncias.
O fragmento é um dos poucos exemplares da transição de floresta estacional
semidecidual para cerrado nesta porção do município, o que já caracteriza sua importância para
conservação. Ele é contíguo a uma área da Rhodia arrendada para a Usina Açucareira Ester S.A,
e são comuns as denúncias a respeito de treminhões que prejudicam a mata quando vão fazer a
retirada da cana-de-açúcar, ao passarem pelo acesso de terra que corta o fragmento. Santin (1999)
134
já havia relatado a existência deste acesso, na época utilizado para proporcionar retirada de solo.
Esta, todavia, não é a única ameaça ao fragmento. Segundo moradores, já houve princípios de
incêndio provenientes da prática da queima da cana-de-açúcar ou de eventos religiosos na mata;
apreensão de animais para venda; retirada de terra de uma área adjacente e deposição de resíduos.
E, neste caso, uma realidade reveladora: segundo os moradores, o lixo vem de Hortolândia e
Paulínia , inclusive já foi reconhecido material impresso com timbre de escolas municipais de
Paulínia. Quando observamos a Tabela 2, notamos que a evolução deste fragmento foi uma
exceção dentre todos os outros: tanto no primeiro intervalo de tempo quanto no segundo, há
incremento de área. Isto, aliado ao fato do fragmento da Vila Holândia estar dentre os maiores da
bacia, fez com que sua contribuição para a área total dos fragmentos aumentasse de 3,41% em
1962 para 7,69% em 2002 (Figuras 13 e 14). Como nenhum dos entrevistados soube confirmar se
nesse intervalo de tempo houve algum manejo ou intervenção no fragmento, ficamos com a
hipótese de que este incremento de mata deve-se exclusivamente à regeneração natural. Segundo
o levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), a
espécie mais frequente foi Mabea fistulifera Mart.( Euphorbiaceae).
No segundo semestre de 2006 iniciou-se em área contígua ao fragmento, a construção da
E.T.E. Barão Geraldo. Segundo informações de funcionário do CONDEPACC, as obras foram
iniciadas sem permissão.
Sítio San Martinho/Centro Médico Boldrini (nº14)
Entre as ruas Márcia Mendes e Dr. Gabriel Porto
Cidade Universitária
Área: 2,31ha (1962); 2,31ha + 4,23ha (1972); 2,17ha (2002)
Este fragmento está localizado em mais de uma propriedade particular. O acesso à mata
pelo Centro Médico Boldrini é fechado, e pode ser realizado apenas com permissão do
responsável. O pedido do estudo de tombamento da mata nativa de brejo da área foi apresentado
pela PROESP (Associação Protetora da Diversidade das Espécies), no ano de 2000
(CONDEPACC nº07/00). As águas provindas das nascentes do fragmento descem pela Cidade
135
Universitária em direção à estrada da Rhodia e alimentam a lagoa do Parque Ecológico
Hermógenes de Freitas Leitão Filho. Outra das proprietárias alega que não há uso do fragmento:
"A mata é cercada e preservada".
Segundo o processo de estudo de tombamento do remanescente (CONDEPACC nº07/00)
depositado no centro de documentação da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural
(CSPC), em setembro de 2000 o Centro Médico Boldrini foi acusado de promover movimentação
de terra e terraplanagem na área sem alvará, segundo denúncia de um fiscal da própria CSPC.
Ante essa acusação, um porta voz do Centro Médico alegou falta de tempo para conseguir
autorização legal dos órgãos competentes: teriam recebido uma verba destinada a esse fim com o
compromisso de utilizá-la com urgência, o que levou a não buscarem formalizar a obra. Após
averiguação, a denúncia foi declarada não pertinente, pois na verdade a área onde se realizava a
obra nem mesmo poderia ser considerada entorno da área em estudo de tombamento.
Este fragmento apresentou um pequeno decréscimo de aproximadamente 0,2ha entre
1972-2002 (Tabela 2) e o uso urbano de seu entorno tem se acentuado, sendo atualmente de mais
de 45% (Tabela 5).
De acordo com o levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas
(Torres et al. no prelo), a espécie mais frequente foi Endlicheria paniculata (Spreng.) J.F.Macbr.
(Lauraceae).
Fazenda Argentina (nº10a e 10b)
Acesso pela Rodovia Adhemar de Barros ~km 117 sul
Área: 2,12ha + 2,90ha (1962); 3,43ha + 2,90ha (1972); 3,64ha + 2,99ha (2002)
Nesta propriedade há dois fragmentos muito degradados, com alta incidência de lianas,
circundados por terras com plantio de cana-de-açúcar. Isso os tornam suscetível a incêndios,
principalmente na época de estiagem, no inverno. Entretanto como para um dos fragmentos o
acesso é facilitado pela existência de um acesso a partir da Rodovia Adhemar de Barros (SP340)
136
ao CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás), há casos de invasão e algumas
vezes focos de incêndio com suspeitas de serem criminosos.
Segundo antigos funcionários, ao menos nas últimas 3 décadas nunca houve corte seletivo
de madeira, e nem mesmo caça, devido a ausência de animais de se caçar . Antes da morte do
proprietário, há 18 anos, a principal atividade econômica da Fazenda era a criação de gado, mas
depois desse acontecimento os herdeiros optaram por arrendar a terra para cultivo de cana-deaçúcar da Usina Açucareira Ester S.A. Segundo Carvalho et al. (2006), hoje a Fazenda Argentina
possui 101,8ha destinados à plantação de cana de açúcar e 26,8ha à pastagem.
Ambos os fragmentos apresentaram incremento de área progressivo entre 1962 2002
(Tabela 2), mesmo não havendo registro de qualquer intervenção por parte dos proprietários e
tendo aumentado o uso urbano do solo no entorno (Tabela 5). Isso pode indicar um processo de
regeneração natural.
Santin (1999) documentou Croton priscus Croizat (Euphorbiaceae) como a espécie
predominante neste fragmento. Segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do
Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), as espécies mais frequentes comuns a ambos os
fragmentos foram Trichilia claussenii C.DC. (Meliaceae) e Guarea macrophylla Vahl
(Meliaceae).
Ambos os fragmentos foram inclusos no processo de estudo para tombamento
CONDEPACC nº04/2003.
Fazenda Anhumas (Fazenda Nanandiba) (nº9)
Fazenda Anhumas
Área: 10,32ha (1962); 10,32ha (1972); 5,19ha (2002)
A Fazenda Anhumas era antes conhecida como Fazenda Nanandiba, e o fragmento nela
situado está incluso entre os fragmentos listados no processo de estudo para tombamento
CONDEPACC nº04/2003.
137
Embora o remanescente esteja na área da fazenda, o proprietário recomendou que o
contato fosse feito diretamente com os encarregados da Usina Açucareira Ester S.A, pois seu
entorno é arrendado para o plantio de cana-de-açúcar e ele acreditava que os encarregados da
Usina Ester saberiam responder mais a respeito do fragmento do que ele. Mesmo com essa
ressalva, ele se mostrou atualizado dos processos referentes ao fragmento, sendo dos poucos
proprietários que puderam informar com clareza e precisão a respeito do estudo de tombamento
da área. Não há nenhum manejo realizado na área, como podas, contenção de trepadeiras, ou
mesmo plantios. O fragmento não é de fácil acesso, pois por um lado é contíguo a áreas de
cultivo e por outro ao muro da PUC Campinas. Segundo o proprietário essa restrição ao acesso
mantém o fragmento protegido de usuários de drogas e transeuntes, muitas vezes apontados como
causadores de incêndios. Mesmo assim houve uma grande redução em sua área no intervalo de
tempo entre 1972 2002 (Tabela 2; Figuras 6 e 7). Observando o mosaico de 2002 (Figura 10),
podemos constatar que a área oriunda da redução do fragmento ampliou a área de cultivo de cana.
A presença deste cultivo no entorno do fragmento já havia sido apontada por Santin (1999) como
provável causador dos focos de incêndio na mata.
Guarea guidonia (L.) Sleumer (Meliaceae) foi citada como a espécie predominante
(Santin 1999).
O proprietário da Fazenda Anhumas vem contestando o tombamento do fragmento desde
que foi informado da abertura do processo, mas esta situação não apresentou grandes mudanças
nos últimos anos. Além disso, ele também não autorizou a entrada da equipe de vegetação do
Projeto Anhumas para fins de pesquisa.
Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) (nº13)
Rua Giuseppe Máximo Scolfaro, 10000 - Pólo II de Alta Tecnologia de Campinas
Área: 7,02ha (1962) + 13,78ha (1972) + 10,26ha (2002)
Este fragmento de cerrado encontra-se na área do Laboratório Nacional de Luz
Síncrotron, no distrito de Barão Geraldo, e também é objeto do processo de estudo de
tombamento CONDEPACC nº04/2003. De acordo com Santin (1999) durante o processo de
138
estabelecimento do LNLS, a presença de valas, entulho e a construção do estacionamento
contribuíram muito para a deterioração do fragmento.
O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) é um centro nacional de Ciência e
Tecnologia operado pela Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS),
mediante um contrato de gestão assinado com o Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) e o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Durante 10
anos (1987-1997), o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e o Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) investiram na implantação do Laboratório.
Localizado numa área de 380.000m2, o LNLS é hoje uma referência em pesquisas avançadas de
materiais, e seu intuito é atuar como instituição aberta e multidisciplinar, promovendo e
realizando pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologias que contribuam para elevar
o nível tecnológico e científico do Brasil (www.lnls.br acesso em 22/08/2006).
Este é um dos fragmentos que apresentou incremento em sua área e adensamento ao longo
do intervalo temporal estudado. Segundo Roseli B. Torres (com. pess.) esta área teria sofrido
corte raso há algumas décadas atrás. Conforme podemos acompanhar na Tabela 2 e nas Figura 5
e 6, entre 1962 e 1972 o fragmento teve um incremento de aproximadamente 6,7ha, o que
corresponde a mais de 96% da área inicial, uma quantia muito significativa. Entretanto, já no
segundo intervalo de tempo (1972- 2002) houve uma redução de 13,78ha para 10,6ha.
Infelizmente esta foi uma das áreas nas quais a comunicação com os responsáveis deixou a
desejar, então não foi possível compreender muito bem quais forças estiveram e estão presentes
na evolução deste fragmento. Segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do
Projeto Anhumas, as espécies mais frequentes neste fragmento foram Luehea grandiflora Mart.
(Tiliaceae) e Platypodium elegans Vogel (Fabaceae) (Torres et al. no prelo).
139
Sítio São Francisco
(Fazenda Pau D Alho) (nº14)
Rodovia Adhemar de Barros (SP340) km 118,5
Área: 2,66ha + 0,46ha (1962); 3,51ha (1972); 5,12ha (2002)
Segundo o histórico de sua filha, Julie Dutilh, o casal Jacques e Marguerite Dutilh-van
Schelle veio para a América do Sul, com um filho de um ano e um bebê na barriga, justamente
quando findou a II Guerra Mundial na Holanda. Embora fosse seu intuito, desde o início, vir para
o Brasil, eles foram inicialmente à Argentina. E após a ajuda de um amigo que trabalhava na
embaixada alemã, conseguiram fazer os contatos para, alguns meses depois, virem ao Brasil.
Inicialmente a família residiu na fazenda do irmão de Jacques, próxima de Salto de Itu.
Com experiência anterior de criação de gado, produção de leite e processamento de
queijos, engajaram-se em adaptar esse conhecimento às novas condições ambientais e variedades
de cultivos. Após alguns anos, o primo de seu grande amigo Herman Moraes Barros quis vender
sua fazenda em Campinas.
A Fazenda Pau D Alho participara do auge da produção da cana-de-açúcar, sendo depois
sua produção convertida ao café: era uma bela fazenda, com bom solo, muita água e uma enorme
casa de 200 anos. Eles já haviam sido hospedados na casa em 1947, por ocasião do nascimento da
segunda filha, Hillegonda Maria, e como Marguerite recebera um dinheiro de herança decorrente
do assassinato de um familiar provocado pelos alemães, eles resolveram iniciar essa nova jornada
agora em terras campineiras. Eis então que em 1948 a família adquiriu a Fazenda Pau D Alho.
A relação próxima da família com centros de pesquisa e ensino locais na área de
agricultura e veterinária promovia a realização de experimentos na fazenda e ajuda dos técnicos e
pesquisadores. Marguerite, inclusive, trabalhou com melhoramento de gado e mantinha vínculo
de pesquisa com Holambra
cidade próxima fundada por holandeses migrantes após a II Guerra
Mundial - e com a Secretaria de Agricultura. A casa estava sempre aberta a visitas, e as
discussões a respeito de métodos e resultados e ciência em geral eram comuns. Como na Pau
D Alho a hospitalidade vencera a formalidade, era proporcionada a convivência com diferentes
visitantes de todas as partes do mundo. A principal lição que aprendi com meus pais foi estar
sempre aberta para diferentes pessoas, sua casa e você mesmo. Havia sempre algo a comer, um
140
lugar para dormir e um bom ouvinte. Não era a formalidade que era importante, mas a
hospitalidade e a conexão com as pessoas; você pode aprender muito se estiver disposta a ouvir.
atesta Julie, a filha mais nova do casal, hoje moradora do Sítio São Fracisco e bióloga
pesquisadora. Julie nasceu já nessa fazenda, e segundo ela ...era ótimo crescer numa casa tão
interessante e com arredores tão belos. Eu amava as plantas e os animais, e desde cedo tinha meu
próprio e pequeno jardim, cuidava dos cães e ajudava plantando árvores .
Logo que obtiveram a fazenda, ela ainda estava ligada à produção de café. Depois a
família foi alterando a produção para gado de leite mestiço, algodão, melancia, café, milho e
sojinha perene. A preocupação com a conservação adequada da propriedade sempre esteve
presente desde a aquisição da fazenda pela famíli,a e é presente ainda hoje. Os Moraes Barros,
família do então embaixador do Brasil na Holanda, foram amigos importantes no estabelecimento
dos Dutilh van Schelle no país. Pertenciam ao grupo de fazendeiros que buscava implementar
novas tecnologias às idéias de conservação que surgiam no Brasil, muitas provindas de ações e
concepções de D. Pedro II. Tudo isso ressoava em Jacques, que, segundo Julie, sempre teve um
lado 'protecionista' bem forte. Estes valores podem ser evidenciados no próprio manejo que foi
dado à Fazenda, como a proibição de caçadas e a preservação de elementos importantes, como a
vegetação protetora de nascentes e manutenção de áreas brejosas, fragmento de mata nativa e até
mesmo o reflorestamento de um morro da fazenda, antes nu, onde foram utilizadas árvores
nativas tendo sido esse um dos primeiros reflorestamentos para recuperação de áreas em
Campinas (Figura 22). Em relação a esse plantio, Julie lembra-se não só do próprio como de
combater as saúvas, que ameaçavam as mudas, com fumaça. Aprendi sobre espécies pioneiras
desde criança , garante.
Em 1976, decidiu-se pela instalação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da
TELEBRÁS
(CPqD),
hoje
Fundação
Centro
de
Pesquisa
e
Desenvolvimento
em
Telecomunicações, próximo à Unicamp, onde foram realizados o projeto de fibra ótica e todo o
desenvolvimento da telefonia nacional a partir de 1980. Entretanto, para que se isso de desse,
foram realizados algumas desapropriações de terra, que incluíram parte da área da Fazenda Pau
D Alho. Segundo Jóia (2000), os três fatores mais significativos apontados pela TELEBRÁS para
141
a escolha do local de instalação do CPqD foram: disponibilidade de mão de obra especializada,
proximidade de universidades e institutos de pesquisa e boa qualidade de vida no município.
Há alguns anos o Sitio São Francisco foi desmembrado da Fazenda Pau D Alho, embora
ainda permaneça com a família, cabendo o fragmento em questão agora à área do sítio. Em
relação ao fragmento atual, desde que Julie tem conhecimento, nunca houve corte seletivo de
madeira nem outras intervenções. Apenas em 1988, um princípio de queimada, rapidamente
controlado. O único manejo que há é o aceiro para que a mata não seja atingida pelo fogo
provindo do sítio vizinho, que eventualmente ameaça o remanescente, tendo já havido controle de
trepadeiras, iniciado em 1986. O fragmento possui uma trilha através do qual é possível percorrer
grande parte dele.
Este fragmento, que já havia sido classificado por Santin (1999) como área muito
conservada, é uma exceção dentre todos os outros: locado em área privada, recebe proteção e
manejo preventivo devido aos valores, grau de instrução e esclarecimento dos proprietários,
mesmo não recebendo nenhum apoio ou acompanhamento por parte de órgãos da PMC. Estas
ações levaram ao incremento da área do fragmento ao ponto de unir dois fragmentos existentes
anteriormente (Tabela 2; Figuras 23 e 24), mesmo havendo um aumento do uso urbano do solo
no entorno (Tabela 5). Pouco perturbado, o fragmento mantém estratificação vertical bem
definida e dossel fechado na sua maior parte, agregando, segundo o funcionário entrevistado,
uma grande diversidade de aves e mamíferos, como tucanos, lebres, cachorro-do-mato, cotias, e
tatus e gambás, dentre outros marsupiais. Além disso, segundo a própria moradora, após o início
do controle de trepadeiras, foi perceptível que "várias árvores voltaram", ou seja, não foram
suprimidas nem apresentaram maior índice de mortalidade devido à pressão exercida pelas
trepadeiras. Este é um resultado muito interessante, uma vez que abundância de trepadeiras é uma
das pressões mais intensas que o processo de fragmentação pode gerar. O fragmento contém uma
área de baixada alagada e nascentes que confluem para o ribeirão das Anhumas, ainda dentro da
fazenda Pau D Alho. A análise de similaridade com outros sete fragmentos do município
realizada por Kinoshita et al. (2006) mostrou a mata do Sítio São Francisco em posição
intermediária entre as formações higrófilas e as estacionais semidecíduas. Segundo o
levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas, a espécie mais frequente
142
neste fragmento foi Esenbeckia febrifuga (A.St.-Hil.) A.Juss. ex Mart. (Rutaceae) (Torres et al.
no prelo).
O fragmento do Sítio São Francisco consta no processo de estudo de tombamento de
dezembro de 2003 (CONDEPACC nº04/2003), ainda sem parecer final.
Loteamento Condomínio Estância Paraíso (nº15a e 15b)
Luis Antônio Lalone, 321 - Bosque das Palmeiras
Área: 0,86ha + 1,69ha (1962); 1,43ha + 0,46 (1972); 0,56ha + 0,46ha (2002)
A área atual, localizada no distrito de Barão Geraldo, próxima ao acesso da rodovia
Adhemar de Barros (SP340), foi loteada a partir de uma propriedade rural produtora de frutas. A
decisão foi da própria família, e há pouco tempo faleceu a proprietária da fazenda: agora a casa
sede na qual moravam os proprietários, localizada na área central do loteamento, será repartida
em novos lotes. O loteamento fica em uma região antes característica pela produção rural,
principalmente frutas in natura. Um dos entrevistados, além de trabalhar há mais de 15 anos no
condomínio, também era morador da região quando criança, então tem muitas lembranças a
respeito da história do lugar.
Este é mais um dos casos de fragmentos em área de loteamento residencial fechado, neste
caso, são dois pequenos fragmentos. Um dos fragmentos é separado pelo ribeirão das Anhumas
apenas por um muro. Em fevereiro de 2003, o rio transbordou e inundou essa área do
condomínio. A área é uma APP, e após o lago há um pequeno corpo d água que corre pelo
condomínio, passa por algumas outras propriedades agrícolas e desemboca no ribeirão das
Anhumas. O segundo fragmento encontra-se mais ao norte do loteamento, distante de corpos
d água. Ambos os fragmentos são e sempre foram extremamente pequenos em relação aos outros
fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, e nas três datas (1962, 1972 e 2002) sua
contribuição para a somatória total dos fragmentos da bacia variou de 0,10% a 0,32% (Tabela 4).
Embora não tenha sido contínua, ambos dos fragmentos apresentaram uma tendência
geral em decréscimo de área (Tabela 2) e um grande aumento do uso urbano do entorno (Tabela
5). Segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas, as espécies
143
mais frequentes coincidentes a ambos os fragmentos são Centrolobium tomentosum Guillemin ex
Benth. (Fabaceae) e Croton floribundus Spreng. (Euphorbiaceae) (Torres et al. no prelo).
O uso e proteção de ambos os fragmentos difere um pouco do que ocorre em outros
condomínios: além de serem muito reduzidos, são utilizados como área verde do condomínio.
Além de caminhadas e passeios, atividades típicas de áreas comuns, os condôminos utilizam-se
das áreas como uma extensão de suas próprias residências, realizando nelas o plantio de mudas
arbóreas particulares que crescem em demasia. Então, a medida que eles tomam é transferí-las
para esta área comum do condomínio, que não apresenta tantas restrições urbanísticas. Isso
costuma acontecer com freqüência, segundo o entrevistado que me guiou na visita, e eu mesma
pude ver vários indivíduos de espécies exóticas crescendo entre as árvores.
Neste caso, a utilização dos fragmentos como área verde típica do condomínio pareceu ser
facilitada devido a três características principais: a primeira, é que a estrutura da mata realmente é
bem simplificada e ela se assemelha muito a uma área verde cultivada, sendo o estrato de subbosque extremamente rarefeito e as plântulas praticamente ausentes, embora o entrevistado
garanta que não haja a remoção de serrapilheira. A segunda, é que uma delas é contígua à área
comum de lazer do condomínio: além do atrativo do lago com peixes, a área reservada para
festas, com salão, sanitários e outros equipamentos, fazem limite com o remanescente. E,
finalmente, a terceira característica que contribui para modelar o uso que é feito dos fragmentos é
a falta de informação da administração do loteamento para esclarecer o propósito e importância
dos fragmentos nativos. Sem conhecimento a respeito do propósito e até mesmo das restrições
legais aplicadas aos fragmentos
inclusive por um deles estar parcialmente em uma APP-, os
condôminos sequer têm a consciência de estarem infringindo regras. Pelos plantios que realizam,
por exemplo, não recebem nenhum aviso de infração ou mesmo orientação por parte da
administração; trazem sua muda, plantam e, quando muito, informam algum responsável. Tudo
isso facilita a mobilidade dos moradores no fragmento, bem como a alteração na composição
florística na sua estrutura.
O reconhecimento dessas três características, que estariam contribuindo para o uso que se
faz dos fragmentos e os impactos associados, na verdade são um recurso de compreensão e
apresentação da realidade. Todavia, é perceptível que as três características não são
144
independentes, e formam um só aspecto geral da realidade do condomínio. O fato da área de lazer
do loteamento ser parcialmente localizada na APP, por exemplo, demonstra que a empreendedora
não planejou adequadamente o uso do espaço no condomínio primando pela proteção do
fragmento mais próximo. Ou ainda, uma possibilidade bem plausível: a de que realmente tenha
planejado muito bem, e que a oferta de uma área verde, próxima à área de lazer do condomínio
seja uma proposta do empreendimento para valorização do produto.
De acordo com o entrevistado, houve um plantio há alguns anos de responsabilidade de
um rapaz da UNICAMP, que está com um retorno pendente para instalação de placas de
identificação das árvores desde então. O administrador estava há apenas dois meses no cargo,
então também não pode dar informações mais detalhadas.
O Condomínio Estância Paraíso parece não possuir problemas da mesma natureza e
dimensão do que o Condomínio Rio das Pedras no que se refere às questões internas. Enquanto
no Condomínio Rio das Pedras os condôminos influenciem bastante nas decisões internas e seja
comum dividirem-se em grupos de opiniões fortemente contrárias, e segundo um funcionário
pensam que o condomínio é um quintal seu e que nele eles podem agir como quiserem , no
Condomínio Estância Paraíso algumas dessas questões parecem inexistentes. Inexistentes, e não
consensuais. Mesmo as regras definidas para a arborização das ruas no Estância Paraíso não são
tão rigorosas: os moradores são responsáveis pela escolha e manutenção das árvores em frente
suas casas. Uma possibilidade para isso talvez seja o fato do Condomínio estar estabelecido a
menos de 10 anos: alguns típicos problemas de arborização como doenças e morte de árvores, e
necessidade de poda ou supressão a fim de proteger a fiação, vias de pedestres ou de automóveis,
são característicos de árvores em idade mais avançada e maior porte.
Ambos os fragmentos constam no processo de tombamento CONDEPACC nº04/2003.
145
Fazenda Tozan (Fazenda Monte d'Este) (nº16a, 16b e 16c)
Rodovia Adhemar de Barros (SP340) Km 121,5 sul
Área: 2,09ha + 5,05ha (1962); 2,87ha + 3,15ha + 1,81ha (1972); 4,34 + 3,63ha + 2,12ha
(2002)
Anteriormente parte integrante da Fazenda Ponte Alta, de propriedade da família
Camargo Penteado, a Fazenda Monte d'Este data de 1798, e sua trajetória acompanha alguns dos
principais momentos históricos do Brasil: ela já produziu açúcar, café, tem relação íntima com
imigração japonesa e nas últimas décadas diversificou a produção. Entre sua edificações, estão a
Casa Sede, Senzala, Casa de Colono, Museu Casa do Café, Casa Japonesa e Casa de Chá
construída para receber o príncipe e a princesa Mikasa do Japão durante as comemorações dos 50
anos da imigração japonesa, em 1958.
Em 1927 a família Iwasaki, adquiriu 3.700ha de terra, fundando então uma nova
propriedade. Com o passar dos anos, a produção da fazenda foi se consolidando e diversificando,
sendo hoje importante produtora de café, soja e feijão, além de milho, realizado periodicamente,
principalmente em área para descanso do solo (Carvalho et al. 2006). Há também a criação de
gado de corte, além da produção de matéria prima para alimentos e produtos de origem japonesa,
como saquê, shoyo, missô e vinagre de arroz. Foi na Fazenda Tozan, em parceria com o IAC, que
foi fixada uma nova linhagem de café na década de 40, certificada de "Mundo Novo".
Atualmente, segundo Carvalho et al. (2006), a Fazenda possui aproximadamente
1.140.000 cafeeiros numa área de 240 ha, dos quais 190 ha estão em produção. A colheita
mecânica representa 40% e a colheita manual os outros 60%. O café, reconhecido
internacionalmente, é o principal produto de cultivo e comercialização.
Os fragmentos de mata paludosa localizados na Fazenda Tozan, apresentaram o seguinte
padrão: enquanto o fragmento localizado mais ao norte, próximo à lagoa da fazenda, apresenta
um incremento constante ao longo dos anos (Tabela 2), o fragmento localizado mais ao sul
passou por diferentes processos. No primeiro intervalo de tempo (1962-1972), ele não só
apresentou uma pequena redução de área (0,09ha) como ela foi responsável por subdividí-lo,
originando 2 fragmentos. No intervalo seguinte (1972
146
2002), ambos os fragmentos originários
desta subdivisão tiveram um incremento de área. É importante resgatarmos, neste momento, a
partir dos componentes da paisagem fragmentada e de seus atributos, apresentados no ítem 1.1.2,
um pouco do significado desta situação.
Um importante distúrbio gerado pela fragmentação e responsável pela descaracterização
do habitat, alterando a composição e dinâmica do fragmento, é o efeito de borda. Embora seja
polêmica a delimitação da distância da atuação do efeito de borda para o interior do fragmento,
Harper et al. (2005), a partir de metanálise, sugerem que dependendo do tipo da resposta a
distância do efeito de borda pode chegar até a 500m. Assim, quanto menores os fragmentos, mais
eles estarão sujeitos à descaracterização oriunda do efeito de borda, como, dentre muitos outros, a
infestação por espécies exóticas e invasoras. Concluindo, embora hoje a soma dos fragmentos
seja maior do que a área inicial que eles possuíam quando ainda compunham um só fragmento
(Tabela 2), eles estão sujeitos a uma maior alteração microclimática, à redistribuição de
nutrientes e alteração dos fluxos de material e energia, e à exposição aos patógenos e a espécies
invasoras. No caso da Fazenda Monte D Este, os fragmentos estão bem conservados, sendo o
fator mais comprometedos a perturbação do entorno, potencializada pela densa presença de
espécies invasoras.
Os administradores da Fazenda sempre divulgaram entre seus valores os de conservação e
de recuperação do solo. Para expressar a índole de proteção aos fragmentos, ainda os utilizam,
argumentando que já que é filosofia da empresa o reflorestamento, então ela não permite a
degradação". Atualmente não há manejo dos fragmentos, e o encarregado não se lembra de
nenhuma interferência como plantios, podas ou corte seletivo de madeira. A proteção dos
fragmentos limita-se a dificultar a acessibilidade ao local. Os fragmentos são objetos de estudo de
tombamento do processo CONDEPACC nº04/03.
Segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas, as
espécies mais frequentes coincidentes nos fragmentos foram Styrax pohlii A.DC. (Styracaceae) e
Tapirira guianensis Aubl. (Anacardiaceae) (Torres et al. no prelo).
147
Fazenda São Bento (nº17)
Rodovia Adhemar de Barros (SP340) km 120,5 norte
Área: 18,43ha (1962); 17,79ha (1972); 18,15ha (2002)
A Fazenda São Bento surgiu após fracionamento da antiga Fazenda Duas Pontes, também
pertencente à família Oliveira, proprietária da Fazenda Santa Genebra. Atualmente ela foi
fracionada novamente entre herdeiros e o fragmento em questão situa-se em uma das
propriedades oriundas deste fracionamento mais recente. O fragmento da antiga Fazenda São
Bento é ligado ao fragmento do Xangrilá pelo córrego que segue até a fazenda Monte D Este
após passar sob a pista da rodovia Adhemar de Barros (SP340). Embora Santin (1999) tenha
documentado para este fragmento a descontinuidade do dossel e a presença de lianas, ela o
caracterizou como uma área pouco perturbada, com muitos indivíduos jovens de espécies
arbóreas. Centrolobium tomentosum Guillemin ex Benth. (Fabaceae), Astronium graveolens Jacq.
(Anacardiaceae) e Trichilia claussenii C.DC. (Meliaceae) foram espécies apontadas como
dominantes por Santin (1999). Segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do
Projeto Anhumas, as espécies mais frequentes neste fragmento foram Actinostemon concepcionis
(Chodat & Hassl.) Hochr. (Euphorbiaceae) e Galipea jasminiflora (A.St.-Hil.) Engl. (Rutaceae)
(Torres et al. no prelo).
O fragmento é rodeado por uma área utilizada para pasto desde 1980, antes disso o cultivo
era algodão e milho. O funcionário e o proprietário entrevistados não têm registro de retirada de
madeira e lembram apenas de um incêndio no fragmento, ocorrido há muitos anos atrás. Neste
fragmento os riscos são diminutos devido ao difícil acesso por transeuntes e pela proteção dos
proprietários, que alegam sempre gostarem da floresta . Ainda segundo o funcionário, mesmo
para retirada de madeira eles não utilizavam a mata, mas sim os eucaliptos adjacentes
esses sim
plantados pelos proprietários.
Não há manejo ou intervenção de qualquer tipo no fragmento por parte dos proprietários.
Este foi um dos fragmentos que apresentou menor alteração de área nos dois intervalos de tempo
amostrados (Tabela 2). Quando questionado a respeito dos planos futuros para a área e o
fragmento, o proprietário alegou que aguardavam o momento certo para loteamento. Tudo tem
148
seu tempo. E que nesse caso ao fragmento caberia ser doado como área verde do loteamento
residencial. Na face oeste, o fragmento distancia-se algumas centenas de metros da rodovia
Adhemar de Barros (SP340), da qual se separa por um plantio de milho. Da estrada, ao passar
nessa altura, é possível ver uma placa
Round up
o melhor para folhas largas . O uso urbano
do entorno do fragmento da antiga Fazenda São Bento tem aumentado, passando de 0 para
26,15%.
O fragmento da antiga Fazenda São Bento também está incluso no processo de estudo de
tombamento CONDEPACC nº04/2003.
Parque Xangrilá (nº18)
Rodovia Adhemar de Barros km 121,5 norte
Parque Xangrilá
Área: 7,65ha (1962); 6,83ha (1972); 5,52ha (2002)
Segundo o processo de estudo de tombamento da mata, arquivado no centro de
documentação da CSPC (CONDEPACC 05/2001), desde 1989 já havia tentativas da comunidade
local em proteger o fragmento de incêndios, depósito de lixo e outros danos, inclusive atribuídos
ao poder público municipal. Em 1990, quando o Viveiro Municipal foi transferido do Parque
Ecológico Hermógenes de Freitas Leitão Filho, na Cidade Universitária do distrito de Barão
Geraldo, para o Parque Xangrilá, ele foi instalado ao lado do fragmento, sendo utilizada a água de
sua lagoa e curso d água para irrigação das plântulas e mudas. Segundo os moradores, este uso,
ao longo dos anos, causou o assoreamento do riacho.
Os moradores dos Parques Xangrilá e Luciamar mostraram-se, no decorrer dos anos,
críticos e participativos, e creio que muito disso deve-se ao fato de uma das moradoras ser
reconhecidamente uma cidadã envolvida nas questões ambientais da cidade. Além de membro
da PROESP, ela também já se envolveu em conselhos deliberativos, atuando como conselheira
do CONDEPACC e escreve rotineiramente para jornais municipais de ampla distribuição. Em
uma carta enviada ao prefeito Jacó Bittar, os moradores documentam:
..repúdio à atitude unilateral desta prefeitura, através do Departamento de Parques e Jardins.
O chocante é que enquanto Vossa Excelência quer plantar um milhão de árvores, o DPJ já
149
destruiu algumas delas, em função da construção de um viveiro de plantas, barracões e estufas.
A par desse projeto antiecológico , as máquinas da empreiteira, além da derrubada de árvores
nativas, realizou uma terraplanagem de mais ou menos 150 a 200m de comprimento defronte à
lagoa existente nos loteamentos (27/04/1992, anexo do processo de estudo de tombamento
CONDEPACC nº05/2001).
Entretanto, ainda assim a condição não melhora muito, o que os leva a continuar pedindo
atenção e ajuda nesta questão para o prefeito seguinte, José Roberto Magalhães Teixeira, numa
carta de junho de 1995, assinada pela Comissão de Meio Ambiente do Parque Xangrilá.
O que fica evidente no caso do Parque Xangrilá é que muitas vezes são ações de
responsabilidade da PMC que interferem na deterioração do remanescente: uma outra acusação
dos moradores, feita em junho de 1997, é que a empresa Biolchine Engenharia de Construção
Ltda, teria desmatado 250 m2 do remanescente para instalar uma tubulação para despejo de águas
pluviais, provocando assoreamento e erosões. E segundo eles isso acarretaria rapidamente em
degradação da área. A empresa foi vencedora de licitação municipal e já havia registros de queixa
contra ela. Consta que no momento de asfaltamento dos Parques Luciamar e Xangrilá, o córrego
tenha sido canalizado no interior da mata, aumentando a degradação. Segundo os moradores,
embora tivessem solicitado um relatório técnico à prefeitura para que acompanhasse as obras,
eles não obtiveram sucesso.
Hoje o fragmento encontra-se muito degradado, havendo uma grande abundância de
bambus e trepadeiras na área. Este fragmento, juntamente com o do Jardim Miriam, o do Bosque
Chico Mendes, a Mata do Chico Brinco e o hoje menor fragmento do Condomínio Estância
Paraíso, foram os que mais apresentaram uma redução em sua área total, quando tomado como
ponto inicial o ano de 1962. Croton floribundus Spreng. (Euphorbiaceae) e Cupania vernalis
Cambess. (Sapindaceae) foram consideradas espécies predominantes (Santin 1999). Este
fragmento tem apresentado uma constante redução de área no intervalo de tempo analisado,
passando de 7,65ha em 1962 para 5,52ha em 2002 (Tabela 2). Segundo o levantamento realizado
pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas, as espécies mais comuns neste fragmento são
Esenbeckia febrifuga (A.St.-Hil.) A.Juss. ex Mart. (Rutaceae) e Galipea jasminiflora (A.St.-Hil.)
Engl. (Rutaceae) (Torres et al. no prelo).
150
Ainda não há nenhum posicionamento final do CONDEPACC a respeito do processo de
estudo de tombamento, embora este tenha se iniciado já há cinco anos.
Jardim Miriam Moreira da Costa (nº19)
Rodovia Adhemar de Barros km 118,5 - Jardim Miriam Moreira da Costa
Área: 2,68ha (1962); 2,46ha (1972); 0,76ha (2002)
Também incluso no processo de estudo de tombamento CONDEPACC nº04/2003, o
fragmento do Jardim Miriam é uma área aberta sem nenhuma proteção ou identificação. Fica
próxima a um campo de futebol do bairro que, segundo um antigo morador é muito pouco
utilizado. Embora encontre-se em um bairro residencial, quaisquer casa ou estabelecimento
comercial distam pelo menos 200m do fragmento, apenas alguns cultivos de baixa escala situamse mais próximos do remanescente. A face leste do fragmento faz limite com um terreno baldio,
com marcas de lixo incinerado, e a face oeste dista poucos metros do acesso à rodovia Adhemar
de Barros (SP340).
Embora nenhum morador do bairro pudesse se recordar de algum dia ter testemunhado
focos de incêndio no fragmento, numa área não muito distante, na entrada do bairro, os incêndios
são muito comuns o que, somado às evidências de incineração de lixo no entorno, contribuem
para constatarmos a fragilidade do remanescente. O fragmento do Jardim Miriam é dos poucos
fragmentos em que não há nascentes ou cursos d água. Este fragmento sofreu pouca redução de
área no intervalo entre 1962 1972, para, no período seguinte, apresentar perda de mais de 70%
(aproximadamente 1,7ha), devido ao loteamento residencial do entorno.
Guarea kunthiana A.Juss. (Meliaceae) foi considerada a espécie dominante segundo
Santin (1999). De acordo com levantamento mais recente realizado pela equipe de vegetação do
Projeto Anhumas (Torres et al. no prelo), a espécie mais comum neste fragmento foi Piptadenia
gonoacantha (Mart.) J.F.Macbr. (Fabaceae) (Torres et al. no prelo).
151
Sociedade Residencial Alphaville Campinas (nº20)
Acesso pela Rodovia Adhemar de Barros (SP340) km 117
Área: 3,75ha (1962); 3,64ha (1972); 4,02ha (2002)
A Sociedade Residencial Alphaville Campinas estabeleceu-se na Fazenda Santa
Terezinha, próxima à rodovia Adhemar de Barros (SP340), há cerca de 8 anos atrás e hoje é um
dos maiores loteamentos residenciais da cidade, atualmente já com 900 casas erguidas e outros
lotes em construção. Segundo o funcionário responsável pela infra-estrutura e manutenção, além
dos moradores, cerca de 8 mil pessoas adentram os limites do loteamento diariamente.
A realidade do Alphaville é muito similar com a de outros loteamentos residenciais.
Embora todos os moradores recebam instruções, regras e normas quando fazem a aquisição do
lote, são muitos os que não as seguem, e isso, com o tempo, acaba gerando muitos desconfortos,
irregularidades ambientais e gastos. O fragmento em questão faz fundo com diversas residências,
inclusive, segundo palavras do próprio entrevistado eles compraram uma área protegida
(Figuras 25, 26 e 27).
Outra pressão no fragmento tem sido as águas pluviais das casas do entorno, que
adentram a mata sem contenção. Em alguns pontos já é possível reconhecer sinais de
desbarrancamento e desagregação de solo, tornando-se de necessidade imediata a intervenção
com algum sistema de condução de águas pluviais. Embora sejam poucos, alguns moradores
utilizam o fragmento como local de passeio. Como pode ser visto na Tabela 2, o fragmento do
Alphaville sofreu um pequeno aumento de área no segundo intervalo de tempo. O uso urbano de
seu entorno também tem aumentado muito e hoje está próximo de 81%.
Segundo o levantamento realizado pela equipe de vegetação do Projeto Anhumas (Torres
et al. no prelo), a espécie mais comum neste fragmento foi Urera baccifera (L.) Gaudich. ex
Wedd. (Urticaceae).
Como na maioria das outras propriedades, os encarregados não demonstram ter grande
conhecimento a respeito das limitações legais e leis ambientais, e mesmo quando recorrem a
órgãos públicos alegam não receberem informações esclarecedoras. O pedido de estudo de
152
tombamento do CONDEPACC nº04/2003, incluiu o fragmento do Alphaville dentre todos os
outros listados.
153
154
Figura 16 Bosque dos Jequitibás - 2002
Figura 17
Fazenda Rio das Pedras,
Barão Geraldo 1962
Figura 18
Fazenda Rio das Pedras,
Barão Geraldo - 1972
155
156
Figura 19 Mata do Chico Brinco (Mata do Boi
Falô) 1962
Figura 20
Mata do Chico Brinco
(Mata do Boi Falô) 1972
Figuras 21 Mata do Chico Brinco (Mata do Boi Falô) - 2002.
Nota-se a rodovia D. Pedro I e a alça de acesso ao shopping
vizinho ao fragmento
157
158
Figura 22 Foto aérea de sobrevôo da região da Fazenda
Pau D Alho, fim da década de 1960. Vê-se a rodovia
Adhemar de Barros e à direita o morro reflorestado pelos
Dutilh Fonte: Acervo Dutilh
Figura 23
Sítio São Francisco - 1962
Figura 24 Sítio São Francisco
a Rodovia Adhemar de Barros
2002. À direita,
159
160
Figura 25 Fazenda Santa Teresinha, atual
Sociedade Residencial Alphaville Campinas
1962
Figura 26 Fazenda Santa Teresinha, atual
Sociedade Residencial Alphaville Campinas
1972
Figura 27 Fazenda Santa Teresinha, atual Sociedade Residencial
Alphaville Campinas 2002
161
162
2.3.3 Eixos de análise dos fragmentos
Tendo já sido apresentados todos os fragmentos remanescentes da bacia do ribeirão das
Anhumas, uma síntese do histórico de cada um e a evolução do tamanho dos fragmentos a partir
de fotos aéreas de 1962, 1972 e 2002, entre outros aspectos importantes, partimos agora para uma
análise conjunta a partir de outro recorte: eixos estabelecidos após observação detalhada das
condições de conservação dos fragmentos, entre outras de suas características, e a partir de
considerações a respeito do seu contexto municipal. Os eixos de análise são as pressões sofridas
pelos fragmentos, o tombamento como possibilidade de proteção dos fragmentos, a relação entre
a posse e a preservação dos fragmentos, a contribuição da academia e dos cidadãos para proteção
e manejo desses fragmentos e uma visão integrada da bacia do ribeirão das Anhumas sob a
perspectiva da Teoria da Fragmentação de Habitats.
Embora estas questões tenham sido apresentadas detalhadamente no item 2.3.2, no
histórico de cada fragmento, a intenção neste momento é tecer uma análise transversal,
aprofundando-as e aproximando-as da realidade dos fragmentos da bacia do ribeirão das
Anhumas. É importante lembrar que uma classificação e agrupamento como esses são apenas um
recurso de esclarecer e facilitar a compreensão da realidade. Entretanto, a situação de cada
fragmento é única, e ainda que os mesmos fatores estejam presentes entre os fragmentos, eles
podem se manifestar de forma ou intensidades diferentes, dada a realidade de cada um.
Pressões
Além dos distúrbios oriundos do próprio processo de fragmentação, como maior
exposição de áreas internas de mata e alteração das características microclimáticas, dentre todos
os outros já explicitados anteriormente (item 1.1), os fragmentos da bacia do ribeirão das
Anhumas também encontram-se ameaçados por outros eventos, como queimadas, a pressão
imobiliária e disseminação de espécies invasoras exóticas, muitas vezes intencionalmente. A
Tabela 7 apresenta os fragmentos da bacia e os distúrbios associados a cada um. Como a situação
de cada fragmento em relação às pressões que sofrem já foi pormenorizada no histórico (item
2.3.2), para este aprofundamento geral houve um agrupamento dos distúrbios.
163
Poluição
Pressão Imobiliária
x
x
x
x
x
1
Vila Holândia
2
Fazenda Boa Esperança
3
Residencial Ibirapuera
4
Cond. Res. Parque Rio das Pedras
x
x
x
5a
Fazenda Rio das Pedras
x
x
x
5b
Fazenda Rio das Pedras
x
x
x
x
x
5c
Fazenda Rio das Pedras
x
x
x
x
x
6
RMSG
x
x
x
x
x
x
7
Recanto Yara
x
x
x
x
8
Santa Genebrinha
x
x
x
9
Fazenda Anhumas
x
x
x
x
10a
Fazenda Argentina
x
x
x
10b
Fazenda Argentina
x
x
x
11
San Martinho/Boldrini
12
P.E. Hermógenes de F. L. Filho
13
LNLS
14
Faz. Pau D Alho - S. São Francisco
14
Faz. Pau D Alho - S. São Francisco
15a
Condomínio Estância Paraíso
15b
Condomínio Estância Paraíso
16a
Fazenda Monte D´Este
16b
Fazenda Monte D´Este
x
16c
Fazenda Monte D´Este
x
x
17
Fazenda São Bento
x
x
18
Parque Xangrilá
x
19
Jardim Miriam Moreira da Costa
x
164
x
Retirada de elementos
Introdução espécies
FRAGMENTO
Queimadas
Nº
Desflorestamento
Tabela 7 - Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas e distúrbios associados a cada um. Os distúrbios foram
agrupados em distúrbios que causam diretamente a redução da área dos fragmentos (desflorestamento, queimadas);
distúrbios que causam alteração da composição e estrutura da comunidade (introdução espécies exóticas e invasoras,
retirada de elementos ou espécies - solo, vegetação, caça-, e poluição orgânica, química ou de resíduos sólidos) e
pressão imobiliária.
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
Bosque dos Jequitibás
x
x
23
Bosque São José
x
x
24
Bosque dos Alemães
x
x
x
25
Bosque dos Italianos
x
x
x
26
Bosque da Paz
x
x
x
27
Bosque Chico Mendes
x
x
x
28a
Mata do Chico Brinco (Boi Falô)
x
x
Alphaville Campinas
x
21
P. E. Monsenhor Emílio José Salim
x
22
x
x
Pressão Imobiliária
x
20
Poluição
Retirada de elementos
x
FRAGMENTO
Incêndio
x
Nº
Desflorestamento
Introdução espécies
Continuação da Tabela 7...
x
Eles estão agrupados em distúrbios que causam diretamente a redução da área dos
fragmentos (desflorestamento, queimadas) e distúrbios que causam alteração da composição e
estrutura da comunidade, através da introdução de espécies exóticas e invasoras, retirada de
elementos ou espécies - solo, vegetação, caça - ou poluição orgânica, química ou de resíduos
sólidos. Além desses distúrbios, foram identificados quais os fragmentos sujeitos a pressões
devidas à atividade imobiliária da região.
Os distúrbios responsáveis pela degradação dos fragmentos foram separados nesses dois
grupos principais também por um outro motivo: devido ao apressado e fracamente
contextualizado olhar do dia a dia, muitas vezes a degradação dos fragmentos não é notada.
Espécies ornamentais e exóticas no interior da mata, despejo de resíduos, a impermeabilização do
solo do entorno gerando desagregação e carregando o banco de sementes locais nos meses de
intensas chuvas, condições abióticas extremamente alteradas. Essas observações são feitas
normalmente por um olhar mais profundo, passando desapercebidas para a grande maioria das
pessoas, principalmente devido às consequências desses distúrbios poderem ser mais
efetivamente notadas após um maior intervalo de tempo. A grande parte dos cidadãos mostra-se
165
mais atenta a eventos mais intensos, como a supressão de uma grande área florestada. Dessa
forma, cria-se uma terrível aceitação de fragmentos fantasmas: eles continuam lá, de pé, embora
completamente descaracterizados. Todavia poucos percebem isso, e muitos continuam os crendo
autosuficientes e tomam como desnecessárias práticas de manutenção do fragmento. De acordo
com o próprio Diretor do Departamento de Parques e Jardins da PMC, não tem uma degradação
grande não, as pessoas não estragam as árvores. A tendência (de manutenção da mata) é
semente mesmo e aparecer novas árvores , assim justificando serem desnecessárias práticas de
plantios rotineiras.
O agrupamento dos distúrbios nesses dois grupos foi intencional para que estes aspectos
fossem notados e pudessem ser aprofundados. Os fragmentos que no período analisado
apresentaram redução de área, tiveram este desflorestamento causado pela expansão agropastoril
(Fazenda Rio das Pedras, por exemplo) ou pelas consequências do processo de urbanização,
como construção de autovias (por exemplo Mata do Chico Brinco) ou condomínios residenciais
(Condomínio Residencial Rio das Pedra, por exemplo).
Em alguns casos, não é a implementação dos condomínios que pode ser diretamente
responsabilizada pelo decréscimo das áreas dos fragmentos, mesmo porque muitas vezes, como
será aprofundado mais à frente, o fragmento faz parte do símbolo de um produto que agrega valor
aos condomínios. Entretanto, a médio e longo prazo, o desconhecimento das práticas adequadas
por parte dos empreendedores e moradores pode contribuir para a contínua degradação dos
fragmentos. Um interessante caso relatado em documento técnico da PMC (CONDEPACC 1992)
ilustra bem esta questão e mesmo ocorrido em área não compreendida pela bacia, tomar ciência
dele é ampliar o conhecimento da realidade do município: na Fazenda Embaúba, localizada no
distritode Sousas, foi aprovado um loteamento cujo tamanho dos lotes respeitava as dimensões
mínimas dos módulos estabelecidos para a zona rural. Entretanto, os lotes eram grandes demais e,
por conseguinte, caros demais para a faixa de mercado interessada em chácaras de lazer. A
própria empreendedora agrupava vários interessados que acabavam por comprar um mesmo
módulo e partilhavam-no, em acordo interno, subdividindo o lote. Hoje pode-se ver pequenas
chácaras encostadas na mata, cada uma com construções próprias e ornamentação personalizadas,
166
gerando um todo desarmonioso e agressivo, além de intensificarem e diversificarem as relações
de degradação com a mata.
A evolução do fragmento do Alphaville Campinas apresenta alguns aspectos semelhantes:
embora a área do fragmento não tenha sido reduzida entre 1972 e 2002 (Tabela 2), período em
que se deu o estabelecimento do condomínio, é possível notar que ele passa a sofrer maior
pressão, tanto devido à impermeabilização do solo do entorno quanto aos possíveis distúrbios
gerados por uma vizinhança numerosa e múltipla (Figuras 25, 26 e 27), melhor detalhados no
histórico dos fragmentos e a seguir. O caso do Condomínio Residencial Rio das Pedras também é
muito interessante. Como já foi detalhado no histórico deste fragmento, ele surgiu a partir de um
desmembramento da Fazenda Rio das Pedras, após a doação de terras para o estabelecimento da
Unicamp. Neste caso específico, o estabelecimento do loteamento não causou decrécimo da área
do fragmento. Pelo contrário, ao comparar sua área em 1972 com a área total que lhe diria
respeito em 2002, é possível notar um acréscimo de quase 17%. Todavia, o que ocorreu foi que
devido à própria proposta de segurança do Condomínio, foi necessário isolá-lo. Como o
fragmento encontrava-se num dos limites do Condomínio, foi construído um muro para evitar o
fluxo indesejado de pessoas. Embora este muro esteja representado na Figura 7, não é possível
notá-lo no mosaico de 2002 (Figura 10) pois fica encoberto pela copa das árvores. Assim, deu-se
o fracionamento de um remanescente já fragmentado, dificultando o fluxo de animais. É
importante ressaltar que além deste muro separar em dois um fragmento de mata antes contínuo,
dificultando o fluxo de animais e a dispersão de frutos e sementes não zoocóricos, ele encontra-se
em uma APP.
As queimadas, outro distúrbio que pode causar redução da área dos fragmentos, também
são comuns entre os fragmentos da bacia. Elas podem ser de natureza diversa: incêndios
acidentais, provenientes de eventos religiosos, dentre outros, incêndios criminosos, originários de
atos de vandalismo ou intencionalmente suscitados, ou incêndios que advêem da queima dos
plantios de cana-de-açúcar. Este último caso merece atenção especial na região da bacia
pertencente ao distritode Barão Geraldo e arredores, onde muitas terras fornecem cana-de-açúcar
para a Usina Açucareira Ester S.A.
167
A história da Usina Açucareira Ester S.A. inicia-se em 1898, quando o grupo Nogueira
adquiriu uma área de 6.000 alqueires paulistas próxima a Campinas, a qual era propriedade da
Companhia Sul Brasileira e Colonizadora, presidida pelo Barão Geraldo de Rezende. Compunhase a propriedade de quatro fazendas, com as seguintes denominações: Fazenda do Funil, Fazenda
da Grama (Três Barras), Fazenda São Bento e Fazenda Boa Vista. Hoje a sede da Usina situa-se
em Cosmópolis (SP), e ela se dedica à produção e comercialização de açúcar e álcool.
De acordo com a divulgação da própria Usina (www.usinaester.com.br acesso em
25/03/2006), em 1903 inicia-se a construção da usina de açúcar e o incremento da cultura da
cana, que veio a ter sua produção aumentada a partir de 1975, com a criação do Programa
Nacional do Álcool
Proálcool. A safra 2004/2005 da Usina foi de 1.562.212ton de moagem de
cana para 2.177.000 sacas de açúcar e 60.857.400 litros de álcool. Hoje a Usina trabalha com as
variedades SP80l842, SP792233, RB835486, RB825336 de cana-de-açúcar. Mesmo tendo as
terras próprias da Usina Ester aumentado consideravelmente desde o início do século XX,
passando de 8.915ha para 9.440ha na década de 70 e totalizando hoje 12.350ha de terras próprias,
é necessário atualmente o arrendamento de outras áreas para o plantio da cana-de-açúcar. Cinco
dos fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas são limítrofes a plantios de cana-de-açúcar da
Usina Ester ou estão contidos em propriedades que arrendam suas terras para a Usina. São eles
os fragmentos das Fazendas Anhumas, Boa Esperança e Argentina, bem como o fragmento da
Vila Holândia e a Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra, e suas condições estão melhor
detalhadas no histórico dos fragmentos (item 2.3.2). Como a queima da cana é uma técnica ainda
comum e utilizada pelos produtores locais, na época de estiagem o perigo de focos de incêndio
oriundos das plantações de cana intensifica-se, sendo um motivo de risco intenso aos fragmentos.
Dentre os distúrbios relacionados à alteração da composição e estrutura da comunidade, a
Tabela 7 apresenta a presença intencional ou acidental de espécies exóticas ou invasoras, a
retirada de elementos ou espécies dos fragmentos - solo, vegetação, caça - e a poluição orgânica,
química ou de resíduos sólidos. Como era de se esperar, embora seja praticamente impossível que
algum dos fragmentos não possua espécies exóticas e/ou invasoras, alteração freqüente no
processo de fragmentação, a presença delas pode ser mais fortemente associada com os
fragmentos cuja relação com grande número de pessoas seja mais íntima ou antiga: foram os
168
fragmentos contidos nos bosques e parques e os fragmentos de condomínios que mais se fizeram
presentes nessa categoria, embora Uma vez que a ambos esses grupos é intrínseca a presença da
arborização, tradicionalmente empregada com espécies ornamentais exóticas, é compreensível
esta dominância, pois estas espécies acabam por se propagar nos fragmentos.
É importante ressaltar, todavia, que em grande parte das vezes a introdução de animais e
plantas exóticas não ocorre passivamente. Muitos cidadãos têm uma relação afetiva com os
bosques, parques e fragmentos de seus condomínios, e as expressam através de atenção e
cuidados que nem sempre imaginam serem danosos. Assim, plantam e cultivam espécies
exóticas, floríferas e frutíferas, que tenham para eles algum valor cultural. Um dos entrevistados
no Bosque dos Italianos ilustrou muito bem essa situação: após relatar sobre a retirada de
diversos indivíduos de espécies frutíferas, conduzida por pesquisadores da Unicamp acrescentou:
Já plantamos de novo. Tá tudo crescendo aí. Que mal pode fazer um abacateiro? .
Ao mesmo tempo em que a presença de espécies exóticas e invasoras pode ser fruto de
uma demonstração de apego e dedicação, também o pode ser de irresponsabilidade. Tanto o
Bosque dos Italianos, como o Bosque dos Jequitibás e o Parque Ecológico Monsenhor Salim,
dentre alguns outros, são usualmente utilizados pela população como destinação de animais
domésticos que passam a ser indesejados ou intolerados em seus lares. Assim, é frequente o
despejo de ninhadas de gatos, tartarugas d água e coelhos nos fragmentos, principalmente nos
bosques e parques públicos.
Outro distúrbio que pode comprometer a dinâmica dos fragmentos é a presença de
poluição orgânica, química ou de resíduos sólidos. Da mesma forma que a introdução de espécies
exóticas e invasoras está mais associada aos fragmentos localizados predominantemente em
matrizes urbanas, bosques, parques e fragmentos inseridos em condomínios fechados, a poluição
orgânica, química ou de resíduos sólidos direta pode ser associada aos fragmentos vizinhos a
áreas de cultivo. Com algumas exceções, a maioria dos fragmentos sujeitos à poluição, o são
devido à prática de utilização de insumos agrícolas em áreas adjacentes.
O distúrbio identificado como pressão imobiliária não é um distúrbio objetivamente, mas
foi assim rotulado por apresentar uma tendência da área em tornar-se um condomínio residencial
169
fechado, capaz de ser precursor de diversas outras alterações do fragmento, mais profundamente
abordadas no tópico referente às propriedades privadas.
O Tombamento dos Fragmentos
Um dos recursos de proteção aos fragmentos remanescentes de Campinas é o
tombamento. O tombamento é o ato de colocar bens imóveis ou móveis sob a guarda do Estado,
alegando e comprovando que, sendo de interesse público por seu valor histórico, arqueológico,
arquitetônico, artístico, documental, paisagístico ou ambiental, os bens devem ser conservados e
protegidos. No Brasil, o tombamento pode ser realizado pela União através do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), pelo Governo Estadual através do Conselho
de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do estado
(CONDEPHAAT) ou pelas administrações municipais. Em Campinas essa definição cabe ao
Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (CONDEPACC), ligado à
Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Lazer e regulamentado pela lei nº 5.885 (de 17 de
dezembro de 1987). Cabe ao CONDEPACC definir a política municipal de defesa e proteção do
patrimônio cultural; coordenar, integrar e executar as atividades referentes a essa política; e
sugerir medidas para cumprimento das exigências decorrentes da execução dessa política,
inclusive a modificação da legislação em vigor (artigo II). Este Conselho é composto por 30
representantes oriundos de Secretarias, Conselhos Municipais, associações de classe, empresas,
Universidades, Institutos de Pesquisa, Organizações Ambientalistas, entre outros, todos indicados
por seus pares e nomeados pelo Prefeito. O CONDEPACC é presididos pelo Secretário
Municipal de Cultura, Esportes e Lazer.
Dos 34 fragmentos inventariados na bacia do ribeirão das Anhumas, 7 estão tombados e
27 são objetos de estudos de tombamento (Figuras 28 e 29). A Tabela 8 apresenta a situação de
cada um deles referente à questão de posse, de tombamento e número dos processos.
170
3
Tombados
Em estudo de
tombamento
8
Figura 28
Situação de tombamento dos fragmentos públicos da bacia do ribeirão das Anhumas
4
Tombados
19
Figura 29
Em estudo de
tombamento
Situação de tombamento dos fragmentos privados da bacia do ribeirão das Anhumas
171
Tabela 8 Fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, situação referente aos tombamentos e informação quanto à
propriedade de cada fragmento. Em casos de tombamentos já efetivados, consta a resolução do tombamento
Nº
FRAGMENTO
1 Vila Holândia
SITUAÇÃO TOMBAMENTO
CONDEPACC 02/2002
2 Fazenda Boa Esperança
CONDEPACC 04/2003
particular
3 Residencial Ibirapuera
CONDEPACC 04/2003
particular
4 Cond. Res. Parque Rio das Pedras
CONDEPACC 04/2003
particular
5a Fazenda Rio das Pedras
CONDEPACC resolução nº 41 de 13/11/2003
particular
5b Fazenda Rio das Pedras
CONDEPACC resolução nº 41 de 13/11/2003
particular
5c Fazenda Rio das Pedras
CONDEPACC resolução nº 41 de 13/11/2003
particular
6 RMSG
CONDEPACC resolução nº 11 de 29/09/1992
CONDEPHAAT resolução nº 03 de 03/02/1983
municipal
7 Recanto Yara
CONDEPACC resolução nº 25 de 9/5/1996
particular
8 Santa Genebrinha
CONDEPACC 04/2003
particular
9 Fazenda Anhumas
CONDEPACC 04/2003
particular
10a Fazenda Argentina
CONDEPACC 04/2003
particular
10b Fazenda Argentina
CONDEPACC 04/2003
particular
11 San Martinho/Boldrini
CONDEPACC 07/2000
particular
12 P.E. Hermógenes de F. L. Filho
CONDEPACC 04/2003
municipal
13 LNLS
CONDEPACC 04/2003
particular
14 Faz. Pau D Alho - S. São Francisco
CONDEPACC 04/2003
particular
15a Condomínio Estância Paraíso
CONDEPACC 04/2003
particular
15b Condomínio Estância Paraíso
CONDEPACC 04/2003
particular
16a Fazenda Monte D´Este
CONDEPACC 04/2003
particular
16b Fazenda Monte D´Este
CONDEPACC 04/2003
particular
16c Fazenda Monte D´Este
CONDEPACC 04/2003
particular
17 Fazenda São Bento
CONDEPACC 04/2003
particular
18 Parque Xangrilá
CONDEPACC 05/2001
municipal
19 Jardim Miriam Moreira da Costa
CONDEPACC 04/2003
municipal
20 Alphaville Campinas
CONDEPACC 04/2003
particular
21 P. E. Monsenhor Emílio José Salim
CONDEPACC resolução nº 37 de 22/10/2002
CONDEPHAAT resolução nº 34 de 10/05/1982
estadual
23 Bosque São José
CONDEPACC resolução nº13 de 02/09/1993
CONDEEPHAAT resolução de 09/04/1970
CONDEPACC 04/2003
24 Bosque dos Alemães
CONDEPACC 04/2003
22 Bosque dos Jequitibás
172
PROPRIEDADE
particular
municipal
municipal
municipal
Continuação da Tabela 8...
Nº
FRAGMENTO
25 Bosque dos Italianos
SITUAÇÃO TOMBAMENTO
CONDEPACC 04/2003
PROPRIEDADE
municipal
26 Bosque da Paz
CONDEPACC 04/2003
municipal
27 Bosque Chico Mendes
CONDEPACC 04/2001
municipal
28a Mata do Chico Brinco (Boi Falô)
CONDEPACC 04/2003
particular
O tombamento é uma ação administrativa que se inicia com o pedido de abertura de
processo por iniciativa de um cidadão, associação ou de membros do próprio Conselho. Este
pedido é submetido à deliberação do CONDEPACC. Caso seja aprovada a abertura do processo
de estudo de tombamento, a resolução é publicada no Diário Oficial do Município e o
proprietário do fragmento será notificado, disponibilizando de 15 dias para contestar a medida
junto ao Conselho. Com a abertura do processo, o fragmento em estudo terá o mesmo regime de
preservação do bem tombado, ou seja, estará legalmente protegido até que se dê a resolução final
a respeito do processo aberto. Iniciam-se então a obtenção de uma série de pareceres pertinentes
ao pedido, realizados por técnicos das Secretaria Municipal de Urbanismo, Secretaria Municipal
de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e Secretaria Municipal de Assuntos
Jurídicos. O tombamento não interfere apenas no bem em questão: a área de entorno, localizada
na vizinhança dos bens tombados, passa a receber algumas restrições, sendo delimitada com
objetivo de preservar o ambiente e impedir que novos elementos obstruam sua visibilidade,
descaracterizem ou alterem o bem. O artigo 21 da lei nº 5.885 (de 17 de dezembro de 1987)
determinava como área de entorno a área compreendida num raio de 300m, independentemente
da natureza do bem em estudo de tombamento; ou seja, fosse uma edificação ou um fragmento,
todas as atividades e ações num raio de 300m estariam passíveis de controle e regulamentação
determinados pelo CONDEPACC. Na administração municipal de 2005 2008, a área de entorno
foi drasticamente reduzida, passando de 300m para 30m (decreto nº15.471 de 16/05/2006).
Diferentemente do que muitos imaginam, o tombamento não está relacionado à
desapropriação, uma vez que não altera a propriedade de um bem; somente proíbe que venha a
ser destruído ou descaracterizado. Esse é um dos motivos que gera insatisfação por parte dos
proprietários: no que tange aos efeitos jurídicos do tombamento, a legislação da União, Estados e
Municípios é rígida, dando a responsabilidade da preservação dos bens tombados aos
173
proprietários; os impostos continuam a incidir sobre eles, mas agora as possibilidades para com
seus bens são restritas, e suas responsabilidades, maiores. A grande maioria dos processos de
tombamento dos fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas foram veementemente
contestados por seus proprietários. Argumentos como o de que o processo de tombamento como
instrumento de interesse coletivo tem efeitos sobre a propriedade individual e de que embora seja
emblemática a proteção de um bem comum, a responsabilidade e custos caibam aos proprietários,
são comuns em grande parte dos processos analisados. Um bom exemplo que ilustra uma
tentativa de driblar essa responsabilidade é a situação deflagrada no Residencial Ibirapuera: o
acordo feito com a PMC e os empreendedores do loteamento, determina que assim que forem
finalizadas as obras, o fragmento será doado à PMC. Este momento é ansiosamente aguardado
pelos empreendedores, devido à responsabilidade e aos cuidados que a guarda de um fragmento
tombado demanda. Uma mata tombada e de posse da administração pública mantém presente o
atrativo natureza do loteamento sem acarretar multas ou grandes responsabilidades.
Embora o tombamento de um bem sinalize maior proteção ao mesmo, há vezes em que a
possibilidade de tombamento faz acelerar o processo de degradação: segundo o diário Folha da
Tarde (12/07/92), José Sampaio Moreira, um cidadão paulistano, derrubou sua casa
um
exemplar art-nouveau de 1900, na rua Vitória, cidade de São Paulo (SP) - mesmo com ausência
de planos ou projetos para o local: Achei que ela seria tombada . Foi um ato de precaução ante a
possibilidade de ver-se de mãos atadas e obrigado a preservar seu imóvel. Realmente, é
desestimulante e triste concordar que dada a vagarosidade de muitos trâmites legais no Brasil e o
parco envolvimento que o povo brasileiro estabelece com símbolos de sua história, muitas vezes
o tombamento significa isolamento e esquecimento.
A realidade de Campinas não é muito diferente. De acordo com o levantamento que
realizei no Centro de Documentação da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural em março
de 2006, o município somava um total de 87 bens tombados ou em estudo de tombamento, sendo
12 bens ambientais tombados, e 10 em estudo de tombamento. Infelizmente, como os
conselheiros do CONDEPACC são representantes de outras organizações, já tendo suas
atribuições principais e não há verba disponível para realizar o aprofundamento dos estudos
referentes ao tombamento das áreas, o que ocorre é que muitas vezes os processos, após abertos,
174
demoram anos para que cheguem à sua etapa final. O procedimento é que, para cada processo
aberto, seja indicado um relator responsável dentre os membros do Conselho, que deve
acompanhar o processo até sua resolução final. Como este cargo exige dedicação e, muitas vezes,
gastos, não é incomum que muitos dos conselheiros se isentem dessa atividade, e caiba a poucos
a árdua responsabilidade por muitos processos. Isso limita a participação ampla nesta importante
questão municipal e lega a proteção aos fragmentos à disposição e disponibilidade de alguns
membros mais ativos do Conselho, não sendo assumido como desdobramento da política
municipal de defesa e proteção do patrimônio, logo um ato do poder público em defesa do
patrimônio coletivo.
Segundo o artigo 15 da lei nº 5.885, os bens tombados não poderão ser destruídos,
dissolvidos, mutilados ou alterados, nem reparados, pintados ou restaurados sem prévia
autorização do Conselho, sob pena de multa , e os pedidos de novas construções ou qualquer
intervenção numa área de 30m ao redor de bens naturais em estudo de tombamento
praças, lagoas
matas,
deverão ter seus projetos analisados e aprovados pela CSPC, a fim de garantir a
integridade do bem até a decisão final de tombamento (decreto nº15.471 de 16/05/2006). Além
da proteção por tombamento, os fragmentos ficam sujeitos à inspeção periódica do Conselho
(artigo 18 da lei nº 5.885), e em caso de denúncia o proprietário deve se pronunciar a respeito da
proteção dispensada a eles. Todas essas restrições contribuem, por um lado, para maior proteção
dos fragmentos tombados ou em estudo de tombamento. Certamente alguns fragmentos já teriam
sido suprimidos total ou parcialmente, ou teriam sofrido maior degradação se não estivessem
respaldados pelo tombamento, devido à expansão urbana ou agrícola, à pressão imobiliária ou
pelo simples descaso, que emerge como ações de vandalismo, queimadas e corte raso, entre
outras. Afinal, infelizmente são ainda os atos de coerção e punições por multas, e não as medidas
educativas e esclarecedoras, que geram maior resultado.
Por outro lado, nem sempre o tombamento significa proteção integral ao fragmento,
devido a um motivo básico: a desarticulação, o despreparo e a incapacidade do poder municipal
em lidar com determinadas questões. Estes são evidenciados de muitas formas: a primeira é que
embora passíveis de fiscalização dificilmente há visitas rotineiras aos fragmentos, dado o número
insuficiente de funcionários da CSPC, e mesmo em caso de denúncia, muitas vezes a visita dos
175
fiscais ocorre apenas após meses. Ou seja: os órgãos responsáveis pela fiscalização e
acompanhamento carecem de verbas e funcionários, e não conseguem desempenhar
adequadamente todas as funções que lhes caberiam. Outra evidência é o fato de não haver um
programa municipal voltado ao manejo dos fragmentos e áreas verdes artificiais. Sabemos que a
diminuição do fluxo genético, a alteração de luminosidade e temperatura e o aumento de espécies
invasoras são alguns dos muitos fatores que podem levar um fragmento ao colapso,
principalmente os fragmentos pequenos, como a maioria dos fragmentos da bacia do ribeirão das
Anhumas. Então, uma decisão como o tombamento de um fragmento, é política importantíssima
para a conservação, mas não é a meta final. Além disso, como o tombamento exige que qualquer
alteração do bem em questão seja aprovada pelo CONDEPACC, mesmo as iniciativas favoráveis
à conservação dos fragmentos, em alguns casos oriundas dos proprietários, ficam mais restritas.
Um dos processos de estudo de tombamento ambiental mais recentes é o conhecido 04/03,
nomeado Processo de Estudo de Tombamento de Áreas Verdes, proposto por Dionete Santin e
Luis Antônio Ferraz Matthes (CONDEPACC processo de estudo de tombamento 04/2003). Este
processo refere-se ao conjunto de áreas verdes naturais, fragmentos de matas remanescentes,
incluindo os parques e bosques que contém áreas de vegetação nativa, áreas de floresta estacional
semidecidual, áreas de floresta paludosa (matas brejosas) e área de cerrado do município de
Campinas, e foi baseado na tese de Doutorado de Santin (1999). O processo de estudo de
tombamento CONDEPACC 04/2003 lista um total de 141 bens ambientais.
Vinte e três dos 34 fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas estão listados no
processo de estudo de tombamento CONDEPACC 04/2003. Os fragmentos da Fazenda Rio das
Pedras, do Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, do Bosque dos Jequitibás e o
Recanto Yara e a Reserva Municipal Mata de Santa Genebra já haviam sido tombados, e outros
quatro fragmentos (Parque Xangrilá, Sítio San Martinho/Centro Médico Boldrini, Vila Holândia
e Bosque Chico Mendes) respondem a outros processos de estudo para tombamento (Tabela 8).
A proposta conjunta de tombamento para as áreas verdes naturais e fragmentos de floresta
estacional semidecidual, floresta paludosa e cerrado do município de Campinas significou uma
tentativa de somar 895,67ha de vegetação aos 528,52ha tombados e aos 192,71ha em estudo de
tombamento na época, totalizando 1616,9ha, o equivalente a 2,05% dos 2,55% que essas áreas
176
representam na área total do município (CONDEPACC processo de estudo de tombamento
04/2003).
Todavia, embora louvável, a proposta tem tido dificuldade de se consolidar em
tombamentos, em parte pelos motivos já descritos de insuficiência de profissionais envolvidos.
Em agosto de 2006, quase três anos após a abertura do processo, de acordo com o responsável da
CSPC, não houvera praticamente nenhum progresso no aprofundamento dos processos de
tombamento. Ainda segundo ele, como foi aberto um processo conjunto referente ao tombamento
de áreas verdes, só poderá ser apresentada uma resolução conjunta. Ou seja, não poderá haver
nenhuma indicação para tombamento individual. Antes é necessário que se faça o estudo
aprofundado de todos os bens listados, e seja indicado um parecer para cada um deles, para
somente então os tombamentos seres indicados, votados e aprovados ou não.
Da Posse dos Fragmentos
Dos 34 fragmentos mapeados, 23 são propriedades particulares e 11 são propriedade do
poder público, dos quais 10 são municipais e 1 estadual. A Tabela 8 apresenta a situação de cada
um deles referente à questão de posse.
O fragmento do Residencial Ibirapuera encontra-se em condição atípica: embora seja uma
área particular, já foi acordado que será doada ao município quando finalizadas as obras do
Residencial. Como já foi detalhado no histórico deste fragmento (item 2.3.2), este momento é
aguardado pelos empreendedores com esperança, uma vez que significa menor responsabilidade
do loteamento em relação à proteção do fragmento.
A condição da propriedade do fragmento é um dos fatores que se mostraram chave para a
compreensão do manejo dispensado a eles. Os fragmentos particulares pertencem a um dos
seguintes casos: ou situam-se em condomínios residenciais fechados ou em propriedades
particulares, estas predominantemente com características rurais. Isso lhes assegura um acesso
restrito da população, sendo que no caso dos fragmentos localizados em condomínios
residenciais os moradores é que têm a facilidade de visitá-los. A única exceção dentre estes
fragmentos é o Recanto Yara, o qual embora esteja localizado em propriedades privadas, está
inserido em área urbana. Além do Recanto Yara não possuir nenhum obstáculo para os
177
interessados em adentrar nele, como muros ou alambrados, ele está localizado em local de
passagem, o que também facilita seu acesso.
Os fragmentos do poder público, por sua vez, caracterizam-se por serem ou estarem
situados em parques municipais
em Campinas mais conhecidos por bosques - ou estadual, no
caso do Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, e praças. A maioria dos fragmentos
públicos está hoje sob a categoria de bosques ou parques, sendo que apenas dois, os fragmentos
do Parque Xangrilá e do Jardim Miriam Moreira da Costa são praças públicas.
Embora todos pertençam ao poder público, e por isso seja permitido o acesso livre, os
fragmentos da categoria de parques diferem das praças devido a diversas condições. Em primeiro
lugar, um parque ou bosque é uma reserva de espaço verde proporcionada pelo município à
comunidade como base física da recreação urbana (art. 247, § 1º da Lei Orgânica do Município).
Esta definição já nos conduz às diferentes características que eles podem apresentar: além de
estarem delimitados e protegidos por muros ou alambrados e possuírem, cada um deles, uma
equipe administrativa e funcional própria que coordena as atividades e mantém os equipamentos
existentes, o intuito de sua existência está aliado ao lazer e à salubridade, conforme foi
apresentado no ítem 1.2.2, sobre a influência dos ideais e práticas urbanistas nos fragamentos.
Isto fica claro durante a leitura do histórico dos fragmentos (item 2.3.2), e confere aos
bosques, através das atividades de lazer fixas como grupos de ginástica, caminhada ou parque
infantil, dentre outras, um público regular e cativo. As praças, por sua vez, são áreas abertas, de
acesso irrestrito, e não há nenhum corpo funcional responsável exclusiva e diretamente por elas.
Embora os bosques possuam uma equipe administrativa própria, todos esses fragmentos
pertencentes ao poder público encontram-se sob responsabilidade do Departamento de Parques e
Jardins (DPJ), órgão da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Figura 30), também responsável
pelas formações ciliares do município. A única exceção dentre estes fragmentos é a Reserva
Municipal da Mata de Santa Genebra (RMSG): administrada pela Fundação José Pedro de
Oliveira (FJPO), que responde diretamente ao gabinete do prefeito (Figura 30), a realidade da
RMSG é completamente distinta dos outros fragmentos públicos, já tendo sido detalhada no item
2.3.2.
178
179
Município e a Fundação José Pedro de Oliveira. Neste organograma estão representadas apenas cinco (5) dessas instâncias, e alguns dos seus setores.
de 2006. A estrutura completa compreende 18 instâncias abaixo do Gabinete do Prefeito, sendo 16 secretarias municipais, a Ouvidoria Geral do
Figura 30 - Organograma simplificado de acordo com a Lei nº 10.248 (15/09/1999) e alterações fornecidas pelo Gabinete do Subprefeito em julho
ORGANOGRAMA SIMPLIFICADO DA ESTRUTURA DA ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA MUNICIPAL DE CAMPINAS
Fragmentos Privados
Uma das categorias de fragmentos privados da bacia do ribeirão das Anhumas, os
fragmentos presentes em condomínios residenciais, compartilham de uma característica muito
interessante, complementando um contemporâneo fetiche: o dos enclaves fortificados
(Caldeira 2003), que vêm a ser empreendimentos urbanos que conferem segurança e status
como produto. Os condomínios fechados seriam a versão residencial dos enclaves fortificados.
Segundo Caldeira (2003) os condomínios fechados horizontais passaram a ser
construídos no Brasil no final dos anos 70, especialmente nos municípios adjacentes a São
Paulo, na parte oeste da região metropolitana, tendo sido uma das respostas à crescente
violência. Dados apresentados por Caldeira (2003) apontam que as ocorrências policiais na
região metropolitana de São Paulo tiveram um acréscimo de 37,5% entre 1973 e 1994, o que
sugere à autora que este aumento teve papel importante na proliferação dos condomínios.
Paralelamente, também nas últimas décadas, fêz-se da segurança não um aspecto revelador das
condições e desigualdades sociais e meta a ser alcançada coletivamente, mas sim um produto.
E como todo produto, passou a ser comercializado no mercado, alimentando uma indústria
altamente lucrativa e segregadora. Embora não haja fontes robustas para o Brasil, sabe-se que
as grandes cidades como São Paulo e Campinas, cada qual em sua escala, tendem a se
assemelhar a outros países: em meados dos anos 90, o número de empregados em segurança
privada ultrapassou o de policiais em quase três vezes nos Estados Unidos (United States
House 1993 apud Caldeira 2003) e em cerca de duas vezes na Grã-Bretanha e Canadá (Bayley
& Shering 1996 apud Caldeira 2003).
Os grupos que optam por essa segregação espacial não o fazem apenas em relação às
suas residências, eis então que surgem os enclaves fortificados que associam trabalho, lazer,
consumo e estudos, sendo o ápice dessa configuração a combinação de alguns desses aspectos,
ilustrada pelos grandes condomínios cuja infra-estrutura de suas microcidades planejadas
pode manter os moradores praticamente independentes e alheios à realidade. Roberts (2002)
faz a seguinte colocação a respeito do Alphaville São Paulo, dentre os pioneiros condomínios
residenciais fechados de alto padrão: Alphaville é uma ilha virtual de prosperidade e bemestar muito bem armada contra, primeiro, seus vizinhos de uma franja urbana miserável e
caótica; depois contra o resto da cidade. Entre doze crianças consultadas aleatoriamente por
180
suas ruas amplas de calçadas sombreadas, cinco declararam ter feito pelo menos uma viagem
ao exterior, uma já perdera a conta, e as demais esperavam viajar em breve para fora. Entre
os lugares visitados constam paragens tão distantes quanto Dallas, Havaí ou Seul
mas nem
uma só dessas doze crianças conhece a Praça da Sé, no centro de São Paulo. Informação
sobre o resto da cidade chega a elas pela televisão e é tão remota quanto as notícias de
guerra da Bósnia-Herzegovina: aliás as imagens do sofrimento de crianças brancas e da
destruição de casas de alvenaria são aí sempre mais próximas e terríveis que o massacre de
crianças de rua em uma praça ou favela do Rio de Janeiro.
Segundo Caldeira (2003), o ideal do condomínio fechado é a criação de uma ordem
privada através da qual os moradores possam evitar muitos dos problemas da cidade e
desfrutar de um estilo de vida alternativo com pessoas do mesmo grupo social, representando
assim o lado complementar da privatização da segurança e transformação das concepções do
público.
Este modelo de segregação é fomentado pelas propagandas, que se comprometem a
seduzir os possíveis consumidores utilizando um repertório de imagens e valores que
sensibiliza a fantasia das pessoas. Essa opção passa a se opor ao caos urbano, evidenciado
através da poluição, violência, trânsito e feiúra, e expõe o condomínio fechado como
possibilidade de ordem, segurança, lazer, saúde, qualidade de vida e felicidade. Propagandas
com esses elementos como apelo são ordinárias dentre as veiculadas e os elementos que
podem ser associados a
natureza ,
meio ambiente
ou
ecologia
são extremamente
importantes na conquista do consumidor. Nomes de condomínios com elementos naturais,
como espécies arbóreas, animais ou rios; chamadas publicitárias como vende-se ar puro ,
viva perto da natureza ; e a presença de matas ou áreas de preservação dentre a estrutura e
serviços oferecidos, estão presentes na maioria dos empreendimentos dessa categoria. Embora
todo esse apelo consumista seja perceptível, é necessário pensá-lo sob uma perspectiva mais
ampla. Campbell (1987) nos traz que um ato de consumo possui um significado sociocultural
profundo, e não deve ser visto apenas em termos econômicos. Ele ressalta ainda que
mercadorias são símbolos e têm importância como tal e não somente objetos que possam
trazer satisfação intrínseca imediata: a questão não é como os bens são feitos, mas como
adquirem significado.
181
É nesse momento que os fragmentos remanescentes tornam-se peça fundamental para
complementar esse produto já idealizado entre tantas pessoas. Devido a isso, poderia-se
argumentar que desse movimento de proliferação dos condomínios residenciais que deflagra
um aspecto não muito agradável de nossa violenta realidade, surgiria um bom fruto: a
importância que se dá aos fragmentos como exemplares naturais e possibilidade de se
vivenciar a natureza de perto. Em relação à bacia do ribeirão das Anhumas, essa hipótese
merece ser abordada com atenção e profundidade. Para tanto, reconheço dois movimentos que
prevalecem em dois momentos temporalmente distintos.
O primeiro movimento, comum na história de todos os condomínios atuais, inicia-se
quando os proprietários da área na qual se encontra o fragmento, na maioria das vezes grandes
fazendas, optam pelo loteamento residencial. Nesse momento, a mata que há anos quedava-se
entre o gado ou cultivos da fazenda em questão, toma um valor diferenciado e agrega-se ao
restante da infraestrutura necessária para persuadir o consumidor ante a idéia do condomínio
residencial fechado. A importância de sua presença na conquista do consumidor é evidenciada
tanto através de conversas com moradores e funcionários dos condomínios como da valoração
que é dada às casas mais próximas do fragmento: foi comum ouvir das administrações que os
lotes defronte às matas foram os primeiros a serem comercializados, e que o entorno da mata é
o percurso preferido dos moradores em suas caminhadas, quando a conformação do
loteamento permite.
Entretanto um fragmento não pode ser tratado da mesma maneira que algum outro
patrimônio físico, como um edifício ou monumento. Considero este momento da percepção da
responsabilidade que acarreta um fragmento nas dependências de um condomínio o início do
segundo movimento. Este movimento é caracterizado pelo despreparo dos administradores em
como lidar com o fragmento e em intermediar a relação dos moradores com o fragmento.
Entre os administradores encontramos basicamente dois tipos: um é aquele que alega que para
conservar o fragmento basta impedir focos de incêndio, caça, corte de madeira ou invasão e
então a tendência da natureza é manter-se. A mata fica lá . Sob essa perspectiva, não
atrapalhar seria já uma grande ajuda. O outro tipo de administrador é aquele que se apresenta
mais informado a respeito de algumas consequências da fragmentação e do manejo de um
fragmento, sendo algumas vezes capaz até de listar as prioridades para sua realidade. Com
esses é possível conversar a respeito de ações que contribuam na manutenção de condições
182
favoráveis aos fragmentos, como, dentre outros, o controle de trepadeiras, enriquecimento
com espécies vegetais, supressão de espécies invasoras, coleta de sementes. Entretanto,
mesmo aos mais informados, falta o conhecimento específico de como lidar com a situação.
Ou seja, embora reconheçam a importância do manejo do fragmento, eles não estão
preparados para tomar decisões a respeito, sendo que em nenhum condomínio há um
profissional capaz de conduzir esse manejo ou o hábito de se contratar consultorias
ambientais.
Então o fragmento permanece sem um plano de manejo ou mesmo sem manutenção
rotineira, e muitas vezes fica legado a ser utilizado como área de lazer dos moradores, o que
acarreta alguns impactos. Fragmentos pequenos e com ausência praticamente integral de subbosque, como os encontrados no Condomínio Residencial Estância Paraíso, são tratados no
dia-a-dia como se fossem bosques de passeio ou áreas arborizadas. Nestes casos é possível
confundir os indivíduos oriundos da arborização urbana do condomínio, localizados ao longo
das vias, com os indivíduos do fragmento, e a facilidade de acesso do moradores dificulta o
estabelecimento de plântulas devido ao pisoteamento e compactação do solo. No caso dos
outros três condomínios, os fragmentos, além de maiores, ou apresentam uma fisionomia mais
conservada ou são murados, condições que dificultam o acesso ao fragmento. Entretanto,
embora menos acessível, tanto no Condomínio Residencial Parque Rio das Pedras quanto na
Sociedade Residencial Alphaville Campinas, a visitação dos respectivos fragmentos continua
sendo permitida aos moradores, que embora possam ter alguma consciência em relação à
postura apropriada num fragmento natural ou receber orientações da administração, não são
acompanhados nessa visita.
Da falta de informação dos moradores também decorrem outras consequências: em
todos os fragmentos é possível notar a presença de espécies exóticas, em sua grande parte
frutíferas. Muitos desses indivíduos foram plantados pelos próprios moradores, que pouco
sabem dos agravantes que as espécies exóticas e as espécies invasoras podem trazer ao
fragmento. Eles certamente o fazem com a melhor das intenções, pois é fácil notar que para
eles o fragmento é símbolo de natureza e realmente estabelecem com ele uma relação de
carinho e apego. Devido à tudo isso o esclarecimento, rigor e determinação dos
administradores são indispensáveis.
183
O fragmento do Alphaville Campinas é o único dos fragmentos situado em
condomínios residenciais que se encontra delimitado por residências em todos os lados (Figura
27 página), ou pelas vias de acessos de pedestres à mata. Como já apresentado no ítem 2.3.2,
isso faz com que, além das visitações realizadas pelos moradores do condomínio, essa relação
seja intensificada com as casas contíguas. Os lotes circundantes adentram alguns metros no
fragmento, e os proprietários consideram-se no direito de cercar a porção que adquiriram. O
uso que essas residências vizinhas ao fragmento fazem dessa pequena área é muito diverso.
Alguns a ignoram e a excluem da planta da casa, antecipando o muro que delimita sua
residência. Outros, fazem questão de incorporá-la ao uso cotidiano, e adequam esse espaço
com cadeiras e mesas de jardim, e até mesmo projetos paisagísticos especiais. Outros ainda
promovem uma completa alteração desse espaço, com corte de árvores e até mesmo
impermeabilização do solo.
Todavia, mesmo quando há tentativa de acerto administrativo, até medidas que
aparentemente apresentam-se como simples, podem muitas vezes encontrar dificuldade para
serem estabelecidas nos condomínios devido ao conflito que geram e inaceitação por parte dos
moradores. Como o morador, no momento em que optou pelo condomínio residencial, negou
o espaço público e obteve seu conforto e segurança através da compra do conjunto de produtos
que lhe foi oferecido pela publicidade, ele se sente possuidor dos mesmos, e o diálogo e a
construção de soluções muitas vezes não se fazem presentes. Ou seja, da construção da
cidadania passa-se à exigência e decisão do consumidor, o que muitas vezes não torna a
realidade melhor. Além disso, é também conflitante, pois são muitos os consumidores para
um mesmo produto. Essa situação pode ser curiosamente ilustrada através do ocorrido no
Bosque dos Jequitibás, que embora seja um espaço público apresentou certa semelhança.
Segundo relatório do CONDEPACC (1992), os habitantes dos centros urbanos são atraídos
pelos apelos ecológicos das propagandas de empreendimentos imobiliários, mas não estão
dispostos a tolerar os incômodos dessa convivência. No fim da década de 1980, embora o
Bosque fosse um atrativo à vizinhança, moradores promoveram insistentes protestos contra os
terríveis morcegos que saíam do Bosque dos Jequitibás e adentravam suas propriedades.
Após muito insistirem, eles conseguiram que o responsável pelo Bosque pulverizasse os
abrigos dos morcegos com substâncias químicas, promovendo morte de incontáveis morcegos
frugívoros e insetívoros, além de intoxicar o ambiente e outros integrantes da fauna.
184
Resgatando, então, a hipótese antes apresentada de que talvez a valoração do natural
através dos fragmentos remanescentes nos condomínios significasse uma maior proteção e
manejo adequado dos mesmos, podemos refutá-la. Enquanto elemento de fetiche, os
fragmentos não são de fato considerados integralmente em sua realidade e ficam distantes do
manejo que lhes deveria ser dispensado.
As Fazendas Boa Esperança, Rio das Pedras, Santa Genebrinha e a Fazenda São Bento
estão dentre as propriedades rurais com fragmentos que já demonstraram interesse no
loteamento residencial de suas terras. Algumas propriedades onde localiza-se o fragmento do
Recanto Yara, exceção deste grupo, seguem a mesma tendência das propriedades privadas
com intuito de loteamento, estando apenas adequadam à sua realidade, uma vez que se
localizam em área impossibilitada de se converter em um grande empreendimento imobiliário
como um condomínio. Como foi mais detalhadamente relatado no item 2.3.2, já houve
tentativa mal sucedida de se construir um Centro de Convenções com atrativos diversificados
no local, há alguns anos atrás.
As outras seis propriedades privadas - Vila Holândia, Fazenda Anhumas, Fazenda
Argentina, LNLS, Sítio São Martinho/Centro Médico Boldrini e o Sítio São Francisco
não
apresentam nenhuma tendência de mudança que possa afetar as condições dos fragmentos.
Dentre elas, apenas o Sítio São Francisco e o LNLS apresentam tentativa de manejo do
fragmento, sendo que ambas têm profissionais competentes envolvidos no processo. O caso do
Sítio São Franscisco é uma exceção, e foi aprofundado no ítem 2.3.2. Infelizmente o caso do
fragmento situado ao LNLS não pode ser profundamente conhecido, pois apesar de muitas e
exaustivas tentativas, a comunicação não se estabeleceu de modo fecundo.
Embora todos os fragmentos privados estejam tombados ou sejam objeto de estudo de
tombamento (Figura 29), caráter que deveria lhes garantir maior proteção, segundo um próprio
funcionário da PMC, o condomínio pode até dar satisfação, mas não tem como a prefeitura
acompanhar .
Fragmentos Públicos
Já aprofundado o contexto dos fragmentos privados, abordaremos agora os fragmentos
da bacia do ribeirão das Anhumas pertencentes ao poder público. Como já foi dito, a maioria
dos fragmentos públicos estão hoje sob a categoria de bosques ou parques, sendo que apenas
185
dois são praças públicas (Tabela 8), os fragmentos do Parque Xangrilá e do Jardim Miriam
Moreira da Costa. Uma informação essencial para compreender o contexto e o manejo dos
fragmentos públicos de Campinas é a de que todos eles, com exceção da Reserva Municipal da
Mata de Santa Genebra (RMSG), encontram-se sob responsabilidade do Departamento de
Parques e Jardins (DPJ), órgão da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Figura 30). Isto
aproxima as práticas de manejo e manutenção dos fragmentos, em sua maioria bosques e
parques municipais, do olhar utilizado na arborização urbana. Historicamente, o intuito da
arborização urbana relaciona conforto ambiental com beleza estética. Assim, a arborização
normalmente é exercitada sob princípios de beleza estética e praticidade na produção de
mudas e manutenção dos indivíduos adultos. Ou seja, raramente a arborização é concebida
como elemento participante dos processos ecológicos, e na maioria das vezes a diversidadede
espécies e a diversidade genética intraespecífica é extremamente reduzida.
Segundo relato do próprio corpo técnico da PMC, obtido através das entrevistas, o
secretário de obra tem a visão de obras. O cara tem uma visão de pavimento, de obra, de
tijolo.Então como ele enxerga? Não sabe o que é DEPRN, o que ele tem que fazer com essas
questões. Ele deve enxergar o DPJ como aquele órgão que tira as árvores do meio do
caminho para ele. O prefeito reclamou de tal praça, ele manda o DPJ lá limpar . Esta
constatação é validade pela afirmação do diretor do DPJ: Estamos mais preocupados é com a
questão urbana mesmo , afirmou em entrevista realizada, referindo-se à arborização.
O Departamento de Meio Ambiente (PMC), que poderia ser uma instância capacitada e
envolvida nesta questão, responde a outra secretaria, a Secretaria Municipal de Planejamento,
Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (Figura 30). Segundo o diretor do DPJ, na
verdade, se for necessário, o DMA tem uma ligação com todas as áreas, né? Mas no dia-a-dia
não. Eles estão mais ligados aos parques lineares. . Um outro técnico arremata: O DMA em
Campinas é muito particular, né? É um departamento que trabalha só com o meio físico. Tem
lá um ou outro que entende de vegetação, mas não tem um trabalho com vegetação lá, o
trabalho com vegetação é do DPJ. Tem a Fundação (Fundação José Pedro de Oliveira,
administradora da RMSG) mas a Fundação, por estatuto, só pode trabalhar com a Mata
(RMSG). Assim sendo, o dia-a-dia da questão ambiental , fica a cargo do DPJ, que por falta
de formação técnica e conhecimento aprofundado, maneja os fragmentos remanecentes como
se fôssem áreas verdes urbanizadas. O DPJ era um departamento que cuidava de todas as
186
áreas verdes da cidade, independente de que tipo de área verde está se falando, se é uma área
grande como a Lagoa do Taquaral, uma área de lazer, recreação, completamente construída
com projeto de paisagismo, ou uma área como o Bosque dos Jequitibás, que é uma área
natural, com 100 anos de história, com um projeto de paisagismo que procurou preservar as
características naturais. .....
Eu acho que o serviço é um funil: o pedido sai lá do cidadão e chega no diretor do
departamento. O serviço tem que funcionar. É nisso que eu acho que a PMC tem que pensar.
Não pulverizar serviço. Fundação, Parque Ecológico.. . A PMC não tem engenheiro
agrônomo, acho que tem dois caras. Tem biólogo lá? Não tem biólogo, acho que só tem
biólogo na saúde. As pessoas estão lá, mas elas não dão conta do recado, tem que ter mais
gente. Assim como você precisa de 10 engenheiros civis para tomar conta de não sei quantas
obras aí, você precisa de 10 biólogos. É por isso que a gente está nesse caos. É por isso que
tudo quanto é árvore está morrendo na cidade. Não existe a visão do meio biótico na
Prefeitura.
Falta corpo técnico. O DPJ queria formar uma equipe de plantio: eram extraídas
1.500 árvores por mês, em média, o intuito era plantar pelo menos 800, 1000... Nunca
conseguimos equipe para plantar, que fosse um caminhão, quatro pessoas. Para rodar os
bairros, fazendo um planejamento de plantio. Quando conseguia equipe não conseguia um
técnico para acompanhar e orientar. O que devia ser um trabalho rotineiro tinha que ter um
esforço para acontecer...
Tudo isso comprova que sequer a prática da arborização responde à demanda do
município, e que os órgãos municipais estão ainda muito aquém de conceber as diferenças
entre as áreas verdes plantadas e os fragmentos remanescentes.
Uma segunda possibilidade, na falta de respaldo institucional e conhecimento técnico
proveniente do DMA e do DPJ capaz de manejar os fragmentos adequadamente, seria recorrer
à equipe administrativa própria de cada bosque ou parque. Esta solução, embora trouxesse a
restrição de não representar uma ampla política ambiental municipal, ao menos teria como
aliado o conhecimento aprofundado e rotineiro dos funcionários de cada área. Entretanto, esta
também é uma possibilidade remota. O corpo funcional ligado aos bosques diminuiu muito ao
longo dos anos: em muitos bosques não há efetivamente mais do que três ou quatro
funcionários operacionais, que acabam envolvidos apenas com as atribuições de manutenção
187
geral dos bosques, como varrição, pintura e concerto de equipamentos. Além disso, embora
muitos tenham uma relação íntima e longa com as áreas verdes de Campinas, o conhecimento
aprofundado e técnico para a realização de um manejo adequado dos fragmentos
remanescentes fica aquém do necessário.
Mesmo o cargo dos chefes de bosque, os quais deveriam ser suficientemente instruídos
para lidar com toda a complexidade das questões que envolvem a preservação de fragmentos
remanescentes e das áreas de lazer da cidade, não é concebido com a devida seriedade. Foi
extremamente comum, durante as visitas realizadas aos bosques e parques, ter dificuldade de
encontrar o chefe de bosque responsável. Como este é um cargo comissionado, podendo ser
renomeado um novo funcionário cada novo mandato da PMC, é rotineiramente utilizado como
moeda política, e é usual que os chefes estejam envolvidos com outras questões do mandato,
dever que os afastam dos bosques. Assim, o cotidiano administrativo da maioria dos bosques e
parques fica legado a um antigo funcionário já pertencente ao corpo operacional, que
normalmente não possui uma formação adequada para este cargo. Segundo um entrevistado:
Você precisa colocar pessoas que te ajudaram na campanha, que são do governo,
que vão ajudar a máquina a funcionar. Então o cargo de Chefe de bosque é um desses,
entendeu? Não importa muito se o cara é técnico na área, aliás isso não importa. Importa se
ele tem uma desenvoltura para a coisa ou não. Se ele tem capacidade de ver se a grama
cresce, capacidade de coordenar um equipe, falar quando que tem que cortar. Aí ele já pode
virar chefe de bosque. Aí ele está recrutado, já. E aí alguns dão liga e fazem o serviço e
outros não, e quem fica cuidando do bosque é um funcionário abaixo dele. Claro que
depende, tem casos e casos.
O Parque Ecológico Hermógenes de Freitas Leitão Filho e o Bosque dos Jequitibás são
das mais claras exceções do município. Os chefe dessas áreas têm uma formação de ensino
superior aprofundada em áreas do conhecimento que facilitam a compreensão e manejo dos
fragmentos. No caso do Bosque, a chefe mantém uma relação íntima com o Bosque há mais de
15 anos, e tem parte do mérito do Bosque hoje realizar suas próprias pesquisas, principalmente
da área de biologia de animais em cativeiro. Entretanto, mesmo no Bosque dos Jequitibás, a
concepção e manejo do fragmento não é muito diferenciada da arborização.
Com todas essas dificuldades, o manejo dos fragmentos propriamente ditos caracterizase por ser extremamente simples, cujas atividades principais dificilmente passam de podas de
188
árvores que obstruem a passagem ou comprometam a iluminação. Quando são necessários
plantios, eles se dão da seguinte forma: os chefes de bosque informam qual o projeto aos
técnicos do DPJ, e estes são responsáveis pela escolha das espécies, tamanho e quantidade de
cada uma, muitas vezes oriunda do viveiro municipal. Mesmo para qualquer intervenção de
extração ou poda drástica de árvores, os chefes de bosque têm que recorrer ao DPJ,
responsável por obter as autorizações necessárias junto aos órgãos competentes. Quando o
fragmento em questão já foi tombado ou se encontra em processo de estudo para tombamento,
esta permissão torna-se ainda mais difícil.
O tombamento, como já foi apresentado é uma ação administrativa cujo intuito é
conservar e proteger bens imóveis ou móveis de interesse público por seu valor histórico,
arqueológico, arquitetônico, artístico, documental, paisagístico ou ambiental. Conforme foi
apresentado anteriormente, todos os fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas encontramse tombados ou são objetos de estudos de tombamento (Figuras 28 e 29), o que determina que
qualquer intervenção nos mesmos
desde as mais rotineiras como podas até grandes plantios
ou contenção de trepadeiras - deva ser aprovada pelo CONDEPACC.
Plano de Diagnóstico e Manejo de Áreas Verdes Naturais do Município de Campinas
Umas das tentativas mais inovadoras que buscou construir um plano de manejo
integrado dos fragmentos remanescentes do município de Campinas ocorreu entre 2003-2004,
na gestão da então prefeita Izalene Tiene (Partido dos Trabalhadores). Nesse período, devido
ao ingresso de novos funcionários capacitados, o trabalho desenvolvido pelo DPJ nos
fragmentos concentrou-se principalmente em duas linhas de ação: conservar os fragmentos
públicos já existentes e restaurar as áreas perturbadas e degradadas, principalmente as matas
ciliares. Dado o objeto de estudo desta dissertação, será apresentada apenas a primeira linha de
ação. A conservação dos fragmentos foi realizada através da implantação do Plano de
Diagnóstico e Manejo de Áreas Verdes Naturais do Município de Campinas, já que até então
essas áreas eram manejadas com a abordagem técnica e infraestrutura direcionada para as
áreas verdes artificiais projetadas, como já foi apresentado. Este novo programa tinha dois
eixos principais e complementares entre si: a reestruturação do viveiro municipal e a
capacitação técnica de funcionários da PMC, a fim de ampliar seu conhecimento a respeito de
189
recuperação de fragmentos com espécies nativas e possibilitar seu envolvimento com o novo
programa.
O viveiro municipal produzia, até o início de 2003, cerca de 40.000 mudas por ano,
distribuídas em aproximadamente 100 espécies destinadas à arborização urbana (Conforti &
Dechoum 2004). Essa produção era oriunda de sementes de espécies exóticas e nativas
localizadas em locais de fácil acesso, como praças, ruas e avenidas; ou através de doações de
outras instituições, como o IAC. Com o início do Plano de Manejo de Áreas Verdes iniciou-se
uma reestruturação geral das atividades do viveiro, com o principal objetivo de produção de
mudas de espécies arbóreas nativas de Campinas. Isso deu-se através de um programa de
coleta de sementes, que objetivou identificar matrizes arbóreas localizadas em diferentes
regiões do município, para posterior obtenção de mudas. Essas matrizes localizavam-se, além
dos lugares antes usuais, nos fragmentos remanescentes de Campinas e na coleção de árvores
e palmeiras do Complexo Botânico Monjolinho, na Fazenda Santa Elisa, área experimental do
IAC. Assim, buscou-se diversificar as espécies utilizadas na arborização urbana e restauração
de áreas degradadas, primando pelo cultivo de mudas obtidas apartir de matrizes nativas
locais. Iniciou-se também a organização de sementes e mudas em lotes, e a sistematização de
dados referentes à coleta, armazenamento, tratamento e germinação das sementes, bem como
o destino de mudas.
Segundo Conforti & Dechoum (2004), a capacitação de funcionários foi um trabalho
contínuo de cerca de 12 meses, tendo sido abordados: composição e estado de conservação de
fragmentos, identificação de espécies arbóreas, coleta - inclusive com técnicas de escalada
arbórea - e armazenamento de sementes nativas. Com todas essas alterações, após um ano e
meio este projeto gerou um total de 20.000 mudas arbóreas de 105 espécies, todas coletadas
em fragmentos de vegetação nativa de Campinas (Conforti & Dechoum 2004), além da
produção oriunda das matrizes de arborização urbana.
Outro ponto que ilustra o diferencial entre o manejo dessa administração e de outras, é
a manutenção dos plantios. Devido ao esclarecimento e formação dos técnicos envolvidos, o
corte costumeiramente utilizado para evitar o sufocamento das mudas passou a ser realizado
seletivamente, exterminando-se as gramíneas invasoras, como braquiária e colonião, e
permitindo a permanência das outras espécies.
190
Essas espécies ruderais são as chamadas pioneiras no processo de sucessão
ecológica, pois são as primeiras a se estabelecer em áreas nas quais não há mais vegetação.
São espécies tolerantes que crescem rápido, sendo algumas delas anuais, estando bastante
adaptadas ao sol intenso. São muito interessantes, pois atraem uma grande quantidade de
insetos, tais como borboletas, mariposas, besouros que, por sua vez, atraem aves em busca de
alimento, que trazem sementes de espécies arbustivas e arbóreas de áreas próximas. Esse
trânsito de aves de uma área para outra ajuda a aumentar a diversidade e acelera o processo
de regeneração da vegetação. De certa forma, são formados corredores ecológicos entre
áreas anteriormente isoladas (Conforti & Dechoum 2004).
Infelizmente, com o fim do mandato, os técnicos envolvidos foram desligados da
PMC, e o projeto, ainda em fase de estruturação. A ênfase atual das atividades do DPJ voltou a
ser dirigida para a arborização urbana, tornando-se objeto de forte contestação dos
ambientalistas e da população de um modo geral.
Certamente há outras possibilidades que poderiam contribuir na conservação,
enriquecimento e adensamento dos fragmentos remanescentes e na alteração da concepção de
arborização urbana para um sistema municipal de áreas verdes mais complexo. Entretanto esta
foi apresentada por ser a mais recente e integradora dentre as possíveis de se remontar.
Outros Atores: os Fragmentos, a Academia e o Cidadão
A tradição que Campinas possui em instituições de pesquisa e ensino de alta qualidade,
exemplificados através da Unicamp, Embrapa, IAC e PUC, dentre outras, levou a crer que o
manejo dos fragmentos do município poderia ser em grande parte norteado por essas
pesquisas. A Unicamp, por exemplo, contabilizava de 1971 até agosto de 2005 um total de
23.228 dissertações de mestrado e teses de doutorado, catalogadas desde 1971, segundo
estatísticas da Pró-Reitoria de Pós-Graduação (www.unicamp.br/prpg acesso em 20/08/2005).
A relevância da produção de conhecimento científico e técnico das outras intituições citadas
também dificilmente pode ser contestada.
Devido a esse contexto surpreendeu a constatação de que são raríssimas as pesquisas
conhecidas e empregadas pelos funcionários das áreas públicas de Campinas, dos parques e
bosques, e instâncias superiores, no manejo dos fragmentos. Salvas as exceções apresentadas
anteriormente, da Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra e do Bosque dos Jequitibás,
191
cujos funcionários são extremamente melhor qualificados em relação à compreensão das
questões ambientais mais complexas e da utilização do conhecimento acadêmico produzido,
poucos entrevistados citaram alguma pesquisa importante em suas atribuições diárias. A
expectativa não era a de que funcionários da PMC possuíssem um grande conhecimento na
área de pesquisas, mas que ao menos algumas contribuíssem para nortear o manejo dos
fragmentos.
A pesquisa de caráter ambiental mais conhecida no município, amplamente discutida
no âmbito institucional e na imprensa de Campinas, é o levantamento e diagnóstico das áreas
verdes remanescentes do município (Santin 1999), resultado de um doutorado realizado na
Unicamp. Entretanto, como já foi citado, muitas vezes a vagarosidade da máquina pública
compromete alguns processos: foi somente durante o encerramento desta dissertação, em
setembro de 2006, após sete anos de sua defesa, que uma cópia da pesquisa de Santin (1999)
chegou às mãos do funcionário da CSPC responsável pelo andamento dos processos de
tombamento das áreas de Campinas. Um outro fator constantemente citado pelos
entrevistados, que também contribui para a inacessibilidade de funcionários da PMC às
pesquisas existentes, foi a omissão dos pesquisadores em retornar aos locais da pesquisa os
resultados e constatações apreendidos. Segundo um entrevistado, funcionário da PMC, a
questão é ainda um pouco mais complexa: ...o retorno do trabalho final poderia ser útil no
manejo do parque, mas eles não entregam. É....mas não resolveria também. Tem trabalhos lá
jogados no DPJ, ninguém sabe o que fazer com aquilo, se tocar fogo na churrasqueira vai ser
mais útil. Não sabe, não tem corpo técnico para analisar, usar e tirar um resultado.
A realidade da RMSG é extremamente diferente da realidade dos outros fragmentos da
bacia do ribeirão das Anhumas. Gerenciada pela Fundação José Pedro de Oliveira, ela possui
um corpo técnico muito mais completo e capacitado, e o próprio propósito e condição de
existência da RMSG, conforme já apresentado em seu histórico, está intrinsecamente
relacionado à pesquisa. Conforme dados fornecidos pela Diretoria Técnico-Científica da
Fundação, somente entre 1997 e 2005 foram iniciadas 118 pesquisas na RMSG envolvendo
pelo menos 15 diferentes instituições. Infelizmente a RMSG também padece com a
instabilidade oriunda das alterações políticas municipais: a grande maioria de seus
funcionários da Diretoria Técnico-Científica também é comissionada.
192
Em relação à participação da comunidade campineira nos assuntos relacionados aos
fragmentos remanescentes da bacia do ribeirão das Anhumas, pode-se dizer que ela
corresponde à forma que a comunidade lida com à questão ambiental de uma forma geral.
Ou seja, há várias tendências, que se tornam mais ou menos perceptíveis em diferentes
momentos e dependendo da perspectiva de análise. De uma forma geral, é possível notar a
sensibilização da comunidade: vários eventos ao longo da história de Campinas evidenciaram
o apego da população a alguns simbolos naturais . Um evento marcante ocorreu em 1982, na
administração do Prefeito Mokarzel: segundo jornais diários da época, a população protestou
durante duas semanas contra a retirada de uma antiga Tipuana (Tipuana tipo (Benth.) Kuntze,
Fabaceae), de aproximadamente 40 anos, na Avenida Brasil, uma importante via da cidade que
viria a ser duplicada (O Estado de São Paulo 01/09/1982). A árvore teve que ser arrancada de
madrugada, num ato garantido pela Polícia Militar com a utilização de escudos, cassetete e gás
lacrimogênio.
Entretanto, embora esse evento possa tendenciar uma constatação geral de mobilização
da população pela questão ambiental , esta constatação pode ser precoce. Proporcionar
condições ambientais necessárias tanto para a preservação dos fragmentos remanescentes
quanto para a segurança, bem-estar e qualidade de vida da população, é um desafio muito
complexo que interrelaciona diversos aspectos e vai extremamente além da proteção pontual a
um ou dois exemplares arbóreos. Há alguns anos, Hermógenes Freitas Leitão Filho e Luis
Pegoraro, importantes personalidades atuantes na questão ambiental de Campinas, já haviam
se pronunciado a esse respeito: segundo o Diário do Povo (17/01/1988), eles ressaltavam que
embora a sensibilização ambiental e recuperação e ampliação de áreas verdes estivesse
aumentando ao longo dos anos no município, sem planejamento, as campanhas de massa
poderiam acabar em verdadeiros desastres ecológicos. Segundo Hermógenes: os mutirões são
positivos, mas também passam a ser problemáticos quando feitos de maneira muito festiva,
onde a preocupação única e exclusiva é a colocação de mudas na terra, sem a observação de
formas adequadas de plantio .
Ou seja, atos isolados não são indícios de uma postura consciente e coerente.
Segundo um funcionário da PMC, ... mesmo quando alguém vem para defender é na
visão lúdica de proteger, você sabe. Não uma visão técnica, que pode te falar como catalisar
essa mudança, como melhorar cada vez mais rápido. E ai você cai, você junta vários lúdicos
193
e cai naquela coisa de movimento ambientalista, vem a máquina do estado passa um trator
por cima e cospe fora, entendeu? Então falta uma coisa: e é técnico .
Por outro lado, há quem afirme que nem mesmo bem informada a comunidade
participará de forma ativa e contribuirá para a proteção dos fragmentos e outras áreas verdes
urbanas. Segundo esses, a comunidade só quer saber de cortar árvore, liga lá (PMC) porque
está caindo folha na calha, tem que varrer todo o dia. Alguns casos realmente são
preocupantes, mas isso não pode ser o tom da coisa, o que dá a cara da coisa. Só querem
saber de tirar árvore, porque a árvore atrapalha. Outra funcionária entrevistada garante
que quando alguma árvore dos bosque e parques apresenta-se doente ou com risco de queda
de alguns de seus galhos, há uma grande pressão da comunidade para seu corte,
principalmente quando ela se encontra em área próxima às trilhas de caminhada. Quando
acontece de uma árvore cair, também há pedidos insistentes da comunidade, e por vezes do
chefe do parque, para que o tronco seja retirado de dentro da mata, porque acham que o
bosque fica feio e que é sinal de descuido.
Embora haja um número considerável de ONG s ambientalistas em Campinas, poucas
são conhecidas por serem formadoras de opinião pública. A mais antiga organização
campineira participante das questões ambientais de Campinas e reconhecida pela população
é a PROESP (Associação Protetora da Diversidade das Espécies), atuante em diversos fóruns
deliberativos como o Conselho do Patrimônio Cultural e Artístico de Campinas
(CONDEPACC), no Conselho de Meio Ambiente de Campinas (CONDEMA) e no Conselho
da Fundação José Pedro de Oliveira e assembléias municipais. A PROESP é uma organização
não governamental, institucional e legalmente constituída como uma associação civil, fundada
em abril de 1977, que tem por objetivos a preservação da flora e da fauna, através de
incentivos à criação e defesa de reservas naturais, da ampliação de áreas de preservação e
recuperação das matas ciliares e do combate à caça e aprisionamento das espécies silvestres
(www.proesp.org.br acesso em 22/08/2006).
Entretanto, embora as iniciativas da organização civil sejam necessárias ao
amadurecimento político da cidadania e dotadas da possibilidade de alterar a realidade local,
também podem ser capazes de comprometer a gestão pública. Além do envolvimento das
organizações civis poder aproximar da gestão do município profissionais cujos saber e aptidão
técnicos não são aprofundados na área em questão ou cuja apreensão da realidade do
194
município não é suficientemente esclarecida, há ainda uma outra fragilidade. O
estabelecimento dessa relação das organizações civis com a esfera da gestão pública traz a
possibilidade da criação de um poder paralelo de gestão, neste caso, do manejo dos
fragmentos, que pode não ser acompanhado intimamente pela Prefeitura.
Esta situação é exemplificada num interessante caso relatado pelo corpo técnico da
PMC: a Associação do Bosque dos Italianos, composta por moradores dos arredores e
visitantes, após instrução por um profissional qualificado, adquiriu um determinado número de
mudas arbóreas. Como essa Associação é extremamente presente e participa de muitas
atividades e beneficiamentos do Bosque, ela orientou os funcionários do Bosque a realizarem
o plantio, sem obter autorização ou dar esclarecimentos aos técnicos responsáveis no DPJ,
mesmo sob veemente solicitação desses.
No Condomínio Rio das Pedras, conforme já apresentado no histórico deste fragmento,
algo semelhante ocorre. Devido à alguns moradores sobressaírem-se aos outros em relação às
suas formação e área de atuação, a palavra destes toma um peso maior nas diretrizes
ambientais do Condomínio. Todavia, como isto não é associado ao esclarecimento do restante
dos moradores a fim de propiciar decisões e planejamento coletivos, torna-se uma forma de
justificar medidas às quais, ainda que respaldadas pelo conhecimento técnico necessário,
mantêm-se alheias ao domínio administrativo
neste caso a administração do Condomínio- e
ao exercício da cidadania.
Por outro lado, é importante ressaltar que algumas organizações municipais, ao lado da
PROESP, são conhecidas por sua seriedade nas denúncias, estudos de tombamento e propostas
de manejo envolvendo profissionais capacitados de reconhecidas instituições de Campinas,
que fomentam a interlocução entre a população e a esfera administrativa. Ou seja, a
participação destas outras formas de organização é extremamente importante, todavia deve ser
acompanhada por profissionais capacitados tecnicamente e permeada pela transparência e
intimidade com técnicos e setores da esfera administrativa.
A Paisagem Fragmentada na Bacia do Ribeirão das Anhumas
A bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas apresenta uma paisagem extremamente
fragmentada e desconectada. Os poucos fragmentos de habitat original que restaram
encontram-se reorganizados espacialmente em manchas pequenas, que variam de 0,46ha a
195
234ha e apresentam consideravel grau de isolamento entre si. Os fragmentos pequenos são a
maioria absoluta na bacia, sendo que apenas seis dos 34 fragmentos possuem área maior do
que 10ha. O predomínio de fragmentos pequenos é comum na maior parte do estado de São
Paulo, no Brasil e no mundo (Kotchetkoff-Henriques 2003) e a bacia do ribeirão das Anhumas
não foge a este preceito.
A predominância de pequenos fragmentos faz com que cada um deles esteja em uma
realidade própria, ainda que essas sejam congruentes dentre si. Assim, os fragmentos diferem
entre si em relação aos atributos de propriedade
podendo ser públicos ou privados
e
intento, sendo então utilizados como áreas públicas de lazer urbano (bosques e parques), áreas
privadas de lazer e proteção, áreas de conservação assistida ou mesmo áreas ociosas, podendo
estas estarem sob o agir da especulação imobiliária. Esta característica torna mais complexa a
gestão das áreas verdes remanescentes da bacia, pois envolve diferentes agentes sociais que
estabelecem distintas relações com os fragmentos e com as questões concernentes a eles.
Conforme já havia sido detectado para a realidade brasileira (Colli et al. 2005), uma
das principais pressões aos fragmentos particulares e na Reserva Municipal de Santa Genebra,
está relacionada às práticas inadequadas na matriz, como a utilização de fogo e agrotóxicos e
a difusão de espécies exóticas. Estas pressões, detalhadas a partir da Tabela 7, poderiam ser
melhor controladas através do cumprimento da regulamentação que rege as propriedades nas
quais os fragmentos estão inseridos e seu entorno, e da fiscalização municipal mais efetiva.
Em relação aos fragmentos públicos, como a grande maioria encontra-se em matriz
predominantemente urbana e na forma de bosques e parques, as pressões mais intensas
provêem de práticas não esclarecidas dos visitantes, e estão relacionadas à difusão de espécies
exóticas e invasoras.
No intervalo de tempo estudado (1962-2002) a conectividade dos fragmentos
remanescentes da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas tornou-se mais baixa, em parte
devido à baixa permeabilidade da matriz, que se tornou mais urbanizada (Figura 15). Metzger
(2003) apresenta duas principais estratégias para a conservação de fragmentos remanescentes:
o aumento de área efetivo dos fragmentos, através da restauração e da proteção de bordas e
criação de zonas tampão; e o aumento da conectividade da paisagem, através do aumento da
permeabilidade da matriz, da criação de corredores ecológicos e da manutenção de trampolins
ecológicos ( stepping stones ). Isso porque uma paisagem fragmentada deve ter, além dos
196
grandes fragmentos, uma rede de fragmentos menores interligados por corredores largos e
imersos numa matriz permeável, de forma a aumentar sua conectividade funcional Metzger
(2003). Assim, segundo Metzger (1997), fragmentos com área superior a 0,72ha têm condição
de assumir a função de trampolins ecológicos na conexão do habitat. Deve-se lembrar também
que quanto maior o número de fragmentos mais representada está a heterogeneidade espacial
original da região.
Dos 34 atuais fragmentos da bacia do ribeirão das Anhumas, apenas dois não atingem
este tamanho sugerido. Isto, aliado à existência de grandes áreas protegidas na região, como a
Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra e a Área de Proteção Ambiental de Souzas e
Joaquim Egídio, possibilita a redução do processo de degradação, conservando os fragmentos,
mantendo a diversidade ecológica e melhorando as condições ambientais de Campinas.
Para possibilitar o aumento da conectividade entre os fragmentos da bacia do ribeirão
das Anhumas, as estratégias de conservação poderiam ter duas frentes de atuação: uma,
voltada para os fragmentos situados ao norte da bacia, de características não exclusivamente
urbanas, seria a restauração ecológica, através de plantios de árvores nativas, ampliando a área
e adensando os fragmentos e a criação de zonas de amortecimento nos fragmentos. O
planejamento dos plantios poderia se dar a partir dos estudos fitossociológicos já realizados
para cada fragmento e atendo-se à realidade geral da bacia. As zonas de amortecimento
poderiam ser de diferentes naturezas, dependendo do contexto do fragmento. No entorno de
alguns fragmentos ainda há a possibilidade de serem estimuladas áreas agrícolas orgânicas, o
que contribuiria para a diminuição do impacto nos fragmentos. Nos outros casos, como por
exemplo nos condomínios residenciais fechados ainda em implantação, é preferível que o
entorno dos fragmentos seja composto por áreas comuns de lazer bem planejadas, integradas
ao sistema de áreas verdes do condomínio, do que por lotes particulares. Isso permitiria
atuação coesa da administração ao longo de todo o fragmento e diminuiria a diversidade de
pressões geradas pela utilização inadequada pode parte dos moradores.
Estas medidas não podem ser aplicadas em todos os fragmentos, pois muitos
encontram-se incrustrados em matriz exclusivamente urbana, inclusive na região central de
Campinas.
A segunda frente de atuação seria promover a conectividade da paisagem. Como a
bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas difere dentre matrizes predominantemente rurais a
197
urbanas, o aumento da conectividade da paisagem deve ser realizado considerando estas
diferentes realidades. Assim, ao norte da bacia, juntamente com as estratégias de conservação
já citadas, deveria ser promovida a conectividade dos fragmentos através da criação de
corredores ecológicos que possibilitassem maior mobilidade e dispersão dos organismos na
paisagem. Esta região é rica em corpos d água e conjugar a proteção destes com a
implementação de corredores ecológicos é uma medida já com respaldo legal. É importante
lembrar que além do isolamento já característico dos fragmentos de habitat, a delimitação dos
fragmentos com muros ou alambrados é um fator que intensifica este isolamento, diminuindo
a mobilidade de animais de porte médio e grande, que podem também atuar como dispersores.
O Plano Local de Gestão Urbana de Barão Geraldo instituiu o Projeto Especial Parque
Ribeirão das Pedras (Seção IV do Capítulo I, Título III da Lei n°9.199, de 27/12/1996), que
tinha como uma das finalidades a estruturação de um parque linear ao longo do córrego.
Iniciativas como essas deveriam ser ampliadas por todo o município, e realizadas de forma
efetiva e com contínua manutenção.
A conectividade da porção centro-sul da bacia não pode ser aumentada através da
criação de corredores ecológicos, devido à matriz urbana estabelecida. Entretanto, neste caso,
a arborização urbana pode ser uma forte aliada. A dominância de espécies vegetais nativas,
com alta diversidade genética e maior proporção de espécies com frutos carnosos do que
secos, mais realista em comparação a ambientes naturais, são atributos da arborização que
podem contribuir muito para o aumento da permeabilidade da matriz. Assim, mesmo sendo
impossível manter a fisionomia do habitat original, a manutenção das espécies vegetais deste
habitat na paisagem fragmentada contribuiria para abrigo, alimentação e dispersão de diversas
outras espécies, principalmente aves e insetos.
198
CONCLUSÕES
O futuro não é feito apenas de tendências, mas de tendências e de vontades
Milton Santos
A fragmentação de habitats é simultaneamente causada pela devastação ambiental e
intensificadora das declinantes condições ambientais a que estamos hoje submetidos. Além de
todos os prejuízos ecológicos consequentes da fragmentação, como alteração das condições
microclimáticas, perda da integridade e variabilidade genética das populações, diminuição de
polinizadores e de dispersores, invasão por espécies generalistas e alteração no recrutamento,
principalmente de espécies características do interior das formações florestais, dentre todos os
outros já citados anteriormente, no contexto de ecossistemas urbanos, ela adquire ainda
maiores consequências. Nas áreas urbanas, a vegetação amortece a amplitude de temperaturas,
a velocidade dos ventos e os ruídos citadinos; contribui para a manutenção dos níveis habituais
dos corpos d água, diminuindo riscos de inundações devido ao aumento do solo permeável, e
atenua a artificialidade antrópica, tornando a paisagem mais serena.
A realidade da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas não é das mais animadoras:
no intervalo de tempo estudado (1962-2002) houve uma grande redução do habitat original
remanescente. A impermeabilização do solo é alta e as demais pressões que deterioram os
fragmentos, como fogo, poluição, invasão de espécies e pressão imobiliária estão intensamente
presentes na grande maioria dos fragmentos e embora todos os fragmentos estejam
legitimamente protegidos através dos tombamentos ou processos de estudos de tombamento, a
Prefeitura de Campinas não dispõe de meios suficientemente efetivos de fiscalização. O
tombamento dos fragmentos, embora seja uma ação administrativa com intuito de colocá-los
sob a guarda do Estado, alegando maior conservação e proteção, não tem se mostrado
suficientemente ágil e eficaz em Campinas.
199
Muitos fragmentos de tamanho e importância consideráveis são propriedades
particulares, o que diversifica as possibilidades de sua preservação e os torna sujeitos à
disposição de cada um dos proprietários adequar-se à aplicabilidade das leis e técnicas de
manejo. Na bacia do ribeirão Anhumas, há exemplos de proprietários que dignificam essa
responsabilidade, contribuindo para a preservação dos fragmentos além do simples
cumprimento e acomodação às leis. Por outro lado, a ausência de fiscalização e planejamento
municipal de manejo dos fragmentos particulares tolera que muitos desses sejam
extremamente afetados por prática ou omissão dos proprietários.
Além disso, ausência de um um plano de manejo do sistema integral de áreas verdes do
município, que integre as áreas verdes artificiais e os fragmentos naturais com suas devidas
características e restrições, contribuem para um arrefecimento das expectativas em relação à
sua preservação. Todavia, estas sombrias constatações não são o único aspecto da realidade.
O contexto da crise que abarca a fragmentação de habitats, da origem do processo à
preservação e manejo dos fragmentos, não é somente ecológica, trata-se também de uma crise
política, em parte fruto da injustiça e desorganização da sociedade. A palavra crise vem do
grego krisis, que significa a um só tempo separar e decidir . Sua etimologia tem origem na
medicina de Hipócrates, que a conformou para indicar a transformação decisiva a ocorrer no
ponto culminante de uma doença, aquele em que recua ou avança
ponto de vida ou de morte.
Os chineses usam duas pinceladas para escrever a palavra crise : uma delas significa perigo, a
outra significa oportunidade. Ou seja, sua compreensão deste momento é: em uma crise, esteja
atento ao perigo
mas reconheça a oportunidade.
Para que a proteção dos fragmentos seja efetiva, ela deve ser um componente de um
amplo projeto de áreas verdes do município. Para isso fazem-se necessários a elaboração de
um plano de manejo eficaz e contínuo, que promova a resignificação destas áreas junto à
população, sejam fragmentos naturais ou áreas verdes artificiais. Além disso deve-se fomentar
a participação cidadã, proporcionando fóruns de esclarecimento e debate mais acessíveis ao
público, com o envolvimento de instituições de pesquisa do município. A contratação de
técnicos especialistas pela PMC, que possam planejar e executar projetos a médio e longo
prazo, também é um fator indispensável.
200
BIBLIOGRAFIA
ARTIGOS, LIVROS, RELATÓRIOS E TESES
AB SABER, A. 2001. Domínio tropical atlântico. In: Ab Saber, A. Os domínios de natureza no Brasil:
potencialidades paisagísticas. 2003. São Paulo: Ateliê Editorial. 159p. 45-63.
AB SABER, A. 2003. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê
Editorial. 159p.
ADAMI, S.F, NOGUEIRA, F.P., MORAES, J.F.L, COSTA, D.C., PEREZ FILHO, A., CARVALHO, D.R.E.,
PRADO, M.S.B. & VUKOMANOVIC, C.R. 2006. Cartografia, sensoriamento remoto e sistemas de informações
geográficas. 2006. In: Torres, R.B., Costa, M.C., Nogueira, F.P. & Perez Filho, A. (coords.). Recuperação
ambiental, participação e poder público: uma experiência em Campinas. 2006. Relatório de pesquisa. (Processo
FAPESP nº. 01/02952-1).
AIZEN, M.A. & FEINSINGER, P. 1994. Forest fragmentation, pollination, and plant reproduction in a chaco dry
forest, Argentina. ECOLOGY 75(2): 330-351.
ALENCAR, E. 1999. Introdução à metodologia de pesquisa social. Lavras: Universidade Federal de Lavras.
125p.
ANANINA, G., PEIXOTO, A.P., BITNER-MATHÉ, B.C., SOUZA, W.N., SILVA, L.B., VALENTE, V.L.S. &
KLACZKO, L.B. 2004. Chromossomal inversion polymorphism in Drosophila mediopunctata: seasonal,
altitudinal and latitudinal variation. GENETICS AND MOLECULAR BIOLOGY 27(1): 61-69.
ANDERSON, J.R.; HARDY, E.E.; ROACH, J.T.; WITMER, R.E. 1976. A land use and land cover classification
system for use with remote sensing data. GEOLOGICAL SURVEY PROFESSIONAL PAPER nº. 964.
ARRUDA, V.L. & SAZIMA, M. 1988. Polinização e reprodução de Celtis iguanaea (Jacq.) Sarg. (Ulmaceae),
uma espécie anemófila. REVISTA BRASILEIRA BOTÂNICA 11: 113-122.
ASHTON M.S., GUNATILLEKE C.V.S., SINGHAKUMARA B.M.P., GUNATILLEKE I.A.U.N. 2001.
Restoration pathways for rain forest in southwest Sri Lanka: a review of concepts and models. FOREST
ECOLOGY AND MANAGEMENT. 154(3): 409-430.
AVELINO, M. F. & VIELLIARD, J. M. E. 2004. Comparative analysis of the song of the rufous-collared
sparrow Zonotrichia capensis (Emberizidae) between Campinas and Botucatu, São Paulo State, Brazil. ANNUAL
ACAD BRAZILIAN CIENC 76(2): 345-349.
BACELLAR, C..A.P. & BROSCHI, L.R. (org.). 1996. Na Estrada do Anhangüera. Uma visão regional da
história paulista. São Paulo: Humanitas FFLCH/USP. 94-115.
201
BADARÓ, R.S.C. 1996. Campinas, o despontar da modernidade. Campinas: Ed. Unicamp, Centro de Memória
(Coleção Campiniana). 161 p.
BARBOSA, L. M. 2000. Considerações Gerais e Modelos de Recuperação de Formações Ciliares. In: Rodrigues,
R.R. & Leitão-Filho, H.F. (ed). Matas ciliares: conservação e recuperação. 2000. 289- 312. São Paulo: Ed. da
USP/FAPESP. 320p.
BAUR, B. & ERHARDT, A. 1995. Habitat fragmentation and habitat alterations: principal threats to most animal
and plant species. GAIA 4: 221-226.
BERNARDO, R.G. 2002. Histórico da ocupação do solo no município de Campinas. Dissertação de Mestrado.
São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo.
BERGÓ, M.E.A. 1944. Estudo geográfico da cidade de Campinas. In: Anais do X Congresso Brasileiro de
Geografia, Rio de Janeiro, vol. 3.
BITTENCOURT, L.C. 1990. Desenho urbano de Campinas: implantação e evolução. Dissertação de mestrado.
São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.
BORGMANN, K.L. & RODEWALD, A.D. 2004. Nest predation in an urbanizing landscape: the role of exotic
shrubs. ECOLOGICAL APPLCATIONS 14(6): 1757-1765.
BRIGUENTI, E.C. 2005. Geoindicadores na Avaliação da Qualidade Ambiental da Bacia do Ribeirão das
Anhumas, Campinas, SP. Dissertação de Mestrado. Campinas: Instituto de Geociências, Universidade Estadual
de Campinas.
BROWN JR., K.S. & FREITAS, A.V.L. 2002. Butterfly communities of urban forest fragments in Campinas,
Sao Paulo, Brazil: Structure, instability, environmental correlates, and conservation. JOURNAL OF INSECT
CONSERVATION 6: 217 231.
BURGESS, R.L. & SHARPE, D.M. (ed.) 1981. Forest island dynamics in man-dominated landscapes. SpringerVerlag, New York, New York, USA.
CALDEIRA, T.P.R. 2003. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora
34/Editora da USP. 2ª edição. 400p.
CÂMARA, G. 1995. Modelos, Linguagem e arquiteturas para bancos de dados geográficos. Tese de Doutorado.
São José dos Campos: INPE.
CAMPBELL, C. 1987. The romantic ethic and the spirit of modern consumerism. Oxford: Basil Blackwell. 312p.
CAMPINAS 1991. Secretaria Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente.
Campinas: Subsídios para a discussão do plano diretor. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas. 292p.
CAMPINAS 1995. Secretaria Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. Plano
Diretor de Campinas. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas. 153p.
CAMPINAS 2006. Secretaria Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. O que é o
Plano Diretor 2006. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas. 11p.
Disponível em: www.campinas.sp.gov.br/seplama/projetos/planodiretor2006/pdfinal/pergresp.pdf.
CAMPOS JR., T.S. 1952. História da fundação de Campinas (Subsídios) In: Monografia histórica do município
de Campinas. Rio de Janeiro: IBGE.
202
CARVALHO, D.R.E., VUKOMANOVIC, C.R. & RODRIGUES , J.G. 2006. A área rural da bacia do ribeirão
das Anhumas - breve relato. In: Torres, R.B., Costa, M.C., Nogueira, F.P. & Perez Filho, A. (coords.).
Recuperação ambiental, participação e poder público: uma experiência em Campinas. 2006. Relatório de
pesquisa. (Processo FAPESP nº. 01/02952-1).
CHRISTOFOLETTI, A. & FEDERICI, H. 1972. A terra campineira. Campinas: Indústrias Gráficas Mousinho.
100p.
CIELO FILHO, R. & SANTIN, D.A. 2002. Estudo florístico e fitossociológico de um fragmento florestal urbano
- Bosque dos Alemães, Campinas, SP. REVISTA BRASILEIRA DE BOTÂNICA 25 (3): 291-301.
CLARK, D.B. 1996. Abolishing virginity. JOURNAL OF TROPICAL ECOLOGY 12: 735-739.
COELHO, R.M, GOMES, D.C.H., ROSSI, M., MENK, J.R.F., ADAMI, S.F., SOUZA, L.A., GUADALUPE,
G.W. 2006. Levantamento pedológico semidetalhado da bacia do ribeirão das anhumas. In: Torres, R.B., Costa,
M.C., Nogueira, F.P. & Perez Filho, A. (coords.). Recuperação ambiental, participação e poder público: uma
experiência em Campinas. 2006. Relatório de pesquisa. (Processo FAPESP nº. 01/02952-1).
COLLI, G.R, ACCACIO, G.M., ANTONINI, Y. CONSTANTINO, R. FRANCESCHINELLI, E.V, LAPS, R.R,
SCARIOT, A., VIEIRA, M.V. & WIEDERHECKER, H.C. 2005. A fragmentação dos ecossistemas e a
biodiversidade brasileira: uma síntese. In: Rambaldi, D. M. & Oliveira, D.A.S. (orgs.). 2005. Fragmentação de
Ecossistemas: causas, efeitos sobre a biodiversidade e recomendações de políticas públicas. Brasília: MMA/SFB.
2ª ed. 508p. 317-324.
CONDEPACC. 1992. Inventário dos bens naturais e do uso e ocupação da área envoltória da Mata de Santa
Genebra. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas.
CONDEPHAAT. 1994. Regulamentação da Área Envoltória da Mata de Santa Genebra. São Paulo: Governo do
Estado de São Paulo.
CONDEPHAAT. 1995. Proposta de Recuperação, Manejo e Conservação da Reserva Municipal da Mata de
Santa Genebra. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo.
CONFORTI, T.B. & DECHOUM, M.S. 2003. Plano de manejo da vegetação nativa - Parque Municipal Bosque
dos Jequitibás. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, Departamento de Parques e Jardins. Relatório
Técnico.
CONFORTI, T.B. & DECHOUM, M.S. 2004. Plano de diagnóstico e manejo de áreas verdes naturais do
município de Campinas. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, Departamento de Parques e Jardins.
Relatório Técnico.
CONFORTI, T.B. 2005. Programa de avaliação, controle e tratamento de doenças vasculares em espécies
arbóreas da região central de Campinas. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, Departamento de Parques
e Jardins. Relatório Técnico.
CORRÊA, M.H. 2000. Relatório para o tombamento dos Bens Naturais C e D localizados na área envoltória da
Mata de Santa Genebra. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, CONDEPACC.
CSU - Coordenadoria Setorial de Uso e Ocupação do Solo. 23/08/01 . Parecer Técnico dos Protocolos da
Prefeitura Municipal de Campinas de nºs 75.249/99, 52.287/00, 61.232/00, 61.233/00 e 61.234/00. Campinas:
Prefeitura Municipal de Campinas.
CUNNINGHAM, S.A. 2000. Effects of habitat fragmentation on the reproductive ecology of four plant species in
Mallee Woodland. CONSERVATION BIOLOGY 14 (3): 758-768.
203
DEAN, W. 1996. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Tradução: Cid Knipel
Moreira. São Paulo: Compania das Letras. 484 p.
DESOUZA, O., SCHOEREDER, J.H., BROWN, V.& BIERREGAARD JR., R.O. 2001. A Theoretical overview
of the processes determining species richness in forest fragments In: Bierregaard Jr., R. O, Gascon, C., Lovejoy,
T.E. and Mesquita, R. (orgs.) 2001. Lessons from Amazonia: the ecology and conservation of a fragmented
forest. Michigan: Yale University Press. 478p. 13-21.
DIDHAM, R.K., HAMMOND, P.M., LAWTON, J.H., EGGLETON, P. & STORK, N.E. 1998. Beetle species
responses to tropical forest fragmentation. ECOLOGICAL MONOGRAPHS 68(3): 295-323.
DOBSON, A.P., BRADSHAW, A.D. & BAKER, A.J.M. 1997. Hopes for the future: restoration ecology and
conservation biology. SCIENCE 277: 515-522.
DUPAS, G. 2003. Tensões contemporâneas entre o público e o privado. São Paulo: Paz e Terra. 145p.
EMBRAPA. 1999. Centro Nacional de Pesquisa de Solos. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Brasília:
Embrapa Produção de Informação e Rio de Janeiro: Embrapa Solos. 412 p.
FAHRIG, L. 2003. Efects of habitat fragmentation on biodiversity. ANNUAL REVIEW OF ECOLOGY,
EVOLUTION AND SYSTEMATICS 34: 487-515.
FEARNSIDE, P.M. 2005. Deforestation in Brazilian Amazonia: history, rates and consequences. Conservation
Biology 19(3): 680-688.
FECAMP FUNDAÇÃO ECONOMIA DE CAMPINAS. 1994. PROCEN
no município de Campinas: estudo de impactos ambientais. Campinas.
Programa de Combate às enchentes
FERREIRA, L.O. 1999. Os periódicos médicos e a invenção de uma agenda sanitária para o Brasil (1827-43).
História, Ciência, Saúde Manguinhos, Rio de Janeiro, 6:(2) 331-51. Disponível em: < http://www.scielo.br>.
Acesso em: 01 de Maio de 2005.
IBGE. 1991. Manual técnico da vegetação brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, Departamento de recursos naturais e estudos ambientais. (Série manuais técnicos em geociências nº1).
FIGUEIREDO, R.A. 1996. Vertebrates at neotropical fig species in a forest fragment. TROPICAL ECOLOGY
37:(1) 139-141.
FJPO 2003. Plano participativo de manejo do entorno da mata de santa genebra.
FJPO 2003a. Seminário Barra Vento. Campinas: Reserva Municipal da Mata de Santa Genebra, Fundação José
Pedro de Oliveira, Prefeitura Municipal de Campinas. 27/05/2003. Datilografado.
FONSECA, M.G., MARTINI, A.M.Z. & SANTOS, F.A.M. 2004. Spatial structure of Aspidosperma polyneuron
in two semi-deciduous forests in Southeast Brazil. JOURNAL OF VEGETATION SCIENCE 15: 41-48.
FORMAN, R.T.T. 1998. Land Mosaics: the ecology of landscapes and regions. Cambridge: Cambridge
University Press. 632p.
FORMAN, R. T. T. & GODRON, M. 1986. Landscape ecology. New York: John Wiley Press. 619p.
FRISCHENBRUDER, M.T.M. 2001. Gestão municipal e conservação da natureza: a bacia hidrográfica do
ribeirão das Anhumas Campinas (SP). Tese de doutorado. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo.
204
GALETTI, M. 1993. Projeto de urbanização e manejo dos arredores da Mata de Santa Genebra. Campinas.
Datilografado.
GALETTI, M. 1993. Diet of the scaly-headed parrot (Pionus maximiliani) in a semideciduous forest in
southeastern Brazil. BIOTROPICA 25(4):419-425.
GERMAINE, S.S., ROSENSTOCK, S.S., SCHWEINSBURG, R.E. & RICHARDSON, W.S. 1998.
Relationships among breeding bird, habitat, and residential development in greater Tucson, Arizona.
ECOLOGICAL APPLICATIONS 8: 680-691.
GILPIN, M. & HANSKI, I. (eds.) 1991. Metapopulation dynamics: empirical and theoretical investigations.
Academic Press, London.
GOMES, D.C.H.; COELHO, R.M.; MENK, J.R.F.; ROSSI, M. 2004. O levantamento de solos como subsídio ao
diagnóstico sócio-ambiental: a bacia do ribeirão das Anhumas, Campinas (SP). In: Anais do Congresso Brasileiro
de Geógrafos, 18 a 23 de Julho de 2004. Goiânia: Associação de Geógrafos do Brasil, 2004. 255p.
GOMES, J.A.M.A., TORRES, R.B. & BERNACCI, L.C. 2006. Dinâmica da vegetação nativa de um fragmento
urbano (Bosque dos Jequitibás, Campinas - SP), REVISTA BRASILEIRA DE BOTÂNICA, no prelo.
GROMBONE-GUARANTINI, M.T. & RODRIGUES, R.R. 2002. Seed bank and seed rain in a seasonal semideciduous forest in southeastern Brazil. JOURNAL OF TROPICAL ECOLOGY 18: 759-774.
HADDAD, N. 2000. Corridor length and patch colonization by a butterfly, Junonia coenia. CONSERVATION
BIOLOGY 14(3): 738-754.
HAILA, Y. 2002. A conceptual genealogy of fragmentation research: from island biogeography to landscape
ecology. ECOLOGICAL APPLICATIONS 12(2): 321-334.
HANSKI, I. & OVASKAINEn, O. 2000. The metapopulation capacity of a fragmented landscape. NATURE
404: 755-758.
HANSKI, I. & SIMBERLOFF, D. 1997. Metapopulation dynamics: brief history and conceptual domain. In
Hanski, I. & Gilpin, M.E. (ed.) Metapopulation biology: ecology, genetics and evolution. San Diego, California:
Academic Press. 512p. 5-26.
HARPER, K.A., MACDONALD, S.E., BURTON, P.J., CHEN, J., BROSOFSKE, K.D., SAUDERS, S.C.,
EUSKIRCHEN, E.S., ROBERTS, D., JAITEH, M.S., ESSEEN, P. 2005. Edge influence on forest structure and
composition in fragmented landscapes. CONSERVATION BIOLOGY 19(3): 768-782.
HARRIS, L.D.1984. The fragmented forest: island biogeography theory and the preservation of biotic diversity.
Chicago, Illinois: University of Chicago Press. 211p.
HASS, C.A. 1995. Dispesal and use of corridors by birds in wooded patches on an agricultural landscape.
CONSERVATION BIOLOGY 9: 845-854.
HEURI, D., VARJABEDIAN, R., SCIFONI, S., ESMERIZ, C.M.R.P., GERALDI, S.M., RODRIGUES, A.A.V.
1993. Revisão da regulamentação da área envoltória do Bosque dos Jequitibás. In: Processo de tombamento do
Bosque dos Jequitibás. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, CONDEPACC (resolução nº 13 de
02/09/93).
HOGAN, D. J., CUNHA, J.M.P, CARMO, R.L, OLIVEIRA, A.A.B., 2001. Urbanização e vulnerabilidade sócioambiental: o caso de Campinas. In: Hogan, D. J., Baeninger, R., Cunha, J.M.P., Carmo, R.L. (orgs.) Migração e
ambiente nas aglomerações urbanas. 2001. Campinas: Núcleo de Estudos Populacionais, Universidade de
Campinas. 515p. 397 420.
205
HOLLANDA, S.B. 1948. Expansão paulista em fins do século XVI e princípio do século XVII. Pesquisas do
Instituto de Administração 29. 25 p. São Paulo: Universidade de São Paulo.
HUSBAND, B. & BARRETT, S. 1996. A metapopulation perspective in plant population biology. JOURNAL
OF ECOLOGY 84: 461-469.
INSTITUTO GEOLÓGICO. 1993. Subsídios do meio físico-geológico ao planejamento do município de
Campinas (SP). Programa: Cartas geológicas e geotécnicas para o planejamento ambiental na região entre
Sorocaba e Campinas. São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente, Instituto Geológico. 3v.
ITC. 1997. Ilwis 2.1 for windows: integrated land and water information system user s guide. Enschede: ITC,
520p.
JENSEN, J.R. 1996. Introductory digital image processing: a remote sensing perspective. Upper Saddle River:
Prentice Hall. 2.ed. 318p.
JÓIA, P.R. 2000. Novas trajetórias da alta tecnologia no Brasil, sob a influência da ação do estado: uma análise
do pólo tecnológico regional de Campinas, SP. Tese de Doutorado. Rio Claro: Instituto de Geociências e
Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
KINOSHITA, L.S., TORRES, R.B., FORNI-MARTINS, E.R., SPINELLI, T., AHN, Y.J. & CONSTÂNCIO,
S.S. 2006. Composição florística e síndromes de polinização e de dispersão da mata do Sítio São Francisco,
Campinas, SP, Brasil. ACTA BOT. BRAS 20(2): 313-327.
KLEIN, B.C.1989. Effects of forest fragmentation on dung and carrion beetle communities in Central Amazonia.
ECOLOGY 70(6): 1715-1725.
KOTCHETKOFF-HENRIQUES, O. 2003. Caracterização da vegetação natural em Ribeirão Preto, SP: bases
para conservação. Tese de Doutorado. Ribeirão Preto: FFCLRP/USP.
LAPA, J.R.A. 1996. A cidade; os cantos e os antros. Campinas (1850-1900). São Paulo: Ed. da USP. 361p.
LEITÃO-FILHO, H.F. 1982. Aspectos taxonômicos das florestas do Estado de São Paulo. Silvicultura em São
Paulo. Congresso Nacional de Essências Nativas 16(A): 197-206.
LEITÃO-FILHO, H.F. 1987. Considerações sobre a florística de florestas tropicais e subtropicais do Brasil.
IPEF. 35: 41-46.
LEITÃO-FILHO, H.F. 1995. A vegetação da Reserva de Santa Genebra In: Morellato, P.C. & Leitão-Filho, H.F.
(org.). Ecologia e preservação de uma floresta tropical urbana Reserva de Santa Genebra. 1995. Campinas:
Editora da UNICAMP. 136p. 19-29.
LEITE, R.P. 2004. Contra-usos da cidade: lugares e espaços públicos na experiência urbana contemporânea.
Campinas: Editora da Unicamp, Aracaju: Editora da Universidade Federal de Sergipe. 342p.
LENNARTSSON, T. 2002. Extinction thresholds and disrupted plant-pollinator interactions in fragmented plant
populations. ECOLOGY 83(11): 3060-3072.
LIMA, S. B. 2000. Os Jardins de Campinas: o surgimento de uma nova cidade (1850- 1935). Dissertação de
Mestrado. Campinas: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
LOBO, P.A. 1977. Velhas figuras de São Paulo. São Paulo: Ed. Academia Paulista de Letras. 268p.
206
LORENZI, H. 1992. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil.
vol. 1 . Nova Odessa: Plantarum. 352p.
LOVEJOY, T.E., BIERREGAARD, R.O., RYLANDS, A.B., MALCOM, J.R., QUINTELA, C.E., HARPER,
L.H., BROWN, K.S., POWELL, A.H., POWEL, G.V.N, SCHUBART, H.O.R & HAYS, M.B. 1986. Edge and
other effects of isolation on Amazon forest fragments. In: Soulé, M.E. (ed.). Conservation biology: the science
of scarcity and diversity. 1986. Sunderland, Massachussets: Sinauer Associates.584p. 257-285.
LUDWIG, D., MANGEL, M. & HADDAD, B. 2001. Ecology, Conservation, and Public Policy. ANNU. REV.
ECOL. SYST. 32: 481-517.
MACEDO, S. S. & SAKATA, F. G. 2002. Parques Urbanos no Brasil. São Paulo: Ed. da USP. 207p.
MACHADO, P.A.L. 2002. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores. 1064p.
MARINHO FILHO, J.S. & REIS, M.L. 1989. A fauna de mamíferos associados às matas de galeria. Anais do
Simpósio sobre Mata Ciliar. Campinas: Fundação Cargill. 335p. 43-60.
MARTINS, S.V., COLLETTI-JR., R., RODRIGUES, R.R. & GANDOLFI, S. 2004. Colonization of gaps
produced by death of bamboo clumps in a semideciduous mesophytic forest in south-eastern Brazil. PLANT
ECOLOGY. 172:121-131.
MATTHES, L.A.F. 1980. Composição florística, estrutura e fenologia de uma floresta residual de planalto
paulista: Bosque dos Jequitibás (Campinas, SP). Tese de Mestrado. Campinas: Instituto de Biologia,
Universidade Estadual de Campinas.
MATTHES, L.A.F.; LEITÃO FILHO, H.F. & MARTINS, F.R. 1988. Bosque dos Jequitibás (Campinas-SP):
composição florística e estrutura fitossociológica do estrato arbóreo. Anais do V Congresso da Sociedade
Botância de São Paulo: 55-76.
MATTHES, L.A.F. 1992. Dinâmica da sucessão secundária em mata, após a ocorrência de fogo: Santa Genebra
(Campinas/SP). Tese de Doutorado. Campinas: Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas.
METZGER, J.P. 1997. Relationship between landscape structure and tree species diversity intropical forest of
south-east Brazil. LANDSCAPE AND URBAN PLANNING 37: 29-35.
METZGER, J.P. 2000. Como restaurar a conectividade de paisagens fragmentadas. In: Anais do Simpósio de
restauração de ambientes degradados com espécies nativas. São Paulo: Ed. da USP. 7-21.
METZGER, J.P. 2001. O que é ecologia de paisagens? BIOTA NEOTROPICA 1(1). Disponível em:
<www.biotaneotropica.org.br> .
METZGER, J.P. 2003. Como restaurar a conectividade de paisagens fragmentadas? In: Kageyama, P.Y.,
Oliveira, R.E., Moraes, L.F.D., Engel, V.L., Gandara, F.B. Restauração ecológicas de ecossistemas naturais.
2003. Botucatu: FEPAF. 51-76.
MILLS, G.S., DUNNING Jr., J.B. & BATES, J.M. 1989. Effects of urbanization on breeding bird community
structure in southwestern desert habitats. CONDOR 91: 416-428.
MIRANDA, Z.A..I. 2002. A incorporação de áreas rurais às cidades: um estudo de caso sobre Campinas, SP.
Tese de Doutorado. Campinas: Instituto de Economia, Universidade Estadual de Campinas.
MMA Ministério do Meio Ambiente. 2000. Avaliação e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade
da Mata Atlântica e Campos Sulinos. Conservation International do Brasil, Fundação SOS Mata Atlântica,
207
Fundação Biodiversitas, Instituto de Pesquisas Ecológicas, Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo,
SEMAD/Instituto Estadual de Florestas-MG. Brasília: MMA/SBF. 40p.
MONBEIG, P. 1984. Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. São Paulo: HUCITEC. 392p.
MORELLATO, L.P.C. 2004. Phenology, sex ratio and spatial distribution among dioecius species of Trichilia
(Meliaceae). PLANT BIOLOGY 6:491-497.
MURCIA, C. 1995. Edge effects in fragmented forests: implications for conservation. TRENDS IN ECOLOGY
AND EVOLUTION 10: 58-62.
NOSS, R.F. 1983. A regional landscape approach to maintain diversity. BIOSCIENCE 33: 700-706.
NOSS, R.F. & COOPERRIDER, A.Y. 1994. Saving nature s legacy: protecting and restoring biodiversity.
Washington, D.C.: Island Press.
ORTOLANI, A.A., CAMARGO, M.B.P, PEDRO JÚNIOR, M.J. 1995. Normas climáticas dos postos
meteorológicos do Instituto Agronômico. Campinas: Centro Experimental de Campinas (Boletim técnico do
IAC): 155. 13p.
PEREIRA, S.Y. & CHIARELLI, E. 2006. Estudos hidrológicos na bacia do ribeirão das Anhumas. In: Torres,
R.B., Costa, M.C., Nogueira, F.P. & Perez Filho, A. (coords.). Recuperação ambiental, participação e poder
público: uma experiência em Campinas. Relatório de pesquisa. (Processo FAPESP nº. 01/02952-1).
PETENUSCI, M.C. 2004. Plano de manejo para parque em área urbana. Estudo de caso: ribeirão Viracopos
(Campinas, SP). Dissertação de mestrado. Campinas: Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo Universidade Estadual de Campinas.
PICKETT, S.T.A. & OSTFELD, R. S. 1995. The sifting paradigm in Ecology. In: Knight, R. & Bates, S. F. (eds.)
A new century for natural resources management. Washington: Island. 398p.
PICKETT, S.T.A., OSTFELD, R.S., SHACHACK, M. & LIKENS, G.E. (eds.) 1997. The ecological basis of
conservation: heterogeneity, ecosystems and biodiversity. New York: Chapman & Hall. 466p.
PUPO, C.M.M. 1969. Campinas, seu berço e juventude. Campinas: Academia Campinense de Letras. 335p.
PUPO, C.M.M. 1983. Campinas, município no império: fundação e constituição, usos familiares, a morada,
sesmarias, engenhos e fazendas. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, SA. 231p.
QUINN, J.F. & HARRISON, S.P. 1988. Effects of habitat fragmentation and isolation on species richness:
evidence from biogeographic patterns. OECOLOGIA 75: 132-140.
REMES, V. 2003. Effects of exotic habitat on nesting success, territory density, and settlement patterns in the
Blackap (Sylvia atricapilla). CONSERVATION BIOLOGY 17: 1127-1133.
RIBEIRO, R. 2000. Barão Geraldo: história e evolução. Campinas: Ed. do Autor. 104p.
ROBERTS, A.M.S. 2002. Cidadania interditada: um estudo de condomínios horizontais fechados (São Carlos
São Paulo). Tese de Doutorado.Campinas: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de
Campinas.
ROBBINS, C.S., DAWSON, D. & DOWELL, B. 1989. Habitat area requirments of breeding forest birds of the
Middle Atlantic States. WILDLIFE MONOGRAPHS 103: 1-34.
208
RODRIGUES, R. R., LEITÃO-FILHO, H. de F. & CRESTANA, M. C. 1992. Revegetação do entorno da represa
de abastecimento de água do município de Iracemápolis, SP. In: Anais do Simpósio sobre Recuperação de Áreas
Degradadas.
RODRIGUES, R. R. 1989. Análise estrutural das formações florestais ripárias. In: Anais do Simpósio sobre Mata
Ciliar. Campinas: Fundação Cargill. 335p. 99-119.
RODRIGUES, R.R. & GANDOLFI, S. 2000. Conceitos, tendências e ações para a recuperação de florestas
ciliares In: Rodrigues, R.R. & Leitão-Filho, H.F. (ed). Matas ciliares: conservação e recuperação. 2000.
BARBOSA, L. M. 2000. São Paulo: Ed. da USP/FAPESP. 320p. 235-247.
ROZZA, A.F. 2003. Manejo e regeneração de trecho degradado de floresta estacional semidecidual: Reserva
Municipal de Santa Genebra, Campinas, SP. Tese de Doutorado. Campinas: Instituto de Biologia, Universidade
Estadual de Campinas.
SAINT-HILAIRE, A. 1953. Segunda viagem à São Paulo e quadro histórico da província de São Paulo. São
Paulo: Ed. Martins. 223p.
SALIS, S.M., SHEPHERD, G.J. & JOLY, C.A. 1995. Floristic comparison of mesophytic semideciduous forests
of the interior of the state of São Paulo, Southeast Brazil. PLANT ECOLOGY 119(2):155-164.
SANTIN, D.A. 1999. A vegetação remanescente do município de Campinas (SP): mapeamento, caracterização
fisionômica e florística, visando a conservação. Tese de Doutorado. Campinas: Instituto de Biologia,
Universidade Estadual de Campinas.
SANTOS, A.C. 1999. Compra e venda de terra e água e um tombamento na primeira sesmaria da freguesia de
Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso de Jundiaí: 1732-1992. Tese de Doutorado. São
Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo.
SANTOS, A.C. 2002. Campinas, das origens ao futuro: compra e venda de terra e água e um tombamento na
primeira sesmaria da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso de Jundiaí (17321992). Campinas: Editora da Unicamp. 400p.
SANTOS, S.L. & VÁLIO, I.F.M. 2002. Litter accumulation and its effect on seedling recruitment in a Southeast
Brazilian Tropical Forest. REVISTA BRASILEIRA DE BOTÂNICA 25(1):89-92.
SANTOS Fº, L.C. & NOVAES, J.N. 1996. A febre amarela em Campinas 1889-1900. Campinas: Editora da
UNICAMP (Coleção Campiniana 2). 301p.
SÃO PAULO. 2005. Inventário florestal da vegetação natural do Estado de São Paulo. São Paulo: Governo do
Estado de São Paulo, Secretaria do Meio Ambiente/Instituto Florestal. Atlas colorido. 200p.
SCHULTZ, C.B. & CRONE, E.E. 2005. Patch size and connectivity threshold for butterfly habitat restoration.
CONSERVATION BIOLOGY 19(3): 887-896.
SEMEGHINI, U.C. Campinas (1860 a 1980): agricultura, industrialização e urbanização. 1988. Dissertação de
Mestrado. Campinas: Instituto de Economia, Universidade Estadual de Campinas. 282p.
SEMEGHINI, U. C. 1991. Do café à indústria: uma cidade e seu tempo. Campinas: Editora da Unicamp. 197p.
SERRÃO, S.M. 2002. Para além dos domínios da mata: uma discussão sobre o processo de preservação da
Reserva da Mata Santa Genebra. Tese de Doutorado. Campinas: Faculdade de Educação, Universidade Estadual
de Campinas.
209
SERVILHA, E.R.. 2003. As áreas de preservação permanente dos cursos d água urbanos para a ordem pública.
Município de Campinas/SP. Campinas: Faculdade de Engenharia Civil, Universidade Estadual de Campinas.
Campinas.
SEVÁ FILHO, A.O. 2001. As águas de Barão Geraldo e as bacias dos rios das Pedras, Anhumas, Atibaia e
Quilombo. Resumo apresentado no evento Vivência das águas . 10/11/2001. EEPG José Pedro Oliveira, Barão
Geraldo, Campinas. Disponível em : <http:// www.fem.unicamp.br/~seva>.
SIGRIST, M.R. & SAZIMA, M. 2004. Pollination and reproductive biology of twelve species of neotropical
malpighiaceae: stigma morphology and its implications for the breeding system. ANNALS OF BOTANY 94:3341.
SILVA, M.V. 2005. Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano.
Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de São
Paulo.
SIMBERLOFF, D. 1988. The contribution of population and community biology to conservation science.
ANNUAL REVIEW OF ECOLOGY AND SYSTEMATICS 19: 473-512.
SMA SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE. 2004. Sistema de Gestão Compartilhada: gestão compartilhada
soluções participativas para revitalização e operacionalização do Parque Ecológico Monsenhor Emilio José
Salim Campinas, São Paulo.
TAYLOR, P.D. 1993. Connectivity is a vital element of lanscape structure. OIKOS 68(3): 571-573.
THOMPSON, J., BROKAW, N., ZIMMERMAN, J.K., WAIDE, R.B., EVERHAM III, E.M., LODGE, D.J.,
TAYLOR, C.M., GARCÍA-MONTIEL, DIANA & FLUET, M. 2002. Land use history, environment, and tree
composition in a tropical forest. ECOLOGICAL APPLICATIONS 12(5): 1344-1363.
TORRES, R.B. NOGUEIRA, F.P., COSTA, M.C. da & PEREZ FILHO, A. (coord.). 2003. Recuperação
ambiental, participação e poder público: uma experiência em Campinas. Relatório de pesquisa. (Processo
FAPESP nº 01/02952-1).
TORRES, R.B.; BERNACCI, L.C.; DECHOUM, M.S.; CONFORTI, T.B.; ESPELETA, A.S.; LORANDI, A.C.;
FERREIRA, I.C.M. & OLIVEIRA, A.S. 2006. A vegetação nativa remanescente na bacia do ribeirão das
Anhumas. In: Torres, R.B., Costa, M.C., Nogueira, F.P. & Perez Filho, A. (coords.). Recuperação ambiental,
participação e poder público: uma experiência em Campinas. Relatório de pesquisa. (Processo FAPESP nº.
01/02952-1).
TSCHARNTKE, T., STEFFAN-DEWENTER, I., KRUESS, A. & THIES, C. 2002. Contribution of small habitat
fragments to conservation of insect communities os grassland-cropland landscapes. ECOLOGICAL
APPLICATIONS, 12(2): 354-363.
TURNER MG, RH GARDNER AND RV O NEILL. 2001. Landscape ecology in theory and practice. Pattern
and Process. New York: Springer-Verlag. 404p.
VÁLIO, I.F.M. & SCARPA, F.M. 2001. Germination of seeds of tropical pioneer species under controlled and
natural conditions. REVISTA BRASILEIRA DE BOTÂNICA 24 (1): 79-84.
VICTOR, M.A.M. 1979. A devastação florestal. São Paulo: Sociedade Brasileira de Silvicultura. 48p.
WHITMORE, T.C. 1997. Tropical forest disturbance, disapearance, and species loss. In:Laurance. W.F. &
Bierregard Jr., R.O. (ed). Tropical forest remnants: ecology, management, and conservation of fragmented
communities. Chicago, Illinois: University of Chicago Press. 3-12.
210
WHITMORE, T.C. & BURSLEM, D.F.R.P. 1998. Major disturbances in tropical rainforests In: Newbery, D.M.,
Prins, H.H.T., Brown, N.D. (eds.) Dynamics of tropical communities. 1998. Oxford: Blackwell. 549-565.
WILCOVE, D.S., McLELLAN, C.H. & DOBSON, A.P. 1986. Habitat fragmentation in the temperate zone. In:
Soulé, M.S. (ed.) Conservation biology. 1986. Sunderland: Sinauer Associates. 237-256.
WILCOX, B.A. 1980. Insular ecology and conservation. In: Soulé, M.E. & Wilcox, B.A. (eds.). Conservation
biology: an evolutionary-ecological perspective. 1980. Sunderland: Sinauer Associates. 95-117.
WILCOX, B.A. & MURPHY, D.D. 1985. Conservation strategy: the effects of fragmentation on extinction.
AMERICAN NATURALIST 125: 879-887.
WILSON, E.O. 1992. The diversity of life. Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press. 424 p.
ARTIGOS DE JORNAIS
Correio Popular (Campinas, São Paulo)
20/09/1978 - Prefeito Chico Amaral: AR3 retirou da Fazenda São Quirino 100 caminhões de cascalho.
27/11/1987
Campinas terá um Parque Ecológico do Estado.
23/10/1988
Campinas terá o maior Parque Ecológico da região.
07/03/1991
Novo parque amplia contemplação ecológica e cultural de Campinas.
11/07/1992
Parque Ecológico é espaço para lazer.
13/01/1995
Prefeitura paralisa obras de novos parques.
23/02/1995
Divergências ameaçam convênio sobre transferência do Parque Ecológico.
01/09/1995
Fundação confirma data de fechamento.
02/09/1995 Fundação inicia desmanche do Ecológico: pelo menos 100 dos 200 funcionários são demitidos;
organizações ambientalistas começam movimento contra fechamento.
04/09/1995
Convênio mantém Parque Ecológico aberto: vigias serão remanejados de outros parques.
04/09/1995 Convênio mantém Parque Ecológico aberto: Magalhães Teixeira encaminha hoje à Câmara pedido
de autorização para formalizar acordo entre Prefeitura e Secretaria do Meio Ambiente.
04/09/1995
PT e PV vão pedir levantamento de gastos.
28/10/1995
Governo do Estado decide fechar Parque Ecológico.
09/04/1998
Crise ameaça patrimônio.
14/05/2000- Incêndio atinge 20% do Parque Ecológico.
12/10/2002- Fogo consome 6,3% da vegetação do Parque Ecológico.
30/10/2002 Izalene defende comissão para gerenciar parque: depois de alegar que a Prefeitura deveria assumir a
administração do Ecológico, prefeita recua e negocia comissão tripartite.
211
05/09/2003
Outra vez, incêndio atinge o Parque Ecológico.
Diário do Povo (Campinas, São Paulo)
17/01/1988 Sem título.
25/10/1990
Quércia anuncia Parque Ecológico exemplar.
12/12/1994
Abandono Ambiental.
25/07/1998
Entidades campineiras se unem para acabar com as queimadas.
Folha de São Paulo (São Paulo, São Paulo)
15/09/1978 Campinas paralisa a destruição de bosque.
08/07/1990
Campinas tem a maior verba para ambiente.
29/12/1990
Área terá 15 mil mudas de 200 espécies.
Folha Tarde (São Paulo, São Paulo)
12/07/1992 - Tombamento só atrapalha.
Gazeta de Campinas (Campinas, São Paulo)
19/9/1880 - Sem título.
Jornal de Barão (Campinas, São Paulo)
Março 1993. Morte de Jandyra deixa tristezas e dúvidas.
Jornal de Hoje (Campinas, São Paulo)
22/03/1980 Sem título.
12/04/1981
É o fim do paraíso ecológico?
O Estado de São Paulo (São Paulo, São Paulo)
01/09/1982 - População em combate à derrubada de árvore de 40 anos, uma tipuana no balão da Av. Brasil.
Semana 3 (Campinas, São Paulo)
Julho agosto 2005. Ano 4 nº32. Parque, amigo?
SITES
WWW.AMBIENTE.SP.GOV.BR/PPMA/RESBIOS1.HTM - Portal da Secretaria de Estado do Meio Ambiente.
Acesso em 25/01/2007
WWW.CAMPINAS.SP.GOV.BR - Portal da Prefeitura Municipal de Campinas
dos Italianos - Pça Samuel Wainer. Acesso em 22/05/2005.
212
Parques e Bosques: Bosque
WWW.CAMPINAS.SP.GOV.BR - Portal da Prefeitura Municipal de Campinas
dos Alemães - Pça João Lech Júnior. Acesso em 22/05/2005.
Parques e Bosques: Bosque
WWW.LNLS.BR - Portal do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron. Acesso em 22/08/2006.
WWW.SEADE.SP.GOV.BR - Portal do Sistema Estadual de Análise de Dados: Perfil Municipal de Campinas.
Acesso em 20/11/2006.
WWW.SHOPPINGDOMPEDRO.COM.BR - Portal do Shopping Dom Pedro. Acesso em 25/03/2006.
WWW.USINAESTER.COM.BR - Portal da Usina Açucareira Ester S.A. Acesso em 25/03/2006.
LEIS
COMDEMA nº 05/02 de 27/08/2002. Parecer n° 02/02 referente à implantação de loteamentos em glebas
contíguas resultantes da subdivisão da Fazenda Boa Esperança, Distrito de Barão Geraldo, Campinas. Campinas:
Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
COMDEMA nº 05/02 de 27/08/2002. Parecer técnico de 23/08/01 da Coordenadoria Setorial de Uso e Ocupação
do Solo. Campinas: Secretaria de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, Prefeitura
Municipal de Campinas, São Paulo.
COMDEMA nº05/02 de 27/08/2002. Rhodia S/A 1997. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
CONDEPACC Resolução nº 11 de 29/09/1992. Dispõe sobre o tombamento da Mata de Santa Genebra, bem de
interesse ambiental. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
CONDEPACC Resolução nº 13 de 02/09/1993. Dispõe sobre o tombamento "ex-officio" do Bosque dos
Jequitibás, bem de interesse ambiental. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
CONDEPACC Resolução nº 25 de 09/5/1996. Dispõe sobre o tombamento dos bens de interesse ambiental: área
brejosa e os dois maciços arbóreos no Recanto Yara. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
CONDEPACC Ata reunião ordinária 259ª de 09/08/2001. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São
Paulo.
CONDEPACC Processo de estudo de tombamento nº 05/2001. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas,
São Paulo.
CONDEPACC. Resolução nº 37 de 22/10/2002. Dispõe sobre o tombamento do bem de interesse ambiental do
Marques Ecológico Estadual Monsenhor José Salim. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
CONDEPACC Processo de estudo de tombamento nº 04/2003. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas,
São Paulo.
CONDEPACC Processo de estudo de tombamento nº 05/2003. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas,
São Paulo.
CONDEPACC Resolução nº 43 de 13/11/2003. Dispõe sobre o tombamento do Conjunto Arquitetônico da
Fazenda Rio das Pedras. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
CONDEPACC Resolução nº 41 de 13/11/2003. Dispõe sobre o tombamento de cinco matas e as duas lagoas
localizadas na Fazenda Rio das Pedras, bens de interesse ambiental e histórico-cultural. Campinas: Prefeitura
Municipal de Campinas, São Paulo.
213
CONDEPACC Resolução nº 47 de 21/10/2004. Regulamentação da Área Envoltória do Bem Natural Maciço
"C"). Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
CONDEPHAAT Resolução nº 34 de 10/05/1982. Dispõe sobre o tombamento da casa sede da Fazenda Mato
Dentro, então Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim por suas características arquitetônicas e como
patrimônio histórico e cultural São Paulo: Governo do Estado de São Paulo.
CONDEPHAAT Resolução nº 03 de 03/02/1983. Tombamento da Mata de Santa Genebra pelo CONDEPHAAT
(Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo). Campinas:
Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
DECRETO ESTADUAL nº 2.903 de 15/01/1937. Decreta a aquisição da Fazenda Mato Dentro (Campinas, SP)
pelo Governo do Estado. Governo do Estado de São Paulo, São Paulo.
DECRETO ESTADUAL nº 27.071 de 06/1987. Dispõe sobre a criação do Parque Ecológico Monsenhor Emílio
José SalimGoverno do Estado de São Paulo, São Paulo.
DECRETO FEDERAL nº 91.885 de 05/11/ 1985. Declara a Mata de Santa Genebra como Área de Relevante
Interesse Ecológico - ARIE. República Federativa do Brasil.
DECRETO MUNICIPAL nº15.471 de 16/05/2006. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
FJPO s/ data. Estatuto da Fundação José Pedro de Oliveira. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São
Paulo.
FJPO. 04/11/1981. Ata da primeira reunião do conselho de administração da fundação José Pedro de Oliveira .
Registrada no Cartório Privativo de Registro Civil das Pessoas Jurídicas. Protocolado sob o nº 50565. Campinas:
Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
LEI COMPLEMENTAR ESTADUAL nº 870 de 19/06/2000. Cria a Região Metropolitana de Campinas.
Governo do Estado de São Paulo, São Paulo.
LEI DE EXPANSÃO URBANA DO MUNICÍPIO 1981. Dispões sobre a configuração do perímetro da zona de
expansão urbana para atender exigências da Lei Federal nº 6.766/79, e que vigorou até a unificação dos dois
perímetros pela Lei 8.161/94.
LEI FEDERAL nº 4.771 de 15/09/1965. Institui o Código Florestal. República Federativa do Brasil.
LEI FEDERAL nº 9.985, de 18/07/00. Institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. República
Federativa do Brasil.
LEI MUNICIPAL nº. 5118 de 14/07/1981. Dispõe sobre a criação da Fundação José Pedro de Oliveira
Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
LEI MUNICIPAL nº 5138 de 24/09/1981. Dispõe sobre o tombamento do Bosque dos Jequitibás.Campinas:
Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
LEI MUNICIPAL nº 5.885 de 17/12/1987. Dispõe sobre a proteção e preservação do patrimônio histórico,
artístico, estético, arquitetônico, arqueológico, documental e ambiental do município de campinas e dá outras
providências. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
LEI MUNICIPAL nº 6.031 de 29/12/1988. Institui a Lei de Uso e Ocupação do Solo de Campinas. Campinas:
Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
214
LEI MUNICIPAL nº 8.424 de 10/07/1995. Dispõe sobre a criação da Escola Técnica do Meio Ambiente do
Brasil. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
LEI MUNICIPAL nº 9.199 de 27/12/1996 - Institui o Plano Local de Gestão Urbana de Barão Geraldo.
Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
LEI ORGÂNICA DO MUNICÍPIO DE CAMPINAS de 31/03/1990.
Campinas, São Paulo.
Prefeitura Municipal de Campinas,
PMC. 1995. Termo de Acordo e Compromisso entre a Prefeitura Municipal de Campinas e a Cooperativa
Habitacional Chapadão. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.
PROJETO DE LEI ESTADUAL nº 238 de 22/04/1999. Dispõe sobre medidas destinadas ao saneamento
financeiro do Estado de São Paulo, entre elas venda de parte da área do Parque Ecológico Estadual Monsenhor
Emílio José Salim. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo.
RHODIA S/A. 1997. Protocolo nº 76.652/97 à Prefeitura Municipal de Campinas. Assunto: Implantação de
núcleo habitacional próximo às instalações da empresa. Campinas.
TERMO ADITIVO 03/91 de 20 DE JUNHO DE 1991. Convênio de Cooperação da UNICAMP com a Prefeitura
Municipal de Campinas para a implantação de um "Parque Comunitário . Campinas.
215
216
ANEXOS
217
218
ANEXO I
Roteiro Geral das Entrevistas Realizadas
Identificação do Entrevistado
Área:
Nome:
Tel:
Email:
Tempo de atuação profissional. Atuações.
Tempo de vínculo na PMC. Atuações.
Tópicos
Histórico da área em questão:
Origem, conflitos, dificuldades
Estrutura física e atividades que ocorrem na área, interação com a comunidade
Fatores que atingem ou atingiram diretamente o fragmento
Participação da sociedade não acadêmica no manejo e gestão da área
Relação Academia - Fragmentos:
Tem conhecimento de pesquisas científicas realizadas na área? Quais?
Há banco de dados de pesquisas científicas realizadas na área?
De que forma se dá a interação Academia-fragmento?
Há retorno dessas pesquisas por intervenção ou proposta direta do pesquisador/
instituição que representa?
Relação PMC
Fragmentos:
219
Há plano de manejo do fragmento? Como ele foi elaborado/como é acompanhado? Quem
participa?
Há manejo integrado das áreas verdes de Campinas realizado pela PMC?
A PMC utiliza o resultado das pesquisas acadêmicas nas intervenções realizadas?
Fatos importantes que tenham repercutido na questão ambiental de Campinas.Maiores
dificuldades no dia a dia.
Outros tópicos relevantes, próprios de cada entrevista.
220
This document was created with Win2PDF available at http://www.daneprairie.com.
The unregistered version of Win2PDF is for evaluation or non-commercial use only.
Was this manual useful for you? yes no
Thank you for your participation!

* Your assessment is very important for improving the work of artificial intelligence, which forms the content of this project

Download PDF

advertisement