TESTE
Jorge Gonçalves
McIntosh C2300
Válvulas com tudo o resto!
Falar sobre a McIntosh é algo que quase se torna desnecessário para a maioria dos leitores da
Audio & Cinema em Casa, que seguramente têm acompanhado uma boa parte do percurso da
marca que foi fundada em 1949 por Frank McIntosh e Gordon Gow, os quais inventaram, em
conjunto, o famoso circuito de amplificação Unity Coupled, uma topologia original para o andar
de saída dos amplificadores de potência a válvulas. Claro que hoje em dia a McIntosh já não se
dedica em absoluto apenas às válvulas, embora possua muitos equipamentos deste tipo no seu
portfólio, mas os seus icónicos mostradores azuis continuam a hipnotizar muitos consumidores.
O pré-amplificador C2300 é um dos seus
produtos mais interessantes, combinando
num chassis de imponentes dimensões um
conjunto de tecnologias que aliam de modo
quase perfeito a magia das válvulas com os
mais modernos conceitos de controlo por
microprocessador. Fica aqui desde já a
chamada de atenção para este aspecto, pois
quem olha pela primeira vez para este
equipamento pode erroneamente assumir
que se trata de mais um prévio a válvulas
dos «velhos tempos», como que mais um
elemento de revivalismo.
Descrição
O C2300 ostenta, como é normal na marca,
uma excelente qualidade de construção,
com a originalidade de as seis válvulas
estarem visíveis na parte superior da caixa
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através de uma janela de vidro iluminada
em tons verdes (a iluminação pode ser
desligada, caso o comprador do C2300
goste mais de ver apenas o tom mais
avermelhado dos filamentos das válvulas.
Interessante o facto de o diagrama de
blocos estar serigrafado nesse mesmo vidro.
Algo que dá um certo carácter técnico a um
equipamento de áudio.
Na frente pontuam, como não podia deixar
de ser, os dois mostradores com fundo de
cor azul, de dimensão bastante menor que
aqueles que encontramos nos amplificadores de potência da marca, e que
neste caso indicam o nível do sinal de saída.
Colocado em posição central, um amplo
mostrador fluorescente permite, em posição
normal, que se possa ler qual a fonte de
sinal seleccionada e, em valores numéricos,
que nível de volume estamos a utilizar. Mas
este mostrador pode ter uma utilidade bem
mais ampla que esta, da qual falaremos
mais adiante, uma vez que quase todos os
parâmetros de funcionamento deste prévio
podem ser ajustados.
Os quatro botões rotativos permitem, da
esquerda para a direita, seleccionar a
fonte/seleccionar o passo do menu,
selecção do parâmetro a ajustar, ajustar os
parâmetros e controlar o volume de saída.
Um conjunto de teclas colocadas na parte
inferior do painel complementam os controlos em termos de desligar os controlos de
tonalidade, ajustar o funcionamento para
mono, monitorizar o sinal de gravação,
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aceder aos ajustes, cortar o sinal de saída
(mute) e seleccionar quais os pares de fichas de saída em uso. À direita de tudo
pontua a tecla de colocação no estado de
repouso, enquanto no extremo esquerdo
temos uma saída para auscultadores.
Nas traseiras temos um vasto conjunto de
pares de fichas RCA e XLR, já que, das oito
entradas de sinal, quatro podem ser do tipo
single-ended ou balanceado, o mesmo
acontecendo em relação às saídas,
equipadas com quatro pares de fichas RCA
(principal, saída 1, saída 2, saída de
gravação) e três pares de XLR (principal, 1 e
2). Para além da normal ficha IEC de entrada
do sector, temos um conjunto de jacks para
sinais de controlo e ligações de dados, bem
como dois pares de fichas RCA para as entradas phono, uma do tipo MM e outra do
tipo MC.
de modo a minimizar o ruído e obviar o
recurso ao transformador de entrada a que
muitos outros fabricantes recorrem. A
impedância de entrada pode ser ajustada
entre 25 Ohm e 1000 Ohm em seis passos
de ajuste, sendo mesmo possível fazer esse
ajuste a partir do controlo remoto, o que se
torna extremamente útil, já que a escolha
do valor de resistência correcto para uma
dada cabeça de gira-discos é fundamental
para optimizar o seu desempenho, e nada
como estarmos sentados no local normal de
audição para melhor nos apercebermos das
alterações ocorridas no sinal de saída.
O segundo patamar do prévio de phono MC
contém a igualização RIAA e recorre às
válvulas 12AX7A, com uma configuração de
saída que garante uma baixa impedância.
No caso do prévio para cabeças MM recorrese exclusivamente a válvulas, de tipo
idêntico às acima indicadas, sendo possível
ajustar a capacidade de entrada em saltos
de 50 pF até um máximo de 750 pF.
Os controlos de tonalidade são implementados através da inserção de um
circuito sintonizado na malha de
realimentação dos circuitos de amplificação
de entrada de cada canal, sendo o nível
seleccionado por um atenuador resistivo
controlado electronicamente. Deste modo
podem atingir-se níveis de reforço ou
atenuação de 12 dB, em passos de 1 dB. A
frequência central do controlo de graves é
igual a 120 Hz e a dos agudos a 2 kHz. Claro
que é possível colocar estes controlos
totalmente fora do percurso do sinal através
da tecla de bypass. A alimentação dos
circuitos de amplificação de phono é
estabilizada de modo totalmente individualizado, tendo o circuito de MC
mesmo uma fonte de alimentação
dedicada.
As seis válvulas acima mencionadas, do tipo
12AX7A (duplos tríodos) e identificadas com
o símbolo da marca, distribuem-se em
pares pelos diversos andares: duas para o
andar de phono MM, duas outras para o
andar de phono MC e as restantes para a
amplificação de nível de tensão mais
elevado.
A selecção dos diversos sinais é controlada
por relés de contactos de ródio recoberto
por uma camada de ruténio e encapsulados
num tubo de gás isento de oxigénio, o que
optimiza a qualidade dos sinais,
principalmente os de nível mais reduzido.
No andar de phono MC temos dois
patamares, com um ganho total de cerca de
60 dB, tendo o primeiro uma configuração
original com vários transístores em paralelo,
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TESTE McIntosh C2300
No caso do controlo de volume temos uma
implementação da topologia desenvolvida
pela McIntosh e designada Perfect Volume
Control System. Temos aqui um codificador
óptico accionado pelo botão de volume,
codificador esse que emite um conjunto de
impulsos provenientes de um feixe laser
sempre que rodamos o botão de volume. O
número de impulsos e o tempo entre eles
são contados por um microprocessador que,
por seu turno, controla um atenuador com
resistências de precisão que produz 213
passos, com saltos de 0,5 dB entre eles. A
originalidade deste controlador consiste no
facto de ele actuar antes e depois do circuito
amplificador, obtendo-se assim uma
combinação optimizada de gama dinâmica
ampla, imunidade às sobrecargas na entrada e baixo nível de ruído.
No interior do C2300 existem diversos
circuitos estabilizadores de tensão, todos
alimentados a partir de um transformador
de núcleo em R, de fabricação Kitamura
Kiden, pioneiros desta tecnologia desde
1978. Este fabricante assegura que este tipo
de construção garante um tamanho
compacto, baixas perdas magnéticas e
aquecimento mínimo.
A frequência de resposta deste prévio
estende-se dos 20 aos 20.000 Hz, ± 0,5 dB,
com uma distorção harmónica total de
0,08%. A tensão de saída nominal é de 2,5
V RMS (5 V RMS na saída balanceada), com
valores máximos, respectivamente, de 8 V e
16 V, e a sensibilidade da entrada phono MC
é de 0,45 mV, enquanto a da entrada MM é
de 4,5 mV. A impedância das entradas de
linha é de 20 kOhm em não balanceado e
40 kOhm para as entradas balanceadas,
sendo a impedância de saída de 200 Ohm.
Por último, mas não menos importante, um
bonito diploma confere uma garantia de
três anos ao C2300.
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Audições
O MC2300 foi acompanhado nas audições
pelo novo amplificador de potência MC452,
capaz de debitar algo como 450 Watt por
canal para impedâncias de 2, 4 ou 8 Ohm e
que recorre ao denominado circuito quadruplamente balanceado. Esta designação tem
origem no facto de em cada canal termos
dois amplificadores balanceados totalmente
independentes, com as suas saídas combinadas através dos já famosos autotransformadores de saída da McIntosh. Os
transístores utilizados são seleccionados de
modo a terem um ganho de corrente linear
e praticamente constante dentro da gama de
funcionamento que devem cobrir, com realce
especial para os transístores de saída que
utilizam uma nova estrutura designada
ThermalTrack, a qual permite a monitorização permanente e instantânea da
temperatura do chip, o que permite garantir
um funcionamento estável do circuito a
qualquer nível de potência. Em todos os
pontos críticos dos amplificadores são
utilizados condensadores de filme plástico e
resistências de filme metálico. Neste amplificador são igualmente utilizados níveis in-
tensivos de protecção, através do já reputado
circuito de protecção Sentry Monitor Output
Transistor Protection Circuit, patenteado pela
McIntosh, e ainda do circuito Power Guard, o
qual elimina qualquer possibilidade de
clipping. A alimentação foi igualmente alvo
de grande cuidado no projecto, estando por
conta de um volumoso transformador que
pode fornecer até 22 A de corrente e está
encapsulado na já legendária caixa de
protecção da McIntosh. Os quatro condensadores de filtragem podem armazenar até
200 Joules de energia para ambos os canais.
Claro que o arranque desta alimentação é
feito através de um circuito de arranque
lento, para evitar o elevado pico de corrente
que a ligação directa provocaria, embora a
McIntosh não deixe de recomendar que este
verdadeiro poço de energia seja ligado
directamente a uma tomada de sector. Os
terminais de colunas do 452 são de um tipo
exclusivo da McIntosh e têm a originalidade
de incorporarem uma mola na parte superior,
o que garante que a ligação dos terminais de
coluna (ou mesmo do cabo nu) se faça de
maneira extremamente fácil e intuitiva.
Mas o 452 só entrou em campo depois de
alguns dias de utilização do prévio no meu
sistema, ou seja, a mudança no sistema, constituído pelo amplificador Mark Levinson N.º
27.5, colunas QUAD ELS 63 Pro, leitor de CD’s
Accuphase DP85, gira-discos Basis Gold Debut
com cabeça van den Hul Colibri, consistiu
apenas na retirada do meu prévio que foi
substituído pelo C2300, para evitar que os
resultados finais de audição fossem influenciados por demasiadas mudanças. A cablagem continuou a ser aquela que utilizo
normalmente: Kimber Select para as colunas e
interconexão prévio/amplificador de potência,
e Black Rhodium Requiem entre CD e prévio.
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No arranque o C2300 informa gentilmente o
seu possuidor de que as válvulas estão a
aquecer e, passados alguns segundos, é
então possível passar aos ajustes, que vão
desde o desligar da iluminação dos vuímetros ao ajuste do ganho individual de cada
entrada. Como já frisei por várias vezes, o
equilíbrio de ganhos ao longo de um
sistema é um aspecto fundamental no seu
desempenho, e ter a possibilidade de definir
rigorosamente o ganho de cada um dos
andares amplificadores de modo a que ele
funcione dentro da gama de sinais que
maximizam a sua performance. Não é uma
questão de gostarmos ou não do nível a que
ouvimos cada uma das fontes, ou seja, de
umas soarem mais alto que outras, mas sim
de garantir que cada sinal é amplificado de
maneira ideal (nem mais nem menos que o
necessário) em cada um dos pontos do seu
percurso. Portanto, aqui temos um ponto
mais a favor do C2300. É igualmente
possível ajustar o balanço, os níveis de
graves e agudos, mudar os nomes atribuídos
de origem às fontes e quase tudo o mais.
De entre todos os discos que ouvi, e foram
mesmo muitos, começo por destacar a
audição da Sinfonia N.º 5, de Tchaikovsky,
com a Orquestra Filarmónica Checa, dirigida
por Ken-Ichiro Kobayashi, numa gravação da
Exton. Esta é uma gravação de grande
qualidade, com o C2300 a extrair dela tudo
aquilo que a realça ainda mais, se possível:
a imagem espacial era ampla e luminosa,
com cada intérprete a assumir o destaque
que lhe era devido, mas não mais que isso;
os timbres das cordas bonitos de espantar,
os graves precisos, exactos e de uma
definição assombrosa. É raro ter na minha
frente um pré-amplificador a válvulas que
consiga combinar de modo tão equilibrado
uma naturalidade sonora de altíssimo nível
com uma extensão tão alargada nos dois
extremos de frequência e uma capacidade
de reprodução de detalhes que nos faz ver
a agulha no meio do palheiro.
Passei então a Bill Evans e Jim Hall, em
Undercurrent. Novamente temos aqui dois
intérpretes notáveis do mundo do jazz que
demonstram uma capacidade de comunhão
tal que chega a emocionar-nos. As duas
faixas de entrada têm duas aproximações
diferentes do tão conhecido My Funny
Valentine, e foi novamente com grande
prazer que ouvi as duas integralmente
imerso na virtuosidade destes dois intérpretes únicos que comungam um com o
outro de um modo em que cada um sabe
antecipadamente o que vai na mente do
outro. O piano de jazz adquire uma presença
quase irreal, a guitarra acompanha-o de
modo quase imperceptível, quase pé ante
pé, dizendo aquilo que tem a dizer apenas
quando tal é necessário para definir o
momento musical. E foram realmente
momentos musicais únicos.
Já em conjunto com o MC452, foi fácil
aperceber-me de que, seja em rock seja em
obras sinfónicas, o C2300 é bem capaz de
colocar em campo capacidades energéticas
que fazem com que as percussões nos sejam
apresentadas com uma energia fulgurante,
sendo, no entanto, sempre possível detectar
as mais pequenas diferenças de timbre
resultantes das diferentes posições de batida
das baquetas sobre a pele esticada do
tambor. Num conjunto de vários instrumentos nem sempre é possível detectar
as pequenas nuances tímbricas e interpretativas que nos permitem seguir cada
momento da interpretação, porque uma boa
parte dos componentes de um sistema as
mascara e mistura, daí resultando muitas
vezes uma homogeneização que soa muito
agradável mas não deixa apreciar de modo
completo toda a grandiosidade de uma boa
interpretação. Com o C2300 isso não se
passa, pois apresenta na nossa frente não só
o conjunto de todos os sons como as
pequenas transições e recortes individuais.
Chegado a este ponto de «entendimento»
entre mim e o C2300, achei que seria interessante testar a entrada phono MC,
utilizando para tal o Basis Gold Debut
equipado com a van den Hul Colibri. E deixo
desde já aqui expresso que este andar
phono não fica mesmo a dever nada ao
circuito de linha, uma vez que, depois de
ajustada a resistência para 500 Ohm e de ter
aumentado o ganho em dois pontos, fiquei
com um som que está ao nível da maioria
dos andares phono independentes que já
ouvi na zona de preços até 2000 euros. O
ruído de fundo é quase inexistente e o andar
de entrada a transístores tem um carácter
sónico que combina na perfeição com o das
válvulas, resultando daqui uma dinâmica
muito convincente, uma expressão musical
envolvente e uma apresentação global que
pontua por uma grande neutralidade e uma
imagem espacial ampla mas sempre muito
bem definida. As vozes soam mesmo
particularmente bem através desta entrada
de gira-discos, pelo que quem comprar o
C2300 fará sempre bem em utilizá-lo com
discos analógicos. Afinal de contas, depois
de investir praticamente oito mil euros, não
será sensato não aproveitar todas as facetas
deste excelente investimento.
Conclusão
Misturar tecnologias de microprocessadores
com válvulas é uma arte que nem todos
dominam. No entanto, este C2300,
combinado com o amplificador MC452,
prova que a McIntosh consegue o melhor
dos dois mundos, lançando no mercado
equipamentos com o look nostálgico de
tempos antigos mas com um desempenho
que pede meças a muitos outros
componentes existentes no mercado, independentemente da tecnologia neles
utilizada. A qualidade de construção é irrepreensível, o som de altíssima qualidade, os
vuímetros azuis estão permanentemente a
piscar-nos o olho de modo cúmplice, que
mais se pode querer?
Preço: 7980 e
Distribuidor: Ajasom
Telefone: 21 474 87 09
Web: www.ajasom.net
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